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Modularity and derivation in Functional Discourse Grammar RESUMO Este trabalho tem por objetivo discutir em que medida práticas analíticas já consagradas pela Linguística Cognitiva podem ser estendidas ao domínio da Linguística Computacional. Em específico, buscamos investigar se as relações de herança entre construções – pareamentos de uma forma evocadora de um frame – modeladas computacionalmente em um Constructicon, podem ser postas em paralelo com aquelas relações estabelecidas entre os frames na base de dados da FrameNet Brasil. Palavras-chave: Relações de Herança; Abordagens Construcionistas; Modelagem Computacional. D.E.L.T.A., 33.1, 2017 (45-77) D E L T A Relações de herança entre construções e entre frames: desafios da extensão do modelo construcionista para o domínio computacional no âmbito da FrameNet Brasil Inheritance relations between constructions and between frames: challenges to the extension of the constructionist approach to the computational domain in FrameNet Brasil Tiago Timponi TORRENT (Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF) Ludmila Meireles LAGE (Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF) Tatiane Silva TAVARES (Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF) Adrieli Bonjour LAVIOLA (Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF) http://dx.doi.org/10.1590/0102-44503756151555954

Relações de herança entre construções e entre frames ... · Tiago T. Torrent, Ludmila M. Lage, Tatiane S. Tavares, Adrieli B. Laviola 46 33.1 2017 ... EFs que desempenham as

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  • Modularity and derivation in Functional Discourse Grammar

    RESUMO

    Este trabalho tem por objetivo discutir em que medida prticas analticas j consagradas pela Lingustica Cognitiva podem ser estendidas ao domnio da Lingustica Computacional. Em especfico, buscamos investigar se as relaes de herana entre construes pareamentos de uma forma evocadora de um frame modeladas computacionalmente em um Constructicon, podem ser postas em paralelo com aquelas relaes estabelecidas entre os frames na base de dados da FrameNet Brasil.

    Palavras-chave: Relaes de Herana; Abordagens Construcionistas; Modelagem Computacional.

    D.E.L.T.A., 33.1, 2017 (45-77)

    D E L T A

    Relaes de herana entre construes e entre frames:desafi os da extenso do modelo construcionista

    para o domnio computacional no mbitoda FrameNet Brasil

    Inheritance relations between constructions and between frames: challenges to the extension of the constructionist

    approach to the computational domain in FrameNet Brasil

    Tiago Timponi TORRENT (Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF)Ludmila Meireles LAGE (Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF)

    Tatiane Silva TAVARES (Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF)Adrieli Bonjour LAVIOLA (Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF)

    http://dx.doi.org/10.1590/0102-44503756151555954

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    This paper aims to discuss to what extent analytical practices that are already a milestone in Cognitive Linguistics can be extended to the realm of Computational Linguistics. Specifi cally, we aim to investigate whether inheritance relations between constructions a pairing of a form evoking a frame which are computationally represented in a Constructicon, may parallel frame-to-frame relations in the FrameNet Brasil database.

    Key-words: Inheritance Relations; Constructionist Approaches; Computational Modeling.

    Introduo

    A defi nio de construo como um pareamento de forma e sentido e a concepo da gramtica como uma rede de construes podem ser vistas como dois marcos tericos fundadores dos modelos constru-cionistas, em qualquer de suas vertentes (Goldberg 2006). Ademais, o tratamento do aspecto semntico-funcional das construes nos termos propostos pela Semntica de Frames e o das relaes estabelecidas entre as unidades que compem a rede construcional da gramtica em termos de relaes de herana tambm se fazem presentes em vertentes distintas da Gramtica das Construes, desde as mais cognitivistas (Croft 2001; Goldberg 1995; 2006; 2010; Langacker 1987; 1991; 2008) at aquelas baseadas em unifi cao (Kay & Fillmore 1999; Boas & Sag 2012; Fillmore 2013; Bergen & Chang 2013).

    Desde 1997, quando da criao, pelo linguista Charles Fillmore, do projeto FrameNet (http://framenet.icsi.berkeley.edu) (Fillmore et al. 2003), a interface entre Gramtica de Construes e Semntica de Frames foi estendida ao domnio da Lingustica Computacional, na medida em que o objetivo do referido projeto a modelagem de uma rede de frames estruturas de conceitos nas quais, para se entender um deles, todos os demais devem ser compreendidos (Fillmore, 1982) associada ao material lingustico lexical ou construcional que a evoca. Tal rede organiza os frames atravs de relaes de Herana, Uso, Perspectiva, Subframe, Precedncia, dentre outras.

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    Dado esse contexto, a proposta que aqui se apresenta a de discutir se e em que medida as relaes de herana entre construes podem ser postas em paralelo com aquelas relaes estabelecidas entre os frames na base de dados da FrameNet e, por extenso, da FrameNet Brasil (http://www.framenetbr.ufjf.br), iniciativa desenvolvida na Uni-versidade Federal de Juiz de Fora desde 2007 (Salomo 2009). Assim, pretende-se colocar em perspectiva o prprio conceito de motivao, conforme proposto por Goldberg (1995) na forma do Princpio da Mo-tivao Maximizada, quando da extenso do modelo construcionista para o domnio da Lingustica Computacional.

    Para tanto, na seo 1, apresentam-se os conceitos e prticas fun-damentais da FrameNet Brasil, os quais servem de ponto de partida para o desenvolvimento do Constructicon do Portugus Brasileiro, objeto da seo 2. Por sua vez, a seo 3 se ocupa da discusso das relaes entre construes e entre frames e sua extenso ao domnio da Lingustica Computacional. A seo 4 traz as consideraes fi nais deste trabalho, as quais apontam para os caminhos a serem seguidos no mbito da FrameNet Brasil.

    1. A FrameNet Brasil

    A FrameNet Brasil o brao brasileiro de uma iniciativa de pes-quisa em lexicografi a e constructicografi a1 computacionais iniciada em 1997, por Charles J. Fillmore e seus colaboradores, no International Computer Sciences Institute, em Berkeley, Califrnia. Alm do projeto matriz, desenvolvido para o ingls, e da fi lial brasileira, h framenets2 em desenvolvimento para o espanhol, alemo, japons, sueco, chins, francs, italiano e coreano.

    A FrameNet caracteriza-se como uma aplicao prtica da teoria da Semntica de Frames, desenvolvida por Fillmore desde a dcada de

    1. O termo constructicografi a aparece em Bckstrm et al. (2014:10) e se refere, em paralelo distino entre lexicologia e lexicografi a, descrio sistemtica de genera-lizaes lingusticas que podem ser formalizadas em um recurso construcional. 2. Neste artigo, usaremos o termo framenet, todo em minsculas, ao nos referirmos genericamente aos projetos, enquanto o termo FrameNet, com F e N maisculos, ser reservado para que se nomeiem projetos especfi cos.

