Relatório Estágio Supervisionado I

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAR CAMPUS UNIVERSITRIO DE ALTAMIRA FACULDADE DE ENGENHARIA FLORESTAL CURSO DE BACHARELADO EM ENGENHARIA FLORESTAL

RIK OLIVEIRA MELO FREDSON DA SILVA CAITANO JULIANA CAVALCANTE GINO MRCIA REGINA PALMEIRA OLIVEIRA OLAIR SILVA NASCIMENTO PAULO RICARDO RODRIGUES PIOVESAN ROSANA RIBEIRO LUIZ SARAH ROSANE MONTEIRO CARVALHO WALLACY FERREIRA BARRETO

RELATRIO TCNICO DE ESTGIO SUPERVISIONADO I

ALTAMIRA PAR - BRASIL JUNHO DE 2010

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RIK OLIVEIRA MELO FREDSON DA SILVA CAITANO JULIANA CAVALCANTE GINO MRCIA REGINA PALMEIRA OLIVEIRA OLAIR SILVA NASCIMENTO PAULO RICARDO RODRIGUES PIOVESAN ROSANA RIBEIRO LUIZ SARAH ROSANE MONTEIRO CARVALHO WALLACY FERREIRA BARRETO

RELATRIO TCNICO DE ESTGIO SUPERVISIONADO I

Relatrio apresentado como requisito para avaliao total na disciplina Estgio Supervisionado I, do curso de Bacharelado em Engenharia Florestal da UFPA, sob orientao dos professores Marlon Costa de Menezes e Jaime Barros dos Santos Jr.

ALTAMIRA PAR - BRASIL JUNHO DE 2010

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SUMRIOINTRODUO ...................................................................................................................................... 8 1. MDULO I SISTEMAS AGROFLORESTAIS (SAFs) ............................................................. 11 1.1 1.2 Objetivos ............................................................................................................................... 12 Metodologia Aplicada ........................................................................................................... 13

1.3 Resultados ................................................................................................................................... 13 1.3.1 Caracterizao familiar e da propriedade I........................................................................... 13 1.3.1.1 Implementao do Sistema Agroflorestal ................................................................. 16

1.3.2 Caracterizao familiar e da propriedade II ......................................................................... 18 1.3.2 Levantamento etnobotnico ................................................................................................. 19 1.4 Consideraes ............................................................................................................................. 20 2 . MDULO II USO DOS PRODUTOS FLORESTAIS NO-MADEIREIROS:.......................... 23 2. 1 Os PFNMs no PDS Virola Jatob ............................................................................................. 24 2.1.1 Histrico da produo de biojias e artesanatos................................................................... 24 2.1.2 Produo e Venda................................................................................................................. 25 2.2 Consideraes ............................................................................................................................. 25 3 . MDULO III - EXPLORAO DOS RECURSOS FLORESTAIS .............................................. 27 3.1 Objetivo ....................................................................................................................................... 27 3.2 Metodologia Aplicada ................................................................................................................. 28 3.3 Resultados ................................................................................................................................... 29 3.3 1 Clareiras ............................................................................................................................... 29 3.3.2 Solos ..................................................................................................................................... 31 3.3.2.1 Regional ........................................................................................................................ 31 3.3.2.2 Local .......................................................................................................................... 32

3.3.3 Anlise de Compactao do Solo ......................................................................................... 32 3.4 Consideraes ............................................................................................................................. 33 4. MDULO IV ECOLOGIA E DIVERSIDADE ............................................................................ 34 4. 1 Objetivos .................................................................................................................................... 35 4.2 Metodologia Aplicada ................................................................................................................. 35 4.3 Resultados ................................................................................................................................... 36 4.3.1 Estrato Superior .................................................................................................................... 36 4.3.2 Estrato Inferior ..................................................................................................................... 40 4.3.3 Regenerao Natural ............................................................................................................ 43

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4.4 Consideraes Finais ................................................................................................................... 45 5. VISITA TCNICA S INDSTRIAS MADEIREIRAS DO MUNICPIO DE ANAP, PAR .. 46 5.1 Central de Carbonizao Belo Monte (CCBM) Acosta e Figueiredo Ltda.................................... 46 5.2 Serraria Di Trento........................................................................................................................ 47 5.3 HP Compensado .......................................................................................................................... 48 5. 4 Empresa Bortolanza (Ptio de estocagem da Empresa Vitria Rgia)....................................... 49 5.5 Consideraes ............................................................................................................................. 49 CONSIDERAES FINAIS ................................................................................................................ 51 REFERNCIAS .................................................................................................................................... 53 APNDICE A Registros fotogrficos do Mdulo I ........................................................................... 56 APNDICE B Registros fotogrficos do Mdulo II .......................................................................... 58 APNDICE C Registros fotogrficos do Mdulo III ........................................................................ 59 APNDICE D Registros fotogrficos do Mdulo IV ........................................................................ 61 APNDICE E Registros fotogrficos das visitas tcnica as serrarias de Anapu - PA ....................... 62

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LISTA DE FIGURASFigura 1 - Representao esquemtica de Sistema Agroflorestal. ....................................................... 11 Figura 2 - Croqui da propriedade I. Demonstrao dos 20% destinados ao uso do solo. .................... 15 Figura 3 - croqui da 2 propriedade visitada. Demonstrao dos 20% destinados ao uso do solo. ...... 18 Figura 4 - Croqui da propriedade I - anlise sugestiva para melhor uso dos 20% de uso. ................... 21 Figura 5 - Croqui da propriedade II - anlise sugestiva para melhor uso dos 20% de uso. ................. 21 Figura 6 Representao hipottica da metodologia aplicada para a medio da rea de uma clareira ............................................................................................................................................................... 28 Figura 7 - Representao esquemtica de localizao das clareiras estudadas. ................................... 29 Figura 8 - Localizao do Quadrante 02, UT 01, UPA 2005. .............................................................. 36 Figura 9 - Comparao entre parmetros ecolgicos por famlia botnica observados no estrato superior da rea estudada. ..................................................................................................................... 38 Figura 10 - Representao da diversidade de famlias botnicas no estrato superior da rea estudada. ............................................................................................................................................................... 39 Figura 11 - Nmero indivduos em relao ao valor do DAP (Dimetro na Altura do Peito) no estrato superior.................................................................................................................................................. 40 Figura 12 - Comparao entre parmetros ecolgicos por famlia botnica observados no estrato inferior da rea estudada. ...................................................................................................................... 41 Figura 13 - Representao da diversidade de famlias botnicas no estrato inferior da rea estudada 42 Figura 14 - Nmero de indivduos em relao ao valor do DAP (Dimetro na Altura do Peito) no estrato inferior. ...................................................................................................................................... 42 Figura 15 - Espcies encontradas no Quadrante 1- rea de clareira natural - na anlise de regenerao. ............................................................................................................................................................... 43 Figura 16 - Espcies encontradas no Quadrante 2- rea central de transio de clareira - na anlise de regenerao. .......................................................................................................................................... 44 Figura 17 - Espcies encontradas no Quadrante 1- rea com cobertura de dossel fechada - na anlise de regenerao. ...................................................................................................................................... 44 Figura 18 - Casa dos agricultores na Propriedade I ............................................................................. 56 Figura 19 - Quintal Agroflorestal na Propriedade I ............................................................................. 56 Figura 20 - rea prxima ao igarap com presena de Aa - Propriedade I ...................................... 56 Figura 21 - Cultivo de mandioca em contraste com a rea de floresta ao fundo Propriedade I ........ 56 Figura 22 - Plantao de arroz em rea queimada Propriedade I ...................................................... 56 Figura 23 - Produo de arroz e plantao de mandioca - Propriedade II ........................................... 56 Figura 24 - Igarap que corta a Propriedade II..................................................................................... 57 Figura 25 - Alunos e Professores de Engenharia Florestal em visita a agricultores - Propriedade II .. 57 Figura 26 - Matria-prima utilizada na confeco de biojias. ............................................................ 58 Figura 27 - Sementes de aa branco usadas na fabricao de biojias. .............................................. 58 Figura 28 - Colar produzido por alunas durante a oficina de biojias. ................................................ 58 Figura 29 - Integrante do grupo de comunitrios participantes do projeto de biojias. ....................... 58 Figura 30 Medio da estrada secundria. ........................................................................................ 59 Figura 31 - Depresso provocada pelo transporte de madeira em estrada secundria. ........................ 59 Figura 32 - Alunos recebendo orientao pelo tcnico florestal Mauricio, da empresa Vitria Rgia. 59 Figura 33 - Clareira aberta pela extrao do Jatob. ............................................................................ 59 Figura 34 - Aplicao da metodologia para medio de clareira. ........................................................ 59

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Figura 35 - Resduo produzido na explorao de Timborana. ............................................................. 59 Figura 36 - Ramal de arraste com vegetao em processo de regeneraao. ........................................ 60 Figura 37 - Demonstrao do teste de oco. .......................................................................................... 60 Figura 38 - Tora de maaranduba deixada pelos comunitrios na rea de explorao. ....................... 60 Figura 39 - Resduo de maaranduba. Ao fundo, ptio de estocagem. ............................................... 60 Figura 40 - rea de estudo do Mdulo IV. .......................................................................................... 61 Figura 41 - Anlise de regenerao. ..................................................................................................... 61 Figura 42 - Corte feito para anlise dendrolgica ................................................................................ 61 Figura 43 - Sementes de acapu na rea estudada. ................................................................................ 61 Figura 44 - Aplicao da metodologia. ................................................................................................ 61 Figura 45 - Regenerao observada na rea de estudo......................................................................... 61 Figura 46 - Iglus - Central de Carbonizao. ....................................................................................... 62 Figura 47 - Resduos Florestais (Central de Carbonizao) ................................................................. 62 Figura 48 - Cmara de Secagem (Serraria Di Trento) ......................................................................... 62 Figura 49 Caldeira (Serraria Di Trento) ............................................................................................ 62 Figura 50 - Ptio de estocagem (Empresa Bortolanza) ........................................................................ 62 Figura 51 - Incio do beneficiamento (Empresa Bortolanza) ............................................................... 62 Figura 52 - Madeira serrada (Empresa Bortolanza). ............................................................................ 63 Figura 53 - Resduo gerado pela serraria Bortolanza. .......................................................................... 63 Figura 54 - Identificao do compensado (HP Compensados). ........................................................... 63 Figura 55 - Lminas para compensados. .............................................................................................. 63 Figura 56 - Resduos produzidos pelo processo de laminao. ............................................................ 63 Figura 57 - processo de produo de compensados. ............................................................................ 63

