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  • Uma avaliao sobre a relao

    multiculturalismo e educao

    Vera Rudge Werneck*

    Ensaio: aval. pol. pbl. Educ., Rio de Janeiro, v. 16, n. 60, p. 413-436, jul./set. 2008

    * Doutora em Filosofia, Universidade Gama Filho; Professora Titular da Universidade Catlica de Petrpolis. E-mail: vera.werneck@ucp.br

    ResumoO artigo tem como objetivo a avaliao da relao entre multiculturalismo e

    educao. Inicia com consideraes gerais sobre o tema, passando, em seguida,para a anlise das noes de identidade e de cultura, categorias indispensveis paraa compreenso da noo de multiculturalismo. Conceitua ento a educao como oprocesso que leva o educando a reconhecer, apreender e hierarquizar os valores demodo prprio e adequado para que possa situar-se no mundo como pessoa e comopersonalidade. Entendendo a avaliao como a anlise do valor de algo com rela-o a um determinado referencial, vai fundamentar-se do ponto de vista filosfico naTeoria dos Valores de Max Scheler (1955) e de Yvan Gobry (1975). Do ngulo soci-olgico baseia-se em Toms Tadeu da Silva (1994, 2005). Conclui levantando asexigncias da educao com relao ao multiculturalismo e mostrando a necessida-de do estabelecimento de referenciais para que se possa realizar o procedimento daavaliao dessa relao.

    Palavras-chave: Multiculturalismo. Educao. Identidade. Cultura. Avaliao.

    An evaluation on the relationshipbetween education and multiculturalismAbstractThe purpose of the article is to evaluate the relationship between multiculturalismand education. Initially, general considerations are made on the subject matterand, subsequently, an analysis is made of the concepts of identity and culture,which are indispensable categories for the comprehension of the concept ofmulticulturalism. The article goes on to conceptualize education as the procedurethat causes the learner to recognize, learn and classify values in a hierarchicalmanner, according to learners own method, in such a way as to enable theindividual to ascertain his position in the world as a person and personality.Understanding evaluation as the analysis of the worth of something in relation toanother determined point of reference and it is based on the philosophicalstandpoint of the Theory of Values developed by Max Scheler (1955) and YvanGobry (1975). From the sociological standpoint, it is based on the ideas of TomsTadeu da Silva (1994) (2005). The article closes with an assessment of the

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    education requirements with regard to multiculturalism and defends the need toestablish points of reference to enable an evaluation of this relationship.Keywords: Multiculturalism. Education. Identity. Culture. Evaluation.

    Una evaluacin sobre la relacinentre multiculturalismo y educacinResumenEl artculo tiene como objetivo la evaluacin de la relacin entremulticulturalismo y educacin. Empieza con consideraciones generales cerca eltema perpasando luego al anlisis de nociones de la identidad y cultura,categoras indispensables a la comprensin del multiculturalismo.Conceptuase, entonces, la educacin como el proceso que lleva al estudiante areconocer, asegurar y jeraquizar los valores de forma propia y acomodada paraque se pueda establecerse frente al mundo como persona y como personalidad.Mirando a la evaluacin como el anlisis de valor de alguna cosa en relacin aun dado referencial, va a fundamentarse en la mirada filosfica De La Teora delos Valores de Max Scheler (1955) y Yvan Gobry (1975). Del prisma sociolgico,asenta se em Toms Tadeu da Silva (1994, 2005). Se va a concluir alentando lasexigencias de la educacin en relacin al multiculturalismo y presentado lanecesidad de apuntamentos de referenciales para que se pueda hacer elprovenir de la evaluacin de esta relacin.Palabras clave: Multiculturalismo. Educacin. Identidad. Cultura. Evaluacin.

    O estado da questo: consideraes iniciaisDestacou-se recentemente nos jornais a notcia de uma tribo de ndios no Brasil

    que, num esforo para resgatar a sua cultura, sistematizou o ensino de seu idioma ssuas crianas. A matria enfatizava o objetivo da conservao e da transmisso dacultura dos antepassados e apresentava uma foto de ndios vestidos, segundo o seucostume com cocares, e pinturas, e relgios de pulso...

    Essa imagem traz de volta a antiga e atual questo da diversidade das formasculturais e da ao transformadora da educao.

    certo que cada povo, cada grupo humano, interfere na natureza a seu modo,resolve os problemas, ultrapassa os obstculos e desafios que ela lhe prope demaneira prpria e diferente. certo, tambm, que a educao tem como fim a huma-nizao do homem, o seu contnuo aprimoramento.

    Evidencia-se ento um paradoxo: como conciliar o respeito s peculiaridadesculturais e promover a educao, transformadora por definio?

