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FACULDADE DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE DO PORTO ESTUDO DE REQUISITOS ORGANIZACIONAIS E TÉCNICOS DE REDES DE ARQUIVOS USANDO UMA ABORDAGEM DE REDES DE ACTORES SOCIAIS -Aplicação ao Sector do Vinho do Porto- Francisco Vicente Teixeira Barbedo Licenciado em História –variante Arte e Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto Dissertação submetida para satisfação parcial dos requisitos do grau de mestre em Gestão de Informação Tese realizada sob a supervisão do Professor António Lucas Soares, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto Porto, Janeiro de 2003

Redes de Arquivos /Redes Sociais

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A minha tese final do Mestrado de Gestão de Informação. Redes de Arquivos aplicadas ao sector do Vinho do Porto através da metodologia de Redes de Actores Sociais e UML.

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FACULDADE DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE DO PORTO

ESTUDO DE REQUISITOS ORGANIZACIONAIS E TCNICOS DE REDES DE ARQUIVOS USANDO UMA ABORDAGEM DE REDES DE ACTORES SOCIAIS -Aplicao ao Sector do Vinho do Porto-

Francisco Vicente Teixeira Barbedo Licenciado em Histria variante Arte e Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Dissertao submetida para satisfao parcial dos requisitos do grau de mestre em Gesto de Informao

Tese realizada sob a superviso do Professor Antnio Lucas Soares, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

Porto, Janeiro de 2003

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RESUMO

O presente trabalho prope como objectivos testar a aplicabilidade de uma abordagem baseada em redes de actores sociais anlise organizacional considerada sob a perspectiva de desenvolvimento ou melhoria de sistemas de informao e sistemas de arquivo. As redes de actores sociais so intensamente utilizadas como metodologia de explorao de disciplinas sociais como sociologia, antropologia ou psicologia social. O seu emprego em planeamento de sistemas de informao e utilizao expedita em anlise organizacional no tem porm sido muito popularizado. Esta realidade parece no entanto estar a modificar-se. Para a concretizao deste propsito assume-se como base de aplicao e explorao da abordagem como universo de estudo o sistema de informao e o sistema de arquivo, considerados como duas entidades conexas, com objectivos diferenciados so bre um objecto comum a informao, em que se explora alguns aspectos de anlise organizacional nomeadamente a SSM, Redes de Actores Sociais e modelao de processos inter-organizacionais Um segundo propsito consiste na identificao dos requisitos tcnicos e organizacionais necessrios para constituir uma rede interorganizacional que suporte processos, gesto de informao e de documentos de arquivo. Esta rede de arquivos, que tambm se poderia designar por rede de documentos ou rede de informao fixada, tem com propsito a realizao de actividades e processos entre organizaes de forma a aumentar a sua eficincia, eficcia e efectividade mantendo simultaneamente as capacidades de evidenciais inerentes a toda a transaco organizacional.

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ABSTRACT The present work holds the following goals: To test the accuracy and aplicability of an approach based on social actors networks considered under the perspective of information and recordkeeping systems development and/or improvement. Social Network Analysis has been intensively applied in scientific areas such as sociology, anthropology or social psicology. Its use on the field of information systems planning and operative organizational assessement, however, has not been fully adopted. This trend seems to be changing lately. In order to achieve the stated purpose it is considered as the basis to an approach development, the universe of information and recordkeeping systems, regarded as two connected entities pursuing different ends and sharing a common object information in which some aspects of organizational assessement like SSM, SAN and modeling are applied. On a second view this thesis aims to achieve the identification and understanding of organizational and technical requirements that may be needed in order to build networks between organizations able to support information and archival processes comprehended in interorganizational processes. This kind of network, that could as well be called a record or fixed information network, aims to improve the outcoming of activities and processes between organizations on a way that increases efficiency and at the same time, preserves the evidential needs that every organizational activity and transactions must take account on.

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AGRADECIMENTOS A elaborao de qualquer trabalho de investigao implica sempre a colaborao e ajuda directa ou indirecta de um conjunto muitssimo alargado de actores. No presente caso ser quase apropriado falar de uma rede pessoal de suporte compreendendo coeso, conectividade, densidade e centralidade suficientes e combinadas nas doses exactas e quase ideais (porque o ideal infinito e logo inatingvel). Assim sendo a sua individualizao torna-se irrelevante dado que o contributo de cada actor (mesmo que ele disso no tivesse conscincia) por menor que tenha sido foi sem dvida decisivo. Mas porque a centralidade um facto, alguns pontos na rede existem cujo respectivo ndice deve ser marginalmente valorado. Gostaria assim de agradecer ao actor IVP pela disponibilidade manifestada (Ana, Srgio) ao actor ADP pela experincia transmitida, ao ALS (Sim, sim, o Antnio Lucas Soares...) por trazer a ordem desordem e Maria Joo Pires de Lima (actor MJPL!) pela sempre mais que benevolente e esclarecida centralidade. E, claro, minha rede egocntrica de actores sociais...

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SUMRIO CAP. 1 INTRODUO_____________________________________________________________13_________________18

CAP 2. REDES SOCIAIS e REDES de ACTORES SOCIAIS

2.1 Definio e contexto de emergncia _______________________________________________18 2.2 Caracterizao terica ______________________________________________________________21 2.2.1 Redes Sociais v. Redes de Actores Sociais_______________________________________23 2.2.2 Perspectivas de Anlise em RAS _________________________________________________26 2.3 Questes metodolgicas ___________________________________________________________34 2.3.1 Reduzida investigao terica ____________________________________________________34 2.3.2 Problemas de amostragem de rede e generalizao ___________________________34 2.3.3 Excessiva incidncia na anlise de dados e reduzida ateno recolha de dados _____________________________________________________________________________________37 2.3.4 Desfasamento entre forma e contedo da rede _________________________________37 2.4 Anlise de redes sociais_____________________________________________________________38 2.4.1 A recolha de dados ________________________________________________________________38 2.4.1.1 Prncpios e mtodos de recolha de dados_____________________________________39

2.4.1.1.1 Princpios de recolha de dados _____________________________________42 2.4.1.1.2 Mtodos de recolha de dados _______________________________________432.4.2 Mtodos de Anlise de Redes Sociais ____________________________________________47 2.4.2.1 Nveis de anlise ________________________________________________________________47 2.4.2.2 Ferramentas de anlise _________________________________________________________47 2.4.2.3. Parmetros de Avaliao_______________________________________________________52 2.4.2.4 Medidas especficas de anlise _________________________________________________60 2.5 Anlise organizacional e Redes de Actores Sociais________________________________74

CAP. 3 ORGANIZAES e SISTEMAS__________________________________________863.1 Teoria de sistemas __________________________________________________________________86 3.2 Vises da organizao ______________________________________________________________91 3.2.1 Tipologias de organizaes _______________________________________________________95 3.2.1.1 Organizaes clssicas _________________________________________________________96

3.2.1.1.1 Metforas de organizaes __________________________________________97 3.2.1.1.2 Modelos de organizaes ____________________________________________99 3.2.1.1.3 Outras perspectivas da organizao_____________________________1043.2.1.2 Organizaes virtuais__________________________________________________________106 3.3 Anlise organizacional: princpios e mtodos ____________________________________110 3.4 Sistemas de informao____________________________________________________________124 3.5 Sistemas de Arquivo________________________________________________________________132 3.6 Processos___________________________________________________________________________139 3.7 Documentos_________________________________________________________________________143

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CAP 4 ESTUDO de CASO: O SECTOR do VINHO do PORTO____________1584.1 Contexto legal, social e organizacional ___________________________________________159 4.2 Metodologia utilizada ______________________________________________________________169 4.2.1 Mtodos de recolha de dados ____________________________________________________170 4.2.2 Nivel de agregao e envolvimento de actores_________________________________171 4.2.3 Explorao da recolha de dados _________________________________________________172 4.3. Descrio de actores ______________________________________________________________174 4.3.1 Critrios de incluso de actores _________________________________________________174 4.3.2 Descrio de actores _____________________________________________________________175 4.4 Anlise de estrutura social (RAS) _________________________________________________187 4.4.1 Introduo ________________________________________________________________________187 4.4.2 Anlise da rede ___________________________________________________________________193 4.4.2.1 Anlise global __________________________________________________________________193 4.4.2.3 Identificao de subgrupos: nCliques ________________________________________205 4.4.3 Concluses e Propostas __________________________________________________________207 4.5 Processos inter- organizacionais___________________________________________________210 4.5.1 Relao estrutura social/processos/rede ______________________________________235 4.6 Documentos_________________________________________________________________________237 4.7 Arquivos na rede ___________________________________________________________________244 4.7.1 Rede como infra- estrutura de informao______________________________________244 4.7.2 Requisitos tecnolgicos __________________________________________________________248 4.7.3 Identificao de actores _________________________________________________________254 4.7.4 Meta- informao _________________________________________________________________258 4.7.4.1 Modelo SPIRT/RKMS___________________________________________________________258 4.7.4.2 Esquemas para aplicao de valores__________________________________________263 4.7.4.3 Exemplificao de modelo _____________________________________________________268

CAP. 5 CONCLUSES E TRABALHO FUTURO

_______________________________272

5.1 Concluses__________________________________________________________________________272 5.2 Avaliao do trabalho realizado e possibilidades de trabalho futuro.___________274

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ___________________________________________________279

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SUMRIO de FIGURAS e TABELAS Cap. 2 Figura 2.1 - Exemplos de dades e trades Figura 2.2 - Rede tipo borboleta (O actor 4 transconector) Figura 2.3 - Exemplo de ponte Figura 2.4 - Exemplo de grafo Figura 2.5 - Contexto de metodologia RAS Tabela 2.1 Perspectivas de anlise (segundo R. Burt) Tabela 2.2 Analogias de relaes (adaptado de Lemieux. Les Resaux dActeurs Sociaux) Tabela 2.3 - Um exemplo de matriz de adjacncia Tabela 2.4 - Sntese de medidas de anlise RAS Tabela 2.5 (adaptado de TICHY, Ob.Cit, p. 236) Cap. 3 Figura 3.1 - SSM (segundo Galliers) Figura 3.2 - Sistema de Arquivo Figura 3.3 - Diagrama de processo Figura 3.4 - Informao, documentos e documentos de arquivo Figura 3.5 - Encapsulao de MI (VERS) Figura 3.6 - Relacionao de MI Tabela 3.1 Relao tecnologia/estrutura/dimenso Tabela 3.2 Sntese de modelos UML Cap.4 Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura

4.1 - Diagrama de classes do universo analisado 4.2 - Rede de Actores Sociais 4.3 - Grafo de adjacncia 4.4 - Grafo caminhos geodsicos 4.5 - Grafo conectividade/fluxo 46 - Grafo grau de centralidade 4.7 - Grafo grau de centralidade: modo sectores 4.8 Grafo Proximidade 4.9 Grafo Intermediao 4.10 Grafo Cliques 4.11 - Grafo nCliques e actores 4.12 - Diagrama de objectivos 4.13 - Diagrama de objectivos 2 4.14 - Extracto rede actores sociais 4.15 - Diagrama de processo 4.16 Diagrama de actividades 4.17 - Extracto de diagrama RAS 4.18 - Diagrama de processo 4.19 - Diagrama de actividades 4.20 - Actividades: possvel melhoria 4.21 - Extracto de diagrama RAS 4.22 - Diagrama de processo 4.23 Diagrama de actividades9

Figura 4.24 - Extracto de diagrama RAS Figura 4.25 - Diagrama de processo Figura 4.26 Diagrama de actividades Figura 4.27 Diagrama de actividades: possvel melhoria Figura 4.28 - Diagrama de classes de rede Figura 4.29 Diagrama de classes Tabela 4.1 Caracterizao do sector de Vinho do Porto Tabela 4.2 - Quadro sntese de actores participantes na rede Tabela 4.3 - Matriz de graus de entrada e sada Tabela 4.4 - Matriz de distncias geodsicas Tabela 4.5 Matriz caminhos alternativos Tabela 4.6 Influncia RAS, processos e rede

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LISTA DE ABREVIATURAS ADP Arquivo Distrital do Porto AGLS Australian Governement Locator System CAA Circuito Administrativo de Amostras CIRDD - Comisso Interprofissional da Regio Demarcada do Douro DIRKS - Designing and Implementing RecordKeeping Systems EVP Empresa de Vinho do Porto IAN/TT Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo II Instituto de Informtica IVP Instituto do Vinho do Porto IVV Instituto do Vinho e da Vinha MI Meta-Informao MOREQ Modeling Functional Requirements NAA National Archives of Australia OA Organizational Assessement PRO Public Record Office RAS Redes de Actores Sociais RDF Resource Description Framework RIA Rede Interorganizacional de Arquivos RKMS Record Keeping Metadata Scheme SBDR Sistema de Bases de Dados Relacional SA Sistema de Arquivo SI Sistema de Informao SPIRT - Strategic Partnership with Industry - Research and Training UE Unio Europeia UML Uniform Modeling Language VERS Victorian Electronic Records Strategy

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CAP. 1

INTRODUO

Quantas vezes ouvimos falar de redes?

Referimo-nos de forma quase

generalizada e muitas vezes irreflectida a estas entidades: Redes de comunicao, de informao, de circulao, redes de estradas, portagens, etc. Mas certamente que sob uma aparente simplicidade existe uma elaborada teia de planeamento, estudo e execuo que torna esta entidade num objecto particularmente complexo. No entanto no subsistem dvidas de que a rede constitui, hoje em dia, uma estrutura bsica que abrange uma vasta gama de actividades, tcnica e socialmente solidamente imbricadas no que se convencionou chamar de Sociedade de Informao. A prpria conectividade permitida pelas Tecnologias de Informao e Comunicao que torna a distncia fsica irrelevante, um exemplo paradigmtico da inevitabilidade de rede. Outros exemplos abundam: As organizaes virtuais, o comrcio electrnico o conceito de network centric warfare - as redes chegaram guerra!demonstra claramente que o conceito um facto estabelecido e mais que isso, essencial para o desempenho normal da maior parte das facetas da vida quotidiana das pessoas e organizaes. No entanto ser aplicvel, e mesmo que aplicvel ser til, para todos os tipos de actividade econmica, social humana a utilizao de redes? E de entre a considervel panplia de metodologias disponveis para anlise, desenho e implementao de redes haver eventualmente alguma nova ou pelo menos alguma significativa contribuio insuficientemente explorada? A presente tese pretende ensaiar uma tentativa de aplicao de abordagem baseada em redes de actores sociais para efectuar anlise interorganizacional sob o ponto de vista de estruturas e agentes sociais e com o objectivo de definir, desenhar e implementar uma rede de informao de arquivo. A razo da opo por esta rea prende-se por um lado com o teor do curso de mestrado em que a apresentao desta tese se insere gesto de informao e em cujo contexto a escolha de sistemas de informao como foco de aplicao parecia partida evidente! Mas porqu arquivos? Os arquivos, na realidade sistemas de informao com

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peculiaridades prprias, constituem um aspecto habitualmente desprezado por todos os profissionais de informao (e de qualquer outro sector se quisermos ser precisos!) excepo dos prprios arquivistas! Mas na realidade o documento de arquivo e o sistema que o gere so fundamentais para a concretizao de forma legal e socialmente vlida dos objectivos de qualquer organizao, na medida em que garantem a adequao do seu comportamento funcional ao ambiente externo em que esta opera, considerado sob a vertente da salvaguarda de interesses e posies dessa organizao relativamente a outros actores com os quais interactua. Paralelamente o sistema de arquivo no dissocivel lgica e conceptualmente do sistema de informao. Ambos tm como objecto esta entidade embora a abordem com perspectivas e objectivos diferentes. Partindo destes pressupostos pareceu-nos interessante equacionar os requisitos necessrios para colocao de arquivos em rede, ou se quisermos dar a volta ao texto, tornar visveis documentos, considerados no sentido arquivstico do termo, num ambiente de rede ordinariamente absorvido com outras preocupaes operacionais e administrativas que no os arquivos! A metodologia de redes sociais utilizada para investigao substantiva em diversas reas cientficas, como a antropologia, sociologia, psicologia social. Tem tambm sido alvo de aplicao mais pragmtica de carcter eminentemente operacional. Neste ltimo esta metodologia essencialmente utilizada como uma ferramenta para reestruturao de organizaes, embora normalmente dirigida tanto para gesto de recursos humanos, mas tambm para redes de organizaes [122]. Devemos portanto frisar que de toda a bibliografia consultada a maior parte era devotada a definies da organizao e de processos de trabalho. A aplicabilidade a sistemas de informao aparece em alguns autores mas de uma forma muito diluda em enquadramentos de posicionamento organizacional. Um elemento que nos d informao curiosa sobre esta

ausncia de contacto entre as reas de investigao o facto de os autores de cincia organizacional ou de sistemas de informao no citarem autores perfeitamente associados com anlise de redes sociais, sendo o contrrio igualmente verdade. O silncio quase total! Mas no entanto esta parece ser uma rea especialmente promissora para uma abordagem baseada em redes sociais. Com efeito um sistema de informao baseia-se na14

comunicao de informao atravs de uma estrutura ou infraestrutura de informao que assenta simultaneamente nas vertentes social e tecnolgica. Neste contexto e porque a anlise de redes de actores sociais incide a sua anlise sobre uma estrutura social de rede em que so especialmente valorizados os atributos e dinmicas comportamentais das relaes estabelecidas entre actores, esta metodologia sugeria fortes possibilidades de aplicao a cenrios de anlise organizacional para desenvolvimento de sistemas de informao. Na sequncia do exposto e sintetizando os desideratos desta tese diremos que o presente trabalho tem como objectivos: 1/ a aplicabilidade da abordagem de Redes de Actores Sociais na anlise e concepo de uma rede de arquivos, envolvendo naturalmente sistemas de arquivos e sistemas de informao. 2/ a aplicabilidade de mtodos de modelao do negcio da engenharia informtica anlise de processos interorganizacionais na rea de arquivos. 3/Como corolrio deste processo prope-se um modelo conceptual de rede de arquivos que englobe requisitos de natureza tecnolgica apropriados s caractersticas especficas do universo em estudo e requisitos de metainformao aplicada tendo em considerao as vistas de identificao, integridade e autenticidade de documentos produzidos numa perspectiva de realizao de transaces interorganizacionais jurdica e socialmente vlidas. Para a realizao deste trabalho partiu-se dos seguintes pressupostos: A tecnologia interactua com a estrutura social sobre a qual aplicada Os sistemas de arquivo gerem documentos que so um objecto informacional com atributos e comportamentos especficos. Um processo organizacional gere e manipula objectos documentais de arquivo os quais se inserem necessariamente no contexto funcional e operativo do primeiro. O contexto de anlise exclui documentos histricos focando -se apenas nas transaces deco rridas em processos interorganizacionais e nos documentos activos e com utilidade operacional a produzidos. Este trabalho no partiu de hipteses de trabalho particulares ou prconcebidas, procurando-se atravs de uma recolha de dados orientada segundo mtodos escolhidos, avaliar e tentar esclarecer se uma15

metodologia muito especfica e cientificamente complexa RAS- , no todo ou em parte, adequada ou a sua aplicao vantajosa para gesto de informao e sistemas de informao e em que medida contribui para a montagem de uma rede. Procurou-se igualmente definir em que medida e em que reas pode esta metodologia revelar-se de especial interesse. Acrescentamos que a aplicabilidade deste processo foi inevitavelmente condicionada pela rede de teste montada. Mas mesmo no caso em que determinados resultados escaparam lgica de anlise ficamos pelo menos com a informao do potencial resultado se a rede escolhida fosse de outra natureza. Este trabalho foi estruturado nos captulos indicados no sumrio seguindose uma breve sntese do contedo de cada um deles. No captulo dois procura-se dar uma panormica geral e estado da arte sobre redes sociais e redes de actores sociais, diferenciando, se bem que superficialmente (visto que os elementos comuns so em maior nmero que os divergentes) os dois conceitos e respectivos mtodos. Sero apresentadas algumas das principais medidas utilizadas na anlise social baseada em redes e finalmente falar-se- da potencial relao entre a abordagem escolhida e a sua aplicabilidade em contextos organizacionais. No captulo trs aborda-se a questo da organizao. Procura-se explicitar alguns conceitos logo a seguir amplamente utilizados, como o de sistema e ainda de teoria organizacional, organizaes virtuais, organizaes em rede e processos inter-organizacionais. O objectivo de preparar teoricamente o cenrio para a explorao do captulo seguinte no qual que se desenvolve o estudo de caso. Apresenta-se uma breve sntese sobre metodologias utilizadas em anlise organiz acional, procurando referir diversos princpios e mtodos de abordagem. Fala-se ainda de sistemas de informao e sistemas de arquivos apontando algumas abordagens relativamente a estas entidades. Aborda-se finalmente as caractersticas e especificidades d objecto documental e redes de arquivos como o suporte a redes transaccionais de negcio e suporte de processos.16