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 Espcies presentes na propriedade 1.............................................................................14 Tabela 2 Principais produtos anuais e perenes produzidos na propriedade I .......................... 16 Tabela 3 Espcies presentes na propriedade II ...........................................................................19 Tabela 4 Levantamento Etnobotnico .......................................................................................... 20 Tabela 5 equipamentos utilizados na confeco de biojias ....................................................24 Tabela 6 rea aberta por clareira estudada .................................................................................29 Tabela 7 Danos causados a arvores adjacentes a clareira produzida pelo Jatob ..................30 Tabela 8 Danos causados a arvores adjacentes a clareira produzida pelo Angelim Branco 31 Tabela 9 - Danos causados a arvores adjacentes a clareira produzida pelo Tauari ..................31 Tabela 10 Composio florstica do estrato superior da rea estudada ..................................37 Tabela 11 Parmetros utilizados para representao da composio florstica do estrato superior ................................................................................................................................................38 Tabela 12 Parmetros utilizados para representao da composio florstica do estrato inferior ..................................................................................................................................................40 Tabela 13 - Espcies utilizadas para fabricao de carvo .......................................................... 47 Tabela 14 espcies que passam pelo processo de secagem pela Serraria Di Trento ..............48

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INTRODUO Na dcada de 1960, o governo militar via a Amaznia como um imenso espao vazio a espera do desenvolvimento econmico, que ocorreria a partir da expanso do setor agropecurio, do aproveitamento das jazidas minerais e da industrializao. A abertura da Rodovia Transamaznica era parte importante dessa estratgia, pois cumpriria a misso de facilitar a ocupao do territrio. Desde ento, a ocupao da Transamaznica se intensificou, ocupando no mais as glebas que margeavam a rodovia e sim os lotes nas vicinais, com reas aproximadas a 1/5 das glebas. A colonizao passa a partir da dcada de 1980 a acontecer sem o acompanhamento das instituies oficiais, com muitos agricultores abandonando suas terras ou vendendo-as, iniciando o surgimento de grandes latifndios na Amaznia. A partir da dcada de 1990, surgem os primeiros assentamentos, sendo a maioria dos agricultores oriundos dos Estados do Nordeste. Diferentemente dos colonos antigos na regio, esses novos agricultores amaznidas ocuparam reas planejadas e com infraestrutura para promover a adaptao rpida e eficiente, evitando o abandono de suas propriedades, principalmente nos ltimos anos, que todo assentamento oficial tem sido beneficiado com energia eltrica atravs do programa luz para todos. Com intuito de frear o desmatamento e o avano da fronteira agrcola em direo s florestas, o governo federal passou a adotar mecanismo que garantissem tanto a sobrevivncia das famlias como a preservao das florestas. Observa-se que, inicialmente, as propriedades que possuam ttulos definitivos tinham regulamentada pela Lei 4.771/1965 (Cdigo Florestal Brasileiro) uma reserva legal de 50% da propriedade, ou seja, podiam realizar aberturas em at metade de suas propriedades, todavia, muitos retiraram toda a floresta nativa. Recentemente, com mudanas no Cdigo Florestal pela Lei n 7803/1989 a rea de reserva legal na Amaznia subiu para 80%. Corroborando com a manuteno dos recursos naturais, o Cdigo Florestal Brasileiro tambm institui as reas de Preservao Permanente APP, cobertas ou no por vegetao nativa, com a funo ambiental de preservar os recursos hdricos, a paisagem, a estabilidade geolgica, a biodiversidade, o fluxo gnico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populaes humanas. As reas de Preservao Permanente esto localizadas ao longo dos rios ou de qualquer curso dgua; ao redor das lagoas, lagos ou reservatrios dgua naturais ou artificiais; nas nascentes; no topo de morros, montes, montanhas e serras; nas encostas ou partes destas; nas restingas, como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de

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mangues; nas bordas dos tabuleiros ou chapadas; e em altitude superior a 1.800 metros. No permitido fazer uso dos recursos florestais em reas de APP. Como o homem sempre foi um ser dependente dos recursos da natureza e, em vista da sua provvel escassez, algumas aes surgem para tentar contornar o problema e continuar a retirar os produtos necessrios para sua sobrevivncia sem que a floresta sofra grandes conseqncias. Entre as alternativas surgem os PDS Projetos de Desenvolvimento Sustentvel, que firmado no compromisso de uso racional dos recursos naturais se torna uma alternativa vivel para as comunidades, sendo elas tradicionais ou no. O PDS Virola-Jatob um projeto baseado no Manejo Florestal Comunitrio, criado a partir do empenho da Irm Dorothy Stang, de movimentos sociais, da organizao de pequenos produtores com apoio de diversas instituies, dentre elas INCRA, FETRAGI, MPF, FVPP, CNS, IDEFLOR, SECTAM (SEMMA), CPT, IBAMA e organizaes sindicais. Institudo o PDS, a comunidade, atravs da Associao Vitola-Jatob do PDS de Anap, buscou junto empresa Vitria Rgia Exportadora Ltda, a qual se encaixou nos requisitos estabelecidos pelos rgos fundirios e ambientais, a efetivao do Projeto de parceria para execuo do plano de manejo florestal sustentvel de explorao de impacto reduzido na rea de 21.000ha do PDS Virola-Jatob. nessa realidade que a Faculdade de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Par, Campus de Altamira, se v inserida no contexto acadmico, scio-econmico e ambiental proporcionando aos discentes desta Faculdade uma interao direta com a realidade atravs do seu primeiro estgio supervisionado realizado no PDS Vitola-Jatob, com apoio da Associao Solidria Econmica e Ecolgica de Frutas da Amaznia e da empresa Vitria Rgia. No decorrer da vida acadmica, os estudantes de Engenharia Florestal buscam a cognio de conhecimentos tericos por meio das disciplinas at ento cursadas. O estgio supervisionado surge como oportunidade de levar os acadmicos a terem contato com as atividades que desenvolvero profissionalmente aps sua formao. Nesse contexto, o estgio adquire importncia fundamental por realizar a juno entre teoria e prtica, levando o aluno a vivenciar tanto o conhecimento adquirido em sala de aula, integrando vrias disciplinas diferenciadas em seu contexto, quanto a prtica efetiva de campo, onde de fato se concretiza o fazer profissional. Esse confronto proporciona ao acadmico a possibilidade de enriquecer seus conhecimentos, aprimorando tcnicas e desenvolvendo habilidades que a teoria simplesmente no consegue alcanar.

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Espera-se do estgio supervisionado mais do que uma prtica de campo, por isso, se torna importante o elo entre o saber acadmico e as aes profissionais correntes, de modo que os estudantes possam ter acesso s mais diversas reas de conhecimento que a profisso pode lhes proporcionar, definindo afinidades e abrangendo o leque de opes em relao aos interesses profissionais. O estgio supervisionado foi dividido em quatro mdulos, sendo: Mdulo I Sistemas Agroflorestais; Mdulo II Uso dos Produtos Florestais No-madeireiros; Mdulo III Explorao dos Recursos Florestais com nfase na explorao de impactos reduzidos; Mdulo IV Ecologia e Diversidade, e visita tcnica s empresas madeireiras no municpio de Anap.

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1. MDULO I SISTEMAS AGROFLORESTAIS (SAFs) O conceito de Sistemas Agroflorestais bastante amplo. Uma definio aceita de que esse sistema consiste na integrao de rvores e arbustos com cultivos agrcolas podendo ter como resultado um sistema simples ou complexo e diversificado. O que ir definir esta complexidade ou simplificao est no apenas no saber do agricultor e da informao que ele acumula, mas em uma srie de fatores (REVISTA DOS SISTEMAS AGROFLORESTAIS, 2003). Dentre as diferentes formas de Sistemas Agroflorestais nas regies tropicais so destacados os sistemas taungya, silvipastoris, quintais agroflorestais e os sistemas multiestratificados comerciais, sendo estes dois ltimos bastante praticados na Amaznia. Os sistemas multiestratificados permitem que os agricultores familiares possam obter renda de diferentes espcies e produtos ao longo do ano (VIEIRA et. al, 2007).

Figura 1 - Representao esquemtica de Sistema Agroflorestal. Fonte: Revista dos Sistemas Agroflorestais, 2003.

Segundo Lopes & Almeida (2002), os sistemas produtivos tm crescentemente aberto espao a cultivos perenes, destacando-se a fruticultura, a silvicultura e a floricultura, de forma que a produo agrcola, na sua busca por diversificao, para melhoria das rendas e diminuio dos impactos negativos provocados, possa ser conciliada com as possibilidades de empregos e ocupaes no-agrcolas (agricultura em tempo parcial). Dentre os novos sistemas produtivos que foram emergindo destacam-se os variados tipos de Sistemas Agroflorestais, que permitem a liberao cada vez maior da mo-de-obra para as indstrias e a manuteno de uma atividade primria rentvel, alm de contribuir para a manuteno de espaos sociais e culturais caractersticos da agricultura familiar (LOPES & ALMEIDA, 2002).

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No SAF, as rvores que tero uso como madeira so selecionadas a partir do prprio banco de regenerao ou implantadas, quando no h matrizes prximas da propriedade. O objetivo ter uma rvore de grande porte a cada 20-25m, o que gerar uma densidade final de 40-50 rvores por hectare. O critrio de seleo de espcies madeireiras inclui a qualidade da madeira e a perda cclica de folhas, o que facilita o manejo, j que rvores de grande porte no tero que ser podadas (REVISTA DOS SISTEMAS AGROFLORESTAIS, 2003). As espcies agrcolas de porte mdio, como cacau, bananeira, citros e caf no podem ser considerados como componentes florestais de SAFs. Citros, caf e cacau so espcies de porte arbustivo de origem silvestre, porm, foram objeto de um longo processo de domesticao e melhoramento gentico e so consideradas hoje como cultivos agrcolas perenes (BEMERGUY, 1997). As prticas de manejo adequado podem ou no estabelecer o sucesso de um Sistema Agroflorestal. O manejo implica em remover as plantas doentes, enriquecer com rvores que iro constituir o futuro da rea (sucesso), podar rvores que estejam sombreando em excesso, e fazer isso para renov-las, no para mat-las. Cada espcie tem suas caractersticas, e conhec-las a nica maneira de fazer a coisa certa no tempo certo. De modo geral, a maior parte das espcies reage melhor s podas feitas no inverno. Alm do mais, poucas toleram podas superiores a 70% da copa, e podar 30% da copa uma regra geral para evitar a morte da planta. Ainda se deve saber que as madeirveis no devem ter seu topo podado, e que os galhos podados para formar o fuste devem ser cortados rentes, para evitar a entrada de fungos e a desvalorizao e at queda da rvore no futuro (REVISTA DOS SISTEMAS AGROFLORESTAIS, 2003). 1.1 Objetivos

Para este mdulo, foram traados os seguintes objetivos: estabelecer contato com os produtores locais, para verificar a utilizao do SAFs, assim como examinar a viabilidade da sua implementao na comunidade; observar a forma de organizao do SAFs quanto aos conceitos de espaamento e manejo.

