REFLEXÕES EM TORNO DO PRINCÍPIO REPUBLICANO Enrique

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  • REFLEXES EM TORNO DO PRINCPIO REPUBLICANO

    Enrique Ricardo Lewandowski

    Resumo: O autor enfatiza que no Pas. quando se adotou a forma republicana de governo, na verdade se estava definindo um dos princpios estruturantes da Lei Maior e a histria do princpio republicano, desde a Roma Antiga at o republicanismo e a virtude cvica da poca contempornea.

    Palavras-chave: Res Publica. Res populi. Liberdade. Igualdade. Legalidade. Eletividade. Temporariedade. Republicanismo.

    Abstract: The author emphasizes that, when the republican form of government was adopted in the country, in truth it was defining one of the basal principies of the Constitution and the history of the republican principie, since old Rome until republicanism and the civic virtue of contemporary time.

    Keywords: Res Publica. Res populi. Liberty. Iguality. Elefivity. Temporariety. Republicanism.

    1. Princpio estruturante

    Os constituintes de 1988, no por acaso, adotaram a forma de governo escolhida pelo povo no ano de 1891, em substituio monarquia, estabelecendo, logo no art. Io da Carta Magna, que o Brasil uma repblica. Tratou-se de uma opo deliberada e plena de conseqncias, expressamente ratificada pela cidadania no plebiscito realizado em 7 de setembro de 1993, levada a efeito ao mesmo tempo em que definiram que o Estado teria uma configurao federal e adotaria o regime democrtico.

    A se levar em conta a importncia da topologia para a hermenutica constitucional, no h como deixar de reconhecer que, quando se adotou a forma republicana de governo, na verdade se estava definindo um dos princpios estruturantes de nossa Lei Maior. Com efeito, o princpio republicano, ao lado dos princpios federativo e democrtico, configura, no dizer da doutrina, o "ncleo essencial da Constituio",1 visto que lhe garante uma determinada identidade e estrutura.

    Os princpios constitucionais, longe de configurarem meras recomendaes de carter moral ou tico, consubstanciam regras jurdicas de carter prescritivo,

    Presidente da Comisso de Publicao da Revista da Faculdade de Direito da Universidade de So Paulo e Professor Titular de Direito do Estado da Faculdade de Direito da Universidade de So Paulo.

    1 CANOTIl.HO, Jos Joaquim Gomes. Direito Constitucional. Coimbra: Almedina, 1992. p. 349.

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    hierarquicamente superiores s demais e "positivamente vinculantes"2 A sua inobservncia, ao contrrio do que muitos pregavam at recentemente, atribuindo-lhes uma natureza apenas programtica, deflagra sempre uma conseqncia jurdica, de maneira compatvel com a carga de normatividade que encerram.

    Independentemente da preeminncia que ostentam no mbito do sistema ou da abrangncia de seu impacto sobre a ordem legal, os princpios constitucionais, como se reconhece atualmente, so sempre dotados de eficcia, cuja materializao pode ser cobrada judicialmente se necessrio. Sua eficcia, porm, varia segundo o grau de abstrao ou generalidade que apresentam, podendo, conforme o caso, atribuir diretamente a algum um direito subjetivo, estabelecer um padro de interpretao a partir de uma hierarquia de valores, autorizar a invalidao de regras ou atos que lhes sejam contrrios ou, ainda, impedir a revogao de normas que frustrem a materializao dos fins neles apontados.3

    O princpio republicano, embora de carter fundamental, apresenta "larga abertura e baixa densidade" 4 fazendo-se necessrio, para conferir-lhe maior concreo, estud-lo luz de uma perspectiva histrica, de maneira a identificar suas caractersticas essenciais, moldadas ao longo de mais de dois milnios de elaborao doutrinria e prtica poltica, bem como confront-lo com outros princpios e subprincpios que dele decorrem.

    2. Res publica, res populi

    De Roma antiga, onde repblica identificava algo que a pertencia a todos (res publica) ou ao povo (res populi), at os dias atuais, o conceito sofreu uma longa evoluo, embora tenha conservado, em linhas gerais, os fundamentos axiolgicos que lhe deram origem.

    Instituda pelos romanos, no incio do sculo V a. C., a partir da superao da realeza, a repblica encerra a idia de coisa comum, de um bem pertencente coletividade, correspondendo em linhas gerais antiga noo grega de politeia, regime em que os cidados participavam ativamente da gesto da polis. Ope-se s demais formas de

    2 CANOTILHO, Jos Joaquim Gomes. Direito Constitucional. Coimbra: Almedina, 1992. p. 352. 3 BARROSO, Lus Roberto. Interpretao e aplicao da Constituio. 6. ed. So Paulo: Saraiva, 2004. p.

    377-379. 1 ESPNDOLA, Rui Samuel. Princpios Constitucionais e Atividade Juridico-Administrativa. In: LEITE,

    George Salomo (Org.). Dos Princpios Constitucionais: consideraes em tomo das normas principiolgicas da Constituio. So Paulo: Malheiros, 2003. p. 265.