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    70 (Fillmore 1975; 1982; 1985). De acordo com essa teoria, o signifi -cado no pode ser visto como uma lista de traos semnticos a serem ou no atribudos a uma dada entidade, mas, sim, como relativizado a uma cena ou frame de fundo. o frame que possibilita que se compreenda o signifi cado de um item lexical como o verbo comprar. Para a Semntica de Frames, s possvel compreender o sentido de comprar tendo como referncia um frame no qual haja um elemento que cumpra o papel de comprador e outro que desempenhe a funo de mercadoria. Mesmo que no sejam explicitamente mencionados numa sentena em que fi gure o verbo comprar, outros elementos podem ser elencados, tais como o vendedor e o dinheiro, sendo necessrio tambm defi nir a natureza da relao entre todos esses elementos.

    A Semntica de Frames, segundo seu prprio fundador, evolui da Gramtica de Casos (Fillmore 1968), mais precisamente da constata-o de que uma lista fechada de casos abstratos seria insufi ciente para tratar adequadamente das alternncias de valncia dos itens lexicais. Tal constatao acompanhada por outra segundo a qual a semntica a moldar proeminentemente as possibilidades sintticas de uma dada palavra. Assim, na Semntica de Frames, os frames sintticos ou de caso cedem seu lugar de destaque para frames semnticos, inicialmente distintos dos frames cognitivos. Essa distino residia no fato de que, enquanto os primeiros se manifestariam linguisticamente, os segundos teriam lugar na interpretao das sentenas e na construo do conhe-cimento, porm, sem serem diretamente evocados pelos itens lexicais. Posteriormente, porm, Fillmore (2008a) afi rma estar em aberto a existncia de uma real distino entre frames lingusticos e frames cognitivos, uma vez que, caso exista, essa distino se instanciaria em um mundo em que qualquer coisa pode ser alvo do intelecto humano e do discurso (Fillmore 2008a:12).

    Defi nida, em seu texto mais emblemtico, como um programa de pesquisa em semntica emprica e um framework descritivo para a apresentao dos resultados de tal pesquisa (Fillmore 1982:111), a Semntica de Frames abraou, na dcada de 1990, o vis da lexi-cografi a prtica3, dando origem Berkeley FrameNet. Nesse vis, os

    3. A lexicografi a prtica pode ser defi nida como aquela que se ocupa dos princpios e tcnicas para a construo de recursos lexicais (vide Atkins & Rundell 2008 para uma exposio completa sobre o tema).

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    objetivos principais compartilhados por qualquer uma das framenets em desenvolvimento so (Ruppenhofer et al. 2010:):

    criar representaes computacionais dos frames, os quais so defi nidos em termos dos seus participantes, instrumentos e cir-cunstncias (os Elementos de Frame EFs) e conectados uns aos outros em uma rede de relaes frame-a-frame;

    defi nir as Unidades Lexicais (ULs) que evocam os frames;

    anotar sentenas extradas de corpora que exemplifi quem os padres de valncia sinttico-semntica nos quais a UL pode ocorrer;

    disponibilizar o resultado do trabalho online.

    Nesse sentido, a partir do exemplo do verbo comprar, apresentamos na sequncia de que forma os conceitos da Semntica de Frames se ma-nifestam nas framenets, mais especifi camente na FrameNet Brasil.

    Comecemos pelo prprio verbo. Na framenet, todo material lexical a ser analisado inserido no banco de dados atravs da sequncia lexe-ma > lema > unidade lexical. Um lexema uma palavra registrada em todas as suas possibilidades fl exionais. O banco de dados da FrameNet Brasil, portanto, associa ao lexema comprar todas as formas de palavra assumidas por esse verbo em portugus. Uma vez registrado no banco o lexema, pode-se associ-lo a um frame. Entretanto, como as frame-nets tambm analisam materiais polilexmicos, tais como palavras compostas e expresses idiomticas, o banco de dados primeiramente associa um ou mais lexemas na constituio de um lema, para, s ento, associar o lema ao frame, criando a unidade lexical (UL). Uma UL como comprar, portanto, o pareamento do lema comprar ao frame evocado por esse verbo, no caso, o frame Comrcio_comprar4, o qual segue reproduzido na Figura 1.

    A cada frame atribudo um nome, o qual busca ser um resumo intuitivo do frame e de sua posio na rede. No caso de Comrcio_comprar, o nome indica se tratar este de um dos frames que abordam o conceito de comrcio, na perspectiva do comprador.

    4. Para facilitar a leitura, nomes de frames sero apresentados em fonte Courier, en-quanto os nomes dos Elementos de Frame (EF) sero formatados em VERSALETE.

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    Segue-se ao nome uma breve defi nio do frame, na qual costuma-se ressaltar o papel dos principais EFs na cena. Tais EFs so listados em sequncia, acompanhados necessariamente de uma defi nio e, quando aplicvel, de um exemplo e de um tipo semntico, o qual traz

    Figura 1 O frame Comrcio_comprar, conforme defi nido na base de dados da FrameNet Brasil. Fonte: http://www.framenetbr.ufjf.br/dados/vocabulario-generico.

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    informaes ontolgicas sobre o EF. Quando um EF vital para a compreenso da estrutura de conceitos do frame, i.e. no possvel compreender o frame sem a sua presena, ele recebe o status de nuclear. Quando no, no-nuclear5.

    Os EFs caracterizam-se como funes microtemticas, que so postuladas em relao aos frames em que tomam parte, e, no, como papis temticos clssicos, oriundos de uma lista fi nita. Segundo Sa-lomo (2009:173):

    A necessidade da postulao dessas Funes Microtemticas em parte respon-de inadequao das nomenclaturas anteriores, que, no tendo conseguido jamais apresentar um repertrio consensual de Funes Temticas, empregam algumas designaes (Tema, por exemplo) com frustrante impreciso.

    Quando da anlise de uma UL, os EFs sero convertidos em eti-quetas semnticas atribudas ao material lingustico que se encontra na localidade sinttica da UL. O processo de anotao semntica acompanhado de uma anlise sinttica, que atribui Funes Gramaticais (FGs) e Tipos Sintagmticos (TSs) a esse mesmo material lingustico. Cada framenet tem defi nido o conjunto de FGs e TSs relevante para sua lngua alvo, considerada a classe de palavras da UL a ser analisada, uma vez que as framenets realizam anotaes lexicogrfi cas no s para verbos, mas, tambm, para nomes, adjetivos, advrbios e preposies. Para o portugus brasileiro, por exemplo, ULs verbais podem tomar EFs que desempenham as funes sintticas de Argumento Externo (Ext), Objeto Direto (ObjD), Objeto Indireto (ObjInd) ou Dependente (Dep). Quanto aos TSs, so levantados tanto os tipos de sintagma mais comuns tais como NPs, PPs, VPs , como tipos de clusulas adver-biais, completivas, relativas e ncleos nus Ns, Vs, Adjs.6

    5. EFs no-nucleares podem ser divididos entre Perifricos e Extra-temticos, apesar de essa informao no ser disponibilizada no relatrio do frame. A diferena entre essas duas subcategorias reside no fato de que, enquanto EFs perifricos trazem informaes circunstanciais sobre o frame, geralmente relacionadas UL na forma de adjuntos, os EFs extra-temticos esto relacionados a outras ULs e construes que aparecem colocadas com a UL alvo, dentro de sua localidade sinttica.6. Para um discusso detalhada dos GFs e TSs utilizados pela FrameNet Brasil, bem como sobre as escolhas terico-metodolgicas que embasam sua postulao, vide Torrent & Ellsworth (2013).

