Rede de Significações

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Uma perspectiva terico-metodolgica para anlise do desenvolvimento humano e do

processo de investigao

Maria Clotilde Rossetti-Ferreira1 2 3 Katia S. Amorim

Ana Paula S. Silva Universidade de So Paulo, Ribeiro Preto

Resumo apresentada uma perspectiva terico-metodolgica, que prope uma rede de significaes, de configurao semitica, para compreender o desenvolvimento humano. Esta rede estrutura um "meio" que, a cada momento e situao, captura e recorta o fluxo de comportamentos das pessoas, tornando-os significativos naquele contexto. Constitui, assim, um importante mediador de seu desenvolvimento na situao interativa. Pessoas e redes de significaes sofrem mtuas e contnuas transformaes, canalizadas por caractersticas fsicas e sociais do contexto, numa dinmica segmentao e combinao de fragmentos de formaes discursivas e ideolgicas, experincias passadas, percepes presentes e expectativas futuras. Com essa perspectiva, busca-se apreender processos de co-construo e mtuas transformaes dos sujeitos em determinadas situaes, abarcando interaes, contextos, papis atribudos e assumidos pelos participantes e significados culturais que canalizam o desenvolvimento das pessoas e situaes. Inicialmente elaborada para o estudo da insero de bebs em creche, essa perspectiva proposta para anlise de situaes variadas. Palavras-chave: Desenvolvimento humano; rede de significaes; interaes sociais; creche.

A theorectical-methodological perspective for the analysis of humam development and the research process

Abstract We present a theoretical-methodological approach which proposies a semiotic network of meanings to analyse human development. This network structures the milieu/moyen which, at each moment and situation, captures and frames each person's behavioral flow, rendering it meaningful in that context. Thus, it acts as a mediator of development in the interactive situation. Persons and network of meanings are mutually and continuously transformed. Those changes are canalised by the context's physical and social characteristics in a dynamic segmentation and combination of fragments of discursive and ideological formations, past and present experiences, and future expectations. With that perspective, we tried to apprehend the co-construction and mutual transformations of individuals in specific situations, encompassing interactions, contexts, roles attributed or assumed by the participants, and cultural meanings which guide the development of persons and situations. Although it was initially designed to study the adaptation of babies to day-care, this approach is proposed for the analysis of various situations. Keywords: Network of meanings; human development; social interactions; day care centre.

"UBUNTU UNGAMNTU NGANYE ABANTU"

"Pessoas so pessoas atravs de outras pessoas" (Ditado Xhosa - lngua materna de Nelson Mandela)

A epgrafe acima insinua e resume nossa concepo sobre desenvolvimento humano. Todavia, antes de apresent-la, julgamos interessante descrever um pouco da histria e das condies de produo de nossas idias. Nos ltimos 20 anos, os trabalhos de pesquisa do Centro de Investigaes sobre Desenvolvimento Humano e Educao Infantil (CINDEDI) tm tido por objetos centrais de estudo os processos de desenvolvimento humano e a educao de crianas pequenas em espaos coletivos.

Em nossos estudos, as instituies de educao infantil tm representado um locus privilegiado de investigao. Analisar os modos como determinada cultura entende a educao de seus membros e estrutura as prticas sociais cotidianas de uma pr-escola ou creche, em tempo integral, particularmente focalizando as interaes que se do dentro dela, tm sido uma promissora maneira de investigar diferentes aspectos ligados ao desenvolvimento humano.

Os projetos do CINDEDI tm se pautado pelo compromisso de integrar, dinamicamente, teoria, pesquisa e trabalho junto comunidade. A integrao, tanto de atividades, como de pessoal, tem sido enriquecida pela diversificada formao dos membros do grupo. Este constitudo por docentes, tcnicos e estudantes de graduao, ps-graduao e ps-doutoramento, em uma equipe que, ao longo desses anos, cresceu muito, reunindo atualmente psiclogos, pedagogos, mdico, bilogo, auxiliar de enfermagem e nutricionista, dentre outros.

O desenvolvimento de projetos de pesquisa e a atuao prtica, marcados pela caracterstica interdisciplinar da equipe, propiciaram um avano na discusso terica do grupo a respeito dos complexos processos de desenvolvimento humano. Este avano resultou na elaborao de uma perspectiva terico - metodolgica para a anlise do desenvolvimento humano, que vem sendo construda atravs do Projeto Temtico Anlise do desenvolvimento humano enquanto uma construo atravs de uma rede dinmica de significaes (1998).

