Relações da escultura entre Portugal e Espanha nas décadas de .2011-05-30 · 7 Apontava o DN

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    Relaes da escultura entre

    Portugal e Espanha nas dcadas

    de 40 e 50 do sculo XX1

    JOAQUIM SAIALDirector da revista de cultura Callipole

    (Vila Viosa, Alentejo, Portugal)Doutorando em Histria (Univ. Autnoma de Lisboa e Univ. de Salamanca)

    Mestre em Histria da Arte

    Conhece a nossa escultura contempornea?

    Tomei contacto com ela em Barcelona, na III Bienal, e confesso que gostei imensodos vossos escultores e, sobretudo, admirei em cada um as suas independncias est-ticas. Tanto Barata Feyo, como Duarte ou Fragoso e Martins Correia, so escultores degarra.

    E a sorrir diz-nos:

    E sabe porqu? porque estilizam e no esterilizam!

    Entrevista de Josep Caas a M. de O.

    Dirio Popular-29 Fev., 1956, p. 6

    ALGUNS ANTECEDENTES NO SC. XX

    De um modo ou de outro, sempre houve relaes na rea da esculturaentre Portugal e Espanha. Espordicas, certo, mas com alguma continuidade,como se espera de pases geogrfica e culturalmente prximos.

    Reportando-nos apenas ao sculo XX, lembremos em primeiro lugar aExposio Ibero-Americana de Sevilha, em 1929, na qual Portugal participoucom pavilho dos irmos arquitectos Rebelo de Andrade2 e diversas escultu-ras. Rui Gameiro apresentou uma cabea do navegador Bartolomeu Dias,

    1 No confundir neste texto o ditador Francisco Bahamonde Franco com o escultor portugus

    Francisco Franco.

    2 Hoje edifcio do consulado portugus naquela cidade andaluza.

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    Antnio da Costa um busto de outro, Joo Gonalves Zarco, e Csar Barreirosmais dois bustos, estes em madeira, de Antero de Quental e Beethoven. Parao salo de festas do pavilho, Henrique Moreira executou quatro baixos-rele-vos com danas do Minho, Ovar, Ribatejo e Alentejo e no ptio central estavauma fonte com uma figura feminina e uma cabra, de Joo da Silva. Almdestas peas, Portugal levava vrias esttuas: Afonso de Albuquerque e Cames,de Maximiano Alves, Infante D. Henrique, de Costa Mota, e o famoso Zar-co do escultor Francisco Franco, que fora a primeira esttua portuguesa aser exposta publicamente na lisboeta Avenida da Liberdade, antes de ir para oFunchal por pouco tempo para logo viajar para Sevilha e finalmente regressarao Funchal, capital da ilha da Madeira, onde ainda se encontra. Foi pois umsignificativo conjunto de obras e de escultores portugueses modernos queSevilha e os espanhis que visitaram a exposio tiveram ocasio de obser-var.

    Poucos anos depois, em 1933, um dos mais distintos escultores espanhis,Mariano Benlliure y Gil deslocava-se com a esposa e a enteada a Portugal,onde se encontraria com o colega Teixeira Lopes, de igual modo uma das

    JOAQUIM SAIAL

    Teixeira Lopes e Mariano Benlliure

    3 Dirio de Notcias 2.Novembro.1933, p. 24 Desconhecemos onde se encontra o que Teixeira Lopes realizou. O jornal O Sculo, de

    5.Novembro.1933, p. 6, contm uma imagem de uma das sesses de pose, onde se vem TeixeiraLopes, Mariano Benlliure e o busto feito por este, em fase adiantada de execuo.

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    mais respeitadas figuras da escultura portuguesa da poca. O encontro deu-sea 1.Novembro.1933, em Vila Nova de Gaia, onde este residia e trabalhava3.Foi nessa altura que ambos decidiram representar-se um ao outro, o que narealidade aconteceu, estando hoje o busto de Teixeira Lopes modelado porBenlliure na Real Academia de Bellas Artes de San Fernando, em Madrid4.

    Em 20 de Julho de 1936 deu-se um acidente areo junto Boca doInferno, em Cascais, que vitimaria o general Sanjurjo, o qual, juntamentecom os generais Mola e Francisco Franco, se preparava para dar incio aogolpe que terminou com a Repblica espanhola5 e desencadeou a guerra civilnaquele pas. No ano seguinte, por iniciativa do Dr. Joaquim Madureira, foirequerida Cmara Municipal de Cascais a licena para as obras destinadasa uma cruz de pedra com cerca de 14 toneladas, na Quinta da Marinha, des-tinada a lembrar o acidente6.

    Amigo desconfiado do caudi-lho Francisco Franco, Antnio deOliveira Salazar atraiu, entre diver-sos outros, a ateno de um portu-gus fugido da guerra civil e de umespanhol: o primeiro, um hoje esque-cido Jos Lus, realizou em Lisboa,em Novembro de 1937, uma exposi-o dos seus trabalhos. Entre aspeas mostradas, podia ver-se a peareligiosa Ftima, que o autordedicou e ofereceu ao Cardeal Pa-triarca e um muito fraco busto de Sa-lazar, de igual modo oferecido ao

    RELAE DA ESCULTURA ENTRE PORTUGAL E ESPANHANAS DCADAS DE 40 E 50 DO SCULO XX

    Francisco de Paula Godinho Cabas Salazar

    5 O general dirigia-se a Burgos numa pequena aeronave manobrada pelo famoso aviador espanholJuan Antnio Ansaldo, que se salvou. Segundo este, o choque contra uma cerca de pedra, seguidode exploso e incndio, deveu-se ao excessivo peso da mala do general. Sanjurjo no ter atendidoos pedidos do piloto para no ser portador de tanta carga.