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    governo, a exemplo da monarquia, na qual se reala o conceito de mando, ou seja, de archia, derivado archein, que significa comandar, chefiar.5

    Ccero definiu-a como a "coisa do povo, considerada tal, no todos os homens de qualquer modo congregados, mas a reunio que tem seu fundamento no consentimento jurdico e na utilidade comum"A repblica, portanto, para o pensador romano, no era uma mera multido de pessoas reunidas, sob uma determinada autoridade, mas uma comunidade de interesses organizada, sob a gide da lei.

    Maquiavel, embora paradoxalmente tenha defendido o exerccio de um poder sem limites por parte do prncipe, retomou, sculos depois, o conceito original de repblica, com base nos clssicos da antigidade.7 Na verdade, no apenas ele, mas tambm os demais republicanos do cinquecento, para os quais a idia de liberdade, balizada pela lei comum, constitua um dos eixos em torno qual girava o "humanismo cvico" que praticavam.8

    Nem sempre, porm, ao longo da Histria, o termo repblica teve o mesmo significado. Na Idade Mdia, as palavras res publica, imperium, regnum e civitas eram empregadas indistintamente para designar aquilo que hoje se entende por Estado (stato), expresso que s se tornou corrente a partir do sculo XVI.'' Mesmo depois de findo o medievo, no se atribuiu palavra qualquer significado especial, lembrando-se que Bodin associou-a ao exerccio de um poder absoluto e perptuo, que denominou de "soberano" 10

    3. Liberdade, igualdade e legalidade

    A concepo romana de repblica foi resgatada, no sculo XVIII, por Rousseau, para quem ela correspondia a um "Estado regido pelas leis, qualquer que seja a sua forma de administrao" aduzindo que "s ento o interesse pblico governa e a coisa pblica alguma coisa" 11 O pensador genebrino, ademais, desenvolveu a idia de que as leis procedem da vontade geral, derivada do contrato social, sem conhecer quaisquer restries (Quidquidpopuli placuit legis habet vigorem)}2

    5 Cf. verbete "Repblica" In: BOBBIO, Norberto [et al.]. Dicionrio de Poltica. Braslia: Editora Universidade de Braslia, 1991.

    6 De Repblica, 1,25. V. especialmente // Prncipe e Discorsi sopra Ia prima deca di Tilo Livio.

    8 Cf. Newton Bignoto, Maquiavel Republicano, So Paulo, Loyola, 1991, p. 57. 9 Cf. JELLINEK, Georg. Teoria General dei Estado. Buenos Aires: Albatros, 1973. p. 99. 10 Les six livres de Ia republique, I, 8. " Du Contrai Social, II, 6.

    Cf. JOUVENEL, Bertrand de. De Ia souverainet: a Ia recherche du bien politique. Paris: Gnin 1955 p 216 .

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    Mas a maior contribuio de Rousseau para o conceito moderno de repblica foi, sem dvida, a afirmao da igualdade essencial dos cidados, visto que o contrato, sobre o qual se assenta o Estado, coloca todos sob idnticas condies, fazendo com que tenham os mesmos direitos.13 Tambm a liberdade, para o autor, decorre do pacto fundamental, na medida em que somente aos que o integram compete editar normas de convivncia social.14

    Coerentemente com essas idias, Rousseau conclua que os cidados para fazer as leis exprimem sua vontade de forma direta, sem qualquer intermediao, rejeitando, assim, a possibilidade de representao, razo pela qual reduzia os deputados a meros comissrios do povo, "que no esto aptos a decidir definitivamente" 15

    Kant, seu contemporneo, embora entendendo tambm que a res publica latius sic dieta constitui "uma forma de unio criada pelo interesse comum de todos os que vivem sob o imprio da lei" 16 divergia da concepo rousseaniana da participao direta dos cidados no governo, explicando que uma verdadeira repblica " e no pode deixar de ser um sistema representativo, no qual os direitos do povo so custodiados por deputados que representam a vontade unificada dos cidados" 17

    4. Eletividade, temporariedade e responsabilidade

    No Novo Mundo a tese segundo a qual a representao popular configura o cerne de um governo republicano dominou o pensamento poltico. Madison, cujos escritos, ao lado dos de Hamilton e Jay, contriburam decisivamente para moldar o arcabouo institucional dos Estados Unidos, assinalava que uma repblica consiste num "governo que deriva os seus poderes direta ou indiretamente do povo, e administrado por pessoas que se mantm nos respectivos cargos, por um perodo limitado, ao arbtrio daquele, ou enquanto bem servirem" associando tambm noo o princpio da separao dos poderes desenvolvido por Montesquieu como instrumento de conteno do arbtrio dos agentes estatais.Is

    No Brasil, o ideal republicano inspirou, ainda que de forma difusa e inarticulada, grande parte das revoltas e insurreies deflagradas desde os fins do sculo XVIII e no decorrer da primeira parte da centr