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    A anotao realizada atravs de software prprio, a FrameNet Brasil Webtool. Na Webtool, cada sentena tratada como um con-junto de camadas, nas quais se vinculam as etiquetas para os FEs, FGs e TSs ao material lingustico sendo analisado. A Figura 2 traz a tela de anotao da sentena (1), extrada do corpus NURC-RJ7, na qual o informante relata a experincia de ter assistido a um espetculo teatral no Rio de Janeiro.

    (1) Eu comprei entrada pra ir assistir a uma determinada noite. (NURC-RJ)

    Figura 2 Tela de anotao de sentena contendo a UL comprar. A camada FE (do ingls, Frame Element) traz as etiquetas semnticas oriundas do frame Comrcio_comprar, enquanto as camadas GF (de Grammatical Function) e PT (de Phrase Type), trazem, respectivamente, as funes gramaticais e tipos sintagmticos atribudos ao material lingustico que instancia cada EF.

    Note-se, na Figura 2, que a UL vem marcada em preto com as letras brancas. Essa notao distingue ULs em todas as framenets. Ao prono-me de primeira pessoa eu foram atribudas as etiquetas COMPRADOR, Ext e NP; j a entrada, foram atribudas as etiquetas MERCADORIA, ObjD e NP. V-se, assim, que os dois EFs nucleares do frame manifestam-se nas funes gramaticais mais proeminentes da sentena. J o elemento no-nuclear FINALIDADE_DAS_MERCADORIAS aparece em funo adjunti-va, como um Dep que se instancia na forma de uma sentena infi nitiva preposicionada (PSinf).

    A sucessiva anotao de sentenas extradas de corpora subsidia outro tipo de relatrio da FrameNet Brasil: o de entrada lexical, dis-posto na Figura 3. Neste relatrio, apresenta-se um verbete para a UL, o qual traz o frame evocado por ela, a defi nio de seu signifi cado e informaes sobre sua valncia sinttico-semntica, a qual calculada automaticamente a partir das anotaes.

    7. Disponvel em http://www.letras.ufrj.br/nurc-rj/.

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    Figura 3 Relatrio de entrada lexical da UL comprar na FrameNet Brasil. Fonte: http://www.framenetbr.ufjf.br/dados/vocabulario-generico.

    Por fi m, as framenets, como o prprio nome indica, no se cons-tituem em uma mera lista de frames, mas, sim, em uma rede, a qual estruturada por um conjunto de relaes frame-a-frame tais como: Herana, Uso, Perspectiva, Subframe e Precedncia.8

    A relao de Herana uma relao do tipo um, ou seja, o frame fi lho um tipo mais especfi co do frame pai. Como toda relao entre frames proposta nas framenets , na verdade, uma relao entre os EFs desses frames, cada EF do frame pai precisa, na relao de Herana, ter um EF equivalente ou mais especfi co no frame fi lho. J na relao de Uso, o frame fi lho pressupe a existncia do frame pai para sua compreenso. Nesse caso, no necessrio haver correspondncia de todos os EFs.

    8. H ainda as relaes Causativo_de, Incoativo_de e Veja_tambm, as quais no so relevantes para o tema deste artigo. Para mais informaes sobre essas relaes, veja-se Ruppenhoffer et al. (2010).

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    A relao de Perspectiva, constitutiva da prpria noo de frame, indica que um dado frame um dos possveis pontos de vista de uma cena no-perspectivizada. J as relaes de Subframe e Precedncia defi nem, respectivamente, os sub-eventos de um evento complexo e a ordem em que ocorrem. Na Figura 4 exemplifi cam-se essas relaes, representadas atravs de setas coloridas no FrameGrapher, ferramenta da Berkeley FrameNet para a visualizao das relaes entre os frames. Escolhemos como exemplo os frames relativos ao comrcio, por ser este um dos cases mais famosos da Semntica de Frames (Fillmore 1985; 2008b)9.

    Figura 4 Rede de relaes dos frames relativos transao comercial. Uma seta vermelha indica relao de Herana; a verde, Uso; a rosa, Perspectiva; a azul, Subframe e a preta, Precedncia. Fonte: https://framenet.icsi.berkeley.edu/fndrupal/FrameGrapher.

    Como pode-se observar na referida fi gura, o frame Transa-o_comercial herda do frame Reciprocidade, indicando que uma transao um tipo de ato recproco. No que concerne estrutura de eventos, a Transao_comercial pode ser dividida em dois subframes: a transferncia das mercadorias e a transferncia do dinhei-ro. Note-se que no h uma relao de Precedncia entre eles, uma vez que podem ocorrer em qualquer ordem (h casos em que primeiro se paga para depois se obter a mercadoria e vice-versa).

    9. Apesar de parecerem semelhantes, respectivamente, s relaes semnticas de hipon-mia, pressuposio e meronmia, as relaes de Herana, Uso e Subframe no so idnticas a estas, principalmente, pelo fato de que, enquanto as primeiras so estabelecidas entre itens lexicais ou, no mximo, entre synsets, no caso da WordNet (Fellbaum 1998) , as ltimas se estabelecem entre sistemas de conceitos, ou frames.

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    O frame Comrcio_transferncia_de_mercadorias , por sua vez, um frame neutro que pode assumir duas perspectivas: a do comprador em Comrcio_comprar , ou a do vendedor em Comrcio_vender. Como a entrega de um produto pressupe que tenha havido a relao de transferncia de mercadorias, uma relao de Uso liga o frame Entrega_de_produto ao frame Comr-cio_transferncia_de_mercadorias.

    Por fi m, as setas pretas indicam a relao temporal entre os fra-mes que indicam a noo de transferncia, os quais se relacionam por Herana aos frames de comrcio.

    Como se observa, o esforo de descrio lexicogrfi ca desen-volvido nas framenets capaz de gerar um conjunto de dados de alta relevncia para a descrio dos idiomas-alvo de cada iniciativa. Ao atriburem-se etiquetas semnticas e sintticas para o material lin-gustico, ao mesmo tempo em que se organizam os frames em rede, cria-se um recurso capaz no apenas de registrar informaes sobre a semntica dos itens lexicais, mas, tambm, acerca do comportamento morfossinttico desses elementos semnticos. Nesse sentido que se postula que a anotao lexicogrfi ca das framenets seja inspirada construcionalmente, ao fornecer uma anlise da construo de valncia associada aos itens lexicais (vide Fillmore 2013).

