Redes Sociais para o Desenvolvimento Sustentável Local ...· amplo. Há décadas estudos abordam

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Redes Sociais para o Desenvolvimento Sustentvel Local: uma Anlise Qualitativa e Quantitativa de sua Governana

Autoria: Lvia Garcez de Oliveira Padilha, Jorge Renato de Souza Verschoore Filho

Resumo Este artigo se insere no contexto de redes sociais formadas em prol do desenvolvimento sustentvel local. Seu objetivo principal estabelecer e analisar construtos que caracterizam a governana de redes sociais em quatro Fruns Locais de Agenda 21 no RS. O artigo teve como base a teoria sobre desenvolvimento sustentvel local, redes sociais e governana. Foram adotados mtodos qualitativos e quantitativos na anlise de quatro redes sociais. A pesquisa demonstrou que os cinco construtos estabelecidos, objetivos comuns, alinhamento, envolvimento, densidade e centralizao, podem facilitar o alcance dos resultados pretendidos pelas redes sociais e contribuir para o desenvolvimento sustentvel local.

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1. Introduo

Em uma sociedade com relaes econmicas, sociais e ambientais evidentes e interconectadas tem-se a opo de um percurso de desenvolvimento com foco na sustentabilidade, cujo pressuposto considerar estas trs esferas sociais como igualmente relevantes. Porm, as iniciativas para que o caminho da sustentabilidade seja possvel encontram diversas dificuldades, uma vez que a cooperao entre as naes, ou at mesmo entre pessoas, demasiada complexa para que seja facilmente articulada. Apesar deste quadro de problemas, no devem ser desconsideradas as boas prticas de sustentabilidade em escala local, que dependem da capacidade de atores locais ou regionais (JACOBI, 2005).

A fragilidade da coordenao e de consenso entre os atores sociais limita as aes conjuntas, deixando o caminho da sustentabilidade invivel e, muitas vezes, impossvel. Este cenrio revela as fragilidades da estrutura de governana atual, mostrando os limites desta abordagem, que continua a lidar com sintomas individuais e no com as suas inter-relaes. Portanto, entende-se que, quando uma rede constitui-se com um propsito comum, como o desenvolvimento sustentvel local, ela passa a ter mais fora do que se todos os membros deste grupo tentassem atingir objetivos separadamente. Nesta lgica, a ao individual tem poucas condies de promover o propsito comum (OLSON, 1999), especialmente nas questes que envolvem interesse contrastante como os relacionados com a sustentabilidade.

As contribuies dos estudos de Sachs (1986) que deram origem ao termo desenvolvimento sustentvel e diversas iniciativas internacionais de reunio e proposio de aes culminaram na proposta da Agenda 21. Esta iniciativa foi resultado da Conferncia das Naes Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD) e organiza uma srie de diretrizes na busca por um caminho sustentvel, aliando temas diversos e que convergem em uma Agenda para o sculo XXI. Para a Agenda 21, existe a necessidade de uma forma de governana que abranja esta problemtica, visto que um componente de cooperao (JACOBI, 2003, p. 202), pode estar justamente na interao entre diferentes atores sociais, em seus conhecimentos e nas provveis solues para as dificuldades.

O tema do desenvolvimento sustentvel emergente e ainda no consolidado. Por conseguinte, este artigo pretende contribuir com o tema incorporando a lgica de redes. Tendo em vista que as interaes em uma sociedade em rede (CASTELLS, 2009) e o conhecimento sobre redes que se desenvolveu recentemente (WATTS, 2009; BARABSI, 2009) possibilitam o imaginrio de construo de uma rede global em torno do desenvolvimento sustentvel. Neste contexto, a governana das redes sociais torna-se um tema relevante. Ela entendida como um conjunto de processos que auxiliam as redes a serem formas estveis de coordenao (NEWIG et al, 2010). Este artigo investiga como se caracteriza a governana de redes sociais na busca pelo desenvolvimento sustentvel local. Seu objetivo principal estabelecer e analisar os construtos que caracterizam a governana de redes sociais estabelecidas por meio dos Fruns Locais da Agenda 21.

Para atingir o objetivo proposto, o artigo est organizado em seis sees, juntamente com sua introduo. Na seo dois, a seguir, h a contextualizao dos temas de pesquisa, em especial, do desenvolvimento sustentvel local, das redes sociais e da governana. Na seo trs, so apresentados e discutidos os cinco construtos estabelecidos com base na teoria. Na sequncia, so detalhados os aspectos metodolgicos do artigo, onde esto indicadas as tcnicas de coleta e de anlise de dados qualitativos e quantitativos, em cada uma das etapas da investigao. Na quinta seo, os resultados da pesquisa so discutidos com nfase na anlise de cada um dos construtos. Ao final, na seo seis, so apresentadas as consideraes finais, no que tange s implicaes e s limitaes do estudo.

