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  • O Estado capitalista: uma resposta a Miliband e Laclau 105

    O Estado capitalista: uma resposta a Miliband e Laclau1

    NICOS POULANTZAS

    H seis anos, a publicao de The State in Capitalist Society, de Ralph Mili-band2, deu origem a um debate entre mim e o autor nas colunas de New Left Review3. Critiquei o livro e Miliband respondeu, apresentando na seqncia uma crtica do meu prprio Pouvoir politique et classes sociales4. No respondi a essa crtica na-quele momento; nem o fiz quando Miliband subseqentemente publicou uma

    1 Nota dos Tradutores [N.T.]. Esta traduo tomou como referncia o texto em ingls The Capitalist State: a reply to Miliband and Laclau, publicado no n.95 da revista New Left Review, em 1976. Importante salientar, no entanto, que tal verso em ingls ela prpria uma traduo do original em francs, que foi redigido pelo autor exclusivamente para New Left Review. Esse texto tambm se encontra disponvel em lngua espanhola com o ttulo El Estado capitalista: uma replica a Miliband y Laclau no livro de Horacio Tarcus (Org.). Debates sobre el Estado Capitalista (1). Buenos Aires: Ed. Imago Mundi, 1991, p.153-83. Traduo de Danilo Enrico Martuscelli e Leandro de Oliveira Galastri.

    2 [N.T.] The State in Capitalist Society. London: Weindefeld & Nicolson, 1969. Ver tambm edio brasileira: O Estado na sociedade capitalista. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.

    3 Nicos Poulantzas. The Problem of the Capitalist State In: New Left Review, n.58, 1969, p.67-78; Ralph Miliband, The capitalist state: reply to Poulantzas In: New Left Review, n.59, 1970, p.53-70. Esta troca de artigos foi republicada em Robin Blackburn (Ed.). Ideology in Social Science. Lon-don: Collins Fontana, 1972, e em John Urry e John Wakeford (Eds.). Power in Britain: Sociological Reading. London: Heinemann Education Books, 1973. [N.T.] Para maiores informaes sobre as tradues existentes destes textos consultar as notas de rodap 2 e 3 do artigo de Ralph Miliband publicado neste nmero de Crtica Marxista.

    4 Pouvoir Politique et Classes Sociales. Paris, Franois Maspero, 1968; edio inglesa Political Power and Social Classes. London: NLB/Sheed and Ward, 1973. [N.T.] Edio brasileira: Poder poltico e classes sociais. So Paulo: Martins Fontes, 1977. Para facilitar a compreenso do leitor em lngua portuguesa, indicaremos as pginas correspondentes edio brasileira de Poder poltico e classes sociais (daqui em diante: PPCS em portugus)

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    extensa crtica de meu livro, na ocasio de sua apario em ingls5. Entretanto, agora que os leitores de lngua inglesa esto em condies de reportar-se tanto a meu segundo livro, Fascism and Dictatorship quanto a meu mais recente Classes in Contemporary Capitalism, sinto que chegado o momento de continuar o de-bate6. Pois se a discusso deve ser til e no andar em crculos, deve buscar sua fora em novas evidncias; no meu caso, tais novas evidncias so os escritos que tenho publicado desde Poder poltico7.

    Antes de entrar na discusso propriamente dita, sinto que deveria fazer al-gumas observaes preliminares. Apesar de a discusso envolver num primeiro momento Miliband e eu, ela no pra a. Outras pessoas, em bom nmero, juntaram-se a ela na Europa, Estados Unidos, Amrica Latina e outros lugares por meio de artigos e livros. Eu no conseguiria levar em considerao todas es-sas contribuies para a discusso. Esforar-me-ei, entretanto, para mostrar que a maneira com que as diferenas entre Miliband e eu foram s vezes percebidas, especialmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, como uma controvrsia entre instrumentalismo e estruturalismo, um modo completamente equivocado de situar a discusso, ao menos no que respeita aplicao do segundo termo a Poder poltico. Alm do mais, levarei em considerao uma das mais recentes contribuies ao debate, a saber, o artigo de Ernesto Laclau The Specificity of the Political: around the Poulantzas-Miliband Debate8. Longe de partilhar todos os pontos de vista de Laclau, acredito que seu artigo ajuda a localizar o debate em seu terreno verdadeiro, toca especialmente em algumas das questes reais s quais Poder poltico deu origem.

