RTC3 -Fabricio Borges Carrijo - Novo texto - 15

Embed Size (px)

DESCRIPTION

arto da premissa segunda a qual não existe nenhuma determinação biológica no ser humano que o conduza inevitavelmente à prática da violência. Seu contrário, a condição do ser humano como violento por natureza, constitui historicamente o sustentáculo legitimador da violência em sua variedade de acepções a serem abordadas abaixo. Resumo Keywords: photography for peace, violence, identity. Abstract Palavras-chave: fotografia para a paz, violência cultural, identidade. Introdução

Text of RTC3 -Fabricio Borges Carrijo - Novo texto - 15

  • Fotografia para a Paz e Identidade

    Fabricio Borges CARRIJO

    Mestre em Estudos de Paz, Conflitos e Desenvolvimento Ctedra UNESCO de Filosofa para a Paz Universidade Jaume I,Espaa

    Doutorando em Relaes Internacionais e Integrao Europia Universidade Autnoma de Barcelona fabricio_carrijo@yahoo.com.br

    Resumo O presente artigo prope o reconhecimento de realidades de paz e a construo de identidades pacficas. A varivel fotografia apresentada como uma possvel ferramenta para lograr tais objetivos. Inicialmente, apresento uma abordagem conceitual sobre violncia e paz. Logo, analiso a prtica da violncia cultura atravs de sistemas simblicos de representaes sobre violncia. Posteriormente, abordo a proposta que denomino Fotografia para a Paz a qual consiste no reconhecimento de contextos de paz no cotidiano. Para levar a cabo tal proposta realizei uma pesquisa de campo cujos resultados so apresentados na forma de ensaio fotogrfico. Palavras-chave: fotografia para a paz, violncia cultural, identidade. Abstract This article aims to propose the recognition of peace realities and the construction of Peace Identities. The photographic variable is presented as a possible tool to reach such goals. Initially, I present a conceptualization on violence and peace. Then, I analyze the practice of cultural violence through symbolic systems of representations about violence. Further, I address a theoretical proposal I called Photography for Peace, which consists on the recognition of peace contexts within the quotidian. In order to put this proposal into practice I conducted a field research. Its results are presented in the format of a photographic essay. Keywords: photography for peace, violence, identity.

    Introduo

    arto da premissa segunda a qual no existe nenhuma determinao biolgica no ser humano que o conduza inevitavelmente prtica da violncia. Seu contrrio, a condio do ser humano como violento por natureza, constitui historicamente

    o sustentculo legitimador da violncia em sua variedade de acepes a serem abordadas abaixo.

    P

  • O presente artigo se insere no contexto da imensa desproporo entre a valorao dada s realidades de violncia, sobretudo guerras, em comparao aos estudos das experincias pacficas vividas pelos seres humanos em seu cotidiano (Muoz e Martnez, 2000). Tente imaginar a ltima notcia que voc leu ou assistiu sobre paz, as ltimas imagens vistas sobre contextos de paz. Em comparao com as informaes sobre violncia, percebemos nos meios de comunicao de massa certa indiferena quanto aos contextos de paz. Esta invisibilidade da paz contribui para a criao de um imaginrio coletivo em que a paz seja percebida como algo distante da realidade, uma forma de idealismo irrealizvel na prtica. Portanto, em quais contextos encontramos realidades de paz? Por que estas so to ausentes nos meios de comunicao de massa? Quais suas conseqncias? Abordarei tais interrogantes e apresentarei a proposta fotografia para a paz como ferramenta de reconhecimento de realidades de paz e construo de identidades pacficas. 1. Conceptualizao de violncia e paz Diante das inmeras possibilidades para definir violncia e paz, optei por iniciar com a abordagem de Johan Galtung1(2003), para quem violncia constitui uma ofensa s necessidades bsicas do ser humano de tal forma que o nvel da satisfao destas necessidades diminudo em relao ao seu potencial (2003:197). Entende-se por necessidades bsicas as necessidades de sobrevivncia (negao: morte, mortalidade); necessidades de bem estar (negao: misria, morbidez); necessidades de identidade e sentido (negao: alienao); necessidades de liberdade (negao: represso)2 (Galtung, 2003:197). A negao destas necessidades ocorre atravs de trs tipologias interconectadas de violncia: direta, estrutural e cultural. Com base no triangulo da violncia proposto por Galtung (2003), a violncia direta abarca eventos de violncia fsica e verbal, como por exemplo, tortura, assassinato, extermnio, guerra, represso violenta de manifestaes pacficas, imposio de embargos que ameacem a subsistncia de uma populao, tratamento a certos setores da sociedade como cidados de segunda classe por sua etnia, credo, cor, nacionalidade, posicionamento poltico, etc. A violncia estrutural ocorre de forma indireta atravs da criao e manuteno de estruturas sociais que impedem ao ser humano a satisfao de suas necessidades bsicas. Esta forma de violncia est presente em todo contexto de desigualdade e injustia social, explorao e marginalizao. O capitalismo financeiro, baseada na liberalizao da economia, predomnio do econmico em relao ao poltico, desregulamentao do sistema financeiro e conluio entre empresas transnacionais e instituies financeiras em um contexto globalizado, representa um dos mais nefastos exemplos de produo de toda forma de violncia.