No captulo quatro apresentado o estudo de caso compartimentado nas trs vistas sistmicas que julgamos pertinente incluir: a representao da rede em que como so uma includos estrutura actores e social e interorganizacional relaes

verificadas entre esses actores e realizadas medidas que se julgaram mais adequadas caracterizao efectiva da estrutura social observadas e das possveis influncias verificveis nas vistas adjacentes; os processos que decorrem como substncia dessas mesmas relaes, ou seja, a camada operativa da rede (aquela onde se passam aces) so igualmente analisados e finalmente os documentos produzidos em cada processo e que iro preencher a rede de arquivos propriamente dita. Ainda nesta parte procede-se aplicao parcial do modelo RKMS/SPIRT de meta-informao incidente sobre classes (entidades) presentes na rede. Partimos do princpio se enquadra em sectores transaccionais de negcio, i.e., que os seus actores transaccionam atravs desta estrutura e que os documentos, na sua condio de bem e subproduto de processos a desenrolados, devem ser geridos em rede. No captulo cinco so apresentadas concluses e possibilidades de trabalho futuro. A ltima parte constituda por quatro anexos onde so

apresentadas respectivamente no anexo A as tabelas e grafos efectuados para a anlise de redes de actores sociais, no anexo B a descrio e modelos dos processos realizada em UML com extenses Eriksson-Penker, diagramas de actividade e de conexo actores/papis, no anexo C a descrio sucinta dos documentos produzidos no mbito dos processos identificados anexo D a explicitao dos diversos SPIRT/RKMS utilizado. e finalmente no do modelo elementos

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CAP 2. REDES SOCIAIS e REDES de ACTORES SOCIAIS

2.1 Definio e contexto de emergncia

A metodologia de anlise de redes sociais e particularmente de redes de actores sociais (daqui em diante denominada de RAS), disseminou-se de forma significativa durante a dcada de 70, associada ao desenvolvimento de informtica que possibilitou a explorao das possibilidades matemticas de anlise. A utilizao desta metodologia exige uma base de aplicao normalizada e exactamente estruturada de forma a sustentar a aplicabilidade de recursos quantitativos. Essa estrutura foi encontrada na matemtica discreta e mais particularmente na tautologia de rede, conceito directamente inspirado na teoria de grafos. Um grafo por definio uma rede sendo a teoria de grafos o estudo do aspecto conectivo dessa rede. Ou seja, a nica ilao a retirar de um grafo estrutural [59]. Os antecedentes da anlise de redes sociais enrazam num conjunto de disciplinas que surgem e se disseminam amplamente a partir da dcada de 40. A sociometria inicialmente aplicada por Moreno, [43] introduziu os conceitos de actores e relaes assim como o emprego de mtodos quantitativos para anlise de estruturas sociais. Os trabalhos de Radcliff-Brown e de Lvi-Strauss na rea de antropologia e que entroncam na corrente estruturalista, constituem igualmente uma base epistemolgica e heurstica para o desenvolvimento do conceito de estrutura social. Sob o ponto de vista metodolgico, o estruturalismo analisa grandes sistemas sociais atravs da observao das relaes e funes dos elementos atmicos constitutivos desse sistema. Pretende portanto identificar as infraestruturas inconscientes, ou seja, no conscientemente percepcionadas, de fenmenos culturais/organizacionais luz de uma aproximao relacional. As relaes que se estabelecem entre agentes so o objecto de estudo e no os actores individualmente

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considerados,

ou

sequer

a

entidade

social

na

sua

totalidade.

Complementarmente adopta-se uma abordagem sistmica da realidade propondo leis gerais explicativas de padres comportamentais subjacentes prpria estrutura social. 1 As redes sociais radicam igualmente na psicologia social, atravs de autores como, por exemplo, Bavelas que em 1948 introduziu a noo de que a ordenao estrutural dos laos que ligam os membros de um grupo orientado para a realizao de tarefas pode ter consequncias significativas na sua produtividade e conscincia laboral. Este autor props, segundo Freeman, [43] ser a centralidade o atributo estrutural dominante para a realizao deste tipo de anlise, tendo especificado parmetro. Estas aces precursoras de investigao baseadas em anlise estrutural, entram num perodo de latncia que se prolonga at dcada de 70. A razo para este facto reside na ausncia de ferramentas de clculo suficientemente poderosas que permitissem a explorao de modelos qualitativamente significativos. Os clculos associados anlise estatstica sociomtrica so substancialmente exigentes de capacidades de computao, poca (dcadas de 40-50) inexistentes. A aplicabilidade deste mtodo de anlise estava, portanto, partida limitada por falta de ferramentas capazes de o potenciar. Sem esses recursos a extenso dos casos observados era reduzida e portanto insusceptvel de deduzir concluses genricas ou produzir teoria formal [49]. A partir da dcada de 70 no entanto, vrias circunstncias se combinaram para produzir o contexto propcio ao recrudescimento da metodologia, a qual se traduziu nomeadamente no aparecimento de diversas revistas especializadas e associaes profissionais.2 Em primeiro lugar o desenvolvimento sistemtico de informtica e indstria de computadores ps disposio dos investigadores poderosas ferramentas que viabilizavam anlise rpida e conclusiva sobre estruturas sociais de grande dimenso bem como a computao de algoritmos complexos [107]3 . formalmente este

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Lvi-Strauss afirmava que para um observador capturar na sua totalidade um minuto da vida de um actor numa sociedade primitiva, necessitaria de toda uma vida de trabalho. (entrevista dada TF1 em 1972) 2 As revistas Connections, Social Networks e a fundao do INSNA (International Network for Social Network Analysis) 3 os algoritmos NEGOPY ou o CONCOR, ambos muito exigentes computacionalmente, datam desta poca

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Em segundo lugar o desenvolvimento da rea de matemtica discreta com particular nfase na teoria de grafos e matemtica algbrica com recurso a matrizes, proporcionou os recursos para construo de modelos estruturais alargados e genricos. A anlise de redes sociais realizada fundamentalmente a partir de duas representaes matemticas: o grafo, ou a representao grfica de actores e relaes existentes entre eles, e a matriz ou representao cannica dessa estrutura grfica. Estes dois processos de representao esto intrinsecamente relacionados coexistindo por norma nos estudos baseados em redes sociais [21], [42],[59]. Diversas perspectivas tericas em reas to variadas como teoria organizacional, teoria cognitiva, teoria de aco, so susceptveis de ser condensadas atravs de anlise baseada em estruturas de rede. Isto explicvel representa pelo de facto forma desta constituir um modelo estruturado visto que simplificada mas significativa, conter

intrinsecamente todos os atributos que caracterizam os actores includos e as relaes que os unem, uma determinada realidade social. Uma rede social pode pois, nessa ptica, ser considerada como um modelo particularmente vocacionado para sobre ela serem testados diversos tipos de anlise de acordo com os mais diversos paradigmas tericos e epistemolgicos. A aplicabilidade de anlise de redes sociais alarga-se a reas variadas das cincias de sociais, como a epidemiologia, ou anlise organizacional e interorganizacional, sociologia, administrao de empresas, implementao infra-estruturas informticas ainda organizao militar nomeadamente na aplicabilidade do paradigma de 4CISR (Command, Control, Communications, Computers & data, Intelligence, Surveillance, Reconnaissance) [35]. Este exemplo tem particular importncia porque constitui um caso exemplar de aplicao de RAS a sistemas de informao, sendo que actualmente, um cenrio de interveno militar - mesmo que sem fins blicos- se articula numa arquitectura de rede (network centric warfare), sendo a informao recolhida, processada e distribuda pelos actores que nela participam de forma interactiva. A metodologia RAS neste contexto tem capital importncia para caracterizar a rede e determinar caminhos ptimos de circulao de informao.

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2.2 Caracterizao terica

Lemieux [82] considera uma rede de actores sociais como um sistema baseando -se para o efeito na definio avanada por Le Moigne para quem um sistema uma entidade que existe em algo (contexto ambiental) para realizar qualquer coisa (objectivo), que concretiza algo (actividade, funo) atravs de algo (estrutura, forma estvel) que se transforma no tempo (evoluo). Esta definio -nos til no presente contexto j que se adequa admiravelmente bem descrio e adaptao a realidades organizacionais e inter-organizacionais. Com efeito, se concretizarmos o modelo proposto podemos substituir cada uma das constantes enunciadas por entidades concretas observadas no terreno. O contexto ambiental ser o sector de negcio especfico com o seu quadro regulamentar, tcnico, jurdico e normativo cujos objectivos so respectivamente a produo, comercializao e preservao de um produto. Esses objectivos so conseguidos atravs de uma rede interorganizacional que mantm entre si processos de negcio documentados (actividade funo) ao longo do tempo. Uma estrutura segundo, por exemplo, Eisenberg a ordenao de elementos de um sistema e do conjunto de relaes que conectam esses mesmos elementos e os mantm unidos. A tradio estruturalista defende que indivduos ocupam posies designadas no sistema e os papis que esto associados a essas mesmas posies restringem o comportamento desses mesmos indivduos (unidades individuais de observao). A palavra sistema aparece neste contexto indiferentemente citada e referindo-se a uma entidade integrada e coerente. Um sistema total representado por todos os componentes e relaes necessrias para a concretizao de um objectivo, atendendo a um conjunto de restries identificadas. O objectivo do sistema define a finalidade para a qual foram ordenados os componentes e relaes (em RAS designadas por actores e conexes) enquanto que as restries constituem as limitaes introduzidas no seu desempenho que definem os seus limites e permitem explicar as condies de funcionamento. Este conceito parece-nos directamente associvel concepo de uma rede como estrutura de oportunidades e constrangimentos [34] que se oferecem aos actores participantes.21

Os sistemas so normalmente representados atravs de modelos. Uma rede, por exemplo, um modelo de um sistema social. Uma organizao por seu turno, um sistema e uma rede de actores sociais modela essa organizao representando o sistema social composto pelos actores e relaes entre eles estabelecidas com objectivos individuais e comuns de viabilizados pela troca/apropriao de recursos a existentes. A anlise baseada em redes sociais baseia-se primariamente no pressuposto de que uma estrutura social no se organiza aleatoriamente mas sim de forma padronizada (BROWN citado por FREEMAN)[42][43]. O comportamento social dos actores, qualquer que seja o nvel de agregao considerado (individual ou colectivo), manifesta-se atravs de padres latentes ou evidentes concretizados atravs de conexes estabelecidas com os restantes actores que compem essa rede. Estabelece-se portanto um modelo de rede para representar a estrutura social que se pretende retratar, de forma a permitir a aplicao de mtodos de matemtica estatstica que permitam a emergncia e caracterizao desses padres sociais comportamentais e relacionais latentes os quais resistem a anlises sociolgicas convencionais. Esta estrutura social na qual o actor se insere constitui, na medida em que uma rede permite a comunicao de recursos e a efectivao de aces4 , uma fonte de oportunidades que se oferece ao actor para este conseguir os interesses prprios por si percepcionados. Mas por outro lado, representa tambm conjuntos de restries na medida em que o alcane de metas ou interesses, quer individuais ou colectivos, podem ser condicionados ou mesmo impedidos pelos interesses prprios dos outros actores existentes na rede. A anlise de redes sociais pretende deste modo identificar estruturas profundas [107] i.e., padres regulares que se inscrevem, ou decorrem debaixo da superfcie complexa dos sistemas sociais atravs de aplicao de matemtica estatstica cujos resultados so directamente interpretados luz da teoria social. Esta metodologia comporta ainda duas assumpes importantes relativamente a comportamento social. [42], [73].4

Neste contexto a aco entendida como (PACHERIE, E., Action Concepts.)

um comportamento revestido de intencionalidade e competncia.