    Percebem-se algumas correntes de pensamento que defendem o multiculturalismocomo a aceitao de todas essas manifestaes sem reflexo crtica, sem juzos devalor. Partem do pressuposto de serem todas elas igualmente vlidas e de que comotais, devam ser aceitas e transmitidas s novas geraes.

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    Por estranho que parea, especialmente na rea da educao que essasidias mais se desenvolvem. Educadores, conscientes das aes autoritrias dopassado em sua rea, buscando redimir-se dos erros cometidos, defendem omulticulturalismo como um vis relativista aceitando todas as culturas com seusprocedimentos e costumes, muitas vezes inadequados, desrespeitosos e injustospara com o ser humano.

    Acentua-se a contradio: por um lado, insiste-se na tolerncia, no acolhimentodas diferenas, no multiculturalismo, no pluralismo de opinies e de idias, de modosde ser e de viver. Por outro lado, nunca foi to forte e to intenso o controle doEstado, to numerosas as regras de bem viver e de bem pensar. H normas para anutrio ideal, para a sade, para o relacionamento sexual, afetivo, familiar e social.Vacinas e exames obrigatrios, regras e proibies para a educao de crianas,parmetros curriculares oficiais para o estabelecimento do currculo ideal.

    Ao mesmo tempo em que se defende a admisso de diferentes culturas na escola,apregoam-se normas rgidas de comportamento, consideradas como politicamentecorretas.

    Com freqncia esse politicamente correto entra em choque com usos e prti-cas culturais que so, por isso, condenadas como incompatveis com os novos ideaisda convivncia humana.

    Como entender tal paradoxo? Que critrios utilizar para contornar as dificuldadesque acarretam?

    Muito se acentua o fato da multiplicidade e da diversidade das culturas, maspouco se fala da fundamental igualdade do ser humano, no que se refere s suasnecessidades bsicas. Fala-se mesmo na exigncia de valorizao das identidadesplurais de gnero, etnias, padres lingsticos das sociedades multiculturais e at danecessidade de preparar professores para lidar com elas.

    No entanto, preciso considerar que a educao prope-se transformao dasociedade, ao desenvolvimento de suas potencialidades, ao seu crescimento moral e sua humanizao. Como conseguir esse feito, aceitando-se, ao mesmo tempo,passivamente, usos e costumes to imprprios para atingir tal objetivo?

    Mostra Toms Tadeu da Silva (2005, p. 85) que

    tornou-se lugar comum destacar a diversidade das formas culturaisdo mundo contemporneo. um fato paradoxal, entretanto queessa suposta diversidade conviva com fenmenos igualmente sur-preendentes de homogeneizao cultural. Ao mesmo tempo emque se tornam visveis manifestaes e expresses culturais de gru-pos dominados, observa-se o predomnio de formas culturais pro-duzidas e veiculadas pelos meios de comunicao de massa, nasquais aparecem de forma destacada as produes estadunidenses.

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    Ensaio: aval. pol. pbl. Educ., Rio de Janeiro, v. 16, n. 60, p. 413-436, jul./set. 2008

    Aqui chama ele a ateno para o que ocorre na mdia que, propondo-se adivulgar as diferentes manifestaes culturais, como que as dessacraliza, deturpa e,ao mesmo tempo, contribui para a formao de uma sociedade mais homogneaporque participante das mesmas informaes.

    A tolerncia, a complacncia e a atitude de aceitao do diferente tornam-seento caractersticas culturais universais do homem da atualidade.

    A indiferena ante a diversidade cultural, que apresentada como originalidade,como bizarrice, ao ser proposta pelos meios de comunicao social, que se constituitalvez no mais forte instrumento de homogeneizao cultural, revela mais um para-doxo do mundo contemporneo.

    interessante ainda registrar a colocao de Guareschi e Biz (2005, p. 42),quando mostram que

    a mdia no s diz o que existe e, conseqentemente, o que noexiste, por no ser veiculado, mas d uma conotao valorativa deque algo bom e verdadeiro, realidade existente. nessa instn-cia que so criados e legitimados determinados valores. E so elesque nos impulsionam a agir.

    Novo paradoxo: por um lado difundida a diversidade, multiplicidade das cultu-ras, por outro, feito um processo de valorizao e de desvalorizao das suasaes, o que vai corresponder educao e universalizao.

    Percebe-se ainda a impossibilidade de frear o processo histrico. No h soluopara essa questo: o desenvolvimento da humanidade se faz de maneira pacfica ouviolenta pela fuso, aglutinao, interao enfim, das produes culturais. No hcomo nem por que preservar as culturas em estados puros originais e intocados.

    Pode-se constatar que, ao crescimento do desejo de liberdade, de democracia, deigualdade de direitos, corresponde, pela insegurana e pelas necessidades de ordemprtica, a restrio liberdade, a perda de parte dos direitos civis, a exigncia deacomodao s imposies do Estado.

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