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1.2 Metodologia Aplicada

Para a execuo deste mdulo foi realizada entrevista com duas famlias atravs de um questionrio semiestruturado, abordando a situao socioeconmica destas, assim como a estrutura de suas propriedades. Realizou-se nas propriedades um levantamento das espcies anuais e perenes cultivadas, assim como o levantamento etnobotnico. Confeco de croquis da propriedade. 1.3 Resultados As duas famlias visitadas so oriundas da regio nordeste do Brasil, dos estados do Maranho, Piau e Cear. Antes de suas vindas para o PDS, as famlias j trabalhavam com a agricultura, tanto como diarista como trabalhando para terceiros em terras cedidas. Na primeira propriedade foi observado o uso de Sistema Agroflorestal e a segunda apenas cultivos anuais com poucas frutferas no entorno da casa.

1.3.1 Caracterizao familiar e da propriedade I A primeira famlia visitada, do Sr. Jos da Conceio e D. Sebastiana Pessoa de Barros, est na rea em que residem desde 2004, sendo que na chegada regio, residiram na cidade de Anap por seis meses at conseguirem a propriedade por meio das aes da Irm Dorothy Stang. A propriedade desta famlia tem o tamanho de 100 ha, ou seja, 20 alqueires. O lote no possui documento definitivo, tendo apenas o documento de posse, sendo j gerado documento de ITR, que ainda no foi pago pelos proprietrios. Nesta propriedade, a produo ocorre por meio de consrcio agrcola (cupuau, caju, mandioca e banana), culturas anuais (arroz, milho, mandioca, cana-de-acar, feijo) e Sistemas Agroflorestais, classificado como quintal agroflorestal, no qual se percebe grande variedade de frutferas e espcies madeireiras (Tabela 1).

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Tabela 1 Espcies presentes na propriedade 1 NOME COMUM CULTURA ANUAL Abacaxi Milho Arroz Feijo Cana de acar Mandioca CULTURA PERENE Aa Acapu* Acerola Ameixa Andiroba* Banana Buriti Cacau Caju Cedro* Coqueiro Cumaru* Cupuau Goiaba Graviola Ing Jaca Jambo Laranja Limo Mamo Manga Mogno africano* Muruci Parapar* Tatajuba* Urucum NOME CIENTFICO FAMLIA

Ananas comosus Zea mays Oriza sativa Phaseolos vulgaris Saccharum officinarum Manihot esculenta Euterpe oleracea Vouacapoua americana Malpighia glabra Prunus domestica Capara guianenses Musa paradisaca Mauritia vinifera Theobroma cao Anacardium occidentale Cedrela odorata Cocos nucifera Diprteryx odorata Thuebroma grandiflorum Schum. Psidium guajava Annona muricata Inga sp. Artocarpus heterophyllus Syzyguim malaccense Citrus aurantium Citrus limonium Carica papaya Mangifera indica Swietenia macrophyla Byrsonima basiloba Jacaranda copaia Bagassa guianenses Bixa orellana

Bromeliaceae Poaceae Poaceae Fabaceae Poaceae Euphorbiaceae Arecaceae Fabaceae Malpighiaceae Rosaceae Meliaceae Musaceae Arecaceae Sterculiaceae Anacerdiaceae Meliacea Arecaceae Fabaceae Sterculiaceae Myrtaceae Annonaceae Fabaceae Moraceae Myrtaceae Rutaceae Rutaceae Euphorbiaceae Anacardeaceae Meliaceae malpighiaceae Bignoniaceae Moraceae Bixaceae

* espcies madeireiras de importncia florestal

De acordo com os produtores, o solo apresenta boa qualidade de fertilidade, sendo que o lote possui relevo acidentado, no tem reas degradadas por conta do cuidado com a propriedade, mas, se vislumbra possibilidades de eroso em algumas reas acidentadas e descobertas, principalmente na rea destinada produo de arroz, que est na sua maior

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parte no declive mais acentuado. A camada superficial do solo tida como de textura arenosa na maior parte da propriedade, e argilosa nas proximidades do igarap.

Figura 2 - Croqui da propriedade I. Demonstrao dos 20% destinados ao uso do solo.

Para a implementao das lavouras foram utilizadas reas de mata primria e secundria (capoeiro), sendo que o preparo para o plantio realizado por meio de corte e queima. Segundo D. Sebastiana, anteriormente eram conseguidas as licenas para fazer a derrubada e a queima, mas agora, com a regulamentao da rea, obedecem ao critrio dos 20% de uso da terra. Faz ainda uma observao, dizendo que futuramente, acredita que os 20% sero pouco para os trabalhos na propriedade. Acredita o Sr. Jos que, com uma maior assistncia tcnica e melhor gesto dos recursos adquiridos, no ser necessrio o avano aos 80% destinado reserva legal. Em relao s culturas perenes, ainda no se obtm recursos das mesmas. O que produzido utilizado para consumo prprio ou diviso com os vizinhos. Com o conseqente aumento da produo, sero comercializados os excedentes (Tabela 2).

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Tabela 2 Principais produtos anuais e perenes produzidos na propriedade I PRODUTOS REA Arroz Feijo Milho Cupuau 2 ha 2 ha 2 ha 2 ha PRODUO 40 a 50 sacas PERDEU 02 a 03 sacas (verde consumo) 02 a 03 frutos por p QUANTIDADE Consumo 20 sacas (reserva) 40 a 50 kg por ano Venda 20 a 30 sacas VALOR DE VENDA (R$) 35,00

Toda

25,00

Em relao rea de pastagem, a propriedade conta com pouco mais de um alqueire, sendo utilizado o capim Brachiaria. Para a manuteno da rea utilizado o roo sem o uso de fogo. A famlia possui na propriedade apenas 01 jumenta, aproximadas 30 galinhas e 01 suno. Quando necessrio, se vende algumas galinhas, comuns a R$15,00 e receadas a R$20,00.

1.3.1.1 Implementao do Sistema Agroflorestal

No ano de 2007, os proprietrios tiveram acesso ao crdito do Programa Nacional de Apoio Agricultura Familiar (PRONAF), no valor de R$12.000,00, com uma carncia de 05 anos. O financiamento para ser pago com a prpria produo, mas acreditam que no ser possvel, motivo pelo qual j esto se prevenindo quanto ao pagamento. De incio, a D. Sebastiana alegou no saber o que era o Sistema Agroflorestal, mas de acordo com o andamento da conversa se lembrou do termo utilizado, j adotando na propriedade mesmo antes do PRONAF, com o plantio de espcies diversificadas de frutas e outras plantaes em regime de consrcio. A princpio, foi instalado um consrcio agrcola entre cupuau, banana, caju e mandioca. O plantio iniciou com o cupuau h 03 anos, com acompanhamento tcnico, onde os produtores passaram a conhecer o funcionamento do processo por meio de atividades realizadas na rea do plantio, salientando que no possuam experincia nessa modalidade de cultivo. A tcnica profissional que acompanhou o incio do consrcio foi a Cludia, contratada da Associao Solidria, Econmica e Ecolgica de Frutas da Amaznia (ASSEFA), no

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entanto, com o vencimento do contrato de prestao de servio, a mesma foi dispensada e desde ento no tiveram mais assistncia tcnica na propriedade. O espaamento do consrcio segue o padro estabelecido pelos tcnicos, ou seja, 8 x 8 metros para as culturas estabelecidas na rea. A principal cultura dentro desse consrcio o cupuau, sendo que as mudas foram selecionadas e preparadas para o plantio na rea. As sementes foram doadas aos produtores pela ASSEFA, contudo, no tiveram opo de escolha quanto espcie a ser plantada. Alm da plantao em consrcio agrcola, a famlia realiza tambm o cultivo em SAFs na modalidade de quintal agroflorestal. Nesse modelo, os produtores realizam uma grande diversificao entre frutferas e essncias florestais. Esse sistema foi iniciado atravs de doao de mudas pela Irm Dorothy Stang. Outras foram de iniciativa do prprio agricultor, que percebendo a importncia desse sistema para o complemento da renda familiar, coletou sementes de rvores j existentes em sua rea, e realizou o plantio. Os produtores acreditam que o SAF uma atividade vivel, pois diversifica a produo e complementa a alimentao e renda da famlia. No entanto, declaram que esse sistema na propriedade tem uma pequena produo que utilizada na subsistncia e diviso com os vizinhos, no tendo excedente para vendas. Adotaram o SAFs h trs anos em razo do incentivo financeiro do PRONAF, porm, reclamam da falta de suporte tcnico, o que poderia ser corrigido com a implementao de mais recursos e assistncia tcnica regular. A dificuldade encontrada no manejo a limpeza, sendo esta realizada atravs do roo, que em razo das outras culturas, acaba sendo deixada para ser feita por ltimo. No entanto, pretendem ampliar a rea do SAF assim que tiver condies financeiras, pois, segundo os proprietrios do lote, preciso diversificar a produo, assim, plantam de tudo um pouco. Por enquanto, a atividade que gera maior renda o cultivo solteiro (arroz, milho). No h como avaliar se as espcies florestais acarretam prejuzo devido serem jovens. Alegam ainda que no h ocorrncia de pragas ou doenas na propriedade, com exceo dos besouros que atacaram o feijo na safra 2010, prejudicando toda a produo. O transporte da produo para venda no comrcio realizado pelo caminho da associao, sendo que no encontram obstculos para venda de seus produtos, ressaltando que a ASSEFA presta apoio sempre que preciso.

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1.3.2 Caracterizao familiar e da propriedade II A segunda famlia, do Sr. Alberto Dias da Silva (Cabeleira) e D. Francisca Ribeiro da Silva, est em Anapu h dois anos, e no PDS Virola Jatob h oito meses. A propriedade tem o tamanho de 100 ha, ou seja, 20 alqueires. O lote no possui documento definitivo, nem posse. De acordo com os produtores, o solo apresenta boa qualidade de fertilidade, sendo que o lote possui relevo acidentado. A camada superficial do solo tida como de textura arenosa na maior parte da propriedade, e argilosa nas proximidades do igarap. Para o produtor, a rea estabelecida como roa uma rea degradada, pois quando chegou propriedade, j se encontrava aberta, no apresentando mais vegetao primria.

Figura 3 - croqui da 2 propriedade visitada. Demonstrao dos 20% destinados ao uso do solo.

