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Reportagem radiofonica criativa

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  • 62Revista Novos Olhares - Vol.1 N.2

    Resumo: Com uma reviso crtica em parte das regras objetivas de manuais sobre radiojornalismo, este documento tenta defender o uso dinmico das possibilidades sonoras pertencentes expresso radiofnica como elementos informativos e, sobretudo, o redimensionamento desses elementos frente, e no ao fundo da reportagem de rdio. Prope agregar reportagem de rdio o uso de msica que apoie a sonoridade de forma participativa na narrativa, de rudos naturais ou produzidos e de recursos dramticos pertencentes tradio radiofnica como alternativas narrativas que recompe a histria que a reportagem relata.

    Palavras-Chave: rdio; radiojornalismo; msica; drama radiofnico.

    Abstract: With a critical review of part of the objective rules from manuals on radio journalism, this document tries to defend the dynamic use of sonic possibilities pertaining to speech radio as informative elements and, especially, the resizing of those elements at the front and not the back of theradio report. It proposes to add to the radio report the use of music to support the sound in a participatory way in the narrative, being these noises natural or produced, and dramatic resources belonging to the radio tradition as narrative alternatives that rearrange the story told by the report.

    Keywords: radio; radio journalism; music, radio drama.

    Introduo1

    A reportagem uma narrativa, simplesmente uma narrativa. Ela depende muito do poder de observao do narrador, da maneira de transmitir essa observao em palavras e saber concatenar bem a forma de express-la... (ABRAMO in BARBEIRO e LIMA, 2001, p. 40). Esta frase, de Cludio Abramo, jornalista de carreira exemplar no meio impresso, um dos condutores que mediaram os conceitos utilizados para a produo de reportagens de rdio pelos principais livros que tratam do assunto no Brasil. Ela abre o captulo dedicado reportagem do livro Manual de radiojornalismo Produo, tica e internet, de Herdoto Barbeiro e Paulo Rodolfo de Lima. A escolha de indicar com exemplo de jornalismo impresso deslocado, portanto, do meio que o livro trata como deve ser uma reportagem no rdio, no recai apenas nesta obra, de forma casual. Ao contrrio, a insistente viso representa um sinal da cultura do jornalismo de rdio brasileiro, que em livros anteriores obra de Barbeiro e Rodolfo de Lima mostrada como resultado de influncia histrica de modos de operao e produo do jornalismo impresso. Marcam-se nos livros que tratam da evoluo histrica do radiojornalismo menos relao com o meio rdio, do que com o contedo jornalstico herdado fortemente dos fundamentos e das ferramentas para a prtica do jornalismo impresso: o uso

    Nivaldo FerrazJornalista formado pela Universidade Metodista de So Paulo. Trabalhou como roteirista e intrprete em produes de fico para rdio da extinta agncia Lintas Publicidade e da Rdio USP. Jornalista nas rdios Gazeta e Cultura de So Paulo como redator, reprter, diretor e apresentador de programas. Professor de radiojornalismo e coordenador do curso de Jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi, So Paulo. Doutorando do Programa em Ps Graduao em Meios e Processos Audiovisuais da ECA-USP. Email: [email protected]

    Possibilidades Criativas da Reportagem Radiofnica

    1 Trabalho originalmente apresentado no DT 4 Comunicao Audiovisual do XVII Congresso de Cincias da Comunicao na Regio Sudeste, realizado de 28 a 30 de junho de 2012.

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    da palavra. Essa evoluo naturalista de histria do radiojornalismo brasileiro tenta tratar, de forma tambm naturalista, da adaptao de um meio (rdio), submetido ao ponto de partida e tradio e de outro meio (impresso).

    A aceitao de uma viso naturalista da evoluo histrica brasileira do rdio provoca a viso de igual valor sobre o princpio e a evoluo do radiojornalismo. A viso naturalista da evoluo do nosso rdio, apontado como forma e regra, revista em artigo pelo pesquisador e professor da ECA-USP, Eduardo Vicente, que reala a necessidade de um olhar para a questo autoral no rdio brasileiro, mais atenta do que a repetida reproduo do naturalismo da histria do rdio aliada evoluo social do Brasil.

    Assim, as prticas historicamente estabelecidas no mbito da produo radiofnica acabam assumindo um importante papel mesmo num contexto de grandes mudanas tecnolgicas, situao que torna fundamental um questionamento sobre o processo histrico que levou sua consolidao. Desnaturalizar o desenvolvimento histrico dessas prticas e compreender que outras possibilidades de produo j foram exploradas no Brasil pode nos ajudar a assumir uma viso mais abrangente sobre as potencialidades do rdio e de sua linguagem, capaz de iluminar os caminhos possveis para o veculo em seu contexto atual. (VICENTE, 2011, p. 90-91)