    O texto a seguir ser assim mais uma contribuio discusso geral do que uma resposta aos artigos de Miliband, por duas razes fundamentais. Em primeiro lugar, podemos esperar conduzir um debate de longo alcance apenas com a ajuda de uma linguagem precisa, e que esteja tambm, necessariamente, situada num ter-reno terico especfico, no sentido de que os participantes deste debate consigam, a partir de suas respectivas problemticas, agregar definies precisas aos conceitos, termos ou noes que estejam utilizando. Os escritos de Miliband, no entanto,

    5 Ralph Miliband. Poulantzas and the Capitalist State. In: New Left Review, n.82, 1973. [N.T.] Artigo publicado neste nmero de Crtica Marxista

    6 Nicos Poulantzas. Fascism and Dictatorship. London, London 1974; Classes in Contemporary Capi-talism. London: NLB, 1975. [N.T.] Ver edies brasileiras: Fascismo e ditadura. So Paulo: Martins Fontes, 1978; As classes sociais no capitalismo de hoje. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. A partir desta nota, apresentaremos os ttulos dessas obras em portugus, quando Poulantzas mencion-las.

    7 [N.T.] A partir daqui, Poulantzas refere-se- a sua obra Political Power and Social Classes ao longo do artigo apenas pelas duas primeiras palavras de seu ttulo (que optamos por traduzir), quando aparecem no corpo do texto.

    8 Ernesto Laclau. The Specificity of the Political: around the Poulantzas-Miliband Debate. In: Eco-nomy and Society, v.5, n.1, February 1975. [N.T.] Texto disponvel em lngua portuguesa, ver: A especificidade do poltico. In: Ernesto Laclau. Poltica e ideologia na teoria marxista: capitalismo, fascismo e populismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p.57-85.

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    so marcados pela ausncia de qualquer problemtica terica. esta ausncia, sobretudo, que est por trs de suas repetidas crticas ao meu trabalho pela falta, neste, de anlises concretas. Esta referncia a anlises concretas certamente vlida, mas somente quando feita a partir de outra problemtica terica, que mostre ser capaz de prover uma melhor explicao dos fatos histricos. Assim, no digo, absolutamente, que Miliband est errado ao discutir fatos comigo ou ao cit-los contra mim. Tudo o que estou dizendo que apenas podemos comear a nos opor a uma teoria citando a prova dos fatos, a prova da prtica, quando esta abordagem que perfeitamente vlida pode ser considerada como originria de uma posio terica diferente. Isso um princpio elementar de epistemolo-gia. Tal posio no se encontra nos textos de Miliband. Como resultado, como Laclau corretamente observou, nossos respectivos textos esto situados em ter-renos diferentes, isto , eles freqentemente lidam com questes diversas. Alm do mais, isso significa que os termos crticos que Miliband utiliza com referncia a mim, tal como abstracionismo, estruturalismo ou superdeterminismo per-manecem extremamente vagos e imprecisos em seu emprego. Em segundo lugar, no que se refere ao prprio trabalho de Miliband, no tenho nada a acrescentar ao que escrevi em minha crtica original de seu livro. E enquanto tenho realmente algo a dizer sobre a evoluo de minhas prprias posies e anlises desde a pub-licao de Poder poltico, em particular concernente a uma srie de retificaes que considerei necessrias (iniciei este processo em Fascismo e Ditadura, e as retificaes esto agora cristalizadas em As classes sociais no capitalismo de hoje), este aspecto do presente artigo no pode de forma alguma ser considerado uma resposta a Miliband. Pois Miliband falhou em ver os problemas reais, as lacunas reais, ambigidades e pontos debatveis em meu primeiro livro deficincias que de fato me levaram a fazer as retificaes em questo. Uma grande parte do texto seguinte , portanto, uma resposta a Laclau e um esclarecimento das crticas que eu mesmo estou agora em posio de fazer com relao a Poder poltico, mais do que uma resposta a Miliband.

    Sobre a questo do abstracionismoComearei, entretanto, retornando censura acima mencionada feita repetida-

    mente por Miliband, concernente ausncia caracterstica de anlises concretas ou referncia a fatos empricos e histricos em meus escritos. Este o significado principal, tal como eu o entendo, do termo abstracionismo que ele emprega quando escreve sobre meu trabalho.

    Antes de tudo, no acho que esta censura seja de alguma forma justificvel. Constantes e precisas referncias ao estado da luta de classes e a transformaes histricas do Estado esto presentes em Poder poltico de forma abundante, variando de anlises do Estado absolutista a outras concernentes aos modelos histricos de revoluo burguesa, s transformaes do bloco no poder e da bur-guesia, s formas do Estado capitalista e de regimes capitalistas etc. Eu poderia

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    facilmente continuar citando exemplos. Mas tenho dvidas se valeria a pena, pois acho que a razo real pela qual Miliband faz esta crtica ao meu trabalho reside na diferena em nossas respectivas abordagens de fatos concretos. Para mim, em comparao com qualquer abordagem empiricista ou neopositivista tal como aquela de Miliband, esses fatos somente podem ser rigorosamente ou seja, demonstravelmente compreendidos se forem explicitamente analisados com a ajuda de um aparato terico constantemente empregado ao longo do texto. Isso pressupe, como Durkheim j salientou em seu tempo, que evitamos resolutamente a demagogia do fato palpitante, do senso comum e das iluses do evidente. Do contrrio, podemos empilhar tantas anlise