Na propriedade h apenas o cultivo de culturas anuais como milho, arroz, feijo e mandioca, e uma pequena plantao de cacau pouco desenvolvida, sem presena de rvores para o sombreamento. Dessa forma, podemos avaliar uma diferena de estrutura entre as propriedades analisadas, sendo a primeira mais bem estruturada do que a segunda. No

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entanto, o Sr. Alberto alegou que pretende realizar melhorias na sua propriedade, inclusive com a instalao do Sistema Agroflorestal. Tabela 3 Espcies presentes na propriedade II NOME COMUM CULTURA ANUAL Abacaxi Arroz Feijo Mandioca Milho PERENE Cacau Caju Limo NOME CIENTFICO FAMLIA

Ananas comosus Oriza sativa Phaseolos vulgaris Manihot esculenta Zea mays Theobroma cao Anacarduim occidentale Citrus limonium

Bromeliaceae Poaceae Fabaceae Euphorbiaceae Poaceae Sterculuaceae Anacardiaceae Rutaceae

A propriedade no possui rea de pastagem. Em relao produo animal, a famlia conta com 50 galinhas, 1 porco e 4 patos, que so destinados apenas para o consumo prprio. A produo da famlia transportada com a motocicleta de sua propriedade e com o caminho da associao. Segundo os agricultores, os problemas enfrentados para a comercializao a falta de transporte e de apoio dos STR, cooperativa e associao para a comercializao dos produtos. A famlia possui alm da renda do cultivo da terra, um benefcio que Dona Francisca e o filho deficiente recebem, somando aproximadamente R$ 1.000,00. Alm disso, Seu Alberto recebe esporadicamente dirias em razo da prestao de servios para a comunidade ou associao.

1.3.2 Levantamento etnobotnico A etnobotnica tem se ocupado da documentao dos conhecimentos associados a plantas, acumulados por geraes, e nos dias atuais esta cincia tem contribudo em diferentes aspectos da vida humana (COELHO-FERREIRA, 2009). Nas famlias visitadas, foi possvel verificar a utilizao destas plantas, principalmente das rvores nativas. Segundo Lisboa e Silva (2009), quando se trata de manipulao de

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plantas medicinais nativas, ocorre a interferncia do homem da casa, que conhece melhor a mata. Nesse caso ele quem colhe para a mulher. Esta foi a situao observada nas propriedades estudadas, principalmente relativo andiroba, jatob, copaba e uxi, presentes na rea de reserva legal. notvel tambm o uso de espcies utilizadas de forma associada. Em alguns casos esta associao pode ter at trs espcies, no caso da garrafada feita com uxi, jatob e copaba, utilizada para cansao e dores no corpo. Todas as partes das plantas, assim como os exsudatos (leos, resinas e ltex) so utilizados na produo dos remdios caseiros. Entretanto, as folhas ainda so matria-prima da maioria destes medicamentos (Tabela 4). Os chs e garrafadas so a modalidade mais comum de preparo das plantas para o uso medicinal. Tabela 4 Levantamento Etnobotnico ESPCIE Andiroba Jatob Copaba Uxi Pariri Sena Jamborana Cumaru Boldo Folha santa NOME CIENTFICO Capara guianenses PARTE UTILIZADA Casca Casca viva Hymenaea Courbaril Resina Copaifera sp. leo Endopleura uchi Casca n.i. Folha n.i. Folha n.i. Folha Diprteryx odorata Folha Coleus barbatus Folha n.i. Folha USO baque baque Irritao dos Olhos Problemas intestinais Problemas intestinais, cansao. Anemia Verme Gripe Gripe Fgado Anti-inflamatrio e cicatrizante

1.4 Consideraes A partir do estudo das espcies arbreas utilizadas nos SAFs percebe-se a complexidade da escolha e manejo das mesmas. Assim, para cada propriedade h uma combinao de espcies apropriadas s condies locais, e que ningum melhor do que o agricultor, com acertada assistncia tcnica, para decidir a combinao ideal para o seu sistema. Ressalta-se, portanto, a importncia da valorizao do conhecimento do agricultor, que deve ser considerado em qualquer interveno institucional no meio rural, de modo a adequ-la realidade local.

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A partir desta diversificao dos cultivos por meio do Sistema Agroflorestal, podemos avaliar que pode gerar uma complementao da renda da famlia a mdio e longo prazo. No entanto, algumas modificaes na estrutura da propriedade poderiam ser realizadas, como observada nas figuras 4 e 5.

Figura 4 - Croqui da propriedade I - anlise sugestiva para melhor uso dos 20% de uso.

Figura 5 - Croqui da propriedade II - anlise sugestiva para melhor uso dos 20% de uso.

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Importante tambm o manejo da vegetao herbcea, seja espontnea ou introduzida, devendo sempre manej-la de forma a cobrir o solo, contribuir para a ciclagem de nutrientes e diversificar o sistema.

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2 . MDULO II USO DOS PRODUTOS FLORESTAIS NO-MADEIREIROS: A floresta amaznica fonte de recursos naturais para muitas utilidades humanas. A funo social da floresta ainda muita diversa e rica. Muitas sociedades locais tem nela a fonte primeira de alimento, renda, paz, bem-estar social, sade e segurana. Os recursos no-madeireiros so importantes socialmente e, por isso, economicamente para populaes da floresta, no entanto, no tem merecido a devida ateno da parte das polticas econmicas e sociais governamentais. preciso que se identifique o potencial extrativo de cada produto, sua importncia social, sua projeo econmica e a partir da, formular medidas de polticas econmicas e sociais que venham melhorar as tcnicas de produo, processamento e gesto e, consequentemente, oportunizar melhor qualidade de vida s sociedades das vrzeas da Amaznia. As florestas, com seus produtos representam importantes recursos socioeconmicos atravs dos potenciais alimentcios, oportunidades de emprego, turismo e outros produtos alem dos madeireiros (SANTOS et. al. , 2003) Nesse contexto, o Manejo de Produtos Florestais No Madeireiros (PFNMs), conhecido tambm como neoextrativismo ou extrativismo sustentvel, merece ateno especial, considerando-se que se conduzido de maneira racional, alm de tornar as florestas rentveis, em muitos casos mantm sua estrutura e biodiversidade praticamente inalteradas. Dessa forma, esse manejo envolve uma grande variedade de produtos de boa qualidade proveniente de centenas de espcies, trazendo benefcios s comunidades e consumidores em todas as partes do planeta. De forma geral, os povos e comunidades envolvidos nessas iniciativas normalmente tm mais conhecimentos sobre os recursos florestais, suas formas de coleta, beneficiamento e uso, do que os tcnicos que acompanham os trabalhos (MACHADO, 2008). Os produtos no-madeireiros tambm representam um dos mais desafiadores grupos de produtos, do ponto de vista de mercado, devido ao seu nmero, versatilidade, variao de uso final, diferenas da base de produtores e riqueza de recursos. Um exemplo so os 3000 leos essenciais conhecidos, dos quais aproximadamente 300 possuem importncia comercial (LINTU, 1995 apud SANTOS et. al., 2003).

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2. 1 Os PFNMs no PDS Virola Jatob No PDS Virola Jatob, a explorao dos recursos florestais no-madeireiros acontece de forma incipiente, com destaque para a produo de biojias, artesanatos e mveis rsticos.

2.1.1 Histrico da produo de biojias e artesanatos A iniciativa do projeto de produo de biojias deu-se atravs de trs estrangeiras ligadas a Irm Dorothy Stang, em 2008, ocasio em que investiram cerca de R$ 55.000,00 (segundo D. Nolia Santos) para obteno de maquinrios, capacitao e matria-prima. No entanto, esse primeiro projeto no foi adiante devido falta de organizao, preparo administrativo e contbil e de conhecimento dos comunitrios. Em outubro de 2009, atravs do ex-presidente da ASSEEFA, Sr. Joo e do professor Iselino Jardim, alm de comunitrios, o projeto de biojias foi retomado, abrangendo atualmente 13 pessoas de 11 famlias. Nessa fase, o projeto j contou com trs capacitaes. Apesar da vontade e iniciativa de reestruturar o projeto, as mquinas adquiridas inicialmente esto paradas por falta de manuteno, algumas por terem sido danificadas e outras por terem ficado inutilizadas durante o tempo em que o projeto estava desativado. Segundo a coordenadora do projeto, a manuteno no foi realizada devido falta de dinheiro, tanto por parte da Associao, quanto do projeto, que no conseguiu ainda o retorno financeiro esperado. Tabela 5 Equipamentos utilizados na confeco de biojias EQUIPAMENTOS Serra tico-tico para cortar madeira e semente Furadeira para sementes Pirgrafo para grafia nas peas Alicates e tesouras especficos para artesanatos Descascador de sementes Arco de serra para cortes leves em cips e madeiras

Apesar do pouco conhecimento e experincia na rea, os treze integrantes que abrangem o projeto de Biojias, com o apoio do professor Iselino, pretendem ampliar a produo e nmero de participantes, realizando novas capacitaes. Nesse sentido, pretendem

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realizar em novembro deste ano, em Altamira, uma feira para vender os produtos e divulgar o projeto. Convm destacar que esse grupo de integrantes j apresentaram seus produtos em congresso realizado pela Central Pastoral da Terra (CPT) em Minas Gerais, em 2009.

2.1.2 Produo e Venda A produo das peas realizada durante uma semana por ms, ressaltando que, por falta de tempo, principalmente em poca de colheita, os integrantes no se renem para a montagem. Atualmente, as sementes e demais materiais utilizados na produo de biojias e artesanatos ainda no totalmente coletada no PDS, sendo necessria a compra de outros fornecedores. Em relao s sementes, estas ainda no so coletas regularmente no PDS,

entretanto, os integrantes do projeto esto se planejando para que essa coleta seja feita de acordo com a poca de frutificao e explorao das espcies trabalhadas. Entre as sementes coletas do PDS esto a castanha-do-par, faveira, olho de boi, pachiuba, seringa, mulungu, caran, aa entre outros, alm do fruto de buriti, coco inaj, casca de coco e ourio de castanha-do-par, castanha de caju e madeiras como muiracatiara, acapu, roxinho e amarelinho, raiz da pachiuba, cips e bambu. Dos materiais importados esto em maior quantidade o aa branco, jarina, tento, silicone, fio encerado, moldura, elos, penas, barbante, trana de palha, saco de estopa, tucum, conchas. A fabricao das peas est em torno de 30 biojias dentre brincos e colares e 20 a 30 peas artesanais (quadros e lembranas) por semana em que se renem para produo. A venda desses produtos feita no PDS, em praas e feiras de Anapu, gerando uma renda em torno de R$120,00 R$200,00 por produo semanal. O saldo lquido dessa renda distribudo entre os integrantes que participaram da produo da semana.

