REDES SOCIAIS E MEDIADORES NOS ESTUDOS ?· 2014-11-19 · As análises das redes sociais surgiram por…

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    REDES SOCIAIS E MEDIADORES NOS ESTUDOS IMIGRATRIOS: CESLAU

    BIEZANKO E JAN WRBEL NA INTRODUO DA SOJA EM GUARANI

    DAS MISSES NO INCIO DA DCADA DE 1930

    RHUAN TARGINO ZALESKI TRINDADE

    I.E.E. Paulo da Gama/UFRGS

    rhuan.trindade@hotmail.com

    Introduo

    Este trabalho pretende fazer uma amostra e um exerccio, da utilizao da

    anlise de redes sociais para os estudos imigratrios com o tema da imigrao polonesa

    no Rio Grande do Sul, enfocando os vnculos sociais estabelecidos por Ceslau

    Biezanko, imigrante polons que chegou ao estado na dcada de 1930 e se inseriu em

    um ncleo colonial de poloneses, localizado na atual cidade de Guarani das Misses,

    onde, conseguiu, de modo incipiente, desenvolver a cultura do soja, muito antes do

    boom dos anos 19601, com Jan Wrbel. Wrbel, tambm polons, foi proco do ncleo

    Comandahy da Colnia Guarany, e figura essencial da anlise, uma vez que enquanto

    religioso, funcionava como mediador da comunidade, sendo importante na relao de

    Biezanko com os colonos e demais habitantes do ncleo colonial.

    A contribuio dos estudos de redes bem desenvolvida, entretanto, estudos

    sobre redes sociais nos contextos migratrios do Brasil se resumem, at o momento, a

    trabalhos pontuais. Portanto, este artigo alm de ser uma amostra tambm um exemplo

    das possibilidades dos estudos das redes sociais para a imigrao europeia no Brasil,

    assunto que, como gerador de estudos, ainda no se esgotou, mas o qual, sem novos

    1 O produto ganhou notabilidade a partir do final dos anos 1960 dentro da economia brasileira com a

    decadncia da agricultura tradicional e a modernizao incentivada pelo Estado Brasileiro no ps-segunda

    guerra, esta cultura passou a se desenvolver atingindo resultados importantssimos para a economia

    nacional. (BRUM, 1988). Na regio de Guarani das Misses, segundo alguns entrevistados (P. M. e A. A.), os anos 1970 representam o grande momento da soja, quando os colonos chegaram a abandonar a

    policultura para produzir aquele.

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    mtodos, como bem coloca Levi (2009), parece estar envelhecido, ficando muito

    descritivo e estandartizado.

    Desse modo, pensamos em utilizar a noo de mediador para pensar a

    constituio da rede a partir da intercesso padre-colonos. Sabemos que a rede

    conformada a partir dos laos com o padre deve ter tomado grandes propores,

    primeiro em virtude de o sacerdote ser figura central de agregao das comunidades

    polonesas, somando-se a isso, a prpria lgica da sociedade camponesa

    (WOORTMANN, 2004, CHAYANOV, 1974), em que as relaes de parentesco e com

    os chamados notveis so prementes, deste modo, chegaramos a um grfico sem fim de

    ligaes pessoais, sejam elas mais dbeis sejam mais fortes. Logo, limitamo-nos aos

    laos pessoais de Biezanko com o mediador, analisando um n relacional e suas

    conexes num sistema determinado, em que o cientista inserido numa rede de laos

    preexistentes de padre e colonos e as reconstitui com a criao de espaos de interao.

    Redes sociais: o mtodo

    As anlises das redes sociais surgiram por volta dos anos 1960. Barnes, Mitchell,

    Bott e Boissevain so os pioneiros deste trabalho. Inspirada na network analysis da

    antropologia social britnica dos anos 1950 e 1960 e da structural analysis norte-

    americano dos anos 1970 e 1980 (RAMELLA, 1995), o mtodo foi sendo apropriado

    pelos estudos histricos com os mais diversos temas e para os mais diferentes perodos.

    Tal tipo de anlise apareceu como alternativa e rechao histria estrutural (MGUEZ,

    1995, p. 23) e s categorias sociais agregativas scio-econmicas, as quais no davam

    conta dos comportamentos dos indivduos (RAMELLA, 1995; GIL, 2011), nesse

    sentido, as redes sociais incidiriam o foco da anlise sobre os sujeitos (no apenas

    indivduos, mas instituies, empresas, cidades, etc.). Assim, os estudos migratrios so

    um dos cernes possveis da utilizao da anlise de redes sociais, principalmente na

    constituio da solidariedade na sociedade de recepo, verificando a partir do(s)

    indivduo(s): fluxos migratrios, insero na sociedade receptora, mobilidade social,

    insero profissional dos imigrantes, constituio de lideranas tnicas, entre outras.