O artigo a seguir tem por objetivo apresentar essa perspectiva, que ainda se encontra em construo. Inicialmente, ela foi elaborada para o estudo de situaes relacionadas integrao do beb, de sua famlia e da educadora, por ocasio do ingresso das crianas na creche. Entretanto, desde o incio, sugerimos a possibilidade de seu uso na anlise de outras situaes que envolvessem perodos de crises e de intensas mudanas (Rossetti-Ferreira, Amorim & Vitria, 1995). Recentemente, este uso vem se concretizando na anlise de outros eventos de desenvolvimento, como na investigao sobre os processos ligados insero de crianas portadoras de paralisia cerebral na creche ou pr-escola.

Alguns Conceitos Bsicos da Perspectiva Terico-Metodolgica

Nossa proposta est fundamentada em um conjunto de pressupostos tericos, em especial em autores scio-histricos, como Vygotsky (1991, 1993) e Wallon (textos publicados em 1949 e 1959, reunidos em uma coletnea prefaciada por Werebe & Nadel-Brulfert (1986) os quais apresentaremos a seguir. A partir desses pressupostos, pode-se dizer que o desenvolvimento humano um processo que se d do nascimento morte, dentro de ambientes culturalmente organizados e socialmente regulados, atravs de interaes estabelecidas com parceiros, nas quais cada pessoa (adulto ou criana) desempenha um papel ativo.

As relaes sociais que se criam so continuamente co-construdas a partir de inter-aes, isto , de aes partilhadas e interdependentes que so estabelecidas entre as pessoas. Essas aes so articuladas atravs da coordenao de papis, que envolve aes culturalmente recortadas, as quais constituem papis relacionados a contra papis, que podem ser assumidos, negados e/ou recriados pelos participantes (Oliveira, 1988, 1995, Oliveira & Rossetti-Ferreira, 1993). Estes papis/contra-papis so apropriados por cada pessoa, ao longo de seu desenvolvimento, a partir dos vrios recursos sgnicos disponveis nos ambientes sociais, e so integrados criativamente s aes da pessoa, transformando-as e s funes psicolgicas que lhes do suporte.

No processo interativo, portanto, o conjunto das aes possveis de serem realizadas e o fluxo dos comportamentos so delimitados, estruturados, recortados e interpretados pela ao do outro e, tambm, por um conjunto de elementos orgnicos, fsicos, interacionais, sociais, econmicos e ideolgicos. Todos eles interagem dinmica e dialeticamente, compondo uma rede, a qual contempla condies macro e micro-individuais e estrutura um universo semitico, constituindo o que vimos denominando de Rede de Significaes. Esta possibilita no s os processos de construo de sentido em uma dada situao interativa, como os processos de desenvolvimento.

Em uma interao, entretanto, dado o confronto de aes, emoes, motivaes e significaes dos diferentes participantes, o desenvolvimento se faz atravs de conflitos e crises, onde a contradio revela-se como parte integrante e fundamental no processo de constituio das pessoas e das situaes. Assim, simultaneamente, pessoas e rede de significaes so contnua e mutuamente transformadas e reestruturadas, canalizadas pelas caractersticas fsicas, sociais e temporais do contexto no qual as interaes ocorrem.

Estas caractersticas temporais vm sendo definidas, por ns, a partir de quatro tempos interligados. Os trs primeiros, os tempos presente, vivido e histrico, baseiam-se na proposio de Spink (1996b) e o quarto, tempo de orientao futura, foi mais recentemente incorporado por ns.

T1. O tempo presente, ou microgentico, envolve as situaes do aqui agora, onde ocorrem as interaes faceaface. Constitui o nvel dialgico das prticas discursivas intersubjetivas. Nestas, o fluxo de comportamento de cada pessoa recortado e interpretado pelas aes verbais e no-verbais dos outros, atravs das posies, perspectivas e papis/contra-papis mutuamente atribudos a/assumidos por, nas interaes sociais estabelecidas. Nesse tempo, as vrias vozes ativadas pelos outros trs tempos tornam-se presentes e combinadas.

T2. O tempo vivido, ou ontogentico, refere-se a vozes evocadas em nossas prticas discursivas. Elas so socialmente construdas, durante os processos primrio e secundrio de socializao, sendo compartilhadas pelos parentes, amigos e colegas que passaram por experincias e contextos similares. Este o territrio do habitus (Bourdieu, 1989), isto , das disposies adquiridas resultantes da afiliao a grupos sociais especficos e a linguagens sociais mltiplas.

T3. O tempo histrico, ou cultural, o locus do imaginrio cultural, socialmente construdo durante certo perodo. a escala de tempo das formaes discursivas e ideolgicas. Elas compem o interdiscurso ou a rede coletiva de significaes disponveis para dar sentido aos vrios fenmenos de nosso mundo.

T4. O tempo prospectivo, ou orientado para o futuro baseado nos outros trs tempos. Atravs dele, expectativas individuais e coletivas, proposies e metas so criadas. , tambm, estruturado por formaes discursivas e ideolgicas, assim como por motivaes e desejos individuais ou compartilhados, antecipaes e planos, os quais delimitam, de vrios modos, as ae