Relações e Privilégios - Alexandre Brasil Fonseca

  • View
    215

  • Download
    3

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Contrariando o dito popular segundo o qual religião e política não se discutem, e muito menos se misturam, o objetivo deste livro é exatamente este: discutir religião e política. O crescimento numérico dos evangélicos, especialmente sua presença ativa na arena política, tem sido muitas vezes associado pela grande imprensa com uma ameaça à democracia por unir religião e política. Este livro argumenta que não há reversão no processo de secularização iniciado no Brasil em 1890, após ter sido decretada a separação entre Igreja e Estado. Ainda não saímos dele e continuará o seu movimento em direção ao declínio do prestígio e da popularidade das religiões em comparação à situação existente no século vinte. A relação que agora se observa entre Estado e Religião não representa um retorno a uma situação de interdependência, mas sim a confirmação de uma separação que busca em novos espaços e situações estabelecer influências.

Text of Relações e Privilégios - Alexandre Brasil Fonseca

  • Copyright Editora Novos Dilogos, 2011

    Equipe EditorialClemir Fernandes | Flvio Conrado | Wagner Guimares

    Capa e DiagramaoOliverartelucas

    Publicado no Brasil com autorizao e com todos os direitos reservados.Editora Novos DilogosCaixa Postal 24.127Rio de Janeiro - RJCEP 20.550-970

    Site: www.novosdialogos.comTwitter: @NovosDialogosFacebook: http://www.facebook.com/novosdialogos

    Grafia atualizada respeitando o novo Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa.

    Fonseca, Alexandre Brasil Relaes e privilgios: estado, secularizao e diversidade religiosa no Brasil / Alexandre Brasil Fonseca. Rio de Janeiro : Novos Dilo-gos Editora, 2011. 153p.; 23cm. (Protestantismo e sociedade) ISBN 978-85-64181-05-2 1.Religio e sociologia. 2. Religio Brasil. 3.Pluralismo reli-gioso. 4. Secularizao. I. Ttulo. II. Srie.

    CDD 261.1

    ndices para catlogo sistemtico:1. Sociologia: 301

    2. Secularizao: Religio: 239

    F676 r

  • Al final de este viaje en la vida, quedar nuestro rastro invitando a vivir.

    Al final del viaje est el horizonte. Al final del via-je partiremos de nuevo.

    Al final del viaje comienza un camino, otro buen camino.

    Silvio Rodriguez

    Daniela e Daniel pelos outros bons caminhos que ainda iremos trilhar.

  • SUMRIO

    Introduo .................................................................................................9

    CAPTULO 1 Secularizao: revisitando um conceito .............................................13

    CAPTULO 2 O Paradigma da secularizao: diferenciao, racionalizao e societalizao ............................................................27

    CAPTULO 3 Pluralismo: revisitando outro conceito ..............................................37

    CAPTULO 4 Um Estado e uma religio: primeiros movimentos ............................47

    CAPTULO 5 Separao Igreja e Estado, passo fundamental ...................................59

    CAPTULO 6 Amizades e perseguies: as vrias religies entram em cena ..............79

    CAPTULO 7 A Irrupo pentecostal na poltica ...................................................101

  • CAPTULO 8 A questo do ensino religioso: caminhos para uma concluso .........123

    Palavras Finais ........................................................................................131

    Referncias Bibliogrficas .......................................................................139

  • 9INTRODUO

    INTRODUO

    Contrariando o adgio popular segundo o qual religio e poltica no se discutem, e muito menos se misturam, o objetivo deste livro exatamente este: discutir religio e poltica. O crescimento dos evanglicos, especialmente sua presena na poltica, vem sendo associado na grande imprensa como uma ameaa democracia por unir religio e poltica. Nas eleies presidenciais de 2010, a temtica religiosa ganhou centralidade no discurso dos candidatos que disputaram o segundo turno, colocando em destaque algumas temticas relacionadas moral e a questes que foram pautadas por determinados gru-pos religiosos e, inclusive, pelo Papa.

    Pastores ocuparam destaque no horrio eleitoral gratuito, reunies pbli-cas foram promovidas e diversos manifestos foram distribudos. Na Internet, mensagens variadas circularam e um vdeo postado por uma igreja tradicio-nal, com uma pregao de seu pastor titular recomendando o no-voto em um determinado partido, foi assistido por milhes de pessoas.

    Este livro argumenta que no h reverso no processo de secularizao iniciado no Brasil em 1890, aps ter sido decretada a separao entre Igreja e Estado, e que prossegue sem maiores surpresas. Ainda no samos dele e o nosso argumento que o mesmo continuar o seu movimento em direo ao declnio do prestgio e da popularidade das religies em comparao situao existente no sculo vinte. A relao que agora se observa entre Esta-do e Religio no representa um retorno a uma situao de interdependncia, mas sim a confirmao de uma separao que busca em novos espaos e situ-aes estabelecer influncias.

  • 10 RELAES E PRIVILGIOS

    Algumas definies

    A modernizao criou problemas para a religio. Quais so os possveis papis que esta desempenhar em nossa sociedade moderna? A religio desaparecer? Reflorescer? Estas no so questes colocadas pelo paradigma da secularizao conforme seus atuais formuladores. O argumento volta-se para a constatao de que houve declnio do significado da religio em nossa sociedade aps a experi-ncia da modernizao. Diante do processo de diferenciao, a religio perdeu o espao privilegiado que possua, passando a compor como mais uma entre as vrias esferas disponveis. Um desdobramento desta situao a reduo do nmero de pessoas interessadas em religio. Com efeito, devemos considerar os contextos sociais e histricos de cada pas, que representam diferenas na forma, intensidade e velocidade com que a secularizao se desenvolve.

