Referências Bíblicas na poesia de Manuel António Pina ... ?· significativa para a dimensão heurística…

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  • Referncias Bblicas na poesia de Manuel Antnio Pina

    Infncia, morte e outros regressos

    Isabella Caroline Arajo

    Dissertao realizada no mbito do Mestrado em Estudos Literrios, Culturais e

    Interartes Ramo de Estudos Romnicos e Clssicos Variante de Literaturas de

    Expresso Portuguesa, orientada pela Professora Doutora Rosa Maria Martelo

    Fernandes Pereira

    Membros do Jri

    Professora Doutora Zulmira da Conceio Trigo Gomes Marques Coelho Santos

    Faculdade de Letras Universidade do Porto

    Professora Doutora Joana Matos Frias

    Faculdade de letras - Universidade do Porto

    Professors Doutora Rosa Maria Martelo Fernandes Pereira

    Faculdade de letras - Universidade do Porto

    Classificao obtida: 17 valores

  • 2

    A Deus, aos meus pais e aos professores que tive ao longo de minha vida.

  • 3

    Ser sempre sem dvida a leitura o que atravs

    da linha do tempo ressuscita o aedo

    (Fiama Hasse Pais Brando)

  • 4

    Sumrio

    Agradecimentos.... 5

    Resumo..... 6

    Abstract.... 7

    Introduo.... 8

    1. Captulo 1 A Literatura e a tradio bblica............ 11

    1.1 A Bblia como referncia literria...... 11

    1.2 Texto e intertexto Aferindo a noo de intertextualidade...................... 18

    1.3 Ladres que roubam a ladres A intertextualidade condio de criao na

    poesia de Manuel Antnio Pina .............................................................................. 24

    2. Captulo 2 Uma viso bblica e literria das ideias de morte em M.A.P........... 29

    2.1 A linguagem como perda da inocncia O Livro de Gnesis........................... 30

    2.2 A morte como abandono do desejo pessoal O Livro de J............................. 53

    2.3 Morte e aniquilao do corpo O Evangelho de So Joo................................ 62

    Concluso........................................................................................................... 81

    Bibliografia..................................................................................................................... 84

    1. Bibliografia Ativa............................................................................................... 84

    2. Bibliografia Passiva............................................................................................ 86

    3. Bibliografia Geral............................................................................................... 90

    Agradecimentos

  • 5

    Professora Rosa Maria Martelo, pela ajuda na escolha do tema do trabalho, pela flexibilidade e pela orientao sempre to precisa e enriquecedora. Aos professores do MELCI, pela ajuda na construo do entendimento que tenho hoje das literaturas de Lngua Portuguesa. Aos colegas do MELCI, pelo companheirismo e pelas contribuies to significativas que fizeram em sala de aula. cidade do Porto, pela oportunidade de conhecer, viver e amar uma nova cultura. amiga Renata Ribeiro Lima, pela incentivo constante durante o desenvolvimento deste projeto. Aos meus pais e irmos, pelo apoio e amor incondicional e eterno.

    RESUMO

  • 6

    O objetivo deste trabalho analisar as relaes de intertextualidade da poesia de Manuel

    Antnio Pina com os textos bblicos. Em primeiro lugar, procurou-se apresentar a

    influncia da tradio bblica na literatura contempornea, levando-se em considerao

    a intertextualidade como apropriao pessoal e condio de criao potica. Em

    seguida, foi apresentado um panorama da teoria da intertextualidade a partir de autores

    como Mikahil Bakhtin, Julia Kristeva, Roland Barthes e Grard Genette. Para finalizar,

    procurou-se analisar com maior detalhe o dilogo intertextual entre a poesia do autor e

    os textos bblicos. Relacionou-se a criao descrita no Gnesis tentativa de

    compreenso do mundo; o antagonismo entre perder e ganhar a vida proposto no livro

    de J, anulao do eu; e a ideia de nascimento e morte do messias apresentada no

    Evangelho de Joo, com a concepo de morte do autor. As referncias bblicas

    incorporadas aos poemas do autor relevam de uma potica pessoal e no exprimem

    necessariamente um sentimento religioso, no entanto, contribuem de maneira

    significativa para a dimenso heurstica desta poesia.

    Palavras-chave: Poesia Portuguesa, Intertextualidade, Religio, Bblia

    ABSTRACT

  • 7

    The objective of this study is to analyze the intertextual relations of Manuel Antnio

    Pina poetry with biblical texts. First, it tried to present the influence of biblical tradition

    in contemporary literature, taking into account the intertextuality as personal ownership

    and condition of poetic creation. It was then presented an overview of the theory of

    intertextuality from authors like Mikail Bakhtin, Julia Kristeva, Roland Barthes, and

    Grard Genette. Finally, it tried to analyze in more details the intertextual dialogue

    between the poetry of the author and biblical texts. It was related the creation described

    in Genesis to attempt to understand the world; the antagonism between losing and

    gaining life proposed in the book of Job, to the cancellation of the self, and the idea of

    the birth and death of a Messiah presented in Johns Gospel with the concept of death

    of the author. The biblical references incorporated into the authors poems matters to a

    personal poetic and do not necessarily express a religious feeling, however, contribute

    significantly to the heuristic dimension of poetry.