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a/ Todo o actor participa num sistema social que envolve outros actores os quais constituem referenciais fundamentais para as suas decises e aces empreendidas. Este pressuposto exemplificado pelo facto do prprio comportamento social no ser isolado mas colectivo, ou pelo menos conter implicaes colectivas, na medida em que os actos de um indivduo afectam e podem mesmo colidir com os interesses ou comportamentos dos restantes actores. Este facto particularmente claro atravs de observao de mecanismos desenvolvidos para regular a vida em sociedade como os quadros legis lativo, regulamentar e normativo. Da mesma forma o comportamento do indivduo isolado ser influenciado pela percepo dos seus interesses e pelas relaes que estabelece com outros actores. Por outras palavras, a aco de um actor deve ser considerada luz de variveis recolhidas da sua conectividade na estrutura social e da percepo dos seus prprios interesses enquanto indivduo. b/ Existem vrios nveis de estruturas num sistema social, considerando-se como definio de estrutura, neste contexto, as regularidades nos padres relacionais entre entidades concretas, i.e., unidades individuais de observao. Significa isto que a organizao de relaes sociais constitui um conceito nuclear da anlise de redes na medida em que esta se interessa fundamentalmente pelas propriedades estruturais em que os actores sociais se integram e pela deteco dos fenmenos sociais os quais no existem exclusivamente ao nvel do actor individual. Isto significa que a anlise de redes sociais incide antes de mais, sobre o conjunto de relaes mantidas pelos actores e no sobre os seus atributos individuais.

2.2.1 Redes Sociais v. Redes de Actores Sociais

Sintetizando o exposto diremos que a anlise de redes sociais procura localizar e caracterizar propriedades emergentes nascidas da articulao de unidades individuais de observao com as conexes efectuadas ou existentes entre elas.

23

As redes de actores sociais, constituem uma variao ou se quisermos, um ramal daquela metodologia. A diferena de substncia encontra-se na ateno atribuda aos atributos dos actores que constituem os ns da rede [80]. A par da caracterizao das conexes que unem os pontos da rede, considerada e realizada a descrio dos atributos dos prprios actores ou vrtices que circunscrevem uma relao. Sobre este aspecto as redes sociais no prestam especial ateno. Os actores so considerados apenas na medida do seu capital conectivo com os restantes, o qual avaliado, medido e descrito de forma quantitativamente exacta. Considera-se assim no existir vantagem em concluir teoria social a partir dos atributos individuais dos actores. Esta posio constituiu uma ruptura com anteriores escolas epistemolgicas que consideravam estas caractersticas tais como sexo, idade, etc., elementos por si s explicativos de comportamentos sociais. Na anlise RAS (Redes Actores Sociais), embora se mantenha como ponto nuclear as relaes sociais estabelecidas, igualmente atribuda ateno aos atributos especficos de cada actor os quais so analisados associadamente com a caracterizao do seu capital conectivo. H portanto uma anlise matricial (vertical e transversal) dos elementos da rede. Os aspectos diferenciadores entre uma abordagem exclusivamente centrada em redes sociais e outra baseada em redes de actores sociais (RAS) podem assim ser sintetizados nos seguintes pontos: 1/ O interesse das redes sociais reside, como atrs dito, na estrutura social representada na rede. A RAS interessa-se igualmente por essa entidade mas considerando que esta deriva das aces observadas dos actores que participam nessa rede, ou seja, os actores sociais. Estes tm caractersticas prprias, que devem ser consideradas e includas na anlise a empreender. [3]. 2/ Simultaneamente a relao efectuada entre unidades individuais de observao (actores), possui propriedades que no so apenas especficas dos actores participantes, - entre os quais se estabelece a relao -, nem to pouco constituem o simples somatrio dessas mesmas propriedades. So essencialmente atributos emergentes da relacionao dessas unidades individuais de observao. As conexes so pois, baseadas num contexto24

especfico que ao ser alterado modifica ou extingue as propriedades dessa mesma relao. 3/ A RAS compreende procedimentos de reconstituio da estrutura ou seja, da morfologia do sistema de troca e aco, constituindo blocos de actores obtidos atravs de medidas estatsticas de equivalncia, das quais adiante se falar mais detalhadamente, em que se incluem as relaes estabelecidas entre esses bloco s e os atributos individuais dos actores que no se diluem no contexto global da rede. 4/ Os actores so posicionados dentro da estrutura de acordo com o seu capital conectivo e atributos individuais. 5/ So efectuados procedimentos de associao entre posio e

comportamento de actores. Esta estrutura de relaes entre os actores e posies que eles ocupam pode ser considerada como uma varivel independente que contribui para a identificao de influncia exercida sobre os comportamentos sociais. Autores como Lemieux [82], por exemplo reduzem a fronteira entre redes sociais e de actores sociais a problemas de terminologia. Considera este autor a primeira designao demasiado vaga uma vez que pode incluir redes materiais de intercmbio. As redes de transportes, dadas a ttulo de exemplo, constituem conjuntos de pontos representando locais unidos por linhas de comunicao por onde circulam, entre outros, actores sociais. No so portanto exclusivamente redes de actores sociais embora se possam considerar redes sociais. A fronteira entre estas duas abordagens no constitui uma linha divisria concreta. Note-se que os mtodos quantitativos analticos so idnticos e os investigadores utilizam indiferentemente as duas designaes bem como processos de investigao similares. Poderemos portanto considerar a RAS como uma evoluo ou aperfeioamento de anlise de redes sociais, no existindo qualquer ruptura metodolgica ou epistemolgica entre as duas aproximaes. Na realidade os pontos de vista de anlise de atributos individuais de actores e as propriedades das relaes que os unem so,25

embora de naturezas diferentes, complementares e ambos coexistem articuladamente [73].

2.2.2 Perspectivas de Anlise em RAS

A investigao com base em anlise RAS constitui um meio de identificar a estrutura de comunicao de recursos atravs do emprego de dados individuais e relacionais sobre unidades de anlise. Neste contexto podemos apontar duas perspectivas de macroanlise utilizadas: 1/ A perspectiva relacional em que a unidade atmica de anlise o actor sendo a sua relao com os outros actores entendida sob perspectivas interpretativas obtidas atravs de vrias aproximaes analticas como fora, coeso, proximidade. So neste caso analisadas as relaes entre actores atravs de constituio de dades (conjuntos de dois actores) e trades (conjuntos de trs actores), consideradas como sub-estruturas atmicas da rede, sem incluir nessa anlise as relaes com outros actores que escapem a esses conjuntos simples de unidades. Essas relaes sero analisadas dentro dos conjuntos de dades e trades em que o mesmo actor participe [121]. Por exemplo, um actor A analisado no contexto da relao mantida com o actor B. No entanto o actor mantm igualmente relaes com os actores C, F e Z residentes na rede. Existem portanto 4 dades que iro ser sucessivamente analisadas: {A B}; {A C}; {A F}; {A Z}, sem no entanto serem integradas essas anlises, ou seja, a comparao da dade 1 com a 2, etc. Esta representao extensiva a trades sendo que estas so compostas de trs actores e das respectivas conexes. {A B}; {A C}; {B C}5 [26], [80]. Os conceitos de diferenciao utilizados nesta aproximao baseiam-se essencialmente em aspectos scio-psicolgicos. 2/ A perspectiva estrutural ou posicional em que o objecto de pesquisa consiste na identificao de padres idnticos ou similares de relacionamento com os restantes actores da rede e que, dessa forma,

5

Note-se que as direces das conexes entre trades no obedecem obrigatoriamente apenas ao esquema apresentado.

26

permitemA B A Bdade: conexo direccionada

a de um

identificao actor ou

A

B

topolgica

dade: conexo adjacente

dade: conexo direccionada simtrica

conjunto de actores que ocupem posies semelhantes dentro da estrutura social observada.

