Ritmo plástico e ritmo narrativo no cinema: Hollywood no século XXI

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  • estudos semiticos

    issn 1980-4016

    semestral

    vol. 10, no 1

    p. 76 88julho de 2014

    http://www.revistas.usp.br/esse

    Ritmo plstico e ritmo narrativo no cinema: Hollywood no sculo XXI eo Cinema Novo

    Levi Henrique Merenciano

    Resumo: Ora sucesso de bilheteria, ora desafeto da crtica, o cinema hollywoodiano tema pouco presente emteses brasileiras. Devido e esse contrato polmico, descrever-se-o as estratgias semiticas que os tornamobjetos de significao to difundidos. Ser explicado como se organizam o contedo e a expresso de um dosfilmes mais vistos atualmente (segundo o site Box Office Mojo, na data de 26 de dezembro de 2012), comparando-oa um filme de outro perodo, para defender hipteses sobre diferentes tipos de estrutura flmica, conforme aincidncia de ritmos paradigmticos ou (com efeitos) sintagmticos, contnuos ou descontnuos, de naturezaabsoluta ou relativa.

    Palavras-chave: semitica, ritmo, cinema hollywoodiano

    1. Texto, discurso, significaoVersar a respeito da organizao do discurso e sobre osprocessos de significao no cinema de massa (especi-ficamente, a vertente comercial hollywoodiana) umatarefa pouco encontrada em estudos da rea de Lin-gustica. Felizmente, veremos ser possvel relacionarparte do instrumental descritivo das lnguas naturaise da semitica (discursiva e plstica) ao estudo da lin-guagem cinematogrfica. Comecemos pela origem dointeresse.

    Este trabalho nasceu de uma pesquisa de graduaoe de Mestrado em torno de livros mais vendidos. Essesprimeiros trabalhos buscaram entender os livros e seupblico por meio das caractersticas internas do textoescrito. A partir da maneira como se manifestaram asmarcas lingusticas nos textos, o objetivo foi explici-tar os processos de significao, gerados a partir daorganizao do seu contedo (Merenciano, 2009a,?).

    Na Lingustica e nas teorias do discurso, esse tipode investigao reconstitui as expectativas do leitor-enunciatrio (este, equivalente projeo do pblico-alvo), por meio das marcas lingusticas, manifestadasno texto e que podem ser descritas no plano de con-tedo dos livros estudados. No caso do exame defilmes, tambm possvel observar um contedo (n-veis narrativo, discursivo) e uma expresso, relativaaos fotogramas, que, desfilados em sequncia, do aplasticidade prpria do filme. A organizao do seu

    sentido est vinculada prpria concatenao de ima-gens na tela, em forma de cenas, planos, entre outrasdenominaes dadas s possveis unidades do filme,podendo ser, assim, investigadas e concebidas comorecorte para o seu exame.

    Com respeito s caractersticas da significao, oselementos plsticos do cinema recebem, nas teoriasdo discurso e na semitica plstica, a denominao deplano de expresso, enquanto a sua histria (em suma,o que ele diz ou representa) recebe o nome de plano decontedo. Assim, h um processo de expressividadeno filme, orientado para a produo e comunicao deum determinado contedo, que diz respeito a como seorganiza e manifestada sua significao global.

    2. Do leitor ao espectadorNo trabalho realizado sobre os livros mais vendidos,era necessrio recorrer s marcas lingusticas e a refe-rncias contextuais que determinado livro ia tecendo,para definir quais elementos do contedo dialogavamcom a realidade do leitor projetado, com vistas a expli-car de que forma os recursos construdos no interiordo texto faziam determinada obra figurar entre as maisvendidas daquele perodo. Isso explica o motivo peloqual a vertente semitica adotada imanentista. Elaparte da explicao da organizao textual, com vistasa definir a construo do leitor (e tambm a do autor)como instncias de domnio discursivo (projetadas na

    Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho Unesp FCL/Araraquara. Endereo para correspondncia: le-vihm@gmail.com .

    http://www.revistas.usp.br/essemailto:{levihm@gmail.com}mailto:{levihm@gmail.com}

  • estudos semiticos, vol. 10, no 1 julho 2014

    e pela construo do discurso) e no como autor eleitor reais, de carne e osso.

    Com respeito ao cinema, tambm possvel depre-ender marcas lingusticas recorrentes nos dilogos dospersonagens e nas descries feitas pelo narrador, as-sim como as transformaes narrativas associadas aotempo e ao espao. Elas podem definir a realidadecontextual que faz parte do domnio do espectadorenunciatrio e com a qual ele pode se identificar. Notexto, a descrio dessas instncias espao-temporais feita por meio do cdigo verbal, ao descrever lugares,tempos e sujeitos inseridos na histria. No cinema, aprpria imagem descreve as mudanas de situaesno enredo e as transformaes da histria, exatamentepor compor uma analogia (pretensa cpia) da reali-dade (Barthes, 1986, p. 29) e poder ser ressignificada(traduzida) por/para um cdigo verbal.

