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    MEDIDA CAUTELAR EM MANDADO DE SEGURANA 32.567 DISTRITO

    FEDERAL

    RELATOR : MIN. ROBERTO BARROSO

    IMPTE.(S) : MRIO ALBERTO SIMES HIRS E OUTRO(A/S)

    ADV.(A/S) : ALBERTO PAVIE RIBEIRO E OUTRO(A/S)

    IMPDO.(A/S) : CONSELHO NACIONAL DE JUSTIA - CNJ

    PROC.(A/S)(ES) : ADVOGADO-GERAL DA UNIO

    DECISO:

    Ementa: MANDADO DE SEGURANA.

    CONSELHO NACIONAL DE JUSTIA. SINDICNCIA.

    INSTAURAO DE PROCEDIMENTO

    ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR.

    1. Como regra geral, o controle dos atos do CNJ pelo

    STF somente se justifica nas hipteses de (i) inobservncia

    do devido processo legal; (ii) exorbitncia das

    competncias do Conselho; e (iii) injuridicidade ou

    manifesta irrazoabilidade do ato impugnado.

    2. Inexistncia de violao ao devido processo legal.

    Descrio suficiente das imputaes, que permitiu o

    exerccio adequado do direito impugnao. Instaurao

    de procedimento administrativo disciplinar, no qual

    devero ser observadas, com maior intensidade, os

    direitos ao contraditrio e ampla defesa.

    3. Indcios relevantes de negligncia e/ou atuao

    deliberada para elevar ou deixar de corrigir vcios

    objetivos em um conjunto de precatrios, em prejuzo do

    Errio. Descaracterizao, em juzo preliminar, da

    alegao de que os eventuais erros teriam se originado dos

    ttulos executivos judiciais. Existncia de justa causa para

    a instaurao de procedimento administrativo disciplinar.

    4. Determinao de afastamento das autoridades

    investigadas, de modo a preservar a total iseno na

    apurao dos fatos e afastar dvida fundada quanto

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    regularidade administrativa. Atuao do Conselho

    Nacional de Justia que no desborda da sua esfera de

    competncias e tampouco configura irrazoabilidade

    manifesta.

    5. Medida liminar indeferida.

    I. RELATRIO

    1. Trata-se de mandado de segurana, com pedido de medida

    liminar, impetrado contra ato do Conselho Nacional de Justia que, nos

    autos da Sindicncia n 0002201-38.2013.2.00.0000, determinou a

    instaurao de processo administrativo disciplinar para investigar fatos

    imputados aos impetrantes, afastando-os de seus cargos. Os autores so

    Desembargadores do Tribunal de Justia do Estado da Bahia. O primeiro

    impetrante o atual Presidente da Corte, cargo ocupado pela segunda

    autora na gesto anterior. Confira-se a ementa da deciso impugnada:

    SINDICNCIA PRECATRIOS REQUISITRIOS

    TRIBUNAL DE JUSTIA DA BAHIA ERROS DE CLCULO

    INCLUSO DE VERBAS INDEVIDAS CLCULO

    CONFECCIONADO POR SERVIDOR ESTRANHO AO SETOR

    DE PRECATRIOS INCLUSO NO OFCIO REQUISITRIO

    DA MULTA PREVISTA NO ART. 475-J DO CPC

    DESCABIMENTO ERRO GROSSEIRO - FIXAO DE

    HONORRIOS ADVOCATCIOS IRRAZOVEIS CAUSA

    SEM APARENTE COMPLEXIDADE LAUDO PERICIAL

    CONFECCIONADO POR PERITO PARTICULAR AUSNCIA

    DE PARTICIPAO DA CONTADORIA JUDICIAL

    IRREGULARIDADE GRAVE - ATOS OMISSIVOS E

    COMISSIVOS DOS GESTORES RESPONSVEIS

    IRREGULARIDADES PROCESSUAIS E PROCEDIMENTAIS -

    PREJUZO AO ERRIO - CONDUTA INCOMPATVEL COM O

    EXERCCIO DA MAGISTRATURA INFRAO AO ART. 35,

    INCISOS I, VII E VIII DA LOMAN INSTAURAO DE

    PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR

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    AFASTAMENTO DAS FUNES - DIGNIDADE DO PODER

    JUDICIRIO NECESSIDADE DE CONTRADITRIO E

    AMPLA DEFESA RESOLUO 135 DO CNJ

    2. Em sntese, alegam os impetrantes que:

    (i) o CNJ teria violado os seus direitos ao devido processo

    legal, ampla defesa e ao contraditrio, porque: (a) o relatrio e o voto do

    Corregedor Nacional de Justia seriam genricos, sem especificao de

    irregularidades; (b) os clculos feitos pela Corregedoria e tomados

    como base para apontar irregularidades nunca teriam sido formalmente

    apresentados aos impetrantes; (c) a Presidncia do CNJ teria impedido os

    advogados dos autores de se pronunciarem, na sesso de julgamento,

    pelo prazo regimental;

    (ii) a Presidncia dos Tribunais no teria competncia para

    alterar precatrios, que ficariam vinculados ao que restou fixado nas

    decises transitadas em julgado. Isso seria especialmente verdadeiro nos

    casos em que o prprio devedor no tenha questionado os clculos

    utilizados pelo Juzo de primeiro grau;

    (iii) no se teria observado qualquer aumento real dos valores

    dos precatrios, sendo que nem mesmo o Corregedor Nacional de Justia

    haveria afirmado o contrrio somente teria ocorrido a atualizao do

    valor de face dos requisitrios;

    (iv) o CNJ pretenderia responsabiliz-los por no terem

    corrigido erros ou excludo valores indevidos nos clculos realizados em

    primeiro grau o que incluiria at honorrios advocatcios fixados pelos

    juzes, mas considerados irrazoveis pelo Conselho;

    (v) seria injustificado o afastamento cautelar dos impetrantes

    tendo em vista a alegada impossibilidade de repetirem as condutas

    possivelmente irregulares.