B 1 A Ctrade adjacente

B 2 3trade transitiva

A

C

Por outras palavras, identificamse actores individualizados ou grupos de actores que mantm

Figura 2.1 - Exemplos de dades e trades

posies equivalentes com os restantes actores que integram a rede, inferindo padres comportamentais e relacionais de uns relativamente a outros. A anlise padronizada de conjuntos de relaes permite determinar posies relativas de conjuntos de actores (singulares ou colectivos) ocupadas na estrutura destes social mesmos observada. conceitos Nesta baseia-se perspectiva em o desenvolvimento aspectos

antropolgicos e sociolgicos. Sintetizando o exposto pode-se afirmar que a RAS pretende identificar numa rede de actores sociais, padres de relacionamento entre conjuntos de dois ou trs actores (dades e trades) e, complementarmente, isolar conjuntos singulares ou colectivos com posies equivalentes, relativamente a todos os restantes membros da rede. Estas definies so mais claramente visveis atravs da tabela 1. Numa leitura vertical -nos dado o nvel de agregao dos actores como unidades de anlise, sendo identificados 3 nveis: actor, subgrupos, subestruturas. Numa leitura horizontal temos as definies para cada nvel de agregao de acordo com as duas perspectivas de anlise descritas: relacional e posicional.Tabela 2.1 Perspectivas de anlise (segundo R. Burt)

Perspectivas de anlise Relacional

Nvel de agregao de actores na unidade de anlise Actor Vrios actores unidos Mltiplos subgrupos num subgrupo como sistema estruturado Rede pessoal Grupo primrio como uma Sistema estruturado extensiva, densa clique de rede: Conjunto de denso ou transitivo e/ou multiplexa actores unidos por relaes coesas

27

Posicional

Ocupante de uma posio central e/ou prestigiada na rede

Conjunto posio/papel considerado como posio na rede; um conjunto de actores estruturalmente equivalentes

Sistema estruturado como estratificao de conjuntos de posies/papis

Segundo Burt [26] a tabela acima representada apresenta duas dimenses complementares: As clulas da primeira fila correspondero anlise de redes egocntricas (egonet) e anlise tradica, ou seja, anlise de transitividade e densidade da rede e consequentemente das relaes em que os actores se encontram envolvidos (abordagem relacional). Uma segunda dimenso ou classe, representada pela segunda fila consiste em actor, subgrupo e modelos de sistemas de topologias sociais. Esta classe serve para destacar e descrever a estrutura social em termos de diferenciao entre actores e subgrupos (abordagem posicional). Considera-se a combinao destes dois tipos de anlise como complementares j que os resultados pretendidos se enquadram em objectivos diferentes. Blau, citado por Rogers [107] afirma que a perspectiva relacional ser mais til para estudar sistemas recmformados6 enquanto que a aproximao posicional poder ser mais eficaz para estudar sistemas j estabelecidos e consolidados h mais tempo. Na realidade no h estudos em nmero suficiente que ponham em comparao as duas abordagens e que permitam aferir com propriedade da maior ou menor adequao ou apetncia de um ou de outro relativamente sua aplicabilidade a RAS. Um outro aspecto que no entanto necessrio esclarecer refere-se natureza essencial dos actores da rede. Um grafo integra dois elementos estruturais caractersticos [59] linhas e pontos que sob a perspectiva de RAS, poderemos designar como unidades individuais de observao. Estes objectos podem ter vrios nveis de agregao. O ponto de vista de anlise no entanto sempre individual, no sentido em que a observao a um nvel de abstraco elevado considera conjuntos de actores e relaes. Significa isto que os actores includos na rede podem representar pessoas, objectos, unidades orgnicas, organizaes, pases, etc., no havendo na prtica qualquer limite para o critrio de agregao utilizado para a construo da rede de anlise [42]. A preferncia pressentida por um universo de6

No contexto do presente trabalho referimo- nos sempre a sistemas organizacionais.

28

observao

estvel,

no

sentido

de

manter

padres

relacionais

e

comportamentais regulares, justificou durante algum tempo a tendncia da escolha de actores colectivos para incluso na rede. Preferiam-se entidades com o maior nvel de agregao possvel - papis, estatutos, grupos, instituies - preterindo-se o nvel individual dada a sua tendncia para variabilidade. Esta opo, no entanto, acabou por ser abandonada por se considerar que o prprio grau de instabilidade ou estabilidade de uma dada estrutura social por si s um tpico de investigao [73]. No entanto, a unidade de anlise pode no ser o actor singular ou apenas a relao que o une a outros actores. H portanto que distinguir entre estas realidades: a unidade individual de observao, que sempre o actor individual ou colectivo, e a unidade de anlise. Esta ltima pode possuir vrios nveis de agregao, incidindo quer sobre o actor individualmente e independentemente do seu nvel de agregao (e nesse caso as duas entidades so coincidentes) quer sobre conjuntos de actores considerados como subgrupos definidos pela coeso e reciprocidade das conexes estabelecidas dentro da rede constituda, ou ainda, a constituindo subsistemas estruturados e estratificados. Esta realidade concorda com as perspectivas de anlise relacional e posicional atrs referidas. Actores, ns Atendendo s caractersticas especficas da RAS julgamos conveniente referir alguns aspectos relevantes sobre actores, ou seja, unidades individuais de observao de uma rede. De uma forma geral os actores presentes numa rede na medida em que esta representa uma estrutura social utilizam os recursos que lhes esto acessveis para realizar os seus interesses, qualquer que seja a sua natureza [34]. De acordo com a teoria social e econmica [25][26][27] os interesses manifestados por um actor so gerados pela percepo que esse mesmo actor detm ou adquire sobre a possibilidade ou vantagem de empreender aces alternativas. Ou seja, uma determinada aco efectuada se no for entendido como vantajosa a realizao de uma outra aco alternativa. Estes aspectos so de forma geral ntidos na anlise organizacional, manifestando-se nas vrias camadas funcionais e hierrquicas de uma instituio.29

A este respeito importante referir que uma organizao constitui antes de mais uma estrutura social e nessa condio inclui nveis de actuao poltica (caracterizada por poder) e cultural (caracterizada pelos arqutipos culturais dos actores individuais e colectivos ou cultura organizacional). Estas camadas, ou vistas, articulam-se atravs de relaes permanentes e dinmicas efectuadas entre os actores que participam na organizao e que desempenham aces as quais podem obedecer a motivaes diversas: funcionais, amizade, interesse, progresso, louvor, etc. No quadro funcional de uma organizao h actividades que so obrigatoriamente desempenhadas, no entanto a forma como o so pode ter variaes considerveis e essas flutuaes podem moldar decisivamente a eficincia, eficcia e efectividade do seu desempenho. A forma de actuao de actores pode ser considerada luz de trs interpretaes tericas: 1/ Atomista em que se consideram os actores como a mais pequena unidade social existente numa rede, agindo portanto em funo dos seus interesses prprios, ou seja, dos interesses que percepcionam como vlidos ou vantajosos para si prprios. Neste sentido a avaliao de vantagem de aquisio de um recurso realizada sem ter em ateno as necessidades de outros actores. Esta perspectiva normalmente utilizada em anlise macroeconmica [25]. 2/ Normativa, em que se consideram os actores como interdependentes entre si empreendendo aces de acordo com normas socialmente estabelecidas e aceites. Esta uma aproximao essencialmente antropolgica e sociolgica. A este respeito apropriada uma referncia sucinta aproximao terica apresentadas por Giddens (GIDDENS citado por WALSHAN) [119], enquadrada em contextos organizacionais. Giddens ao propor a sua teoria de estruturao, identifica em qualquer organizao dois nveis distintos relacionados com agentes humanos e sistemas sociais, descrevendo uma camada intermdia de ligao atravs de, respectivamente, esquemas interpretativos, suporte material e normas. Esta abordagem ao considerar a existncia de agentes humanos /actores e sistemas sociais (redes) articulvel com a caracterizao de actores em RAS atravs de duas particularidades: (1) os actos so desenvolvidos por agentes humanos quer30

de acordo com a perspectiva atomstica ou normativa (2) Os actos so desenvolvidos em estruturas sociais. O comportamento dos actores/agentes humanos insere-se numa perspectiva atomista enquanto que a sua interaco/participao em sistemas sociais, obriga a uma perspectiva de aco normativa. 3/ Burt [25] prope uma terceira alternativa sugerindo que os interesses dos actores so padronizados pelas posies que ocupam na estrutura social, as quais so definidas por conjuntos de propriedades individuais e gerais da rede na sua qualidade de modelo representativo da estrutura social. Segundo este autor um actor avalia o aumento de utilidade que um determinado recurso lhe oferece relativamente a outro em funo de referncias por ele estabelecidas ou pr-existentes e subordinadas a um determinado critrio, ou melhor, em funo do incremento marginal de utilidade que avaliado com base nesses critrios. Cada actor possui portanto um capital social que lhe servir para adquirir ou manter posies dentro da rede. O capital social, ao contrrio dos capitais humano (atributos pessoais de carcter profissional, pessoal) e econmico, relacional uma vez que composto pelo conjunto de relaes que um determinado actor possui numa rede (capital conectivo) [27]. Este capital funciona como critrio de ponderao relativamente acessibilizao do actor s oportunidades aqui citadas como significando acesso a recursoscriadas na rede. Burt refere-se a posies ideogrficas definidas por relaes com forma e contedo de especial significado dentro de um determinado sistema de actores (localizao topolgica) num ponto especfico de tempo (localizao cronolgica). De acordo com esta perspectiva posicional (que neste autor tem directamente a ver com equivalncia estrutural) e posto perante um problema de avaliao de um determinado recurso, a um actor A colocarse-ia a questo de em que medida uma aco poder incrementar ou melhorar o seu controlo sobre um recurso relativamente ao nvel de controlo exercido sobre esse mesmo recurso por outros actores que lhe so estruturalmente prximos (equivalentes). Desta forma o facto de um determinado actor ocupar uma posio estruturalmente equivalente com outro actor pode revestir-se de dois significados, sendo um exacto -os dois31

actores ocupam uma posio topolgica e ideograficamente idntica-, e o segundo interpretvel -os dois actores podem reciprocamente substituir-se, i.e., um deles pode ser redundante e dispensvel. Relaes/Arcos Uma relao composta por forma e contedo [26] [73]. A primeira diz respeito medida que representa a fora da relao entre um actor [A B], ou seja, as propriedades da conexo de uma dade as quais existem de forma independente do contedo dessa mesma conexo. Este atributo normalmente resolvido pelo actividades. O contedo o tipo de relao que representa, ou seja, a substncia e natureza da prpria forma de conexo de um actor [A B]. Este atributo pode ser classificado de acordo com categorias de relaes que convenham ser definidas: Por exemplo do ponto de vista de formalizao da relao esta pode constituir uma relao de transaco, de controlo, multiplexa. No entanto se a considerarmos numa ptica dos recursos difundidos atravs dessa mesma relao, poder ento ser designada de informao, recursos materiais, aco, etc. Do ponto de vista organizacional esta dicotomia importante na medida em que permite a integrao de processos funcionais na qualidade de contedos de uma relao entre actores a qual possui uma forma especfica que ir condicionar a forma de realizao desse mesmo processo. Dito de outro modo, se um recurso ou aco (contedo) que circula entre dois actores controlada por um deles (forma), se a iniciativa (forma) parte de um actor ou se mesmo que isso no acontea esse actor assume o domnio desse recurso ou aco (contedo), podemos dizer que a relao de controlo. Se o recurso for transaccionado pelos actores envolvidos na relao, quer de forma livre ou condicionada, podemos ento dizer estar perante uma relao transaccional (forma). Finalmente se as conexes que unem dois actores so de natureza individual e no relacional, i.e., se se reportam laos [82].32

grau de intensidade estabelecido

entre os dois actores e ainda o grau de participao comum nas mesmas

exclusivamente

a

atributos

especficos

de

cada

actor

(personalidade, concentrao, poder...)