    3. Cinema, fotografia, cdigoconotado

    Alm de contar com recursos verbais (presentes nosom e nos textos), o cinema representa a realidade deforma analgica. Portanto, alm da manifestao ver-bal (na fala ou nas partes escritas), h tambm aquiloque representado pelas imagens, ou seja, uma formade significao criada pela iluso de realidade inerenteao cinema, tpica da projeo de imagens uma a uma,causando efeitos de simultaneidade e de movimento(Metz, 1972, p. 15-28).

    Vale a pena verificar, assim, as possibilidades que, maneira que o filme conta uma histria (seu contedo),vai encadeando imagens e indicando que nem sempreo que representado provm de um cdigo denotado.Nesse caso, as imagens podem reter um tipo de ex-pressividade que em alguns momentos criam efeitosconotados, tpicos da metfora, nos textos escritos, ouda fotografia, na publicidade e no jornal.

    Ao discutir sobre as formas de descrever a fotografiaem geral e na publicidade, Barthes (1986, p. 13-16)diz que ela uma espcie de anlogo da realidade, uma linguagem sem cdigo definido, s passando aconfigurar um tipo de cdigo quando conotada, ouseja, quando construda por meio de um segundocdigo (do tipo histrico, nem completamente natural,nem completamente artificial).

    Com respeito s artes imitativas (pintura, fotogra-fia, escultura, etc.), fica claro que a sua mensagemno possui um cdigo primeiro. Enquanto reproduoanalgica da realidade, o sentido da imagem aqueleconstrudo ou pretendido culturalmente, para e pelopblico sempre secundrio. Ao produzir um tipode mensagem contnua em linhas, contornos e cores(Barthes, 1986) a imagem no se deixar segmentarda mesma forma que o texto.

    Mesmo assim, possvel entender os objetos semi-

    ticos visuais por meio de unidades de expresso queproduzem sentido juntamente com o contedo. A se-mitica uma das disciplinas que d conta de explicaras formas plsticas, descrevendo como se organiza oplano de expresso visual; o faz por meio de categoriasespecficas, de modo a articul-las aos processos designificao gerados nos diferentes objetos semiticos.Eles podem ser formados por um (pictrico, sonoro)ou por mltiplos cdigos (audiovisual, verbovisual,pictrico-verbal, grafemtico-visual, etc.).

    4. Cinema e LingusticaNo estudo do cinema, existem aproximaes descri-tivas inspiradas na Lingustica. Christian Metz fazum tipo de descrio estrutural do filme. Em A sig-nificao no cinema, Metz (1972, p. 142-157) elaboraum quadro sinttico exemplificando tipos de segmen-tos autnomos, por meio dos quais prope recortesno plano de expresso flmica por meio de segmentosautnomos e sintagmas acronolgicos, cronolgicos,narrativos e descritivos. Alm do exame do quadro es-ttico (fotograficamente), existe a iluso de movimentotpica do cinema. Isso implica dizer que h um desfi-lar de imagens, que se realiza na tela a partir de umprocedimento sintagmtico (de unidades significantescombinadas, que se sucedem: planos).

    O Curso de lingustica geral (Saussure, 2006, p. 142-147) explica que as unidades da expresso lingustica(letras ou fonemas) estabelecem, no seu encadeamento,relaes baseadas no carter linear da lngua, alinha-das uma aps a outra. Essas relaes baseadas naextenso podem ser chamadas de sintagmticas. En-quanto um sintagma compe-se de duas ou mais uni-dades consecutivas, o paradigma, por sua vez, indicapossibilidades de realizao de cada unidade. Se asrelaes sintagmticas existem em presena (in prae-sentia), as relaes paradigmticas esto em ausncia(in absentia), pois indicam possibilidades de realizaode termos em uma srie mnemnica virtual. A noode paradigma e sintagma pode ser transferida para ocinema. Assim como as letras ou fonemas, o cinemapossui unidades, como o plano ou a cena (mesmo quesejam distintas das lnguas naturais), cujo encadea-mento engendra a narrativa e a significao global dofilme.

    Na contiguidade de imagens flmicas, predomina adescontinuidade, pois os fotogramas aparecem um aum (ou seja, resultam da soma de planos, cujo corteestabelece o efeito descontnuo). Por outro lado, umprocedimento paradigmtico implica a associao deelementos virtuais (possibilidades de significao) emum mesmo ponto do eixo sintagmtico, em que predo-mina efeito de continuidade como descreve Jakobson(1995) por meio do que denomina funo potica. Noplano-sequncia, a ausncia de cortes gera continui-dade na expresso, atuando no significado do que

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  • Levi Henrique Merenciano

    representado de maneira diferente das cenas que pos-suem muitos cortes e planos curtos. importantedestacar que no cinema canonizado pela crtica (Ku-brick, Hitchcock, Bergman, entre outros) valoriza-seum tipo de expresso que produz efeitos contnuos (pla-nos mais longos e planos-sequncia), em detrimentodaquele tipo de expresso veiculado no cinema comer-cial (hollywoodiano), com muitos cortes de cena (planosrpidos) e uso do recurso de campo e contracampo.

    5. Significao conotada nocinema de Hollywood

    Nas produes contemporneas de Hollywood, pos-svel observar a construo de smbolos por meio do

    recurso da conotao. Elas mostram, ocasionalmente,certos personagens por meio de enquadramentos ouem composio com elementos do espa