    Ainda assim, h casos que no podem ser analisados estritamente em termos das propriedades valenciais dos itens lexicais, dentre os quais destacam-se as expresses idiomticas, construes de aumento de valncia, gapping, dentre outros (Fillmore 2008b). Por esse motivo, para alm do recurso lexical, a Berkeley FrameNet iniciou um projeto complementar para a criao de um repositrio de construes para o ingls, um Constructicon, caminho que vem sendo seguido pela Japanese FrameNet (Ohara 2013), pela Swedish FrameNet (Lyngfelt et al. 2012) e pela FrameNet Brasil (Torrent et al. 2014). Na seo seguinte, apresentaremos essa iniciativa e seu desenvolvimento para o portugus brasileiro.

    2. O Constructicon do Portugus Brasileiro

    Dizer que um constructicon um repositrio de construes de uma lngua no o mesmo que afi rmar que ele seja uma verso eletrnica

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    de uma Gramtica de Construes. Segundo Fillmore et al. (2012: 309-310), um Constructicon tem por objetivo registrar as propriedades semnticas e gramaticais das construes, alm de lig-las a senten-as anotadas que exemplifi quem a construo sendo descrita, sem, necessariamente, comprometer-se com o objetivo de ser um registro eletrnico completo de todas as construes da lngua, mesmo porque, enquanto recurso desenvolvido complementarmente a uma framenet, um constructicon precisa dar conta daqueles fenmenos que no podem ser resolvidos atravs da anotao construcionalmente inspirada que se pode encontrar no recurso lexicogrfi co.

    Nesse contexto, enquanto as framenets se ocupam de criar uma rede de frames, defi nidos em termos de seus EFs, ao mesmo tempo em que associam material lexical a esses frames as ULs e atestam seu uso em corpora, um constructicon tem os seguintes objetivos:

    criar representaes computacionais das construes, defi nidas em termos de seus elementos constituintes (os Elementos do Construto ECs) e conectadas umas s outras em uma rede de relaes;

    anotar sentenas extradas de corpora, construtos, que exem-plifi quem a forma como as construes licenciam a expresso lingustica;

    disponibilizar o resultado do trabalho online.

    A fi m de se ilustrar o tipo de fenmeno lingustico que motiva o desenvolvimento de um constructicon, observe-se o exemplo (2), extrado do corpus NURC-RJ.

    (2) No d pra ver no (NURC-RJ)

    Em (2), observa-se uma construo com o verbo dar. Na tentativa de traar uma anlise via metodologia da FrameNet Brasil, primeira-mente, escolhe-se uma UL alvo para se iniciar a anotao. Se tomamos por UL o verbo dar e buscarmos um frame que seja evocado por esse verbo, encontramos o frame Dar, cuja defi nio apresentada na Figura 5.

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    Figura 5 Defi nio do frame Dar na FrameNet Brasil. Fonte: http://www.framenetbr.ufjf.br/dados/vocabulario-generico.

    Se observarmos a defi nio na Figura 5, veremos que ela no descreve a cena evocada pela sentena (2) no h um DOADOR trans-ferindo um TEMA a um RECIPIENTE. Em vez disso, tem-se o frame Pos-sibilidade, exibido na Figura 6, o que se verifi ca na parfrase da sentena: No possvel ver, no. Contudo, como anotar tal sentena no referido frame se no o verbo dar que o evoca?10

    Figura 6 Defi nio do frame Possibilidade na FrameNet Brasil. Fonte: http://www.framenetbr.ufjf.br/dados/vocabulario-generico.

    Diante desta situao, surge a necessidade de um novo recurso, desenvolvido para atender a estruturas mais complexas do que as propriedades de valncia de um item lexical e/ou mais idiomticas: o constructicon. Para iniciar a implementao do Constructicon do Portugus Brasileiro, a famlia de construes Para Infi nitivo (Torrent 2009; Lage, 2013) foi escolhida. As construes que formam essa famlia compartilham o esquema sinttico [NP1 V AP/NP2 para (NP3) VINF] ou so relacionadas a ele atravs de relaes de herana. Todas as construes descritas em Torrent (2009) e Lage (2013) herdam da Construo Adjuntiva fi nal infi nitiva, cujo esquema formal [para

    10. No se ignora aqui que elementos semnticos do verbo dar, em especial o esquema imagtico subjacente Fonte-Caminho-Alvo, atuem metaforicamente na construo do signifi cado de possibilidade do exemplo (2). Porm, no mbito do recurso computacional FrameNet, ainda no possvel modelar tal atuao.

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    (NP) VINF] e cuja semntica se relaciona fi nalidade. Note-se que o uso dos parnteses nas notaes acima indica que o sujeito do verbo infi nitivo pode ou no vir explcito.

    No que tange contraparte semntica, as construes dessa fam-lia evocam o frame Finalidade ou algum outro relacionado a ele. Nesse sentido, relacionam-se a um esquema cognitivo de movimento em direo a um alvo, este representado pela resultante desejada de uma determinada ao (Torrent 2009: 75).

    Ao iniciarmos as anlises das construes da rede escolhida, uma questo imps-se: quais construes necessitam de um tratamento construcional e, por outro lado, quais poderiam ser tratadas via anotao lexicogrfi ca? Iniciamos a discusso considerando o exemplo (3).

    (3) Ela... era analfabeta... ento pedia para a gente escrever o jogo... (NURC-RJ)

    Na sentena (3), vemos um exemplo da Construo Manipulativa com o verbo pedir. Segundo Torrent (2009), nessa construo, um manipulador faz com que um manipulado realize uma ao desejada pelo primeiro. No caso do exemplo, a senhora analfabeta, que era apontadora do Jogo do Bicho, fazia com que o informante e pessoas de seu convvio escrevessem os jogos para ela. Se tomarmos tal verbo por UL e realizarmos uma anotao lexicogrfi ca, obteremos a confi -gurao constante em (4).

    (4) Ela... era analfabeta... ento [PEDIAUL] [para a gente escrever o jogoDESTINATRIO/MENSAGEM]... | FALANTE = CNI

    Tomando-se o verbo pedir como UL, a sentena ser anotada, satisfatoriamente, no frame Pedir, cuja defi nio prev que neste frame, um FALANTE pede alguma coisa a um DESTINATRIO ou que ele realize alguma ao. Tem-se os EFs MENSAGEM e DESTINATRIO re-presentados pelo sintagma para gente escrever o jogo e o EF FALANTE apresenta-se como uma Instanciao Nula Construcional (CNI), uma vez que se instancia apenas na desinncia verbal de pedia.

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    Para verifi car se o frame em questo evocado mesmo pelo verbo ou pela construo, caso este em que a anotao lexicogrfi ca satisfa-tria acima seria uma coincidncia, analisamos, ento, outra sentena que tambm evoca o frame Pedir, mas em que no se instancia uma construo pertence Famlia Para Infi nitivo, conforme a Figura 7.

    Figura 7 Anotao lexicogrfi ca da UL pedir no frame Pedir.

    Na Figura (7), observamos que a sentena anotada, mesmo no apresentando a construo Para Infi nitivo, obtm a mesma anlise. Isso aponta para o fato de que, no caso da Construo Manipulativa, defi nida por Torrent (2009), no h necessidade de anot-la no Constructicon, uma vez que a anotao lexicogrfi ca sufi ciente para capturar o sentido evocado pela construo.