estaremos perante conexes de

Estabelecendo uma comparao curiosa entre as interpretaes de relaes dadas por analogias antropolgicas e matemticas obtemos o seguinte quadro:Tabela 2.2 Analogias de relaes (adaptado de Lemieux. Les Resaux dActeurs Sociaux) Relaes transaces controlos laos Analogia antropolgica Desero Tomada da palavra lealdade Analogia matemtica Estruturas algbricas Estruturas de ordem Estruturas topolgicas

Outra forma de caracterizar uma relao identificar a direco que ela assume. Uma relao pode exprimir um contacto apenas, expresso numa varivel dicotmica existe ou no mas pode assumir igualmente direccionalidade, ou seja, a relao inicia-se num n e dirige-se para outro. Pode igualmente ser simtrica o que diferente da simples expresso de contacto. Neste caso o recurso simetricamente enviado de um actor para outro havendo capacidade de iniciativa de parte a parte. A simetria exprime apenas a possibilidade de uma relao se estabelecer nos dois sentidos, independentemente do teor dessa relao (controlo, transaco, lao). As caractersticas atrs referidas coexistem numa mesma conexo podendo -se portanto classific-las como, por exemplo, controlo bilateral (simtrico) ou transaco assimtrica. A orientao no implica necessariamente controlo. A identificao dos recursos transmitidos na rede pode ser partida explicitamente definida no momento da constituio da rede. No entanto uma rede pode e normalmente tem muitos tipos de recursos a circular nela. Lemieux categoriza-os de acordo com a sua natureza e ainda com a sua condio de serem reno vveis ou no. No primeiro caso so identificados seis grupos: normas, estatutos, comandos, recursos humanos, recursos de informao, relacionais [80]. Categorizaes deste gnero so no entanto livres, podendo ser utilizadas as que mais se adaptarem ao caso em estudo, desde que sejam devidamente explicitadas e descritas. No caso da rede analisada por exemplo foram identificados recursos de tipo informacional (em que se incluem documentos como subespcie de objecto informacional), de tipo normativo, material e humano.

33

2.3 Questes metodolgicas

A teoria e prticas metodolgicas de RAS no so consideradas como isentas de problemas quer sejam eles intrnsecos sua prpria natureza terica, como prpria estrutura metodolgica. Estes problemas percepcio nados por tericos da disciplina agrupam-se, segundo Rogers, em 4 categorias [107]. 2.3.1 Reduzida investigao terica A escassez de investigao redunda numa excessiva tendncia para anlise prtica sobre modelos de redes constitudas a partir de recoleco de dados, tendo igualmente como consequncia a relativa ausncia de produo de teoria formal. A este respeito relembramos os conceitos de teoria substantiva e teoria formal tal como Glaser e Strauss a apresentam [49] sendo a primeira desenvolvida para uma rea emprica da investigao social, enquanto o desenvolvimento da segunda se reporta a reas formais ou conceptuais da teoria social (estes conceitos so igualmente aplicveis a qualquer rea de investigao de cincias sociais). Esse facto permite a produo de trabalhos metodolgicos, de desenvolvimento de investigao social (ou de qualquer outra rea em que RAS seja aplicvel) mas no de produo terica sobre o mtodo o que de facto retarda o desenvolvimento e amplitude de estruturao metodo lgica da prpria teoria. A anlise de redes sociais consiste na maior parte dos casos de modelos descritivos e no prescritivos de uma determinada realidade [26]. 2.3.2 Problemas de amostragem de rede e generalizao

Este problema traduz -se pelo que se convencionou designar pelo problema de delimitao de fronteiras. Na prtica trata-se de estabelecer as entidades que devem (ou podem) ser includas na rede a estudo. Este aspecto particularmente delicado quando aplicado a redes, j que uma rede por natureza expansvel a conjuntos de actores que por uma razo ou outra possam com ela ser conectados.

34

Para ilustrar este ltimo ponto imaginemos, por exemplo, que construmos uma rede de uma organizao com um determinado intuito por exemplo, determinar a estrutura concorrencial dessa empresa face ao mercado em que se insere. Logo partida se torna evidente a falibilidade dos actores a escolher: se nos limitamos aos actores que integram a organizao exclumos entidades externas que com essa organizao mantm relaes. Se, por outro lado, os incluirmos, herdamos todos os actores com que essas organizaes, agora elementos da rede, estabelecem relaes. Mas de facto, caso essa rede social no os inclua, resultar num modelo incompleto da estrutura que pretende representar. Os problemas ligados incluso de actores (delimitao de fronteiras) residem portanto no facto de se excluir actores que partida e em consequncia de uma primeira observao no seriam particularmente significativos para a estrutura em anlise mas que na realidade podem desempenhar papis fulcrais para a caracterizao da mesma, como por exemplo o papel de transconectores [73]. Para ilustrar esta possibilidade de enviesamento apresenta-se na figura 1 o exemplo clssico da rede tipo borboleta [73] em que o actor 4 soma apenas 2 relaes desempenhando no entanto o papel topolgico de unio entre dois conjuntos de actores. Ou seja, caso este actor fosse excludo da rede a interpretao da mesma e sua disposio topolgica revestir-se-ia de aspectos e interpretaes completamente diferentes e desfasadas da realidade.2 5

A seleco de actores a incluir na rede pode obedecer a dois critrios [73] [77]. a) As fronteiras da entidade (neste e caso as respectivas social

1

4

7

3

6

Figura 2.2 - Rede tipo borboleta ( O actor 4 transconector)

organizaes

redes de actores) podem ser impostas de acordo com os limites conscientemente percepcionados pelos actores que fazem parte dessa(s) entidades(e) (mtodo ideogrfico), b) estas so determinadas pelo investigador na medida em que este impe uma estrutura conceptual que serve um determinado propsito de investigao (mtodo nomottico). Neste ltimo so considerados

35

conjuntos de factores que possam eventualmente influenciar a investigao na direco de uma determinada meta. Os critrios de incluso no caso da abordagem nomottica sugerem possibilidades para a definio concreta dos actores a incluir na rede. [73]. o caso por exemplo de mtua relevncia. Este critrio [77] estipula que apenas as actores que sejam reciprocamente relevantes devero ser includos na rede de anlise. Os actores cujas aces reais ou potenciais sejam inconsequentes do ponto de vista de participao nessas aces, sero excludos. Para a aplicao deste critrio os autores citados [77] especificam 4 tipos de evidncia emprica: Posicional (organizaes formais com funes ou interesses no domnio do problema); decisional (actores que so chamados a decidir sobre assuntos relacionados com a rea em que se inscreve a rede); reputao (actores considerados influentes por painis de especialistas reunidos para o efeito); relacional (actores nomeados durante as entrevistas com representantes das organizaes obtidas pelo primeiro grupo). Como mtodo de incluso de actores na rede existe ainda o processo de bola de neve (snowball). Neste mtodo solicita-se a um actor que indique os actores com quem tem relaes relativamente a uma determinada actividade, processo. Depois indagam-se os actores assim obtidos com a mesma interrogao o que nos d um segundo conjunto de actores, eventualmente mais alargado, os quais sero por sua vez interrogados da resultando um terceiro conjunto de actores. Este processo iterativamente efectuado at se considerar ter uma amostra representativa do universo a estudar. Trata-se de um processo similar ao utilizado para a compilao de bibliografia num trabalho de investigao. Neste caso, particularmente quando o tema no seja muito popularizado, inicia-se a pesquisa bibliogrfica a partir de um pequeno conjunto de obras a partir das quais se seleccionam outras obras a partir da bibliografia que elas contm (na realidade trata-se de uma interrogao indirecta aos autores/actores) e vaise progressivamente, seguindo este processo iterativo, aumentando o conjunto de referncias at que este seja considerado como um corpus suficiente de informao bibliogrfica. Este mtodo apropriado quando a investigao social e terica seja escassa.36

2.3.3 Excessiva incidncia na anlise de dados e reduzida ateno recolha de dados

Este aspecto refere-se idiossincracia entre os mtodos de recolha de dados realizados em Cincias Sociais e a sua posterior anlise. No primeiro caso inevitvel uma percentagem mais ou menos elevada de subjectividade que pode potencialmente levar a ausncia de rigor dos dados recolhidos. Por outro lado o estudo desses mesmos dados realizado a partir de anlises rigorosas positivistas sobre esses mesmos dados partida suspeitos de falibilidade [107]. Como outro aspecto negativo da recolha de dados de rede apontado o recurso excessivo a dados indirectos, ou seja, dados pr-existentes recolhidos por outras entidades em funo de outro caso de estudo particular. Este facto apontado como causa de uma ausncia de conhecimento e percepo mais precisas da rede em anlise visto os dados no terem sido recolhidos directamente pelo investigador nem especificamente para o caso em anlise. Outro problema levantado por Rogers [107] reside na ausncia de explorao do contexto histrico, entendido numa perspectiva de curta durao. Esta anlise, de resto igualmente defendida por Lazega [80] possibilita uma melhor compreenso da evoluo da estrutura social o que facilita a direcco tomada da recolha de dados segundo mtodos correntemente utilizados em Cincias Sociais.

2.3.4 Desfasamento entre forma e contedo da rede

Rogers [107] afirma que os analistas focam a sua ateno sobretudo na forma das redes e ignoram, ou pelo menos atribuem menor importncia, ao contedo da informao que flui pelas conexes existentes. Este autor avana como motivo principal para este facto os mtodos de recolha de dados e particularmente o tipo de perguntas formuladas, as quais considera limitadoras de veiculao de informao sobre o contedo das relaes percepcionadas. Um actor questionado presencialmente pode no dar

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informaes relevantes para a caracterizao dos contedos de relao identificada. Muitas vezes porque no se lembra no momento em que questionado, de detalhes por vezes fundamentais. O autor aponta como forma de ultrapassar esta limitao a utilizao de novos meios tecnolgicos que atravs de capacidades de interactividade podero viabilizar a recolha pormenorizada de dados com interferncia indirecta, dos actores observados. o caso por exemplo de correio electrnico, em que a constitui anlise das mensagens tro cadas entre actores seleccionados, potencialmente uma poderosa fonte de informao. As

desvantagens identificadas no entanto no so menos importantes embora se situem noutro plano: Quantidade sobredimensionada de informao e direito privacidade so alguns dos problemas que impem precaues na explorao desta metodologia.

