Regras, princ­pios e opera§µes na reflex£o bio©tica de ... Gustavo Bueno © um pensador praticamente

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  • Revista Estudos Filosficos n 15/2015 verso eletrnica ISSN 2177-2967 http://www.ufsj.edu.br/revistaestudosfilosoficos

    DFIME UFSJ - So Joo del-Rei-MG Pg. 142 - 163

    Regras, princpios e operaes na reflexo biotica de Gustavo Bueno

    Antnio Jos Lopes Alves

    (UFMG Belo Horizonte MG Brasil) ajla@uol.com.br

    Resumo: O presente trabalho se refere a uma parte de projeto de pesquisa desenvolvido com o objetivo de discutir e revisar os principais pressupostos conceituais da Biotica a partir da perspectiva do materialismo filosfico. No contexto desta investigao se examina a reflexo terica do filsofo espanhol contemporneo Gustavo Bueno, o qual prope uma aproximao materialista dos problemas e categorias mais centrais do debate e das elaboraes bioticas. Com vistas efetivao desta propositura, o intelectual espanhol identifica como tarefa necessria o exame do estatuto racional da relao entre princpios e regras morais que servem de parmetros de deliberao e ajuizamento de posies e aes no terreno abrangido pela biotica. Por conseguinte, Bueno visa reformular o modo como tradicionalmente entendida aquela relao. Ora colocada sob a gide de uma lgica dedutiva de talhe especulativo, na qual as regras seriam puras derivaes ou casos de uma universalidade abstrata, ora concebida num registro imediatamente pragmtico ou indutivo, inevitavelmente casustico, a conexo entre princpios e regras quase nunca aparece remetida, segundo o autor, ao nvel da efetividade das relaes nas quais os sujeitos so convocados a escolher e julgar entre alternativas. Neste sentido, tanto o metro quanto o objeto de avaliao, as opes de deciso que se referem diretamente continuidade ou no de formas sociais de viver, e no limite de existir, deveriam ser determinados tendo por parmetro o contexto no qual se forma e se insere a pessoa como ente de relaes e interatuaes recprocas. Aqui, a vigncia da regra de ao pode muito bem retroagir sobre o princpio e motivar sua reconfigurao crtica. O que d azo reelaborao tambm de diversas outras categorias da reflexo tica, como a de autodeterminao, exempi gratia, que no pode mais ser pensadas dentro dos cnones kantianos. A pessoa, definida por ele como sujeito operatrio, necessariamente se diz no conceito de sua atuao frente ao conjunto da sociabilidade. A pessoalidade em sua esfera de autodelimitao concebida como uma atualidade ativa que se determina a partir do seu remetimento necessrio esfera de atuao dos demais sujeitos includos no circuito das relaes sociais. A srie de posies atualizveis no o so mais como deduo de princpios primeiros irrevogveis in absoluto, mas de normas processuais generalizveis reflexivamente a partir dos contextos problemticos nos quais as deliberaes acerca de vida e morte so requeridos. Palavras-Chave: Biotica; Materialismo; Gustavo Bueno; Regras; Princpios.

    I

    O presente trabalho se refere a uma parte de projeto de pesquisa desenvolvido com o

    objetivo de discutir e revisar os principais pressupostos conceituais da Biotica a partir da

    perspectiva do materialismo filosfico, intitulado Reviso Crtico-Materialista da Biotica.

    Entre as tarefas propostas dentro desta iniciativa investigativa est exatamente, alm de buscar

    precedentes conceituais de tratamento de problemas tpicos da biotica na tradio

  • Revista Estudos Filosficos n 15/2015 verso eletrnica ISSN 2177-2967 http://www.ufsj.edu.br/revistaestudosfilosoficos

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    materialista anterior, esquadrinhar nas formulaes contemporneas a existncia de esforos

    que se realizam na mesma direo do projeto.

    , por conseguinte, no contexto do exame de determinadas vertentes contemporneas

    que se aborda a reflexo terica do filsofo espanhol Gustavo Bueno, o qual prope uma

    aproximao materialista dos problemas e categorias mais centrais do debate e das

    elaboraes bioticas. Gustavo Bueno um pensador praticamente desconhecido fora do

    cenrio europeu, em especial da comunidade filosfica brasileira. Fato que se deve muito

    provavelmente a dois pontos principais: sua origem nacional, que mesmo na Europa, no

    desempenha papel central na tradio h pelo menos trs sculos; e tambm por seu

    posicionamento de princpio pela recuperao de uma reflexo de carter materialista, que

    parta prioritariamente da efetividade e da imanncia das categorias no concreto abordado a

    cada momento. Evidentemente que no se advoga aqui uma tese conspiratria, pois casos

    como o de Andr Comte-Sponville na Frana, autor que se filia igualmente reemergncia do

    materialismo e goza de prestgio, apontam para a complexidade do cenrio poltico-

    acadmico. No obstante, posicionar-se como materialista, elaborar suas posies atendendo

    prioridade categorial do existente, do efetivo, j de certo modo dispor-se a arcar com

    hostilidade crescente. A qual pode viger sob a forma da guerrilha do silncio, num ambiente

    cuja matriz , pelo menos desde o cartesianismo no mecanicista, a averso ao emprico, ao

    corpreo, ao carnal, ao finito.