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    Franco Ramella (1995, p. 9) asseverava por um uso forte" e rigoroso do

    conceito de rede para os estudos imigratrios. Conforme o autor, a superao do

    paradigma do desenraizamento e da imigrao como ao de desesperados, para uma

    viso do ponto de vista estratgico e eletivo dos indivduos, levou a uma preocupao

    maior com os vnculos sociais, porquanto, os estudos econmicos no contemplavam

    estas relaes na sua discusso. Para Ramella, o conceito de rede tem muito a oferecer

    para a historiografia, ainda que no seja uma panaceia, contudo, um uso dbil do

    conceito poderia levar a reduzir o instrumento analtico a uma frmula vaga e ambgua,

    quando no desviante (RAMELLA, 1995, p. 10).

    Tiago Gil (2011, p. 83) aponta que Este tipo de investigao [redes sociais]

    associado a pesquisas realizadas diretamente com os informantes, muitas vezes atravs

    de formulrios padronizados e quantificveis, ou seja, material emprico

    especificamente produzido para a pesquisa., de modo que sem tais fontes no

    possvel analisar a constituio das redes sociais, muito menos sua medida, forma,

    intensidade, manuteno e coeso, ou seja, sua mensurao e as definies objetivas dos

    seus contornos. Assim sendo, um uso metafrico2 do conceito torna-se premente com

    intuito de avaliar com ateno o impacto dos laos sociais nas vidas das pessoas. Nesse

    nterim, assim como Mguez (1995), diante da pobreza das fontes, opta-se por um uso

    mais brando do conceito de redes, posto que um uso forte, como o pregado por Ramella,

    seria possvel apenas em casos excepcionais.

    Como estamos diante de um perodo recuado de tempo, em que boa parte dos

    componentes da rede j no podem dar as informaes, apenas os seus parentes e em

    virtude de as fontes documentais e correspondncias serem esparsas, pensamos em

    utilizar esta perspectiva mais metafrica, buscando no entanto, no reificar a questo da

    2 Segundo Mguez El agudo texto de Ramella muestra acabadamente la capacidad crtica del concepto de

    red al modelo estructural. El problema cmo hacer operativo el modelo de redes sociales em base a

    nuestras pobres fuentes histricas, em cambio, es algo que el texto no indica, y que no pudimos resolver

    [...] mais tarde amplia a discusso avanando que debo hacer uma advertencia al leetor: este texto no se

    propone como uma aplicacin rigurosa del modelo de redes, y sin embargo, la incorporacin metafrica

    de la nocin constituye um valioso elemento para uma visin rica y compleja del proceso migratrio. Pregando um uso blando o metafrico do tema com vistas a apreender a importncia dos vnculos

    sociais nos processos histricos.

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    parentela, amizade ou apenas apontar a existncia dos vnculos relacionais e da rede,

    per se, mas demonstrar o modo como esta permite a divulgao e circulao de ideias,

    recursos e materiais (BERTRAND, 1999), que vo incorrer na tentativa de introduo

    de uma novidade numa colnia polonesa no noroeste do Rio Grande do Sul. Assim

    analisaremos de modo detido os laos sociais a partir de um n da rede, pensamos a

    partir da rede egocentrada, em que se foca um ator estendendo-se a um terceiro

    (FAZITO, 2002), os quais ajudam a entender a estrutura mais complexa das relaes

    padre-cientista-colonos.

    O campons polons no Rio Grande do Sul

    Para examinar os componentes tnicos e a estruturao da rede em torno da

    mediao do padre, cabe pensar os elementos dela, quais sejam, os imigrantes

    estrangeiros no Brasil. A imigrao polonesa est inserida no contexto das ondas

    imigratrias provindas da Europa rumo a Amrica, principalmente do ltimo quarto do

    sculo XIX at 1930, as quais esto no bojo da oferta de trabalho e terras3 que os pases

    americanos dispunham, do aumento demogrfico e de presso social nos pases do

    velho mundo, e do desenvolvimento dos meios de transporte e comunicao ao longo

    do sculo XIX. Ou seja, do avano do capitalismo tanto em nvel europeu, quanto

    americano (LANDO, et. al., 1996).

    Como aponta Wachowicz (1974), na Polnia do sculo XIX, a situao era

    extremamente particular, uma vez que, oficialmente, o pas no existia, estando seu

    antigo territrio dividido entre os Imprios Prussiano, Austraco e Russo, cada qual com

    diferentes maneiras de administrar a situao dos poloneses. Somado a isto, o fim da

    servido e a instalao do modo de produo capitalista na regio criaram uma srie de

    dificuldades para o campons polons, a principal delas, a questo da falta de terra e da

    proletarizao da mo de obra rural. A partir desta situao, uma das alternativas foi a

    3 Tal oferta tem sido discutida no caso brasileiro (ZARTH, 1997), posto que os lavradores nacionais, ou caboclos, em geral foram expulsos de diversas pores de terras que viriam a ser ocupadas por

    imigrantes europeus, estes, em grande medida, favorecidos pela poltica nacional.

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    emigrao. Esta ocorreu em duas vias principais: os Estados Unidos, que recebiam

    indivduos, os quais na maioria das vezes emigravam sozinhos em busca de servios

    urbanos. E outra foi o Brasil, que ofereceu lotes coloniais nos estados sulinos para

    famlias de camponeses ansiosos por melhorar sua condio de vida, ainda que

    permanecendo no camp