    Antes de entramos nas questes especficas que nos interessam seculari-zao, pluralismo religioso importante explicitar o que compreendemos por religio e modernidade. Duas palavras de uso recorrente e que possuem centralidade na produo sociolgica. com o advento do Renascimento que se associa o surgimento da modernidade; noes como razo e indivduo passaram a compor as ideias da poca na Europa de forma cada vez mais in-tensa, at a ocorrncia de uma reforma e duas revolues: a Protestante, por um lado, e a Francesa e a Industrial, por outro. O capitalismo se estabelece, o Homo Economicus criado e os pais da sociologia surgem dizendo que as coisas no so bem assim, ou melhor, no precisam ser exatamente assim. A nova cincia que surge vai criando instrumentais para entender e explicar e em alguns casos transformar este contexto.

    No foi s a aparncia da sociedade que mudou; as relaes de produ-o mudaram, a forma de organizao das instituies tambm, as vilas se transformaram em cidades, a diviso do trabalho aprofundou-se e, como no podia deixar de ser, o prprio indivduo mudou muito. Ele passou a encarar a vida e os que o cercavam de forma diferente; emancipou-se, destacou-se, individualizou-se. Esta nova fase da histria ocidental convencionou-se cha-mar modernidade hoje confrontada por um momento que seria ps e se caracteriza a partir da percepo de que vivemos numa sociedade que experimenta o distanciamento tempo-espao, em constante reflexividade a partir dos mecanismos de desencaixe oferecidos, e dentro de um ambiente multidimensional no mbito das instituies movidas pelo capitalismo, pelo industrialismo e pela racionalizao (Giddens, 1991).

  • 11INTRODUO

    J na definio de religio, duas so as direes usualmente adotadas. Uma, que a v a partir da compreenso substantiva; e outra, que a compreen-de dentro de uma perspectiva funcionalista. A primeira faz perguntas do tipo: quem sou, de onde vim e para onde vou? A segunda, nos termos de como a religio opera, ou seja, como um conjunto de crenas e aes que se definem a partir da compreenso da existncia de uma realidade sobre-humana (Bru-ce, 1996: 7). As implicaes da adoo destas perspectivas sobre a religio so importantes para compreendermos seu papel na modernidade e suas impli-caes para a secularizao. Os que defendem a existncia de um reencanta-mento adotam, geralmente, a definio funcionalista, que tem a limitao de ser to genrica que pode incluir terapias psicolgicas ou mesmo formulaes polticas. Mais do que definirmos a religio pelos problemas que ela resol-ve, devemos voltar nossas atenes tambm pelo caminho que elas adotam para resolv-los. Aqui, nos colocamos ao lado daqueles que compreendem a religio por seu contedo e no por sua funo, considerando que a mesma implica crenas, prticas e instituies as quais se fundamentam na existncia do sobrenatural, ou supra-empirical em Dobbelaere (1981: 38), para agir no curso da vida cotidiana.

    Como as religies se portaram na esfera pblica? De que forma Igreja e Estado se relacionaram nos cinco sculos de histria da terra brasilis? Por intermdio de pesquisa documental e bibliogrfica, buscamos apontar estas relaes em cada poca, especialmente preocupados com a presena de novas organizaes e propostas religiosas. Por limitao de espao, optamos por algumas tradies religiosas, sem termos condies de cobrir toda a gama existente. Nos captulos primeiro e segundo nos detemos no paradigma da secularizao e na forma com que os processos de diferenciao, societalizao e racionalizao se desenvolveram em direo configurao de uma nova concepo, no s da religio, mas tambm de toda a mentalidade humana de nosso tempo. J no terceiro captulo discute-se o conceito de pluralismo, realidade recente que sofreu e sofre uma srie de impedimentos para sua efe-tiva implantao entre a populao. Nos captulos quatro a sete discuto a pre-sena e a relao Igreja-Estado na histria brasileira, concluindo, no captulo oito, com a discusso sobre o ensino religioso nas escolas pblicas.

    ***

  • 12 RELAES E PRIVILGIOS

    Este livro rene pesquisa desenvolvida e escrita como primeira parte da tese de doutorado Secularizao, Pluralismo Religioso e Democracia no Brasil, defendida em novembro de 2002 na USP. Sou grato ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico (CNPq), pela bolsa de pesquisa usufruda durante o ano de 1998; ao Projeto Currents in World Christianity, da Universidade de Cambridge, pela bolsa de pesquisa oferecida por ocasio do concurso de jovens pesquisadores 2000-2001; e Pew Foundation, pelos recursos disponibilizados no contexto da pesquisa Evanglicos e Democracia no Mundo em Desenvolvimento.

    Vrios pesquisadores contriburam para a realizao deste trabalho. Gos-taria de agradecer especialmente aos amigos Paul Freston e Ricardo Mariano, alm de Claudinei Spirandelli, Isabel Arcoverde, Flvio Conrado, Tim Shah e Ziel Machado. Tambm sou grato pela orientao de Antnio Flvio de Oliveira Pierucci, contribuio fundamental para o desenvo