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RUSEN Razao Historica Cap2

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Captulo 2

Pragmtica - a constituio do pensamento histrico na vida prtica

o God! That one might read the book of fale!Shakespeare, Hellrique IV.I

Muitas anlises dos fundamentos da cincia da histria que pretendem assumir o papel de uma teoria da histria e do valor a uma elaborao sistemtica comeam com definies genricas do que histria e tratam, da perspectiva de como os reconhecer, dos princpios mais importantes do pensamento histrico.2 Tal procedimento pressupe a constituio cientfica especfica do pensamento histrlc'cmo nlural e no pergunta sobre sua orIgem nem" sobre as raZes desua-exIsind:prque-eITasSlITle' no'(f'utr modo. Ao dfinii~se, aqur;his'tria como campo de aplicao do conhecimento histrico, trata-se, regra geral, da histria entendida como o objeto prprio do pensamento histrico em seu modo especificamente cientfico. Por que isso se apresenta assim raramente questionado, pois parece bem plausvel que, vi~ta dos resultados cognitivos obtidos pela cincia da histria, se tome por histria o que os historiadores, no sentido mais amplo, entendem ser seu objeto. Para se investigar por que o conhecimento histrico assume um modo cientfico especfico e explicar por que sua constituio cientfica se d no modo de uma estrutura de pensamento e, ainda,I Shakespeare, 2

Henrique IV, parte 11,ato 3, cena 1, verso 45. Assim, por exemplo, Faber, 17Jeorieder GeschichtslVissellschaft (4).

,',

por que o conhecimento histrico se d dessa e no de outra maneira, estritamente necessrio ir alm dessas constataes e perguntar pelos fundamentos da cincia especializada que no se esgotam em sua mera existncia factual. Quem busca tais fundamentos obrigado a pisar o solo instvel da convico relativamente difusa, pr-terica e assistemtica dos especialistas e encontrar, nele, razes seguras para fundamentar a plausibilidade da histria como cincia. Tais razes podem ser encontradas nos pressupostos do pensamento histrico, que so tidos pelos historiadores como dotados de certa obviedade. No se pode tratar, por conseguinte, na fundamentao que se , busca, do uso exclusivo de determinado saber, que entraria nos -processos de reflexo, por assim dizer, do exterior. Pelo contrrio, a questo est em evidenciar o que j se pressupe como natural em tais reflexes desde o incio e que, por isso mesmo, no recebe " ateno particular. Esse pressuposto deve ser, pois, explicitado de .tal forma que seja compreendido como algo que sempre se admitiu como natural- vale dizer, como pressuposto necessrio, altamente consensual, do pensamento histrico em seu modo cientfico. So as .situaes genricas e elementares da vida prtica dos homens (experinCias e interpretaes do tempo) que constituem o que conhecemos como conscincia histrica. Elas so fenmenos comuns ao pensamento histrico tanto no modo cientfico quanto em geral, tal como operado por todo e qualquer homem, e geram determinados resultados cognitivos. Esses pontos em comum tm de ser investigados como genricos e elementares, isto , como processos fundamentais e caractersticos do pensamento histrico. Esses processos representam a naturalidade corriqueira que se deve sempre pressupor, quando se tenciona conhecer a histria cientificamente. A questo que nos interessa aqui pode ser explicitada mediante a seguinte considerao: o pensamento um processo genrico e habitual da vida humana. A cincia um modo particular de realizar esse processo. O homem no pensa porque a cincia existe, mas ele faz cincia porque pensa. Se se puder estabelecer que esse modo particular, cientfico, do pensamento humano est enraizado no pensamento humano em geral, ter-se- um ponto de partida para