2.2 Consideraes Analisada a produo de biojias e artesanatos pela comunidade do projeto, percebe-se que os materiais utilizados ainda so pouco explorados no PDS. A valorizao dos produtos nativos ainda pouca, assim como a utilizao dos resduos produzidos pela produo de mveis rsticos.

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perceptvel a falta de conhecimento e estrutura organizacional dos integrantes do projeto, assim como da associao e cooperativa que ainda no conseguiram estabelecer um canal de comunicao entre os assentados associados, objetivando aumentar a motivao e interesse pelo projeto. A partir de incentivos, sejam eles tcnicos, financeiros e sociais, e fomentando a iniciativa de gerao de renda a partir do projeto apresentado, verifica-se que a idia promissora e tem capacidade de mudar a realidade social da comunidade, trazendo benefcios, no apenas sociais, mas econmicos e ecolgicos.

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3 . MDULO III - EXPLORAO DOS RECURSOS FLORESTAIS Apesar de a Amaznia ter um tamanho significativo, existe uma grande preocupao para que o uso desta floresta seja feito de forma racional tendo como foco a conservao da floresta, garantir um bom relacionamento do homem com a natureza, objetivando as futuras geraes e possibilitando usufruir de sua riqueza. Desta feita alguns mtodos e alternativas surgem para alcanar um manejo sustentvel do recurso florestal, dentre estes, a explorao de impacto reduzido (EIR). A chamada Explorao de Impacto Reduzido (EIR) implica numa explorao cuidadosa, na aplicao de tratamentos silviculturais e no monitoramento das atividades, para controlar a regenerao e ajudar o manejador na tomada de decises tcnicas e comerciais (FUNDAO FLORESTA TROPICAL). Compreendem tambm o planejamento da explorao, desenvolvimento de infra-estrutura e tcnicas operacionais, as quais objetivam reduzir os danos ambientais da extrao da madeira enquanto aumentam a eficincia das operaes (BOLTZ et al., 2003 apud POKORNY, s/d). Em um ambiente florestal a queda de rvores e ou a derrubada destas, ocasiona a formao de aberturas no dossel da floresta denominadas clareiras que exercem influncia sobre o estabelecimento e crescimento de espcies arbreas e, portanto, de grande importncia para a manuteno da diversidade da vegetao (SALIM & PESSOA, 2007). Alm do manejo de rvores na EIR outros fenmenos podem ocasionar clareiras, so eles: queimadas, desmatamentos, eroso do solo, dentre outros. Segundo Brokaw (1982 apud ARMELIN & MANTOVANI, 2001), as grandes clareiras so responsveis pela permanncia das espcies tipicamente pioneiras, helifitas, no interior das florestas.

3.1 Objetivo Analisar os impactos sofridos pela rea explorada utilizando o mtodo de impacto reduzido e observar a capacidade regenerativa das reas onde ocorreram as atividades exploratrias (estradas primrias, estradas secundrias, ptios e reas afetadas pela derruba das rvores).

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3.2 Metodologia Aplicada Inicialmente, com o acompanhamento do tcnico florestal Maurcio Amaral, da empresa Vitria Rgia, foi feita a localizao do ptio um de estocagem da UT2, estradas secundrias e ramais de arraste at as clareiras formadas pelas copas das rvores derrubadas, para anlise dos danos. Em seguida, atravs de metodologia proposta pelo IMAZON1 (VIDAL et. al. 1998), foi feito o clculo da rea de cada clareira e depois da rea total de clareira na UT2.

Distncia 2: aproximadamente 45 graus da primeira medio

Distncia 1: do centro at a borda da clareira Estaca aproximadamente no centro da clareira

Figura 6 Representao hipottica da metodologia aplicada para a medio da rea de uma clareira Fonte: Instituto Mamirau, 2002.

Observou-se a ocorrncia de resduos florestais oriundos da explorao e, em caso positivo, buscaram-se informaes a respeito do seu aproveitamento. Analisou-se a ocorrncia e as conseqncias dos impactos causados pelas derrubadas, nas rvores adjacentes e no interior da clareira, a partir das informaes colhidas em formulrio previamente proposto pelo prof. Marlon Menezes. Mediu-se a largura das estradas secundrias e ramais de arraste, ocasio em que se observou a regenerao nessas reas. Analisou-se a compactao do solo por meio do mtodo de penetrao manual por faca, sugerido pelo prof. Jaime Santos.

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Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amaznia.

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3.3 Resultados

3.3 1 Clareiras Segundo o tcnico florestal Maurcio Amaral, da empresa Vitria Rgia, foram retirados 800m3 de madeira no ano de 2008 da UT2 criada em 2007.

Figura 7 - Representao esquemtica de localizao das clareiras estudadas.

Foram encontradas trs clareiras referentes derrubada de trs espcies de grande valor comercial: Jatob (Hymenaea courbaril), Timborana (Newtonia suaveolens) e Tauari (Courataria sp.). Tabela 6 rea aberta por clareira estudada DISTNCIA (M) CLAREIRA 1 1 2 3 TOTAL 7,25 6,50 3,07 2 7,36 4,90 2,00 3 3,80 3,50 2,20 4 6,40 3,70 12,00 5 7,00 6,80 3,00 6 7,25 5,60 5,50 7 6,00 3,00 5,00 8 7,60 4,15 10,00 REA TOTAL DA CLAREIRA 0,013ha 0,013 ha 0,008 ha 0,034 ha

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Como visto na Tabela 6, a rea total produzida pelas trs clareiras estudadas foi de 0,034 ha. Como nesta UT foram retiradas 200 rvores, estima-se, ento, que a rea total de clareira de 2,26 ha. Analisando as rvores adjacentes, podemos perceber que, na clareira 01 as rvores que estavam ao redor do Jatob como o tachi preto, ing, atamej sofreram danos na copa, na casca e no cmbio (Tabela 7). Tabela 7 Danos causados s rvores adjacentes clareira produzida pelo Jatob RVORE C PLACA (SN SP.) DANO NO FUSTE DANO NA COPA CAUSA RVORE RETIRADA

Tachi preto

0=Sem dano

> 1/3 da copa danificada

1=danificada por operao de corte ou derruba 1=danificada por operao de corte ou derruba 1=danificada por operao de corte ou derruba

JATOB

Ing

3=Dano na casca e no cmbio; < 30 x 50 cm 3=Dano na casca e no cmbio; < 30 x 50 cm

3= rvore sem copa

Hymenaea courbaril L. DAP=101,2 Vol.= 14,8m Alt.= 25m Fuste=1

Atameju

0 = Sem dano

Na clareira 02 a rvore central era a Timborana (Angelim Branco) e ao seu redor estavam o embaubo, uma annonaceae e uma rvore no identificada. Observamos nesta clareira que ocorreu um maior dano na annonaceae onde seu fuste foi totalmente quebrado (Tabela 8).

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Tabela 8 Danos causados s rvores adjacentes clareira produzida pelo Angelim Branco RVORE C PLACA (SN SP.) DANO NO FUSTE DANO NA COPA 2=>1/3 da copa danificada CAUSA RVORE RETIRADA

1=Danificada por operao de corte ou derruba 1=Danificado por operao de corte ou derruba 1=Danificado por operao de corte ou derruba TIMBORANA (Angelim branco) Newtonia suaveolens DAP= 89cm Vol.= 5,23m Alt.= 12m Fuste= 1

Embaubo

0=Sem danos

Annonaceae

5=Totalmente quebrado 4=Dano no

3=rvore sem copa

N.I.

cambio e no lenho

3=rvore sem copa

Na ltima clareira a rvore central era o Tauari e ao seu redor tinha duas rvores de acapu e uma de ata, esta clareira foi a que menos ocasionou danos floresta. Tabela 9 Danos causados s rvores adjacentes clareira produzida pelo Tauari RVORE C PLACA (SN SP.) DANO NO FUSTE DANO NA COPA 3=rvore sem copa 1=Danificado por operao de corte ou derruba 1=Danificado por operao de corte ou derruba 1=Danificado por operao de corte ou derruba Courataria sp. DAP= 61cm Vol.= 3,07m Alt.= 15 m Fuste: 1 TAUARI CAUSA RVORE RETIRADA

Acapu

0=Sem dano

Ata

0=Sem dano

3=rvore sem copa

Acapu

0=Sem dano

3=rvore sem copa

3.3.2 Solos 3.3.2.1 Regional

O relevo caracterizado como ondulado a forte ondulado.

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A geologia regional corresponde a embasamento cristalino e sedimentos recentes do quaternrio. No embasamento cristalino ocorrem gnaisse e granito comumente, arenito e quartzito pouco frequente, enquanto nos sedimentos recentes do quaternrio h ocorrncia de sedimentos aluviais no consolidados e arenitos pouco consolidados. Quanto ao solo, a predominncia Latossolos Amarelos em reas planas com incluses de Argissolos Vermelho-amarelos nas encostas, podendo haver presena de concrees petroplnticas e plintita no horizonte C, podendo ocorrer tambm outras classes de solos, como Neossolos Quartzarnicos, Gleissolos em reas onde a gua fica estagnada, criando uma condio de hidromorfia, tanto em reas baixas de vrzea, quanto em reas mais altas em depresses onde ocorrem tambm o acmulo de gua, e Plintossolos Ptrico concrecionado. Em geral, os Latossolos Amarelos e Argissolos Vermelho-amarelos so solos argilosos, geralmente pegajosos quando molhados e duros quando secos.

3.3.2.2 Local

O relevo observado no local analisado suave ondulado a ondulado. O solo do local de estudo foi identificado como Latossolos Amarelos com incluses de Argissolos Vermelho-amarelos, que ocorrem sobre gnaisse, porm, foi verificado tambm em contato litolgico, a ocorrncia de quartzitos e arenitos, favorecendo a textura mdia em alguns pontos onde ocorrem os Latossolos Amarelos.

3.3.3 Anlise de Compactao do Solo Atravs do mtodo de penetrao manual por faca, verificou-se a maior ou menor resistncia do solo em trs reas: ptio de estocagem e estrada secundria, ramais de arraste e rea de floresta no impactada. No ptio de estocagem observou-se que o solo apresenta grande resistncia penetrao, apresentando a remoo dos horizontes superficiais, o que sugere que o solo est em maior nvel de compactao. Segundo Zanetti (2007), reas destinadas para o depsito de toras devem ser compactadas a fim de evitar o acmulo de gua e prevenir a eroso. Esta compactao agravada devido constante circulao de tratores florestais (skidders) e

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caminhes madeireiros ou julietas, alm do empilhamento das toras extradas da rea explorada. Destaca-se tambm que a compactao acarreta a perda de nutrientes do solo, prejudicando o desenvolvimento da regenerao da rea (ZANETTI, 2007). Da mesma forma, observa-se esse mesmo comportamento no solo da estrada secundria, a qual d acesso ao ptio de estocagem. J na anlise dos ramais de arraste, verificou-se que o solo apresenta-se com resistncia moderada perfurao, indicando que o solo esteja menos compactado em relao ao ptio e estrada secundria. Isso porque, em explorao de impacto reduzido, a circulao de maquinrios e trabalhadores ocorre apenas enquanto realizada a extrao e arraste da tora. Os solos em reas no exploradas apresentam-se pouco resistentes a penetrao, o que leva a concluir que esto em nveis de compactao menores quando comparados ao solo das reas utilizadas para extrao, estocagem e arraste.