    6 Segundo o DN de 7.Maio.1940, p. 4, as obras por esta altura estavam muito adiantadas.7 Apontava o DN de 19.Novembro.1937: O jovem escultor Jos Lus, nosso compatriota, que,

    como referimos, h tempos, conseguiu fugir da Espanha marxista atravs de tormentosas peripcias,acaba de abrir na Rua do Carmo, 17, uma interessante exposio dos seus trabalhos.

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    Presidente do Conselho de Ministros7.Igualmente desinteressante era o bustoque o amador espanhol Francisco dePaula Godio Cabas entre-gou a Salazarcomo preito de agra-decimento pelosauxlios prestados sua ptria durante arevoluo8. Percebe-se facilmente queestes pouco talentosos artistas apenaspreten-diam alguma publicidade junto daim-prensa escrita, sempre muito sensvelcom tudo que se relacionasse com o chefedo Governo -a qual, atravs do artifciodas ofertas acabou por ser obtida.

    Na Exposio do Mundo Portu-gus, tambm conhecida como do Du-plo Centenrio da Fundao e da Restau-rao da nacionalidade, realizada emBelm, Lisboa, em 19409, podia ver-sena Sala de Portugal Militar na Europado Pavilho dos Portugueses no Mundo10

    um pouco expressivo e algo desastradobaixo-relevo de Antnio Duarte. O tra-balho fazia aluso aos combates travadosno sculo XX por tropas portuguesas noRovuma (Moambique), ao feito doherico comandante Carvalho Arajo11, participao portuguesa na GrandeO general Juan Soler junto ao memorial

    aos mortos portugueses em batalhano sculo XX

    8 Sculo Ilustrado, n. 127, 8.Junho.1940, p. 249 Ideia de Salazar, esta foi a primeira exposio de Histria realizada no Mundo. Para o efeito

    foram construdos vrios pavilhes de grandes dimenses, em materiais provisrios, junto aomosteiro dos Jernimos. A exposio, que envolveu centenas de trabalhadores, arquitectos, pintorese escultores, desenrolou-se durante a segunda metade do ano de 1940.

    10 Da autoria do arquitecto Cottinelli Temo.

    JOAQUIM SAIAL

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    Guerra na Europa e em frica e aos Vi-riatos, combatentes portugueses naguerra de Espanha, pelo lado nacionalista12.

    Mostrando o interesse que o pas vizinho dava a manifestaes destetipo, esteve em Lisboa o general Juan Lopez Soler, presidente da comissoque tinha como encargo as Recordaes Portuguesas em Espanha e se deixoufotografar pelo DN junto ao baixo-relevo, fazendo a inevitvel saudao fas-cista. Nicolas Franco, o embaixador espanhol em Lisboa13, por na altura estarausente, fez-se representar pelo conde de Montefuerte que proferiu exaltadodiscurso patritico e de agradecimento aos soldados portugueses que tinhamcombatido e morrido pelo lado nacionalista durante o conflito que ops aEspanha republicana e as tropas sublevadas de Francisco Franco.

    OS ANOS 40

    Os anos 40 trariam mais alguns relacionamentos no campo artstico. ODP fazia-se eco em 6.Abril.194314 de informao do subsecretrio da EducaoNacional de Espanha de que se iria realizar em Lisboa uma exposio deartes plsticas espanholas, para dias depois o mesmo jornal referir que outra,de arte popular portuguesa, tambm teria lugar naquele pas15, o que veiode facto a acontecer, com cerimnia inaugurativa a 25 de Maio e boa aceitaodos rgos de comunicao social locais, entre os quais a importante revistaFotos16 e na alem, caso do National Zeitung.

    Nesse ms anunciou-se17 que se iria realizar em Madrid um congressoluso-espanhol de arquitectura e em Novembro abria a anunciada exposiode arte espanhola, nas salas da Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lis-

    11 Em 14.Outubro.1918, no mar dos Aores, o 1. tenente Carvalho Arajo, ao comando do caa-minas Augusto de Castilho, conseguiu salvar o vapor S. Miguel que escoltava de um ataque deum submarino alemo, mas acabou por perecer e o seu barco foi afundado.

    12 869 homens integrados na Legio Espanhola, para alm de trs grupos que combateram na aviao.Estes Viriatos participaram em Madrid, a 19.Maio.1939, no chamado Desfile da Vitria.

    13 Era irmo de Francisco Franco.14 p. 115 Dirio Popular 13.Abril.1943, p. 116 A propsito desta exposio, ver ainda o DP 25.Maio.1943, p. 1, 6.Junho.1943, p. 3,

    11.Junho.1943, p. 1, e 23.Agosto.1943, p. 417 DP 7.Maio.1943, p. 1

    RELAE DA ESCULTURA ENTRE PORTUGAL E ESPANHANAS DCADAS DE 40 E 50 DO SCULO XX

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    boa18. Ali se podiam ver obras de Nurria, Solana, Zuloaga, Zubiaurre, VzquezDiaz, Sorolla e dos escultores Pablo Gargallo e Mariano Benlliure, numamistura eclctica de valores modernos e antigos que permitia agradar a todosos gostos.

    Entretanto, o aguarelista Antnio Cruz anda por Espanha19, o espanholJuan Cabanas expe no estdio do Secretariado da Propaganda Nacional20, oarquitecto Mrio Gonalves de Oliveira realiza em Lisboa uma confernciasobre A Arte e a vida de Sorolla21 e em Setembro de 1944 arquitectos portu-gueses e espanhis decidem reunir-se em Madrid no III Congresso de Arqui-tectura e Urbanizao22. Confraternizam na Real Academia de Bellas Artes

    de San Fernando23 e fazem saber atravs dedois eminentes arquitectos lusitanos, Par-dal Monteiro e Carlos Ramos, queconstituiro u