2.4 Anlise de redes sociais

O primeiro aspecto a considerar para a anlise de redes sociais naturalmente a sua constituio ou montagem. Hierarquizando procedimentos teremos antes de mais a definio do universo de anlise que implica a incluso de actores como unidades individuais de observao. Este aspecto em particular no ser aqui explorado visto ter sido atrs focado relativamente ao problema de delimitao de fronteiras. Refere-se apenas que as amostragens de populaes para incluso na rede pressupem a escolha do nvel de agregao das unidades individuais de observao, i.e., se se trata de indivduos, unidades orgnicas, processos, instituies, etc. A escolha sobre os actores a incluir, ou seja, a realizao da amostragem a partir da qual se passar generalizao, pode obedecer a diferentes princpios -ideogrfico e nomotticoe ainda a diversos mtodos como por exemplo a bola de neve (ver seces 2.2.2 e 2.3.2)

2.4.1 A recolha de dados

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Esta questo diz antes respeito forma e mtodo de recolha e anlise de dados. Dentro desta rea podemos contar essencialmente duas tendncias: Uma denominada clssica em que se procede a extensas recolhas de dados orientados por hipteses de trabalho formuladas priori e que se enquadram nas grandes teorias sociolgicas, destinando-se portanto a deduzir teoria substantiva e, em ltima anlise, explorar ou confirmar a teoria formal. Esta metodologia foi recorrentemente utilizada pelas sucessivas escolas de sociologia e deu origem a grandes conjuntos de dados recolhidos por meio de processos de inquritos muito complexos e elaborados. Apresenta partida o inconveniente de cercear o investigador pelos limites que ele prprio imps atravs da escolha ou formulao de hipteses a ser testadas. Uma segunda escola denominada grounded theory [49], prescreve ao contrrio uma anlise qualitativa dos dados que vo sendo recolhidos atravs de trabalho de campo. Ao contrrio da m etodologia anterior, o investigador vai formulando as hipteses de trabalho na medida em que a anlise dos dados progressivamente recolhidos elucida ou permite a emergncia de factos ocultos que podem e devem alterar o sentido inicial da investigao. Neste campo, o investigador no est condicionado por qualquer idia preconcebida e portanto limitadora sendo livre para seguir e alterar o curso da sua investigao medida que os dados recolhidos e analisados do potencialmente novas pistas e direces de anlise. A recolha de dados igualmente baseada na percepo recolhida pelo investigador, podendo concentrar-se numa determinada rea partida no considerada como nuclear ou, ao contrrio, reforar uma determinada rea em detrimento de outras. O problema de recolha de dados particularmente pertinente em cincias sociais j que ao contrrio de cincia positiva em que a realidade -pelo menos aparentemente- estvel, a recolha de dados em contexto social e humano caracteriza-se pela subjectividade e ausncia de mtodos de recolha exactos.

2.4.1.1 Prncpios e mtodos de recolha de dados

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Considerando as caractersticas prprias de RAS atrs mencionadas h que fazer incidir a recolha sobre dados relacionais, sobre dados relativos aos atributos dos actores (caracterizao de actores) e finalmente sobre os comportamentos susceptveis de ser influenciados pela posio destes ltimos na estrutura relacional observada. A recolha de dados neste contexto deve ser precedida ou acompanhada de investigao de contexto ambiental, funcional e histrico de forma proporcionar um quadro integrador da rede a estudar [80]. A recolha de dados em cincias sociais consiste como atrs referido numa rea classicamente problemtica. No tendo as caractersticas exactas e experimentais de cincias positivas ou exactas, elas tornam-se alvo de subjectividade, mesmo por uma poderosa razo: que inserindo-se em contextos de actividades humanas, a recolha de dados passa obrigatoriamente pela colaborao desses mesmos actores. A r ecolha de dados partida limitada por esse facto visto que por variadssimas razes os inquiridos podem no fornecer dados exactos ou podem fornecer dados que considerem exactos mas que eventualmente se venha a verificar que efectivamente o no eram. A observao directa de actores humanos, embora seja um mtodo utilizado (sero a seguir discriminados os mtodos mais difundidos em cincia sociais) no retorna resultados to exactos como a observao levada a cabo sobre actores no humanos. Os indivduos ao sentir-se observados podem adoptar comportamentos inabituais e defensivos, possivelmente causadores de enviesamento de dados. Outro problema de base consiste na ausncia de vontade de cooperao dos actores. Este aspecto particularmente relevante em contextos organizacionais em que se torna difcil ganhar adeptos ou voluntrios para a realizao de uma srie de inquritos que normalmente so considerados como maadores ou sem utilidade prtica e imediata visvel! Outro aspecto focado nesta seco trata da opo que o analista toma ao recolher dados sobre determinados tipos e no outros de relaes que unem os actores do universo de recolha. Por exemplo na rede em anlise neste trabalho, foram tomadas em ateno as conexes caracterizadas por relaes de controlo e transaco. No entanto a incluso de elos baseados em preferncias e pessoais tais como amizade, cooperao comum40

poderiam ter igualmente sido includas. Foi de facto observado que em determinados processos este tipo actua de elos existente elemento de entre actores no individualmente processos. Ao considerados, excluir um como facilitador

desempenho informalizado de determinadas actividades constituintes de determinado tipo relao estamos necessariamente a no ter em conta o enriquecimento estrutural de uma rede. Essa posio defensvel caso sejam equacionadas as consequncias e justificadas as opes tomadas. A anlise de vrios tipos de relaes revela muitas vezes informao significativa, j que h actores muito fortemente conectados em determinados tipos de relaes e fracamente noutro tipo. Este aspecto por exemplo observvel dentro de organizaes em que os actores podem encontrar-se funcionalmente conexos, porque participam, por exemplo, em processos ou estruturas orgnicas comuns, mas no entanto a distncia entre eles sob o ponto de vista de relaes pessoais (aconselhamento, cooperao) ser considervel. As repercusses ao nvel de desempenho podero ser significativas atendendo necessidade de informalizao da comunicao para o incremento de eficincia de processos [29] [119]. Uma regra cooptada da anlise estatstica obriga a que as unidades individuais de observao, i.e., os actores, se situem ao mesmo nvel de agregao. Caso isso no acontea os resultados no sero conclusivos. Para combinar dados de diferentes nveis de agregao ser necessrio constitui tantas redes quantas os respectivos nveis de abstraco escolhidos. Interessa ainda, para completa explicitao deste captulo, enumerar de forma sinttica os princ ipais mtodos normalmente utilizados para recolha de dados em cincias sociais. Faamos um esclarecimento entre as duas realidades apresentadas a seguir: Os princpios de recolha de dados so as posies teoricamente sustentadas da perspectiva que o investigador dever assumir sobre o universo de recolha, ou seja, sobre os actores que se prope inquirir, independentemente do seu nvel de agregao ou da sua natureza. Os mtodos utilizados, por seu turno, referem-se ao conjunto de procedimentos prticos realizados para a recoleco dos dados. Os ltimos podem ser includos nos primeiros. Avanando um exemplo: independentemente de se adoptar uma perspectiva de observar os41

actores ou seguir os actores, podero ser utilizados processos como o questionrio ou a entrevista. Gostaramos ainda de ressalvar que para a realizao deste estudo apenas alguns destes processos foram utilizados, no se tendo considerado os restantes como teis ou passveis de aplicao efectiva neste contexto (Estes aspectos sero desenvolvidos no cap. 4). Refira-se finalmente que dever ser sempre deixada ao investigador a imaginao metodolgica indispensvel para em cada caso especfico retirar o conjunto de dados mais completo e preciso de forma a responder s metas por si propostas [80]

2.4.1.1.1 Princpios de recolha de dados

a/Associao Livre Associao livre consiste em no impr uma determinada matriz de anlise sobre os actores forando -os a assumir papis pr-determinados. Adoptase ao contrrio uma postura que permita o investigador seguir todas as translaes livremente seguidas pelos actores [104]. b/ Deixar falar os actores O investigador deve seguir as interpretaes dos actores envolvidos no processo em vez de impr as suas interpretaes. Os actores de uma rede definem o seu quadro de referncia e impem os seus prprios limites, O investigador deve situar-se dentro deste quadro tentando questionar apenas o que os actores fazem e relatar as negociaes que decorrem na rede de observao [104]. c/Seguir os actores Esta atitude significa que o investigador no tem qualquer concepo prdefinida do processo a ser estudado. Segue portanto os actores para identificar as formas por que estes definem e associam os diferentes elementos com os quais constroem e explicam o seu mundo, seja ele social ou natural. Esta prtica d ao investigador informao sobre as aces e crenas dos actores envolvidos [104].

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2.4.1.1.2 Mtodos de recolha de dados

Inqurito O inqurito um instrumento essencial de recolha de dados em cincias sociais. Realiz-lo ...interrogar um determinado nmero de indivduos tendo em vista uma generalizao... [48] Trata-se portanto da inquirio directa ou indirecta de actores de forma a obter dados que sejam posteriormente analisados. Pode revestir-se de diversas formas sendo mais ou menos extensivo. O inqurito normalmente realizado pelos processos de questionrio e entrevista (e ainda a observao). A este instrumento de recolha de dados associada a recolha indirecta de dados secundrios provenientes realizados de arquivos ou levantamentos diferentes (por de dados eventualmente com propsitos exemplo,

inquritos levados a cabo por instituies especializadas, por ex., o Instituto Nacional de Estatstica). a. Questionrio O questionrio pode ser presencial em que o investigador se encontra em presena dos respondentes prestando -se a dar esclarecimentos quanto ao preenchimento do mesmo. Pode ser no presencial que normalmente utilizado quando em presena de uma populao muito extensa de potenciais inquiridos. Neste caso o inqurito deve ser claro e sempre acompanhado de notas explicativas relativamente a cada item a responder a1. Questionrios fechados Trata-se de inquritos com respostas fechadas ou seja em que respostas alternativas so oferecidas ao entrevistado limitando-se este a assinalar aquela (s) que julga como correcta(s). a.2 Questionrios abertos Neste caso as perguntas formuladas so genricas e vagas apelando ao discernimento e formulao de conceitos e juzos por parte do entrevistado