3.4 Consideraes

O planejamento para derruba das rvores (corte direcional) evita que aquelas com dimetro alto sejam danificadas com a queda da que ser retirada, minimizando tambm prejuzos econmicos. Os ramais de arraste possuem uma maior capacidade de regenerao por apresentarem uma menor compactao do solo devido ao cuidado na hora da derruba e retirada das rvores atravs do arraste da madeira com o trator florestal (skidder) sem tocar uma das pontas da tora no cho, evitando o sulco no solo. Em relao ao ptio, o mesmo possui solo compactado para evitar o acmulo de gua e eroso, apresentando a regenerao em menor quantidade que as demais estradas. Convm salientar ainda, que no ptio de estocagem, aps quase dois anos da explorao, a regenerao consideravelmente baixa, apresentando poucos indivduos e com desenvolvimento comprometido (altura inferior a um metro), enquanto que nos ramais de arraste ocorre uma presena significativa de espcies em processo regenerativo, inclusive descaracterizando os ramais devido a completa ocupao de espcies em estgio regenerativo avanado.

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4. MDULO IV ECOLOGIA E DIVERSIDADE A palavra ecologia foi empregada pela primeira vez pelo bilogo alemo E. Haeckel em 1866 em sua obra Generelle Morphologie der Organismen. Ecologia vem de duas palavras gregas: Oiks que quer dizer casa, e logos que significa estudo. Ecologia significa, literalmente, a Cincia do Habitat. a cincia que estuda as condies de existncia dos seres vivos e as interaes, de qualquer natureza, existentes entre esses seres vivos e seu meio. Assim, podemos dizer que existe uma relao prxima entre a ecologia e a diversidade florestal, sendo esta a responsvel por manter a estrutura das mais diversas formas de vida no planeta, principalmente quando se olha para a floresta como estrutura capaz de manter o equilbrio da vida por meio da fotossntese e dos processos qumicos que permitem o balanceamento atmosfrico terrestre. De modo que, ao se pautar a relao ecolgica existente dentro da floresta amaznica, se vislumbra o uso indiscriminado de muitos recursos e aes espordicas que buscam a manuteno da estabilidade existente numa floresta primria. O homem, no fim primeiro do lucro, exps a maioria das florestas tropicais nativas a um sistema de explorao no sustentvel, com a Amaznia no tem sido diferente, o uso dos recursos sem aplicao dos critrios de sustentabilidade do manejo florestal, caracteriza perda da cobertura florestal e da diversidade de espcies, antes mesmo que se tenha o conhecimento dessa riqueza natural. (SOUZA et. al., 2006). Estudos sobre a estrutura e diversidade de florestas podem ser realizados com finalidades diversas, quer seja de carter aplicado (conservao e restaurao de ecossistemas, avaliao de impacto ambiental, explorao florestal sustentvel dentre outros), quer sejam estudos tericos, visando, primordialmente, o avano do conhecimento cientfico. (DURIGAN, 2009). No PDS Virola-Jatob, no municpio de Anap, Estado do Par, a empresa Vitria Rgia executa em parceria com a comunidade, atividades de manejo florestal de impacto reduzido. Para tal, mantm em sua rea de explorao, a UT 01 como testemunha, servindo como parmetro de comparao com as reas exploradas e de estudos sobre a floresta. Esta proposta evidencia a conscincia ambiental, demonstrando que o modelo de atividade proporciona sustentabilidade, maior aproveitamento dos recursos florestais e maior lucratividade para os empreendedores.

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4. 1 Objetivos

O Mdulo Ecologia e Diversidade props a identificao e anlise da composio florstica e dendrolgica existente na Unidade de Produo Anual 2005 UPA 2005, Unidade de Trabalho 01 UT 01, quadrante 02, referentes ao estrato superior e inferior, assim como a diversidade e capacidade de regenerao atravs do possvel uso exploratrio da rea ou por meio das plntulas. Buscou-se ainda compreender os indicativos ecolgicos, concernentes capacidade da floresta em se recompor aps a sua explorao, assim como compreender a floresta sem a interferncia do homem, observando questes como dominncia de espcies, como observa Vandermeer et. al. (apud MARTINS et. al. 2009), que nos coloca que os distrbios no dossel florestal podem atrasar o processo de excluso competitivo por reduzir a dominncia e assim manter ou mesmo aumentar a diversidade de espcies das florestas.

4.2 Metodologia Aplicada

O estudo foi realizado na rea denominada como testemunha, ou seja, no explorada que serve como parmetro de comparao com reas de explorao efetiva dentro do Projeto de manejo explorado pela Empresa Vitria Rgia, situada no PDS Virola-Jatob do municpio de Anap PA. Para a realizao deste trabalho foram identificadas as famlias das plntulas, ou seja, da regenerao, de tamanho 30 centmetros de altura, assim como a regenerao do manejo com espcies entre 50 e 134 cm de CAP que foram denominadas de estrato inferior. A rea total da parcela de 50x50 m e foi subdividida em quatro quadrantes de 25x25, que so as subparcelas, a identificao foi realizada em trs quadrantes de 3 x 3 metros existentes dentro da rea em questo, denominados de Q1 e Q4 e no centro da rea estudada (Fig. 01). J as rvores de porte maior, ou seja, com CAP a 135 cm, que so as do estrato superior, alm de identificadas, foram feitas anlises dendrolgicas.Vale ressaltar que a rea no possui declividade, ou seja, uma rea relativamente plana. O estudo foi embasado de acordo com o Sistema de Classificao de Cronquist (1988). Para anlise da estrutura horizontal da regenerao natural, foram utilizados os parmetros fitossociolgicos de densidade, freqncia, dominncia e valor de importncia (MAGURRAN, 1988, apud FRANA & STEHMANN, 2004).

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Figura 8 - Localizao do Quadrante 02, UT 01, UPA 2005.

4.3 Resultados

4.3.1 Estrato Superior Como resultado da observao da UPA Unidade de Produo Anual 2005, UT Unidade de Trabalho 01 do PDS Virola-Jatob, foi possvel estabelecer trs nveis para anlise, o estrato superior, com espcies a 135 cm, o estrato inferior com espcies entre 50 e 134 cm de CAP e ainda a regenerao natural da floresta em rea fechada ou clareiras naturais, com espcies de interesse florestal com valores de tamanho a 30 centmetros.

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Em relao ao estrato superior, a floresta se apresenta em estado de harmonia, visto a rea no ter sido explorada, com boa variedade de espcies encontrada em uma rea de 250 m, que proporciona a possibilidade de estgio sucessional por meio da regenerao natural. Tabela 10 Composio florstica do estrato superior da rea estudada FAMLIA Fabaceae (Papilionoideae) Sapotaceae Fabaceae Sapotaceae Fabaceae (Mimosoideae) Lecythidaceae Cecropiaceae Lecythidaceae Sapotaceae Sapotaceae Fabaceae (mimosoideae) Lecythidaceae Lauraceae Fabaceae (Papilionoideae) Cecropiaceae Fabaceae(Caesalpinioideae)

NOME Melancieira Maaranduba Jatob Guajar Pedra Angelim rajado Sapucaia Embaubo (mapatirana) Mata mata preto Acariquara Guajara bolacha Louro tamaquar Castanha-dopar Louro Preto Cumaru Amarelo Embaubo (mapatirana) Acapu

CAP P 141 367 162 146 154 298 139 179 212 260 135 283 141 182 185 155

DAP M 0,448817 1,168197 0,515662 0,464732 0,490197 0,948563 0,442451 0,569775 0,674817 0,827606 0,429718 0,900817 0,448817 0,579324 0,588873 0,49338

g. 0,064119 0,434393 0,084641 0,068747 0,076488 0,286407 0,062313 0,103337 0,144951 0,21802 0,058778 0,258299 0,064119 0,10683 0,110381 0,077484 2,219309*

AL T. 18 20 13 10 10 12 13 13 14 10 10 25 15 15 17 18

DAP CM 44,88301767 116,8231736 51,56772243 46,47461404 49,02116823 94,85914372 44,24637912 56,97915009 67,48368614 82,7630113 42,97310202 90,08435461 44,88301767 57,93410791 58,88906573 49,33948751

*rea basal total; CAP = Circunferncia na Altura do Peito; DAP M = Dimetro na Altura do Peito (emmetros); g = rea basal; AL = altura estimada; DAP - CM = Dimetro na Altura do Peito (em centmetros).

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Em relao aos dados observados no estrato superior, as Fabceas se apresentam com maior freqncia, dominando em nmeros de indivduos o espao amostral, seguido por Sapotceas e outras famlias, todas com fuste acima de 10 metros. No conjunto, apresentam boa estrutura basal e variao nos DAPs Dimetros acima do peito. Tabela 11 Parmetros utilizados para representao da composio florstica do estrato superior D.R.% F.A. F.R.% Do.A. Do.R.% VIF% Fabaceae Sapotaceae Lecythidaceae Cecropiaceae Lauraceae 37,50 25,00 18,75 12,50 6,25 100,00 6 4 3 2 1 16 37,5 25,0 18,7 12,5 6,3 100 0,468341 0,866112 0,648043 0,172694 0,064119 2,219309 21,10 39,03 29,20 7,78 2,89 100 96,10 89,03 66,65 32,78 15,44 300,00

D.R. % = Densidade Relativa; F.A. = Frequncia Absoluta; F.R. % = Frequncia Relativa; Do. R. % = Dominncia Relativa; VIF % = Valor de Importncia Florestal.

Para analisar a forma de ocorrncia das famlias e sua importncia dentro do sistema florestal, foram listados parmetros representativos da composio florstica da UT 01, parcela 02, onde se verificou a Densidade com maior freqncia absoluta e Relativa para as Fabceas, seguida das Sapotceas, Lecitidceas, Cecropiceas e Laurceas.