    1 Johan Galtung um dos fundadores da disciplina acadmica Estudos para a Paz (Peace Studies/ Peace

    Research) 2 Survival needs (negation:death, mortality); well-bring needs (negation: misery, morbidity); identity,

    meaning needs (negation:alienation); and freedom needs (negation: repression) (Galtung, 2003:197).

  • Como a lgica liberal uma mquina de produzir desigualdades3 ( Bensaid, 210:10) e cada um por si e todos contra todos! parece ser a lgica absurda de um planeta submetido ao despotismo annimo do capital e dos mercados 4( Bensaid, 210:12), a prtica do capitalismo financeiro,movido pela esta lgica liberal esquizofrnica de acumulao de capital, constitui uma mquina de promoo da violncia estrutural. A violncia estrutural resulta, por exemplo, de crises econmicas geradas pela especulao financeira; da imposio pelos mercados aos Estados, de uma agenda de reformas neoliberais de recortes de gastos sociais para acalmar o nervosismo daqueles e gerar a maximizao de seus lucros em troca da confiana em relao capacidade dos Estados em pagarem suas dvidas pblicas; do desmantelamento de servios pblicos de proteo social, como a sade e a providncia social; da deteriorao do sistema de educao pblica; da existncia de parasos fiscais. Tambm promove a violncia estrutural o processo privatizao do mundo e reduo de espaos pblicos5 (Bensaid, 2010: 183); a privatizao dos recursos naturais; a biopirataria e a conseqente transformao em patente dos saberes tradicionais de povos indgenas, pois as patentes promovem a apropriao privada do conhecimento e a transformao generalizada da informao e do vivo em capital6 (Besaid, 2010: 36). A Violncia cultural representa a esfera simblica de nossa existncia exemplificada pela religio e ideologia, linguagem e arte, cincia (...) que podem ser utilizadas para justificar ou legitimar a violncia direta ou estrutural7 (Galtung, 2003:196). Como irei abordar no item 3. O espetculo da violncia deste artigo, a violncia cultural funciona como eficiente aparato para naturalizar a violncia e seus efeitos. A violncia se torna no apenas aceitvel como necessria em determinados casos, sempre que esteja de acorda com o moralismo hipcrita na qual se sustenta. exercida por um vasto conjunto de meios, como a economia, a poltica, a cultura, os meios de comunicao de massa, a educao, a indstria cultural e a produo cientfica. A criao do Isl como inimigo do ocidente atravs de um processo de representaes simblicas constitui um exemplo emblemtico de violncia cultural ao construir uma imagem do outro como inimigo. Justifica a violncia direta ao apresentar a guerra ao eixo do mal como algo necessrio e o ato de matar ao outro como legtimo. Justifica tambm a violncia estrutural ao considerar-se aceitvel a pobreza da populao e sua falta de acesso a servios bsicos, decorrente do processo de busca pela maximizao dos lucros e controle da explorao do petrleo nestas regies habitadas pelo inimigo. Manter o outro oprimido e obediente normalizado como meio de atender-se aos interesses prprios.

    3 la lgica liberal es una mquina de producir desigualdades e injusticias ( Bensaid, 210:10).

    4 cada uno para si y todos contra todos! parece ser la lgica absurda de un planeta sometido al

    despotismo annimo del capital y de los mercados ( Bensaid, 210:12). 5 Privatizacin del mundo y de la reduccin de los espacios pblicos. (Bensaid, 2010: 183).

    6apropiacin privada del conocimiento y la transformacin generalizada de la informacin y de lo vivo

    en capital (Besaid,2010: 36). 7 the symbolic sphere of our existence exemplified by religion and ideology, language and art,

    empirical science and formal science (logic, mathematics) that can be used to justify or legitimize direct or structural violence (Galtung, 2003:196).

  • A paz, por sua vez, no significa apenas ausncia de guerra, o que seria um exemplo de paz negativa. Esta se limita reduo da violncia direta. A dimenso positiva da paz engloba o processo de transformao8 das estruturadas geradoras da violncia direta, estrutural e cultura. De acordo com Galtung (2003), dentro da perspectiva da paz positiva, a paz constitui o fim e o meio para atingi-lo, ou seja, a busca pela paz deve ocorrer por meios pacficos. A paz positiva direta abrange a ausncia de violncia direta, incluindo a supresso de toda forma de discriminao. Refere-se tambm presena da gentileza e respeito no trato entre os diversos atores sociais; ajuda mtua e cooperao; existncia de movimentos sociais e artsticos para paz. A paz positiva estrutural promove a transformao da violncia estrutural. Est presente quando existe liberdade no lugar de opresso; equidade em vez de explorao; na existncia de justia social; na presena de uma paz interna em que o corpo e a mente estejam em harmonia; na relao sustentvel com o meio ambientes; n