    Entretanto, se analisamos construes como o exemplo em (2), faz-se necessrio adotar outro mtodo de anotao que no o lexico-grfi co, uma vez que, como j se viu, o verbo dar, nesse caso, no o evocador do frame Possibilidade, mas, sim, a Construo Modal Epistmica com Dar, defi nida na Figura (8).

    Figura 8 Construo Modal Epistmica com Dar, conforme defi nida no Constructicon da FrameNet Brasil. Fonte: http://www.framenetbr.ufjf.br/dados/vocabulario-generico.

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    Considerada essa construo, a anotao de (2) fi caria como exi-bida em (5).

    No [dMODALIZADOR_EPISTMICO] [pra verVP_PARA_INF]

    Note-se que a sentena (5) no foi marcada para os EFs de Pos-sibilidade. Diferentemente do caminho tomado pela Berkeley FrameNet, cujo Constructicon apresenta defi nies de ECs que mes-clam aspectos sintticos e semnticos, na FrameNet Brasil, os ECs so defi nidos exclusivamente em termos de suas propriedades formais, sendo que, posteriormente, so mapeados aos EFs, caso a construo evoque um frame.

    Contrastes analticos como os apresentados acima foram realizados para todas as construes da Famlia Para Infi nitivo no trabalho de Lage (2013), que acabou por identifi car, dentre as 26 construes elencadas por Torrent (2009), 11 que deveriam ser tratadas como construes no Constructicon, enquanto as demais poderiam ser tratadas apenas via anotao lexicogrfi ca. O princpio por detrs dessa deciso analtica o da No-Redundncia, o qual evita a duplicao de esforos, o desperdcio de espao de armazenamento, e a inconsistncia de dados. Lage (2013: 100) esclarece:

    Se uma mesma informao for anotada duas vezes em ambientes diferentes [lexicon e constructicon], quando for preciso realizar uma atualizao, essa dever ser feita, tambm, duas vezes. A segunda questo o desperdcio de espao de armazenamento. Ao armazenar a mesma informao duas vezes, ocupamos um espao que poderia ser utilizado para arquivar outras informa-es. Isso pode gerar problemas maiores para bancos de dados grandes. Por fi m, h a questo da inconsistncia de dados gerada pela anotao redundante. Ao se atualizar uma informao anotada duplamente em somente um dos ambientes utilizados para o armazenamento, uma incoerncia entre os dados pode ser gerada se o mesmo no for feito no outro ambiente.

    Assim, foram estabelecidos critrios para se defi nir o que uma construo no mbito da FrameNet Brasil, os quais se apresentam na forma de trs perguntas:

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    Critrio 1: Sendo X um material lexicalmente especifi cado, existe X na construo em potencial?

    Critrio 2: Sendo F um frame e X um material lexicalmente especifi cado, X evoca F?

    Critrio 3: Sendo F um frame e X um material lexicalmente especifi cado, X evoca F em outro padro de valncia?

    Em relao ao primeiro critrio, visto que a anotao lexicogrfi ca tem a UL como unidade bsica de anlise, condio sine qua non a existncia de algum item lexical especfi co para que esse tipo de anotao deva ocorrer (Lage 2013: 102). Se a resposta for negativa, deve-se encaminhar a anlise para o Constructicon, mas, se for positiva, devemos nos dirigir ao segundo critrio.

    Como a UL a unidade bsica de anlise da anotao lexico-grfi ca, evocar um frame condio sine qua non para o objeto sob discusso. Se a construo em potencial no evoca frame, no pode ser abordada como UL e, destarte, exige um tratamento construcional (Lage 2013: 103). Sendo a resposta positiva, partimos, ento, para o terceiro e ltimo critrio.

    Lage (2013: 104) afi rma, por fi m, que se uma unidade de material lexicalmente fi xo for capaz de evocar um mesmo frame em padres de valncia diferentes signifi ca que o frame foi evocado pela unidade alvo (tambm). Assim, esse objeto deveria ser tratado via abordagem lexicogrfi ca. A resposta negativa, entretanto, nos conduz ao tratamento construcional.

    Atravs de tais apontamentos, tem-se a defi nio formal de cons-truo no mbito da FrameNet Brasil e, consequentemente, a defi nio do escopo de cada um dos dois recursos: o lexicon e o constructicon. Entretanto, tais critrios ainda no so capazes de responder a outra questo: como lidar com a estruturao da rede de construes armaze-nadas em um constructicon? A busca por uma resposta a essa questo ser objeto da prxima seo.

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    3. Relaes entre Construes e entre Frames

    O Berkeley Constructicon prope, para algumas construes, a existncia de uma relao de Herana. Tal caso se verifi ca, por exemplo, para a Construo Infi nitival_relative_modal, a qual, conforme mostra a Figura 9, herda da Construo Relative_clause.

    Figura 9 Defi nio da Construo Infi nitival_relative_modal no Berkeley Constructicon. Fonte: http://www1.icsi.berkeley.edu/~hsato/cxn00/21colorTag/index.html.

    Entretanto, tal relao no se encontra modelada, na base de dados do Constructicon, da mesma forma como as relaes entre frames o so. Em outras palavras, no h, ainda, no repositrio de construes de Berkeley, uma formalizao das relaes entre construes.

    No mbito da FrameNet Brasil, j desde a implantao do Constructicon, busca-se modelar computacionalmente as relaes entre construes, investigando, ainda, a possibilidade de se propor um paralelismo entre elas e as relaes que se estabelecem entre os frames. Como ponto de partida para esse trabalho, faz-se necessrio, primeiramente, discutir o que se entender por herana construcional nesse contexto.

    3.1. Relaes de Herana nas Gramticas de Construes de Berkeley e Cognitivista

    A Gramtica de Construes de Berkeley (Kay & Fillmore 1999; Fillmore 2013), na qual se inspira o desenvolvimento do Constructi-con, trabalha com a noo de Herana Completa, a qual se defi ne da seguinte maneira: Quando uma construo herda da outra, a primeira

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    contm todas as informaes da segunda e nos casos em que essa relao de fato diz algo mais (Kay & Fillmore 1999: 7). A ttulo de exemplo dessa relao, os autores apresentam a relao existente entre a Construo Ncleo-Complemento e a Construo de Sintagma Ver-bal. A primeira, representada na Figura 10, composta por dois signos fi lhos: um Ncleo (Head), marcado positivamente para o trao lexical (lex), e um ou mais Complementos (Fillers), os quais se manifestam localmente (loc +), direita do Ncleo.

    Figura 10 Construo Ncleo-Complemento (Kay & Fillmore 1999: 7).

    J para a Construo de Sintagma Verbal, necessrio especifi car mais atributos: a categoria do Ncleo precisa ser Verbo (cat v) e a fun-o gramatical do Complemento no pode ser a de sujeito (gf subj). Logo, essa construo tem sua representao proposta conforme a Figura 11.

