Redes como perspectiva de análise e como estrutura de ...· A origem dos estudos de redes sociais

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rap rio de Janeiro 43(5):1007-1035, Set./out. 2009

issn0034-7612

Redes como perspectiva de anlise e como estrutura de governana: uma anlise das diferentes contribuies*

Fernando dias Lopes**Mariana Baldi***

Sumrio: 1. Introduo; 2. Redes sociais como perspectiva de anlise; 3. Redes como estrutura de governana: forma hbrida, nova forma e seus diferentes tipos; 4. Pers-pectivas tericas sobre a formao de redes e alianas; 5. Consideraes finais.

Summary: 1. Introduction: 2. Social networks as an analysis perspective; 3. Networks as a governance structure: hybrid form, new form and their different types ; 4. Theo-retical perspectives of the formations of networks and alliances; 5. Final remarks.

PalavraS-chave: redes sociais; redes; alianas; governana.

Key wordS: social networks; networks; alliances; governance.

Este artigo discute as abordagens de redes nas suas diferentes dimenses, mos-trando como elas vm sendo desenvolvidas, suas distines e inter-relaes. As redes como estrutura de governana e como perspectiva de anlise no devem ser excludentes, mas sim dimenses que precisam ser utilizadas de forma integrada. Sero abordadas ainda suas contribuies para anlise de fenmenos sociais, suas diferentes formas, limitaes e perspectivas tericas utilizadas para explicar sua formao.

* Artigo recebido em fev. e aceito em jul. 2009.** Doutor em administrao. Professor adjunto III da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Endereo: Av. Tlio de Rose, 400, ap. 1204 Bairro Jardim Europa CEP 91340-110, Porto Alegre, RS, Brasil. E-mail: fdlopes@ea.ufrgs.br.*** Doutora em administrao. Professora adjunta II do Programa de Ps-Graduao em Admi-nistrao da Escola de Administrao da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Endereo: Av. Tlio de Rose, 400, ap. 1204 Bairro Jardim Europa CEP 91340-110, Porto Alegre, RS, Brasil. E-mail: mbaldi@ea.ufrgs.br.

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Networks as an analysis perspective and as a governance structure: an analysis of different contributionsThis article reviews network approaches in their different dimensions, how these approaches have been developed and, their distinctions and inter-relations. Network as a governance structure and as an analysis perspective should not have taken as excluding, but as dimensions that need to be grasped in an integrated framework. This article emphasizes their contributions for the analyses of social phenomena, their different forms, limitations, as well as the theoretical perspectives that explain their formation.

1. Introduo

As redes, ou networks, vm sendo empregadas tanto numa perspectiva anal-tica quanto prescritiva de como dinamizar organizaes pblicas e privadas, com ou sem fins lucrativos, no enfrentamento da chamada complexidade do ambiente. A popularizao do termo contrastante com a falta de rigor con-ceitual e metodolgico com que ele empregado, produzindo uma superficia-lidade na anlise organizacional e at na qualidade das prescries de carter gerencialista. De forma geral se desconhece a especificidade de redes como perspectiva de anlise e como estrutura de governana. Alm disso, ainda que os estudos que utilizam o conceito de redes se pautem em perspectivas teri-cas especficas, isso normalmente no se faz de forma explcita ou consciente pelos autores brasileiros.

Neste artigo destaca-se o debate sobre redes, com nfase sua aplica-o como perspectiva de anlise, e, evidencia-se seu papel como estrutura de governana, colocando-se em pauta no debate as posies de Williamson (1985), que aponta as redes como uma forma hbrida; Powell (1990, 1994), que aponta as redes como uma nova forma; alm da posio dos prprios au-tores, que apontam as redes como uma nova forma constituda empiricamente ou simplesmente uma forma combinada de mercado e hierarquia.

Diferenciar rede como perspectiva de anlise de rede como estrutura de governana importante porque quando se trabalha apenas como uma estrutura de governana no possvel inferir ou apontar que as redes possam produzir desenvolvimento ou mesmo melhor desempenho econmico por si s. Como estrutura de governana a rede equipara-se a outras opes estrutu-rais como a deciso por verticalizar ou terceirizar as atividades de uma orga-nizao. Ainda que a literatura e casos empricos possam indicar que por meio de uma estrutura em redes possvel racionalizar recursos, aumentar o valor dos recursos existentes, reduzir custos de transao, aumentar a velocidade

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de entrada em um determinado mercado, preciso compreender quem so os atores envolvidos, de que recursos esses atores dispem, que posies eles ocupam e quais objetivos eles esto buscando alcanar. Em outras palavras, para compreender os efeitos que a adoo de uma estrutura em redes pode produzir, necessrio empregar uma perspectiva de anlise de redes, que pode focar apenas na sua funcionalidade como tambm nos seus efeitos pol-ticos e na capacidade diferencial dos atores da rede (como estrutura de gover-nana) se beneficiarem, ou no, dela. Assim, quem o faz adota uma ideologia, podendo dar destaque aos ganhos de eficincia, melhoria na posio estrat-gica das organizaes envolvidas, compreenso de como se deu a formao dessa estrutura, ao impacto sobre o desenvolvimento local, s transformaes no espao em que ela opera, s acumulaes de poder ou perdas de poder por determinados atores no espao de abrangncia dessa rede e mesmo sobre as pessoas que sero direta ou indiretamente afetadas por tal rede.