    Com vistas efetivao desta propositura, o intelectual espanhol identifica como

    tarefa necessria o exame do estatuto racional da relao entre princpios e regras morais que

    servem de parmetros de deliberao e ajuizamento de posies e aes no terreno abrangido

    pela biotica. Por conseguinte, Bueno visa reformular o modo como tradicionalmente

    entendida aquela relao. Ora colocada sob a gide de uma lgica dedutiva de talhe

    especulativo, na qual as regras seriam puras derivaes ou casos de uma universalidade

    abstrata, ora concebida num registro imediatamente pragmtico ou indutivo, inevitavelmente

    casustico, a conexo entre princpios e regras quase nunca aparece remetida, segundo o autor,

    ao nvel da efetividade das relaes nas quais os sujeitos so convocados a escolher e julgar

    entre alternativas. Neste sentido, tanto o metro quanto o objeto de avaliao, as opes de

    deciso que se referem diretamente continuidade ou no de formas sociais de viver, e no

  • Revista Estudos Filosficos n 15/2015 verso eletrnica ISSN 2177-2967 http://www.ufsj.edu.br/revistaestudosfilosoficos

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    limite de existir, deveriam ser determinados tendo por parmetro o contexto no qual se forma

    e se insere a pessoa como ente de relaes e interatuaes recprocas. Aqui, a vigncia da

    regra de ao pode muito bem retroagir sobre o princpio e motivar sua reconfigurao crtica.

    O que d azo reelaborao tambm de diversas outras categorias da reflexo tica, como a

    de autodeterminao, exempi gratia, que no pode mais ser pensadas dentro dos cnones

    kantianos. A pessoa, definida por ele como sujeito operatrio, necessariamente se diz no

    conceito de sua atuao frente ao conjunto da sociabilidade. A pessoalidade em sua esfera de

    autodelimitao concebida como uma atualidade ativa que se determina a partir do seu

    remetimento necessrio esfera de atuao dos demais sujeitos includos no circuito das

    relaes sociais. A srie de posies atualizveis no o so mais como deduo de princpios

    primeiros irrevogveis in absoluto, mas de normas processuais generalizveis reflexivamente

    a partir dos contextos problemticos nos quais as deliberaes acerca de vida e morte so

    requeridos.

    II

    A seguir se expor em detalhe o modo particular em que se articulariam para Bueno

    regras, princpios e normas, ao acompanhar-se o desenvolvimento de sua argumentao

    contida no texto Principios y Reglas generales de la Biotica Materialista, publicado

    originalmente no nmero 25 da revista El Basilisco, em 1999, e posteriormente retomado,

    modificadamente, na obra Que s la Biotica?. Um dos problemas centrais de se repensar o

    terreno circunscrito pelos temas da biotica na forma dum campo do saber delimita-lo em

    relao ao objeto especfico que a circunscreveria. O desafio que emerge com respeito a isto,

    a partir de uma perspectiva materialista, ter de faz-lo sem o recurso da presuno terico-

    conceitual da autoevidncia de seus princpios, das categorias fundamentais de carter

    transcendental.

    No esprito desta dmarche especfica, Bueno procura ancorar sua propositura acerca

    da Biotica como disciplina reflexiva, para a qual necessariamente se deve pressupor um talhe

    unitrio, na existncia mesma dos desafios e dilemas bioticos colocados pela concretude

    vivida. Por conseguinte, esta unidade disciplinar "deriva de sua problemtica, da unidade de

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    enfrentamento prtico dos problemas clnicos, cientficos experimentais, polticos e sociais".

    O que de modo algum redunda numa

    [...] unidade doutrinal, e no porque suas resolues ou regras consensuais no requeiram desenvolvimentos doutrinais, e anlises precisas de seus princpios, mas porque a expresso "doutrina biotica" no tem o sentido prprio de um conceito unvoco: existem diferentes verses da Bioticas, segundo os princpios adotados. (BUENO, 2001, p. 60).

    De certo modo, reverbera aqui a afirmao sartreana segundo a qual a filosofia no

    existe, o que existem so filosofias. No que se negue a observncia de alguns traos

    caractersticos da posio reflexiva em geral, mas se adverte para que o fato de aqueles

    vigerem de maneira bastante diversa em escopo e sentido, nas diversas modalidades

    propositivas. Ou seja, o autor espanhol nega a unidade conceitual como mera aparncia

    imediata de uma comunidade de princpios, que se apresenta ao nvel do senso-co