    Figura 11 A Construo de Sintagma Verbal (Kay & Fillmore 1999: 8).

    Considerando-se que as construes de uma lngua se relacionam em uma rede de heranas, uma forma mais econmica e genrica de representar a Construo de Sintagma Verbal seria, portanto, a apontada na Figura 12, na qual apenas as informaes adicionais so represen-tadas, juntamente com a informao de que a Construo de Sintagma Verbal herda da Construo Ncleo-Complemento (HC).

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    Figura 12 A Construo de Sintagma Verbal, representada atravs da relao de Herana (Kay & Fillmore 1999: 8).

    Quando o Berkeley Constructicon prope, mesmo informalmente, que a Construo Infi nitival_relative_modal herda de Relative_clause, a esse tipo de herana que a anotao se refere. Outros modelos de Gramtica de Construes, entretanto, trabalharo com noes distin-tas da de Herana Completa. A vertente Cognitivista (Goldberg 1995; 2006), por exemplo, prope tipos diferentes de relaes de herana cujo objetivo o de explicar como uma construo herdeira motivada pela construo-me. Nesse caso, trabalha-se com a noo de Herana Normal (Goldberg 1995), a qual permite no apenas herana mltipla, mas, tambm, parcial e sobreposta.

    Goldberg (1995), prope quatro relaes de herana para dar conta da rede de construes na qual fi gura a Construo Ditransitiva: metfora, polissemia, instanciao e subparte. Segundo a autora, laos metafricos uniriam, por exemplo, a Construo de Movimento Causado Paulo chutou a bola pro gol Construo de Discurso Reportado Maria contou a histria para os fi lhos. J os laos polissmicos ligariam mo-dulaes do sentido de uma construo entre si. A Construo Dativa, por exemplo Paulo deu um livro para Maria , ligar-se-ia por polissemia a outras construes em que a transferncia do bem no ocorre neces-sariamente, mas prometida Paulo prometeu um livro para Maria ou ento perspectivizada em funo do trabalho realizado para que ocorra Paulo assou um bolo para Maria (vide Ferrari 2011 para outros exemplos e Kay 2005 para uma crtica a esse modelo).

    A herana por instanciao ocorreria quando uma dada construo, geralmente idiomtica, um caso especfi co da construo me. Por exemplo, sentenas como Paulo jogou o casamento pela janela, so construtos que instanciam a Construo de Movimento Causado, trazendo uma semntica idiomtica prpria. Por fi m, os laos de subparte

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    ligariam construo me uma construo fi lha que composta por parte dos elementos da me, apresentando sentido prprio. As sentenas O cho secou e O Pedro secou o cho so licenciadas por construes ligadas entre si por subparte: a construo me seria a Transitiva, enquan-to a fi lha seria a Ergativa. O lao de subparte se revelaria na medida em que o SN Agente da Transitiva no se manifesta na Ergativa.

    As relaes entre construes propostas na Gramtica Cogniti-vista das Construes operacionalizam um princpio fundador dessa abordagem: o Princpio da Motivao Maximizada, segundo o qual, se duas construes so relacionadas sintaticamente, uma delas motivada pela outra semanticamente (Goldberg 1995: 67). Em face disso, colocam-se para o desenvolvimento do Constructicon do Por-tugus Brasileiro, como recurso complementar FrameNet Brasil, as seguintes questes:

    Seria possvel, na modelagem das relaes entre as construes, trabalhar exclusivamente com a Herana Completa (Fillmore & Kay 1999)?

    Seria possvel, nessa mesma modelagem, incorporar os laos de herana defi nidos pela Gramtica Cognitivista das Construes (Goldberg 1995)?

    Seria possvel acomodar o Princpio da Motivao Maximizada no Constructicon do Portugus Brasileiro?

    A fi m de refl etir sobre essas perguntas, passamos, a seguir, anlise de construes j modeladas no Constructicon do Portugus Brasileiro, sejam elas pertencentes Famlia Para Infi nitivo ou das Construes Binominais (Brodbeck 2010; Tavares 2014).

    3.1.2. O caso da Construo Volitiva

    A Construo Volitiva, exemplifi cada em (6), caracteriza-se, for-malmente, pelo esquema [NP VCOP APDOIDO/LOUCO para (NP) VINF]. Nessa construo, atribui-se ao sujeito da cpula uma vontade extrema de que o evento codifi cado no VP infi nitivo regido por para se realize (Torrent 2009; 2015).

    (6) O menino deve ser louco para comer acar. (NURC-RJ)

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    Essa construo respeita os critrios propostos por Lage (2013) para defi nio dos tipos de fenmenos lingusticos a serem tratados pelo Constructicon do Portugus Brasileiro, uma vez que (i) h um material lexicalmente especifi cado os adjetivos doido e louco, (ii) esses adjetivos evocam frames, porm (iii) s evocam o frame Dese-jar Figura 13 na construo em Para Infi nitivo.

    Figura 13 Defi nio do frame Desejar na FrameNet Brasil. Fonte: http://www.framenetbr.ufjf.br/dados/vocabulario-generico.

    Torrent (2015) argumenta que a Construo Volitiva herda da Construo Adjuntiva Final Infi nitiva, a qual, por sua vez, evoca o frame Finalidade Figura 14. Na FrameNet, uma relao de Uso conecta esses dois frames, modelando o fato de a cena da Finali-dade referir-se, em parte, de Desejar, na medida em que uma FINALIDADE um EVENTO que um AGENTE deseja que se realize11.

    Figura 14 Defi nio do frame Finalidade na FrameNet Brasil. Fonte: http://www.framenetbr.ufjf.br/dados/vocabulario-generico.

    11. Outras relaes entre Finalidade e Desejar poderiam ser propostas, dentre as quais a de metonmia. Porm, a FrameNet ainda no modela tais relaes. Trabalho de pesquisa de doutorado de Maucha Andrade Gamonal tem se dedicado, atualmente, incluso da relao metonmica na FrameNet Brasil.

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    Considerado esse contexto, dois caminhos poderiam ser buscados para se modelar, no Constructicon do Portugus Brasileiro, a relao de herana entre a Construo Adjuntiva Final Infi nitiva e a Construo Volitiva. So eles:

    Herana Completa: como a Construo Volitiva inclui o VP infi -nitivo regido por para, que a contraparte formal da Construo Adjuntiva Final Infi nitiva, poder-se-ia argumentar que a primeira herda da segunda, uma vez que contm toda a informao desta e mais.

    Herana Normal: alm de ser motivada pela Construo Adjun-tiva Final Infi nitiva, a Construo Volitiva herda, tambm, por instanciao, da Construo Predicativa, dado que apresenta um uso idiomtico dos adjetivos doido e louco.

    Apesar de, aparentemente, termos duas boas solues para o problema da extenso para o domnio computacional das relaes entre construes propostas pelas anlises tericas dessa construo, h problemas a serem resolvidos. Primeiramente, considerando-se a aplicao do Princpio da Motivao Maximizada, as relaes entre as duas construes supramencionadas e os frames por elas evocados parecem ir em direes opostas: considerada a Herana Completa, a Construo Adjuntiva Final Infi nitiva seria responsvel por parte das informaes contidas na Construo volitiva, enquanto, por outro lado, a relao de Uso entre os frames Finalidade e Desejar aponta para o fato de que parte daquele se refere a este.