COMPARAO DE PARMETROS ECOLGICOS ESTRATO SUPERIORDo.R.%89,03 96,1 39,03 37,5 21,1 25,0 29,2

V.I.F.%60,4

F.R.%26,53 27,94

18,7

7,78

12,5

2,89

Figura 9 - Comparao entre parmetros ecolgicos por famlia botnica observados no estrato superior da rea estudada.

6,3

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Quando observadas a Dominncia Absoluta e Dominncia Relativa, a Fabaceae cede lugar para as Sapotceas e Lecitidceas, onde os dados representativamente demonstram serem economicamente mais viveis em razo do CAP e DAP. Porm, estes parmetros no descartam o uso comercial das Fabaceas em relao s demais e, ressalta o VIF Valor de Importncia Florestal, por estar mais presente na rea, fornecendo maior possibilidade de reconstituio da rea no que diz respeito capacidade de regenerao e estabilidade da floresta. Dentro do estrato superior, a parcela da UT 01, da UPA 2005 apresentou cinco famlias botnicas e vrias espcies divididas no espao estudado, o que demonstra a riqueza vegetativa existente na rea do PDS Virola-Jatob. Nesta amostra, houve destaque para as Fabceas, com maior nmero de indivduos por famlia, seguido por Sapotceas dentre as outras de grande valor comercial.

DIVERSIDADE DE FAMLIAS - ESTRATO SUPERIOR

Fabaceae Cecropiaceae13% 19%

Sapotaceae Lauraceae6% 37%

Lecythidaceae

25%

Figura 10 - Representao da diversidade de famlias botnicas no estrato superior da rea estudada.

O padro do jota invertido se apresenta na rea estuda de modo distorcido, mas serve como base para anlise de informaes sobre a capacidade da composio florstica da unidade em questo, onde ocorrem variaes dentro da floresta, com diferenas entre dimenses da rea basal, demonstrada a variabilidade existente e a potencialidade da rea para a indstria madeireira.

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NMERO DE INDIVDUOS X DAP12 N de Individuos 10 8 6 4 2 0 42- 60 61-79 DAP (cm) Figura 11 - Nmero indivduos em relao ao valor do DAP (Dimetro na Altura do Peito) no estrato superior. 80-98 99-117

4.3.2 Estrato Inferior

O estrato inferior, denominado em algumas instncias como regenerao do manejo, indicativo das rvores que esto na rea de explorao e que possuem dimetro a altura do peito menores que as rvores que sero retiradas da UT, no caso em questo, as rvores com dimetro entre 50 e 134 centmetros. Na linha de produo, estas rvores sero as exploradas no prximo ciclo de corte. Tabela 12 Parmetros utilizados para representao da composio florstica do estrato inferior D.R.% F.A. F.R. Do.A. Do.R.% V.I.F.% Fabaceae Euphorbiaceae Lauraceae Cecropiaceae Lecythidaceae Myristicaceae Burseraceae no identificada 26,31578947 5,263157895 5,263157895 21,05263158 26,31578947 5,263157895 5,263157895 5,263157895 100 5 1 1 4 5 1 1 1 19 26,32 % 5,26 5,26 21,06 26,32 5,26 5,26 5,26 100 0,16993926 0,00940454 9 0,02849745 7 0,06708480 6 0,08681471 4 0,01333436 3 0,01922139 5 0,01491311 8 0,40920966 41,5287 2,29822 6,96402 16,3937 21,2152 3,25857 4,6972 3,64437 100 94,16444458 12,82138013 17,4871811 58,50638041 73,85100522 13,78172334 15,22035845 14,16752676 300

D.R. % = Densidade Relativa; F.A. = Frequncia Absoluta; F.R. % = Frequncia Relativa; Do. R. % = 2 Dominncia Relativa; VIF % = Valor de Importncia Florestal.

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Em relao aos parmetros representativos da composio florstica do estrato inferior, houve freqncias mais expressivas entre as Fabaceas, Lecitidaceas e Cecropiaceas, refletindo diretamente na Dominncia Absoluta das espcies dentro do estrato, onde as Fabaceas se sobressaem como espcies mais presentes do espao observado, se estendendo de forma homognea pela Dominncia Relativa, o que nos leva a refletir sobre a importncia do papel das Fabaceas no processo regenerativo da floresta primria, corroborando com o alto Valor de Importncia Florestal.

94,16

V.I.F.%58,51

Do.R.%73,85

F.R.%

41,53 26,32

17,49 6,96 5,26

16,39 21,06

21,22 26,32

15,22 4,70 5,26

Figura 12 - Comparao entre parmetros ecolgicos por famlia botnica observados no estrato inferior da rea estudada.

Observou-se a diversidade da distribuio das famlias botnicas dentro da parcela da UT estudada, sendo que, alm das famlias identificadas, outras se fazem presentes, com uma quantidade razovel de indivduos no classificados nos DAPs coletados, ou seja, dentro da perspectiva de 7,5 a 15 centmetros de DAP com varas, 15 a 31 centmetros de DAP com arvoretas e rvores com DAP entre 31 e 50 centmetros conforme padro para inventrio utilizado pela empresa Vitria Rgia, que no entram no sistema de produo, mas possuem grande importncia para a reconstituio da vegetao.

12,82 2,30 5,26

13,78 3,26 5,26

14,17 3,64 5,26

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DIVERSIDADE DE FAMLIAS - ESTRATO INFERIORFabaceae Cecropiaceae Burseraceae 5% 27% Euphorbiaceae Lecythidaceae no identificada 5% 5% 27% 5% 21% 5% Lauraceae Myristicaceae

Figura 13 - Representao da diversidade de famlias botnicas no estrato inferior da rea estudada

Assim como o estrato superior, o inferior tambm apresenta um padro distorcido da forma do jota invertido, como variaes no DAP entre 15 a 40 centmetros, com um significativo nmero de indivduos subdividos em espcies e famlias botnicas diferentes, o que revigora o conceito inicial de que a UPA 2005 possui alta capacidade regenerativa quanto ao manejo proposto pela empresa na sua rea testemunha, cmparando com as demais reas a serem exploradas apresentam capacidade de recomposio por ser basicamente a estrutura de vegetao formada por uma floresta homognea.

N DE INDIVDUOS X DAP8 N de indivduos 6 4 2 0

15 - 21

21 - 27DAP (cm)

27 - 33

33 - 40

Figura 14 - Nmero de indivduos em relao ao valor do DAP (Dimetro na Altura do Peito) no estrato inferior.

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4.3.3 Regenerao Natural

Com intuito de verificar a capacidade regenerativa da UPA 2005, UT 01 no PDS Virola-Jatob, se coletou dados acerca da regenerao em trs quadrantes de 9 m, onde foi possvel conhecer a capacidade da floresta em prover as espcies para os prximos ciclos de vida, assim, de bom tom conhecer o sentido de regenerao natural. A regenerao natural decorre da interao de processos naturais de restabelecimento do ecossistema florestal. , portanto, parte do ciclo de crescimento da floresta e refere-se s fases iniciais de seu estabelecimento e desenvolvimento. O estudo da regenerao natural permite a realizao de previses sobre o comportamento e desenvolvimento futuro da floresta, pois fornece a relao e a quantidade de espcies que constituem o seu estoque, bem como suas dimenses e distribuio na rea (CARVALHO, 1982). No espao observado, foi possvel concluir que o processo regenerativo est ocorrendo com grande intensidade, se perceber que no quadrante localizado em clareira natural ocorre uma grande quantidade de espcies no madeireiras, como cips e espcies de ciclo curto, tambm esto presentes espcies de essncias florestais (Figura 13).

Quadrante 01 - Regenerao Natural3% 6% 9% 3% 3% 9% 9% 21% Canela de jcamin Caferana Juruparana

BreuIng vermelho Louro preto Casca seca 31% Envira preta Breu branco

6%

Figura 15 - Espcies encontradas no Quadrante 1- rea de clareira natural - na anlise de regenerao.

Nos demais quadrantes, por estar em reas de mata fechada, a dominncia est relacionada s espcies florestais de valor comercial (Figuras 14 e 15). Ressalta-se a variabilidade de espcies existentes na rea, o que demonstra a capacidade do local em se manter em equilbrio. O que, de acordo com Carvalho (1982) variabilidade possibilita a

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anlise da estrutura da regenerao, promovendo a relao entre a quantidade de espcies que constituem o estoque da floresta, suas dimenses e sua distribuio na comunidade vegetal, fornecendo dados que permitem previses sobre o comportamento e o desenvolvimento da floresta no futuro.

Quadrante 02 - Regenerao Natural3% 3% 17% Casca seca Breu vermelho Canela jcamin Embaubo 14% 14% 10% 3% 3% 3% 3% 10% Atamej Acap Caqui Louro preto Juruparana Caferana

10%

7%

Figura 16 - Espcies encontradas no Quadrante 2- rea central de transio de clareira - na anlise de regenerao.

Quadrante 03 - Regenerao Natural2% 5% 9% 30% 9% Ing branco Louro preto Juruparana Breu Vermelho Acap 9% Gema de Ovo Atamej 2% 5% 2% 2% 2% 2% 2% 2%

CaquiAndirobarana Casca Seca

9%

5%

Figura 17 - Espcies encontradas no Quadrante 1- rea com cobertura de dossel fechada - na anlise de regenerao.

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4.4 Consideraes Finais

Percebe-se a preocupao da Empresa Vitria Rgia em relao a manuteno do Projeto de Desenvolvimento Sustentvel que a mesma executa em parceria com a comunidade do Assentamento Virola-Jatob, at mesmo pela questo da certificao pelos rgos competentes acerca do selo verde para a madeira extrada da rea do manejo. Assim, a empresa reservou a UPA 2005 para servir como testemunha em relao s demais reas de explorao e para estudos sobre o comportamento da floresta em reas exploradas e no exploradas. De modo geral, perceptvel a capacidade da floresta em se recompor, desde que as aes antrpicas no interfiram no ciclo regenerativo, o pouso da rea aps a explorao necessrio para que a floresta reponha o que foi retirado. A forma de explorao do PDS Virola-Jatob positivo quando se observa o retorno econmico para a empresa e a comunidade em contraponto ao equilbrio ecolgico que a empresa se prope a cumprir.

