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Retrovisor_ Campo de Jogo (2014)

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campo de jogo (2014)

Eram os anos 1990. A cineasta Paula Gaitán morava em Bogotá com os filhos quando ouviu domais velho que ele queria se tornar jogador de futebol. Ficou contrariada: preferia mil vezes umintelectual, um artista! A insistência do menino foi tanta que, um dia, levou-a a arremessar umde seus sapatos na direção do filho. Por sorte, errou o alvo.

Eryk Rocha, ao invés de jogar bola, terminou cineasta como seus pais. Campo de jogo é oreencontro com sua primeira grande paixão.

O filme começa com um homem a jogar cal nas linhas quase apagadas de um campo de terra. Agrama, escassa, aparece aqui e ali... Ele começa pelo círculo central. Depois, marca a linha quedivide o meio de campo. O tempo é lento, quase cerimonioso. Logo, está pronto o cenário parao espetáculo.

Um campo precário, de terra batida. Um campeonato quase amador (ou quase profissional?) naperif eria do Rio de Janeiro. Não muito distante do Maracanã, como avisa um letreiro. Muitodistante do Maracanã, como percebemos pelas imagens: ao invés das arquibancadas

monumentais, a torcida aqui está espremida na beira do campo - e, às vezes, dentro dele. Aoinvés do glamour, uma espécie de energia atávica, que Eryk Rocha gosta de associar a um ritualpagão.

Campo de jogo imagina o futebol como uma espécie de teatro, dramaturgia de um povo. Nofutebol amador, as linhas de cal - que delineiam o limite entre cena e vida - torna-se tênue. Nãomais o Olimpo estrelado do futebol globalizado, mas corpos e olhares que permanecemmagnetizados ao que verdadeiramente interessa: a bola.

A câmera de Rocha é tão atenta à redonda como um torcedor: o foco de atenção se concentra emseu movimento. Usando lentes teleobjetivas, os operadores de câmera precisam incorporar,

mimetizando o tema do filme, algo de atlético. Entram em campo. Acompanham as jogadas.Veem-se corpos que caem, sujos de terra, areia. Os uniformes, antes brancos, começam a ficarmarrons. Gritos do treinador e do público criam uma algaravia de onde às vezes nota-se algumsentido. Um desenho de som que privilegia a experiência de se ver o futebol em campo, vozes eruídos que se sobrepõem. Uma multiplicidade de estímulos à visão e ao ouvido.

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espalhe

Campo de jogo nunca é desnecessariamente veloz. Contraria a lógica espetacular datransmissão televisiva e desconstrói identidades (o jogo final entre Juventude e Geração dáespaço para imagens de outras partidas), não se preocupa com certa "objetividade". ("Ovideotape é burro", já disse Nelson Rodrigues.) Aqui, trata-se da experiência de se jogar futebole de se assistir a um jogo de futebol.

Trata-se também de acompanhar os bastidores. Ver a preleção do técnico, o momento de rezar

antes de entrar em campo. A ira contra a arbitragem. O momento de delírio que é o futebol,festa coletiva organizada ao redor de ícones de poder - como nos rituais xamânicos.

 

Em certos momentos, como que para ressaltar o elemento épico, Campo de jogo utiliza acâmera lenta e a música erudita, a ópera. O corpo de um garoto negro, recoberto de areia, é umaespécie de rondó no filme de Rocha. Vemos detalhes: o peito, os lábios. Há aqui uma erotizaçãodo espetáculo futebolístico, muito distante da valorização dos dotes físicos dos atletas. O jogo étratado como metáfora de um país, em si, sensual. Um país que joga bola, como bem colocouPasolini, "em verso", futebol-poesia. Ou, no caso, futebol-cinema-de-poesia.

 

O corpo misturado à terra - uma ideia de país que entra em campo. Juca Kfouri gosta de repetir

uma frase que ele atribui ao sociólogo Gabriel Cohn: "não respeito sociólogo no Brasil que nãotenha os fundilhos das calças puídos pelas arquibancadas". Campo de jogo é obra de umcineasta que mostra os fundilhos das calças puídos nos grandes estádios e nos mais modestoscenários das periferias e interiores do país.

 

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Posted by Fabio Camarneiro at 10:30Labels: campo de jogo (2014), cinema brasileiro, eryk rocha