    Em segundo lugar, mesmo que se considere que transformaes de inverso entre construtos cognitivos no so raridade nas abordagens cognitivistas vide a abordagem de Johnson (1987) para os esquemas imagticos, por exemplo a relao de Uso no encontrada entre o frame Finalidade e os outros frames evocados pelas construes da Famlia Para Infi nitivo, tais como Possibilidade, por exemplo.

    Antes, entretanto, de passarmos s consideraes decorrentes dessas questes problemticas, analisemos mais dois exemplos de construes cuja modelagem no Constructicon do Portugus Brasileiro traz problemas.

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    3.2.2. O caso da Construo de Dativo com Infi nitivo

    A Construo de Dativo com Infi nitivo (Torrent 2009; 2015) exemplifi cada pela sentena (7), do corpus de audincias de conciliao do PROCON de Juiz de Fora12 caracteriza-se por ser uma construo altamente esquemtica da lngua portuguesa. Apresenta o esquema sinttico [NP1 V NP2 para (NP3) VINF] quase completamente aberto, ou seja, verbos de vrios tipos semnticos podem ocupar as posies de V e VINF. O NP3 codifi ca um ITEM que possibilita a realizao de uma SITUAO_HABILITADA, codifi cada no VP regido por para. Nesse sentido, evoca, prototipicamente, o frame Sufi cincia, representado na Figura 15.

    (7) Ela deu mil reais pra mim fazer o servio. (PROCON-JF)

    Figura 15 Defi nio do frame Sufi cincia na FrameNet Brasil. Fonte: http://www.framenetbr.ufjf.br/dados/vocabulario-generico.

    Dentre os tipos semnticos de verbos que podem preencher o slot V, foram encontrados verbos de atividade mental, obteno, mudana de estado, posse e existncia, exemplifi cados, respectivamente, nas sentenas de (8) a (12), todas extradas do corpus Conceio de Ibi-tipoca13.

    (8) A senhora sabe alguma simpatia pra parar de fumar? (IBITIPOCA)(9) Ele que arrumou a conduo pra ns ir. (IBITIPOCA)

    12. O corpus PROCON-JF compe-se de audincias de conciliao no mbito dos direitos do consumidor e foi coletado, compilado e organizado pelos professores Snia Bittencourt Silveira, Paulo Cortes Gago e Nilza Barroso Dias, na Universidade Federal de Juiz de Fora.13. O corpus Conceio de Ibitipoca compe-se de entrevistas semiestruturadas grava-das com moradores da comunidade de Conceio de Ibitipoca, distrito de Lima Duarte, Minas Gerais. Foi coletado, compilado e organizado pela professora Therezinha Campos de Resende.

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    (10) A senhora tem que criar coragem pra senhora cantar pras almas. (IBITIPOCA)(11) Eles tm dinheiro para comprar a casa. (IBITIPOCA)(12) Tem alguma coisa para ver aqui? (IBITIPOCA)

    Ao ser modelada no Constructicon, a Construo de Dativo com Infi nitivo foi defi nida por Lage (2013) como compreendendo dois ECs: o Ncleo, que pode ser mapeado ao EF ITEM do frame Sufi cincia, e a Sentena Infi nitiva regida por Para (Para_Sinf), projetada no EF SITUAO_HABILITADA do mesmo frame. Nesse sentido, apresenta as mesmas questes relativas herana da Construo Adjuntiva Final Infi nitiva, j exploradas na seo anterior. Por outro lado, porm, re-solve a diversidade de tipos semnticos de verbos demonstrada acima, atravs de uma diviso de tarefas com a FrameNet Brasil: enquanto responsabilidade da construo evocar a noo de Sufi cincia, cabe aos verbos a evocao de frames como Conhecimento, Obteno, Tornar-se, Posse e Existncia.

    Entretanto, por adotar a soluo da diviso de tarefas, a Construo de Dativo com Infi nitivo suscita uma questo adicional importante: como proceder quando, da interao semntica entre verbo e constru-o, surgir uma nova leitura da semntica construcional? Observe-se o exemplo (13).

    (13) Eu tenho outras coisas pra resolver. (IBITIPOCA)

    No seria possvel atribuir a (13) uma leitura proeminentemente habilitativa, apesar de, do ponto de vista formal, a sentena parecer uma instncia da Construo de Dativo com Infi nitivo. Nesse caso, a leitura de modalidade dentica a mais evidente, o que apontaria para a evocao do frame Ser_obrigado Figura 16.

    Figura 16 Defi nio do frame Ser_obrigado na FrameNet Brasil. Fonte: http://www.framenetbr.ufjf.br/dados/vocabulario-generico.

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    Laviola (2015) argumenta que a leitura dentica na construo de Dativo com Infi nitivo ocorre quando o EC Ncleo pode ser mapeado a um EF nuclear do frame evocado pelo verbo infi nitivo, geralmente na funo de objeto, caso que se confi rma em (13), visto que outras coisas instancia o EF nuclear PROBLEMA, no frame Resolver_problema, o qual ocorre, tipicamente como objeto direto, visto que esse frame apresenta, tambm como elemento nuclear, um AGENTE que ocupa, tipicamente, a posio de sujeito. Tal anlise aponta para a necessidade premente de que as duas bases de dados o Lexicon e o Constructicon da FrameNet Brasil sejam interligadas profundamente, uma vez que apenas uma anlise que considere a interao entre construes, entre frames e entre os frames evocados por itens lexicais e construes ser capaz de prover uma resposta computacional satisfatria aos fenmenos lingusticos.

    3.2.3. O caso das Construes Binominais

    Por fi m, para adicionar mais um vis discusso acerca da mode-lagem de relaes entre construes e entre frames, apresentamos nesta seo duas construes binominais do PB, quais sejam: a Construo Binominal de Quantifi cao Indefi nida e Construo Binominal de Especifi cao. A primeira resulta da associao do padro sinttico [N1 de N2] ao frame de Massa_quantifi cada. Nesta esquematizao, N1 pode ser expresso como o termo quantifi cador da construo, en-quanto N2 representa a entidade quantifi cada. O preenchimento do slot N1 com nomes como: caminho, enchente, monte, pilha, avalanche, pitada, ponta, fi apo, dentre outros, gera instncias como as sentenas (14)-(16), extradas do corpus Cetenfolha14:

    (14) Eu acho que a responsabilidade que os votos, esse caminho de votos es t dando ao senhor nesse sent ido mui to grande . (CETENFOLHA)(15) Um verdadeiro dilvio, uma enchente de cartas inunda a redao. (CETENFOLHA) (16) um mundo de mutantes superpoderosos, mas com uma pitada de realismo. (CETENFOLHA)

    14. O corpus Cetenfolha composto por textos do Jornal Folha de So Paulo e pode ser acessado atravs da ferramenta Sketch Engine em http://www.sketchengine.co.uk.