responder pergunta: por que o pensamento se d e se deve dar no modo cientfico? Neste captulo investigar-se-o os fenmenbs genricos e elementares do pensamento histrico determinantes da histria como cincia. _Com..Q.....:.~pensamento'~ visto aqui como especificamente cientfico, pode-se falar em f~!l!!1_enos.da COll~~.!1ci.J1stQ!t~, A histria como cincia deve ser uma realizao particular do pensamento histrico ou da conscincia histrica - e esse procedimento particular deve ser visto como inseRde em seus fundamentos genricos na vida corrente. Para se saber o que significa conhecer historicamente de modo cientfico, preciso esclarecer o que significa p.~nsar historicaJ!l~!~,_Tenciono, pois, analisar os processos mentais genricos e elementares da interpretao do mundo e de si mesmos pelos homens, nos quais se constitui o que se pode chamar de conscincia histrica. Buscar-se- identificar, nesses processos, os momentos em que a histrica como cincia est "inserida". OJitulQ ~'P.ragtl1-!i~uer exp~imir que,as operaes da coosincia na vida corren~ue se tencion~ inv~s_tigar e que se do sempre. quee.. p~l1.ah.!s.t!!f-.!I!ente -s.! _ ~ identifica das qu~ndo se analis__vJ.l~Lffilotidia!l:_ -~.hQllte~Q_.~l!~S.9__Cl!!L!!-p~raes se!:e~i~~~. A peculiaridade dessas operaes da conscincia poder-se-ia design-Ias tambm como atos de fala - s se evidencia quando se reconhece qual sua "insero na vida": por que ocorrem, que resultados alcanam na vida prtica quotidiana dos que as realizam. As funes do pensamento histrico aparecem, luz de uma anlise desse tipo, no como algo relativo ao campo de aplicao exterior ao saber histrico, mas como algo intrnseco ao pensamento histrico, cuja estrutura e forma determinam de maneira marcante. Esse tipo de problematizao vai alm da distino entre teoria e prxis, entre conhecimento histrico no mbito da cincia da histria e aplicao desse conhecimento fora da cincia, e busca a conexo ntima entre o pensamento e a vida, na qual as operaes da_COl!i}J,c!_!s.tri_~a reconhecidas como produtos da vida so prtica concreta. Somente a partir desse plano pode-se explicitar o que "teoria" no sentido de um saber histrico obtido e constitudo

cientificamente, em relao e em contraste com a prxis, na qual se faz uso dele.

Experincia do tempo e auto-identidade conscincia histrica

- a origem da

Que operaes da vida quotidiana constituem a consclencia hist6rica como fundamento de todo conhecimento hist6rico? Essa a questo que orienta a presente tentativa de desvelar os fundamentos da cincia da hist6ria na vida quotidiana concreta e de constituir a hist6ria como cincia com base neles. Para se chegar a esses fundamentos, preciso demonstrar que o resultado obtido pela cincia da hist6ria, isto , o conhec.imento hi~!Qrico, ~m ..Ql9Q9 particular de um processo genrico e elementar do pensamento huma.no. Para tanto, necessrio extrair do produto cognitivo especficamenfe hist6rico tudo o que for pr6prio sua particularidade cientfica; com isso, impor-se- ao olhar o que nele houver de genrico e elementar. Como resultado desse processo abstrativo, que deve conduzir aos fundamentos da cincia da hist6ria, obtm-se, como grandeza genrica e elementar do pensamento hist6rico, a conscincia hist6rica: todo pensamento hist6rico, em quaisquer de suas variantes - o que inclui a cincia da histria -, uma articulao da conscincia hist6rica.3 A conscincia histrica a realidade a partir da qual se pode entender o que a histria , como cincia, e por que ela necessria. No que se segue, analisar-se- a. conscincia _~j!.riqL Q1UO fundamento da cincia da histria. Essa anlise tem por premissa que nenii~m. concepaoparticular da histria,. vinculada a tal .ou qua.l cultura, seja-pressuposta como f~l1damento da cincia da histiia{polS:-seass}m fosse, requerer-se-ia aquela concepo pela a cincia da histria estaria plenamente constituda, o que acarretaria que esta seria o fundamento de si pr6pria). A conscincia hist6rica ~~~ ..~alisada como fenmeno do mundo vital, ou~eja,

como uma forma da conscincia humana que est reladonada ime"tfiata:mente cOiilVdliuiaiia-pfti~-.4--stecSoquanaSe eDfiioe~cscicia-~ist6ri