    3. Pedem, com base nisso, a concesso de liminar para

    suspender a parte da deciso do CNJ que os afastou das suas respectivas funes,

    assim como para fim de, ante a manifesta ausncia de justa causa, suspender o

    trmite do processo administrativo disciplinar. Em carter definitivo,

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    postulam a declarao de nulidade do ato impugnado, permitindo-se o

    retorno definitivo das autoridades afastadas s suas funes e

    determinando-se o trancamento do processo administrativo disciplinar.

    4. Em suas informaes, o CNJ sustenta que:

    (i) os advogados dos impetrantes no teriam registrado

    pedido de tempo adicional para sua sustentao, nem protestado quanto

    ao perodo que lhes foi concedido; alm disso, teriam tido pleno acesso s

    discrepncias apontadas pela Corregedoria Nacional;

    (ii) o art. 1-E da Lei n 9.494/1997 e o art. 35 da Resoluo/CNJ

    n 115/2012 atribuiriam ao Presidente do Tribunal o dever de aferir o

    valor e os itens que compem o clculo dos precatrios;

    (iii) quanto ao precatrio da empresa Beira Mar: (a)

    formalizou-se a requisio por valor muito superior ao apurado pelo

    Ncleo Auxiliar de Conciliao de Precatrios do TJBA (R$ 291,8 milhes

    contra R$ 116,7 milhes). O clculo do rgo pblico teria sido preterido

    por planilha apresentada por perito contratado por uma das partes, que

    incluiu itens no previstos no ttulo judicial, como a multa do art. 475-J do

    CPC; alm de no acolher a planilha elaborada pelo Tribunal, o primeiro

    impetrante indeferiu a impugnao feita pelo Municpio de Salvador; (b)

    os impetrantes teriam deixado de perceber a incluso de honorrios

    advocatcios no ofcio requisitrio sem o processo de execuo exigido

    pelo art. 730 do CPC;

    (iv) quanto ao precatrio da empresa COBRATE: (a) teria sido

    formalizado com excesso de R$ 190 milhes; (b) os clculos teriam sido

    elaborados por perito particular quando, em regra, so feitos pela

    Contadoria Judicial; (c) o advogado de um dos credores era irmo da

    segunda impetrante, que presidia o Tribunal na ocasio; (d) o excesso

    teria resultado de anatocismo (juros capitalizados) e de indexao no

    prevista na sentena; (e) a inscrio do precatrio na ordem cronolgica

    ocorreu com rapidez incomum, a ponto de atos sofisticados serem praticados em

    um minuto. A alegao demonstrada de forma analtica, que convm

    registrar: em 29.06.2010, o Ncleo Auxiliar opinou pela rejeio do

    precatrio por vcio formal; na mesma data, a segunda impetrante

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    homologou o parecer e determinou a devoluo do ofcio; um minuto

    depois, foi expedido o ofcio; no dia seguinte (30.06), o Juzo efetuou as

    correes e devolveu o ofcio ao Tribunal; no mesmo dia, a Presidente

    reconheceu seu impedimento pela atuao de seu irmo; minutos depois,

    sua substituta ratificou as decises proferidas anteriormente; meia hora

    depois, foi expedido o ofcio requisitrio;

    (v) um assessor da segunda impetrante teria continuado a

    trabalhar no setor de precatrios, informalmente, depois de sua gesto,

    tendo elaborado clculos considerados excessivos em R$ 170 milhes pela

    Corregedoria Nacional de Justia;

    (vi) a infrao seria comprovada com a leso ao Errio, no

    sendo necessrio demonstrar locupletamento por parte do gestor seja

    como for, isso seria examinado no PAD.

    (vii) haveria diversos processos no CNJ investigando a conduta

    dos impetrantes em diversas esferas;

    (viii) o afastamento cautelar dos impetrantes seria necessrio

    para preservar a honorabilidade da instituio, em particular quanto ao

    seu funcionamento neste perodo, bem como para garantir a efetividade

    do PAD, que poderia ser maculado pelo temor reverencial dos servidores

    em relao aos impetrantes.

    5. o relatrio. Passo a apreciar o pedido de medida liminar.

    II. MEDIDA LIMINAR

    6. Nos termos do art. 7, III, da Lei n 12.016/2009, compete ao

    juiz, ao receber a petio inicial, ordenar que se suspenda o ato que deu

    motivo ao pedido, quando houver fundamento relevante e do ato impugnado

    puder resultar a ineficcia da medida, caso seja finalmente deferida [...]. No

    mbito dos tribunais, essa atribuio recai sobre os relatores (Lei n

    12.016/2009, art. 16). So dois os requisitos que devem estar presentes

    para que a medida liminar seja concedida: (i) a relevncia do fundamento

    do pedido ou fumus boni iuris (i.e., a plausibilidade de xito da demanda);

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    e (ii) o risco