    Trata-se de difcil tarefa para pesquisadores contemporneos do rdio brasileiro encontrar os sinais de uma evoluo do radiojornalismo autnoma e independente do processo histrico de evoluo do rdio no Brasil. Toma-se essa autonomia no sentido do desprendimento da evoluo histrico naturalista do jornalismo e tambm no sentido do aproveitamento das caractersticas especficas do rdio. Os principais manuais de radiojornalismo alternam-se, entre aceitar que o rdio e suas especificidades podem dar ampla dimenso produo jornalstica no meio e cerrar as fronteiras, negando ao mesmo tempo a possibilidade de o som ser protagonista de uma informao. A dualidade dos manuais entre a permanncia do uso da palavra quase que exclusivamente e a aceitao de que o som da notcia informa, mas deve exposto como pano de fundo, tornando-se uma informao subliminar, expe um abismo entre o radiojornalismo e as potencialidades sonoras do rdio.

    A reportagem pela palavra e o som de fundo como modelo tradicional do radiojornalismo

    Os manuais de radiojornalismo conhecidos no Brasil praticamente falam em unssono sobre a forma de produo das reportagens feitas ao vivo ou gravadas e editadas. A palavra prevalece, no s como a luz mais clara, mas por vezes como a nica luz possvel a esclarecer de forma inequvoca e rpida a informao que se quer transmitir, mesmo nas reportagens editadas, em que maior a possibilidade de manipulao de sons captados na cena do fato ou mesmo produzidos em estdio.

    Ainda que os vrios manuais que tratam do radiojornalismo brasileiro concordem em que os elementos principais do rdio para recepo so efeitos sonoros, silncio, palavra e msica, a palavra est colocada frente, sobrepondo-se sempre aos outros trs elementos. Desta forma, elementos importantes da comunicao radiofnica, como a sonoridade inerente a qualquer fato sendo ela natural ou produzida e a msica so no apenas subaproveitados como informaes na produo da notcia, como, em certos termos, orienta-se nos manuais o uso contido, para que no atrapalhe as intenes postas na palavra.

    Um dos mais conceituados e estudados entre os tericos da produo radiojornalstica, Luiz Artur Ferraretto, ao abordar a reportagem em seu livro Rdio

    Princpios da Pea Radiofnica Reportagem

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    o veculo, a histria, a tcnica a trata por aproximao do conceito de notcia, que seria o fato narrado com o mnimo de detalhes possveis e que, em rdio representado, entre outros, pelos textos das snteses noticiosas (FERRARETTO, 2007, p.252. O grifo meu). Refere-se tambm a uma aptido do reprter em tratar de narrar, de forma clara e audvel, um fato, no raro enquanto este ocorre. (FERRARETTO, 2007, p.253. O grifo meu). Nas abordagens de Ferraretto esto claras as intenes de enfatizar a predominncia da narrativa, portanto da palavra, estimulando at que o reprter desenvolva algum estilo em sua forma de narrar. E notvel tambm a inteno clara da eliminao de detalhes, o que vai tornar a reportagem curta, entregue a um modelo de produo industrial em que a melhor participao do reprter a que est resolvida em um minuto e 30 segundos de contedo.

    Mais radicalmente em desfavor das possibilidades sonoras da reportagem no rdio vai outro trabalho de estudiosa considerada em meios acadmicos, Magaly Prado, que trata do universo conformado e conformista da produo, tanto de programas quanto de reportagens entregues ao modelo comercial de emissora, com informaes curtas, determinadas nas escritas de outros manuais de radiojornalismo. Prado tambm usa, quando fala de reportagem radiofnica, demasiadamente a expresso sonoras, referindo-se participao de entrevistados de uma reportagem interferindo e no caso do discurso da autora trata-se de uma interferncia quando o reprter participa na programao. A autora prope pouca interveno de reportagem no que considera a diversidade de programao de uma emissora de rdio, sem analisar o fenmeno das rdios all news (CBN) ou talk and news (Bandnews). Em nome de grades o termo j indica a priso de emissoras, chega a propor a participao da reportagem (PRADO, 2006, p. 10) descomposta em seu todo, sendo utilizada pela produo de programas como elementos esquartejados, em favor de interesses comerciais, ou tratamento de outros assuntos da programao da emissora, como se a reportagem no pudesse se compor em qualquer ocasio como uma ideia com comeo, meio e fim em si mesma, como se no tivesse condio de ser, a reportagem, uma proposta narrativa repleta de possibilidades sonoras, catalisadora dos elementos concernentes ao meio.

    Um dos cones utilizados por dcadas no ensino e aprendizado do radiojornalismo, A informao no rdio Os grupos de poder e a determinao dos contedos, no exatamente um manual de produo jornalstica para o meio, pois a autora Gisela Swetlana Ortriwano escolheu concentrar seu texto na evoluo do rdio no Brasil, sua linguagem e caractersticas. Por esse motivo trata de produo de contedos em poucas pginas, mas nas oito linhas em que se refere reportagem, define que em rdio necessrio que o reprter saiba verbalizar bem, falar de improviso e ter boa dico p