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    Com relao Construo Binominal de Especifi cao, a estrutura [N1 de N2] associada noo de especifi cao. N1 corresponde ao ncleo sinttico e semntico da construo, e N2, entidade que cons-titui ou especifi ca o N1, como ilustram os exemplos (17)-(19)

    (17) Os peritos policiais encontraram marcas de cal no quarto de Dayse e alguns pingos de sangue no banheiro do apartamento do sobrinho da aposentada... (CETENFOLHA)(18) Sem-terra saqueiam caminho de alimentos. (CETENFOLHA)(19) Frequentemente, uma onda de energia extremamente alta, um raio gama ou csmico das profundezas do espao, penetra a atmosfera. (CETENFOLHA)

    Comparando as duas construes, tem-se uma estrutura sintag-mtica semelhante [N1 de N2] , embora apresentem distines semntico-pragmticas e de estatuto categorial de N1. Se em monte de areia, interpreta-se de areia como um tipo especfi co de monte; em monte de problemas, no estamos mais falando de um monte, mas de uma grande quantidade de problemas.

    Retomando-se o Princpio da Motivao Maximizada (Goldberg 1995: 67), caberia questionar como as construes acima apresentadas motivam uma a outra. Segundo Brodbeck (2010), os primeiros usos de monte associados a um complemento, como em monte de terra e monte de pedras, seriam responsveis pela emergncia da estrutura abstrata [N1 de N2] associada ao frame Massa_quantifi cada. Novamen-te segundo Brodbeck (2010: 105), o que ocorre a reorganizao semntica da expresso motivada pela metfora (primria) MAIS PRA CIMA, que recruta um esquema imagtico piramidal, evocado pela estrutura fsico-visual de monte. Diante desta reorganizao, possvel conceber Quantidade em termos de Verticalidade.

    Nesse sentido, depreende-se que a Construo Binominal de Quantifi cao Indefi nida seja cognitivamente motivada pela Cons-truo Binominal de Especifi cao e tenha, por isso, uma relao de herana com esta, via metfora, corroborando o Princpio da Motivao Maximizada.

    O estudo destas construes tambm vem reafi rmar a necessidade de, ao se estabelecerem relaes construo-a-construo, levar-se em

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    conta, ainda, as relaes frame-a-frame, uma vez que o signifi cado da construo pode depender da interao entre o frame que esta evoca e os frames evocados pelos itens lexicais que a compe. Ou seja, a com-binao de chuva de com uma entidade como granizo, resulta numa instncia da Construo Binominal de Especifi cao, j que chuva est evocando o frame Precipitao. J a combinao de chuva de com crticas gera uma expresso de Quantifi cao, pois chuva no poderia estar evocando Precipitao, tendo em vista a incompatibilidade do frame evocado por crticas.

    3.2.4. Caminhos apontados pelas anlises

    Dadas as anlises apresentadas nas trs sees anteriores, conclui-se que, para que o Constructicon do Portugus Brasileiro modele, ade-quadamente, as relaes entre construes e entre frames observveis na lngua portuguesa, ser necessrio buscar contribuies de mais de uma corrente terica da Gramtica das Construes.

    Primeiramente, bebendo na fonte que deu origem a todos os cons-tructicons, relaes de Herana Completa devero ser modeladas na base de dados do Constructicon do Portugus Brasileiro, de modo a capturar as generalidades compartilhadas por mais de uma construo. Em segundo lugar, o Princpio da Motivao Maximizada no deve ser abandonado, em especial considerando-se sua operacionalizao na proposio de laos metafricos e de heranas mltiplas e parciais. Para tanto, novas relaes entre construes e, muito provavelmente, entre frames, devero ser criadas, ao mesmo tempo em que se deve buscar o alinhamento das FrameNet Brasil e de seu Constructicon com repositrios de metforas, tais como a MetaNet15.

    De outro lado, algumas premissas analticas caras a alguns do-mnios da prtica terico-metodolgica da Lingustica precisaro ser abandonadas, quando se assume, em defi nitivo, o vis computacional. A primeira dessas premissas a busca por um recurso completo. Nem a FrameNet Brasil, nem o Constructicon sero totalmente completos um dia. E isso no se dever apenas dinamicidade da lngua e sua

    15. Disponvel em: http://metanet.icsi.berkeley.edu.

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    tendncia mudana, mas tambm, ao fato de que, virtualmente, toda e qualquer modelagem computacional realizada nesses dois recursos pode ser refi nada em sucessivas rodadas de verticalizao dos recursos.

    A segunda premissa a ser abandonada, por outro lado, a de que o Constructicon dever conter todas as construes observveis para o portugus brasileiro. Esse o objetivo de uma Gramtica das Constru-es, no o de um recurso sinttico complementar FrameNet Brasil. S sero registradas no Constructicon, portanto, aquelas construes que no possam ter sua anlise resumida a informaes de valncia de seus ncleos lexicais.

    Por fi m, as anlises mostram que as relaes entre construes nem sempre encontram-se em paralelo com relaes entre frames. Constru-es podem ser parcialmente produtivas e, complementarmente, seu sentido pode se alterar mediante a sua interao com outros contornos semnticos. Isso no signifi ca abandonar o Princpio da Motivao Maximizada, mas sinaliza para a necessidade de encontrar outras alter-nativas, que no as relaes frame a frame j defi nidas pela Berkeley FrameNet, para operacionaliz-lo na base de dados.

    4. Consideraes fi nais

    Neste trabalho, a partir da anlise de trs casos de construes j modeladas no Constructicon da FrameNet Brasil, discutimos as implicaes de estender para o domnio computacional, no mbito da FrameNet Brasil, os postulados terico-analticos das Gramticas das Construes de Berkeley e Cognitivista, em especial no que tange aos diferentes conceitos de herana construcional, ao Princpio da Motiva-o Maximizada e interao entre frames verbais e construcionais.

    Apontamos para a necessidade de modelar computacionalmente tanto a Herana Completa como outras formas de Herana Normal na base de dados do Constructicon, ao mesmo tempo em que se far necessrio revisitar as relaes entre frames propostas pela Berkeley FrameNet.

    Acreditamos ter contribudo no apenas para a delimitao de polticas de tratamento de construes no domnio das framenets, dada

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    a possibilidade de extrapolao dos nossos achados sobre o portugus brasileiro para outras lnguas, mas, tambm, para a elucidao de ques-tes importantes no que tange extenso, para o vis computacional, de prticas analticas consagradas na Lingustica Cognitiva.

    Agradecimentos

    O projeto Frames e Construes contou com os fi nanciamentos da Fundao de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais, atravs do Programa Pesquisador Mineiro (FAPEMIG CHE-PPM-00096/13), e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfi co e Tecnolgico, atra-vs da Chamada Universal n 14/2012 (CNPq APQ-476292/2012-3).

    Recebido em setembro de 2014Aprovado em outubro de 2015

    E-mails: [email protected]@gmail.com

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