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5. VISITA TCNICA S INDSTRIAS MADEIREIRAS DO MUNICPIO DE ANAP, PAR A explorao madeireira na Amaznia vem crescendo, devido, principalmente, ao decrscimo do estoque de madeira na sia e ao posicionamento geogrfico favorvel da regio em relao aos principais mercados mundiais. Por este mesmo motivo h uma crescente necessidade pela otimizao no aproveitamento dos resduos gerados pela retirada, industrializao, e beneficiamento da madeira. Para isto, as Empresas madeireiras buscam cada vez mais o aperfeioamento de seu sistema produtivo. Uma srie de trabalhos tem mostrado que o adequado planejamento e supervisionamento das operaes de explorao no somente criam condies para a sustentabilidade como reduzem os custos, por uma margem substancial, comparando-se explorao convencional. Outro ponto importante refere-se dificuldade de encontrar pessoal treinado em todos os nveis relativos ao manejo florestal. (DYKSTRA, 2001). Tendo em vista esta nova realidade do setor madeireiro, a Faculdade de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Par, Campus Altamira, proporcionou aos acadmicos uma visita tcnica s empresas responsveis pela extrao, beneficiamento e comercializao de madeira no municpio de Anap PA, realizadas no dia 26 de junho de 2010 como parte integrante do Estgio Supervisionado I. Foram visitadas quatro empresas do setor madeireiro com caractersticas e ramos empresariais diferentes, seguindo a seguinte ordem de visitao. 5.1 Central de Carbonizao Belo Monte (CCBM) Acosta e Figueiredo Ltda A Central de Carbonizao Belo Monte est localizada na Rodovia Transamaznica, BR 230, km 135, municpio de Anap PA. A recepo foi feita pelo Sr. Charles Santana, gerente da empresa, que apresentou o local e acompanhou a visita aos iglus. A empresa composta de 220 fornos com capacidade de 12 m3 de madeira, cada um, onde so utilizados os resduos das serrarias locais ou galhadas das rvores do projeto de Manejo Florestal da Empresa do mesmo grupo - Fazenda Araponga. Os fornos necessitam de sete dias e meio para completar o processo de produo do carvo, sendo trs dias para o enchimento com os resduos (matria prima), trs dias para a queima e um dia e meio para a retirada do carvo, produzindo um total de 6m de carvo por forno, totalizando 1.320 m de produto final em toda a central de carbonizao.

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Tabela 13 - Espcies utilizadas para fabricao de carvo NOME COMUM Amarelo Ip Jatob Maaranduba Muiracatiara Tauari NOME CIENTFICO Senna multijuga Tabebuia sp. Hymenaea courbaril Manilkara huberi Astronium lecointei Courataria sp. FAMLIA Fabaceae Bignoniaceae Fabaceae Meliaceae Anacardiaceae Lecythidaceaea

A produo em sua maioria vendida para a empresa SIDEPAR (Siderrgica do Par S.A.) que paga R$115,00 pelo m de carvo, sendo que esta produo no chega a 1% da capacidade de consumo da SIDEPAR. Atualmente a central de carbonizao possui um quadro com 32 funcionrios, e que tem como responsvel tcnico o Engenheiro Florestal, Sr Bruno Serute.

5.2 Serraria Di Trento Est localizada na rea urbana do municpio de Anap e seu diferencial em relao s demais empresas do setor que possui um sistema de secagem de madeira beneficiada para exportao. Cada cmara de secagem tem capacidade de 80m de madeira serrada e utiliza temperaturas que variam em torno 65 a 70C. So utilizados 12 ventiladores para jogar o calor para dentro do recinto propiciando a secagem da madeira exposta. Para gerar o calor, a caldeira que fica na parte externa da cmara alimentada com os resduos gerados pela industrializao da madeira que tambm fornecido carvoaria, diminuindo com isto o desperdcio e o custo de produo. utilizada uma espcie de madeira para cada secagem, pois o teor de umidade e o perodo de secagem diferenciam-se de espcie para espcie. As espcies que passam pelo processo de secagem esto descritas na Tabela 10. Entretanto, a empresa no trabalha apenas com as espcies que passam pelo processo de secagem, mas sim com uma grande variedade de madeiras.

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Tabela 14 espcies que passam pelo processo de secagem pela Serraria Di Trento NOME COMUM Cumaru Currupixa Ip Jatob Tatajuba Tauari NOME CIENTFICO Dipteryx odorata Micropholis melinoniana Tabebuia sp. Hymenaea courbaril Bagassa guianensis Courataria sp. FAMILIA Fabaceae Sapotaceae Bignoniaceae Fabaceae Maraceae Lecythidaceae

5.3 HP Compensado A HP Compensados uma empresa especializada em produo de compensados e laminados. Esta localizada na zona urbana do municpio de Anap PA. No perodo de produo (vero) funciona com uma mdia de 80 funcionrios, dos quais, cerca de 20 a 30% so mulheres. O processo de fabricao iniciado pelo Torno, mquina responsvel pela retirada dos filetes de toras de tamanho 2,40m de fuste, cuja produo de laminados varia de 1,5mm a 4mm de espessura. Em seguida o material destinado prxima mquina, Guilhotina, onde so separadas as larguras dos compensados. Posteriormente, as folhas so destinadas ao processo de secagem a 150C. Utiliza-se o p da madeira como matria- prima para a produo de calor necessrio a demanda e utilidade do restante das mquinas, onde so gerados 7,2Kg de vapor para o funcionamento das caldeiras. A montagem de cada pea de compensado feita manualmente. Inicia-se com a utilizao de uma folha de compensado, aplica-se cola nas duas faces, em seguida so alocadas capas e transferidas para a mquina de prensagem, onde ficam por cerca de trs a quatro minutos na prensa. Por conseguinte, o material vai para a lixa que a fase final do processamento, onde devidamente identificado. A identificao feita de acordo com a qualidade do produto, em que a letra A significa primeira qualidade, B segunda qualidade e C terceira qualidade. A notao AB indica que a folha externa de primeira qualidade e a interna de segunda qualidade. As espcies utilizadas para a fabricao de compensados so as madeiras brancas, como Faveiro (Parkia paraensis), Amap (Brosimum parinarioides), Copaba (Copaifera

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multijuga ), Melancieira (Alexa grandiflora), com mnimo de 160 a 180 cm de circunferncia e mximo de 420 cm. A empresa atende mais a demanda da regio nordeste do pas, e seus resduos tambm so destinados central de carbonizao da cidade.

5. 4 Empresa Bortolanza (Ptio de estocagem da Empresa Vitria Rgia) Tambm localizada na zona urbana do municpio de Anap, esta serraria beneficia 100% da madeira oriunda do PDS Virola Jatob, o que equivale a 80% da necessidade da empresa, sendo que os 20% complementares so de outros fornecedores. Todo o processo de beneficiamento da madeira que chega serraria j feito nos moldes do licenciamento, mesmo ainda no tendo certificao da madeira. A estocagem da madeira no ptio da serraria feita por espcie, dentre as quais foram observadas as seguintes: Cupiba (Goupia glabra); Angelim vermelho (Dinizia excelsa) com aproveitamento de 50% de madeira serrada; Piqui (Caryocar villosum.); Jatob (Hymenaea courbari) com aproveitamento de 60% da madeira serrada, devido a grande espessura do alburno, neste caso s so retiradas rvores com CAP acima de 200 cm; Tauari (Courataria sp.); Currupix (Micropholis melinoniana) sendo que estes dois ltimos precisam passar por um processo de envenenamento, onde a tora emergida em uma soluo qumica antes de ser serrada; Angelim pedra (Hymenolobium petraeum). O grande diferencial desta empresa o fato de ter sua madeira vinda de projeto de manejo com rastreamento completo das rvores e da madeira que industrializada.

5.5 Consideraes De acordo com as informaes colhidas e as observaes feitas possvel aferir que as empresas visitadas trabalham em sistema de cooperao no que diz respeito ao aproveitamento dos resduos produzidos pela industrializao da madeira, onde os resduos produzidos em um empreendimento so utilizados, seja como matria-prima ou como combustvel, para caldeiras e mquinas de outras firmas. De modo geral faz-se um uso sustentvel desses resduos que muitas vezes no seriam utilizados. As visitas tcnicas contribuem significativamente na formao prtico-terica dos discentes em qualquer rea de conhecimento. de suma importncia o conhecimento das

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empresas que trabalham associadas ao manejo florestal, em busca de um melhor aproveitamento tanto de rvores exploradas como dos resduos deixados pelas mesmas, com a utilizao de todos os recursos disponveis na floresta.

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CONSIDERAES FINAIS Diante das atividades realizadas nos quatro mdulos do estgio supervisionado, importante enfatizar a organizao dos assentados no PDS Virola-Jatob quanto ao uso consciente dos recursos naturais em especial com a implantao do Sistema Agroflorestal (quintal florestal) por alguns agricultores, que mesmo sem a devida orientao tcnica obtm resultados satisfatrios, alm da manuteno dos mananciais e vegetao florstica s margens dos rios. Convm ainda salientar a preocupao das famlias em estabelecer outros meios para complementar suas rendas, com a implementao da produo de biojias e confeco de mveis rsticos, apesar da falta de estrutura e maior investimento na produo. A explorao de impacto reduzido (EIR), adotado pela empresa Vitria Rgia, produz resultados significativamente positivos, como o corte direcionado, menor impacto em rvores internas e adjacentes direo da queda das rvores e as clareiras abertas servem como ponto de regenerao. O acesso das estradas secundrias e reas de arraste ao local de extrao buscam o melhor posicionamento e o menor dano na floresta, possibilitando a recomposio da vegetao no seu trajeto, contrapondo a explorao tradicional que promove o corte desordenado, estradas desestruturadas, compactao do solo em toda rea de explorao e o desperdcio de madeiras e resduos aproveitveis. A explorao de impacto reduzido vem ao encontro da necessidade de recomposio florestal, a forma de uso dos recursos busca se aproximar do ciclo natural, onde as clareiras exercem a mesma funo, possibilitando a regenerao ou o surgimento de espcies que antes no conseguiam obter desenvolvimento devido ao estgio de competio. Esse comportamento foi constatado quando confrontados os dados coletados na UPA 2005 (testemunha) e UPA 2007, explorada no ano de 2008, onde a regenerao est presente nas clareiras abertas pela copa das rvores derrubadas ou cadas naturalmente. O PDS Virola-Jatob est inserido no contexto industrial do municpio de Anap, onde a madeira retirada pela empresa Vitria Rgia passa por empresas locais que fazem seu beneficiamento. A empresa est em processo de licenciamento para aproveitar os resduos da madeira em uma central de carbonizao. Todas as atividades desenvolvidas durante o estgio supervisionado possibilitou aos acadmicos o conhecimento da cadeia produtiva, tanto no que diz respeito explorao florestal, quanto ao aproveitamento dos resduos, a utilizao dos produtos florestais no madeireiros e a industrializao dos produtos madeireiros.

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Sendo assim, sabemos que este processo mesmo apresentando timos resultados em vrios ramos da extrao, regenerao e produo madeireira ainda h muito o que ser melhorado no aspecto ambiental, social e comercial dos produtos gerados pela utilizao dos recursos florestais.

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REVISTA DOS SISTEMAS AGROFLO