O destaque para o uso de rede como perspectiva de anlise, por sua vez, permite alcanar uma melhor compreenso do processo de formao de uma rede, seu desenvolvimento e os resultados que poder produzir. Alm disso, pode indicar as limitaes, em termos de resultados, que uma rede poder produzir para determinados atores em funo da posio que eles ocupam na rede, pela arquitetura da rede ou pela natureza do contedo trocado na mesma. Alm da compreenso de relaes entre organizaes que resultam em uma rede como estrutura de governana, a teoria de redes permite com-preender relaes entre atores coletivos e individuais em um espao amplo de atuao, mapeando seus movimentos, suas aes, o poder que cada ator exerce e os efeitos que produzem sobre os demais e sobre o territrio onde acontecem as relaes em rede. Cabe lembrar que nessa perspectiva o ambien-te formado por um conjunto de relaes que se constituem em uma rede de trocas, o que no significa ausncia de conflitos ou de disputas de poder. Uma rede no algo dado, mas em constante construo, o que permite aos atores construrem redes alternativas que possibilitem maior autonomia.

Como dito anteriormente, a compreenso de redes como estrutura de governana pode se dar adotando-se a teoria de redes sociais, que permite um entendimento mais contextualizado do fenmeno, e tambm como tal fen-meno pode ser compreendido a partir de perspectivas pautadas em diferentes referenciais terico-metodolgicos, que podem ir de discursos cientficos po-sitivistas a dialticos.

Embora as redes venham sendo apresentadas como resposta para uma panaceia de problemas, a estrutura de governana pode ser empregada uni-camente para justificar mudanas estruturais para alterar a distribuio do

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poder em contextos especficos, podendo estar em descompasso com metas e objetivos de desempenho. Essa tendncia tem sido dominante, passando-se a assumir como natural e imprescindvel que toda e qualquer organizao rea-lize parcerias, sem se colocar em questo a natureza das organizaes que se apresentam para tais parcerias. As correntes dominantes sobre a formao de redes, como a economia dos custos de transao viso baseada em recursos e teoria da contingncia , negligenciam a dimenso poder e as relaes so-ciais, o que pode ser compreendido pelo carter conservador do campo e, ao mesmo tempo, pelo baixo nvel de sofisticao terica desses estudos, proble-ma j apontado por Ramos (1989) em relao teoria organizacional.

2. Redes sociais como perspectiva de anlise

A origem dos estudos de redes sociais apontada diferentemente pelos au-tores, refletindo tambm a diversidade de estudos nessa perspectiva. Tichy, Tuschman e Fombrum (1979) traaram a origem, os conceitos-chave e os m-todos da abordagem de redes sociais e defenderam sua utilizao na rea organizacional. Destacaram que esta permite a ligao de abordagens micro e macro para a compreenso das organizaes em diferentes nveis de anlise, individual, organizacional ou interorganizacional. Para os autores, desde a abordagem sistmica, os pesquisadores organizacionais focam nas interaes, mas apesar de algumas abordagens serem orientadas para o processo, os m-todos utilizados so estticos, com exceo dos estudos de caso. J a utilizao da anlise de redes permite a compreenso dos aspectos estticos e dinmicos das organizaes ao longo do tempo.

Tichy, Tuschman e Fombrum (1979) consideram que as origens con-ceituais da abordagem de redes esto atreladas a trs escolas de pensamento. Na sociologia, Park, Cooley e Simmel enfatizaram os padres de interao e comunicao como aspectos-chave para compreender a vida social. A popu-laridade do funcionalismo levou consolidao dessa viso. Na antropologia, Lvi Strauss, Malinowisk e Frazer destacaram o papel dos contedos das inte-raes, das condies sob as quais elas ocorrem e a evoluo dessas relaes ao longo do tempo. E, por fim, tem sua origem atrelada teoria dos papis, de Katz e Kahn.

Kilduff e Tsai (2003) tambm consideram que a abordagem de redes nas cincias sociais tem mltiplas origens, contribuindo para a diversidade que a caracteri