    Keywords: Portuguese Poetry, Intertextuality, Religion, Bible

    Introduo

  • 8

    "De onde vim?", "quem sou?", "o que acontece depois da morte?" - sempre

    foram estas as grandes questes da humanidade. Seja pela vertente religiosa, seja pela

    vertente filosfica, muitos so os que buscam responder a essas interrogaes. A poesia

    de Manuel Antnio Pina caracteriza-se por ser essencialmente marcada por estas

    questes estruturantes, de modo que o gosto pela infncia, pelo silogismo e pelo

    paradoxo esto nela muito presentes. No admira, pois, que os poemas estejam

    permeados de referncias e citaes filosficas e bblicas. Manuel Frias Martins afirma

    que entrar em contato com a poesia de M.A.P.1 deparar com a busca incessante de

    um sentido (filosfico) para os arqutipos que organizam a experincia humana: a

    (in)finitude do ser, a luta entre o aparente e o essencial, entre morte e vida; entre, enfim,

    os contrrios que tutelam a existncia (Martins 1986: 108). Embora verifiquemos nas

    obras de M.A.P. um reforo a essas indagaes, como o prprio autor afirma, seus

    textos se relacionam mais com uma religio sem f2 do que com uma ligao ao

    divino. Ins Fonseca Santos esclarece, ao comentar os poemas de M.A.P., que a

    literatura o verdadeiro guia religioso de Pina (cf. Fonseca 2004: 30). O poeta e

    ensasta Octavio Paz, ao avaliar a relao entre experincia religiosa e experincia

    potica, enfatiza que ambas apresentam muitas similaridades. Enquanto a primeira

    busca uma converso do ser humano, a segunda procura uma transformao, ou seja,

    almeja instaurar um novo sagrado (cf. Paz 1982: 118). Ao nos apoiarmos nestas

    ltimas duas afirmaes, de que a poesia um novo sagrado e que M.A.P. enxerga

    sua potica como uma religio sem f, como base do estudo, temos como objetivo

    principal do trabalho, averiguar a interlocuo entre a criao potica do autor e os

    discursos teolgicos.

    No primeiro captulo, a relevncia da influncia bblica na poesia de M.A.P ser

    contextualizada, tendo-se em conta a importncia da intertextualidade para os escritores

    e poetas do mesmo perodo. Em seguida, faremos um breve panorama da teoria da

    intertextualidade, a partir de autores como Mikahil Bakhtin, Julia Kristeva, Roland

    Barthes e Grard Genette, e apresentaremos o conceito de intertextualidade que ser

    1 Manuel Antnio Pina usava com frequncia o acrnimo M.A.P., ao qual tambm recorreremos por

    razes de sntese e de facilidade de leitura.

    2 A poesia uma espcie de religio sem f (a minha, acho eu, ), sendo provvel que essa vocao de

    religio (que , em sentido literal, uma vocao de compreenso), a ponha diante de algumas intuies

    metafsicas e ontolgicas. Cf. poesia pouco mais dado dizer do que o silncio do mundo,

    entrevista a Osvaldo Manuel Silvestre e Amrico Lindeza Diogo (Pina 2000a: s/p)

  • 9

    adotado neste trabalho. Posteriormente, analisaremos a intertextualidade como

    apropriao pessoal e condio de criao literria na potica do autor.

    Devido ao destaque dado pelo autor ao tema morte, como foi reforado por Eduardo

    Loureno em seu ensaio Manuel Antnio Pina: A Ascese do Eu, ao declarar que na

    poesia de Pina o espao matricial o da morte (Loureno 2010: 7), procuraremos no

    segundo captulo, apresentar o modo como o autor utiliza as passagens bblicas

    integrando-as em sua reflexo e criao poticas. O corpus em anlise constitudo pela

    poesia reunida em Todas as Palavras Poesia Reunida. Para um melhor

    aproveitamento, dividimos a anlise dos poemas tendo em conta os livros bblicos de

    maior relevncia na obra do autor. Durante uma entrevista concedida a Anabela Mota

    Ribeiro, Manuel Antnio Pina comentou seu grande interesse pelos diversos livros

    bblicos (Pina 2013a). Posteriormente, em conversa com Carlos Vaz Marques, o autor

    especificou: "(...) Ao longo da minha vida tenho tido relaes particular