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a.3 Questionrios semi-abertos So caractersticas deste tipo de inquritos perguntas com alternativas fechadas mas contendo por vezes elementos abertos. Normalmente nos inquritos este tipo de entrevista manifesta-se por uma pergunta final em que se apela ao entrevistado a opinar sobre o assunto a que respeita o bloco de perguntas em que aquela pergunta se insere. b. Entrevistas A entrevista, o mtodo mais utilizado para a realizao da presente tese, tem vantagens apreciveis visto que permite ao analista um contacto directo com o entrevistado e portanto uma percepo e capacidade de orientao da recolha de dados de acordo com o posicionamento detectado no entrevistado e que se julgue mais eficaz para alcanar a meta partida proposta. A entrevista tem no entanto as suas limitaes que consistem nomeadamente no enviesamento por parte do entrevistador, ou na retraco do entrevistado posto perante questes pessoal ou organizacionalmente delicadas. Este facto foi verificado na experincia deste trabalho, tendo -se constatado uma progressiva descontraco dos entrevistados ao fim de algumas sesses de trabalho. Note-se que estas nem sempre so passveis de ser realizadas repetidas vezes o que obriga a um aumento de eficincia num curto espao de tempo . b.1 Directivas Neste tipo de entrevista elaborado um guio com perguntas especficas a realizar procurando-se da parte do entrevistado perguntas e respostas curtas e incisivas. Este mtodo permite o lanamento dos dados que vo sendo obtidos em matrizes ou formulrios construdos para o efeito. Este procedimento simplifica a posterior anlise e sintetizao da informao assim como o seu carregamento em ferramentas informticas de anlise. Implica um conhecimento profundo por parte do entrevistador da rea em estudo pretendendo -se dos actores respostas curtas e especficas com vista a recolher dados sobre aspectos que necessitam de esclarecimentos. b.2 No directivas

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Neste caso no existe qualquer tipo de guio deixando os actores entrevistados discorrer livremente sobre um tema ou temas sugeridos pelo analista. Estes temas no entanto funcionam como meios de desencadear a comunicao no sendo linhas condutoras rgidas da entrevista. Este mtodo adaptvel ao princpio atrs referido de seguir os acto res e significa que no existe uma percepo ou idia pr-concebida sobre a rea a estudar, sendo portanto da maior utilidade permitir o livre discurso do entrevistado. b.3 Semi-directivas Este caso, que constitui um compromisso entre os dois mtodos anteriores, consiste numa srie de perguntas genricas obedecendo a temas que se pretendem analisar, mas dentro de cada pergunta dada uma extensa latitude de resposta aos entrevistados. O analista pode dirigir, interromper, ou redireccionar o curso da conversa conforma isso convenha informao que pretende recolher. Insere-se no mtodo de deixar falar os actores porque existe uma idia e uma linha de fora presente na perspectiva do entrevistador e dentro dela que se d latitude aos entrevistados para discorrer. c. Dados indirectos e arquivos Este mtodo de recolha de dados indicado por todos os autores consultados e que se referem a recoleco de dados [48] [73] [107] embora por vezes referindo-se-lhes atravs de termos curiosos como vestgios [Cf. 48, p.7]- como uma fonte potencialmente rica de dados essenciais para a constituio (atravs de incluso dos actores participantes) e caracterizao das unidades individuais de observao. Apresenta como principais vantagens: 1) A interrogao e levantamento de dados ser realizado sobre actores passivos, ou seja, cuja validao de dados transmitidos depende exclusivamente do investigador no estando sujeito a enviesamentos indirectos provocados -voluntria ou involuntariamenteinterrogado. 2) Reportarem-se a acontecimentos distanciados no tempo e sobre os quais possam no existir actores ou testemunhos directos vivos.45

pelo agente

3) Poderem potencialmente cobrir um hiato cronolgico significativo. Apresenta no entanto como inconvenientes o facto do investigador se encontrar descontextualizado do comportamento a ser estudado, o qual se encontra operacional e cronologicamente terminado, e os dados no terem sido recolhidos com propsitos especficos de anlise cientfica, o que limita a sua apetncia de resposta. Glaser [49] refere similaridades entre o trabalho de campo realizado pelo investigador e as pesquisas realizadas em Arquivos na medida em que se torna necessrio escolher um ngulo posicional de anlise. Num Arquivo este dado pela anlise de instrumentos de pesquisa e subsequente posicionamento topogrfico de documentos. No trabalho de campo o investigador tem de se dirigir para local de trabalho ou de permanncia dos actores a ser interrogados o que na prtica equivale mesma aco. A forma e a especificidade com que os dados devem ser recolhidos so objecto de ateno de vrios autores (MORENO, citado por BURT) [26]. Este processo deve obedecer a uma srie de condies como por exemplo as fronteiras do sistema (rede) deverem ser conhecidas pelos respondentes; estes devem ser solicitados a indicar os indivduos que escolhem ou rejeitam em termos de critrios especficos; as questes tcnicas mais complexas devem ser colocados ao respondente a um nvel de compreenso adequado, etc. Informao sobre o teor das perguntas a ser realizadas igualmente fornecido em vrios trabalhos especializados.7 Os princpios que presidem recolha de dados sociais aconselham a confirmao de resultados obtidos atravs de fontes cruzadas de forma a despistar eventuais incoerncias e enviesamentos. O mtodos da triangulao, i.e., o cruzamento de trs fontes diferentes aconselhvel, nomeadamente atravs de fontes arquivsticas com as vantagens prprias deste tipo de informao. Da mesma forma a confirmao de dados a travs de recolha por processos indirectos, ou seja, sem a interveno dos actores participantes, uma forma cada vez mais utilizada em RAS (por exemplo atravs de recurso a TIC, como a contabilizao de mensagens de correio electrnico trocadas. (Ver a este respeito [46] [54] [61]).

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Autores como HALINAN; BERNARD e KILLWORTH no referenciados no presente trabalho.

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2.4.2 Mtodos de Anlise de Redes Sociais

Relativamente aos mtodos de anlise podemos considerar os seguintes aspectos: (1) nveis possveis de anlise , (2) ferramentas de anlise utilizadas e (3) principais medidas estatsticas de rede utilizadas, i.e., parmetros de avaliao.

2.4.2.1 Nveis de anlise

De acordo com Lazega [80] podem ser distinguidos trs nveis de anlise: estrutural ou posicional, relacional e individual. No nvel estrutural ou de rede completa segundo Knoke [73] procura-se descrever conjuntos sociais completos e compar-los. Nesta circunstncia a anlise incide sobre a rede globalmente considerada, procurando -se identificar padres relacionais e posicionais que permitam a agregao de actores equivalentes e a identificao de subconjuntos relacionais coesos. As medidas utilizadas para caracterizar a rede a este nvel consistem nas categorias de coeso e densidade. Knoke divide este nvel em rede completa que incide sobre anlise posicional e rede egocntrica em que o objecto de anlise consiste em cada n individual e as suas relaes com cada um dos restantes actores da rede. Ao nvel relacional os objectos de anlise so as estruturas atmicas da rede: (1) dades compostas por um conjunto de dois actores e (2) trades compostas por trs actores e as suas conexes. Este nvel de anlise em Knoke dividido em anlise didica e tridica. O objectivo da anlise caracterizar as relaes propriamente ditas descrevendo a sua forma e contedo. Sob o ponto de vista individual o objecto de anlise consiste nos atributos de cada actor existente na rede. Neste caso procuram-se essencialmente medidas de centralidade e prestgio que levam a uma localizao topolgica do indivduo na estrutura de rede.

2.4.2.2 Ferramentas de anlise

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A anlise de RAS baseia-se na utilizao de grafos e de matrizes. Grafos Basicamente um grafo consiste numa estrutura simplificada que representa realidades lineares atravs de pontos e linhas. Nesta estrutura so indiferentes as caractersticas de cada n, podendo ser este uma representao de qualquer tipo de objecto ou entidade, desde um circuito integrado at um objecto social. As caractersticas relevantes e objecto de estudo so apenas as propriedades de conexo que unem os diversos ns nessa rede [59]. Num grafo aplicado a RAS os ns e arcos que os relacionam constituem actores ou unidades individuais de observao. Sobre este conjunto de entidades recai a anlise macroscpica quando incidente na simples observao do desenho da rede, ou anlise baseada em clculos retirados a partir de matrizes. Note-se que numa rede de pequena dimenso a simples observao do grafo constitudo pode trazer resultados reveladores. Quando a anlise RAS incide sobre diversas redes que representem estruturas organizacionais, e a esfera de influncia dessas redes se cruzam embora sem se integrarem numa estrutura inter-organizacional, diremos estar perante redes multimodais, Na prtica de anlise esta abordagem significa o estudo separado (em vrios modos) das diversas redes entrecruzadas [52]. Uma rede pode ser considerada como uma estrutura com diversas vistas concorrentes representadas por tipos dissimilares de relaes estabelecidas entre os actores: uma relao de controlo, de transaco, de amizade, etc. esta capacidade multivariada constitui uma poderosa capacidade de RAS j que condensa uma pluralidade de de vises numa nica Esta estrutura, forma de caracterizveis atravs anlises combinadas.

representao da rede permite visualizar facilmente argumentos como distncia e proximidade entre actores. Alguns aspectos bsicos sobre grafos [21][59] permitem sintetizar superficialmente as seguintes propriedades: Um grafo pode ser direccionado ou no, consoante as linhas que unem os actores demonstrem direccionalidade. Esta expressa diagramaticamente por uma seta. No48

caso de no ser representada seta a linha evidencia apenas adjacncia. Quando uma linha direccionada toma o nome do arco. Os grafos podem ser ou no valorados, ou seja, pode ser atribuda ponderao a qual indica neste contexto de anlise os atributos especficos de cada relao. O grau de um n significa o nmero de ns a que adjacente. No caso de um dgrafo ou grafo direccionado consideram-se os graus de entrada e sada que correspondem aos nmeros de linhas que saem do n e que nele entram. O conceito de distncia transparece das ilaes a retirar de grafo: O caminho mais curto entre dois pontos, i.e., entre dois ns, constitui um geodsico e est relacionada com a eficincia de comunicao do grafo, ou melhor, da estrutura que o grafo representa, e ainda com o desempenho da atingibilidade. A distncia num grafo avaliada pelo nmero de linhas que ele contm, sendo esta uma medida essencial para redes sociais. O grafo inteiramente conectado se existe um caminho (pelo menos um) entre todos os ns representados, sendo este grau de conexo obtido pelo nmero de caminhos existentes. Caminho uma sequncia de pontos adjacentes e das linhas que os conectam. Quanto mais caminhos existirem num grafo, maior ser, em princpio, o seu grau de conectividade. Como conceitos bsicos mencionaremos ainda os pontos de desconexo, ou seja, ns que se retirados do grafo implicariam a desconectividade do mesmo e pontes que possuem as mesmas propriedad