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2. Governana de Redes e Desenvolvimento Sustentvel Local

Conforme avana a economia mundial, suas interaes com a dimenso social e ambiental tornam-se mais evidentes para a sociedade. E se, por muito tempo a ateno esteve focalizada predominantemente na eficincia econmica, pode-se dizer que hoje o olhar mais amplo. H dcadas estudos abordam a questo da ao coletiva, desde a teoria da tragdia dos comuns (HARDIN, 1968), at a teoria da lgica da ao coletiva (OLSON, 1999). Ostrom (1990) possui uma viso mais otimista da prtica de governana de bens comuns, como a gua, que salienta em sua teoria do governo dos iguais. Desde o ano de 1972, a Conferncia das Naes Unidas sobre Meio Ambiente Humano tornou claro que seria preciso qualificar o desenvolvimento econmico de forma a diferenciar as prticas correntes de degradao ambiental de novos procedimentos, mais condizentes com a nova percepo da finitude dos recursos naturais (BURSZTYN, 2006). Como resultado desta conferncia surgiu a Agenda 21 Global, construda com a contribuio de governos e instituies da sociedade civil de 179 pases e sustentada na ideia da ao coletiva. Nela, cada pas signatrio ficou responsvel por desenvolver a sua prpria Agenda 21 Nacional, e esta agenda realizaria projetos localmente.

Paralelamente, os avanos no conhecimento sobre as redes e o surgimento de diversas redes sociais e organizacionais despertaram para o aprofundamento da compreenso sobre da governana de redes. Em sua essncia e definio mais simples, rede um conjunto de atores ligados por relaes ou laos de tipos especficos (BARABSI, 2009), podendo ser estudada em trs nveis fundamentais: os atores, as conexes e a rede como um todo (TODEVA, 2006). At recentemente, acreditava-se que as redes no diferiam entre elas significativamente. Esta suposio era de que as redes eram somente uma resposta s falhas de mercado e hierarquias e, como tal, eram similares em sua forma (WILLIAMSON, 1991). Outros estudos demonstraram que as redes podem ser entendidas como um modo distinto de coordenao (POWELL, 1990), mas poucos abordaram como elas so governadas (PROVAN et al., 2007).

Neste sentido, alguns autores ressaltam que mesmo quando a governana de redes discutida na literatura, em geral, ela abordada em termos de atividades especficas realizadas para uma determinada rede, ao invs de serem estudados em uma forma comparativa. Em outras palavras (...) parece haver certa relutncia entre os que estudam redes em discutir os mecanismos formais de controle. Pois a suposio comum de que como as redes so acordos de colaborao, a governana, que implica hierarquia e controle, inapropriada (KENIS; PROVAN, 2006, p. 230). Opostamente, a governana de redes se distingue do tradicional comando e controle, propondo mecanismos que facilitam a realizao dos seus propsitos. Ela pode ser definida como a coordenao das relaes interdependentes entre atores, ou seja, o conjunto de processos que tornam as redes organismos perenes (NEWIG et al., 2010).

Estudos nacionais e internacionais tm contribudo com a compreenso da governana de redes interorganizacionais. Provan e Kenis (2008), por exemplo, afirmam que as redes podem ser governadas de trs maneiras: autogovernana, governana a partir de um lder e governana a partir de uma entidade administrativa. Em outro estudo, Provan e Sydow (2008) propuseram os critrios de estrutura, processos e resultados para orientar a anlise das redes e relaes interorganizacionais. No Brasil, o estudo de Antunes et al. (2010) apresenta caminhos para a anlise das governana em redes entre pequenas empresas. J a pesquisa de Suzigan et al. (2007), por sua vez, trouxe contribuies para entender a governana em arranjos locais de produo. Tais contribuies formam a base para avanar na compreenso da governana de redes sociais e para o estabelecimento de construtos de anlise, os quais sero discutidos na prxima seo.

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3. Construtos de Governana de Redes Sociais Tendo como alicerce os estudos nacionais e internacionais no mbito das relaes

interorganizacionais, percebe-se a necessidade de aprofundar o conhecimento da governana nas redes sociais. Em obras de administrao, identificam-se elementos que caracterizam a governana de redes interorganizacionais, assim, entende-se que estes podem subsidiar a estruturao dos construtos propostos para a governana de redes sociais. Ainda que tenham enfoques diferentes, elas proporcionam o embasamento terico necessrio aos construtos.

As redes sociais voltadas ao desenvolvimento sustentvel local orientam-se para um bem comum, com um comprometimento coletivo (SCHERER-WARREN, 1996). Este comprometimento se estabelece atravs da ao coletiva, a qual demanda articulaes de diversos e multifacetados atores sociais, definindo objetivos comuns e reduzindo atritos e conflitos, considerando as caractersticas complexas e heterogneas da sociedade (JACOBI, 2003). Para Santos (2011), uma das ameaas enfrentadas, hoje, diz respeito questo ecolgica, e seguindo a noo de trip da sustentabilidade, uma interconexo entre diferentes atores de esferas sociais necessria para o desenv