São Bernardo

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Murilo Dias César

Text of São Bernardo

  • Murilo Dias Csar

    XVIII Prmio Vladmir Herzog de Anistia e Direitos Humanos

    Adaptao teatral livre de So Bernardo, de Graciliano Ramos

  • SO BERNARDO Adaptao Teatral Livre

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    CONTATO:

    MURILO D. CSAR

    Av. da Liberdade, 959 / 901 - B. Liberdade

    CEP: 01503-001 - SO PAULO - SP

    Tel.: (11) 3207 2343

    murilodiascesar@uol.com.br

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  • SO BERNARDO Adaptao Teatral Livre

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    SO BERNARDO

    CENRIO:

    DIVIDIDO EM PLANOS, DE ACORDO COM AS NECESSIDADES DA AO. OS CORREDORES DA PLATIA DEVERO SER UTILIZADOS COMO SE FIZESSEM PARTE DA FAZENDA.

    POCA

    DCADAS DE VINTE E TRINTA.

    LOCAL

    SO BERNARDO, GRANDE FAZENDA NAS PROXIMIDADES DE VIOSA, ALA-GOAS.

    PERSONAGENS

    PAULO HONRIO - Poderoso e autoritrio proprietrio de So Bernardo.

    OBS.: O personagem Paulo Honrio, ao longo da ao, ser apresentado em diversas facetas de sua enigmtica personalidade:

    - o namorado e noivo carinhoso; o marido exemplar;

    - o self-made man sertanejo, implacvel, ambicioso, que pretende aumentar as terras de So Bernardo, invadindo as fazendas vizinhas e criar uma dinastia. Uma frase sua define bem esse objetivo: Eu tinha de me apossar das terras de So Bernardo E, para me apossar das terras de So Bernardo, fiz o diabo O diabo!

    - o homem solitrio, impotente, amargo, permanentemente mergulhado dentro de si prprio.

    MADALENA - Professora, esposa de Paulo Honrio, livre-pensadora. Uma mulher co-rajosa, culta e humanista. Sua personalidade forte, determinada, embora sensvel e deli-cada, contrasta com a rudeza a quase insensibilidade do marido, tornando o choque entre ambos inevitvel.

    LCIO DE AZEVEDO GONDIM - Proprietrio de O Cruzeiro, jornalista corrupto. Amigo interesseiro e, ao mesmo tempo, sincero de Paulo Honrio.

    CASIMIRO LOPES - Pistoleiro franzino, de estatura baixa, feies comuns e rudes. Analfabeto, corajoso, sua fidelidade quase ilimitada ao patro s menor que seu amor ao filho deste, o nen Honorinho.

    LUS PADILHA - Ex-proprietrio de So Bernardo e, depois de perder a propriedade, professor da escola primria da fazenda. Nutre por Paulo Honrio um sentimento que mistura admirao, subservincia e rancor.

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    JOO NOGUEIRA - Rbula de Paulo Honrio, responsvel por todos os problemas jurdicos de So Bernardo e, depois, j decadente, simples guarda-livros da fazenda.

    D. GLRIA - Tia e amorosa me adotiva de Madalena, costureira. Doente, vive atormen-tada por uma dor de cabea que, com freqncia, transforma-se em enxaqueca.

    VELHA MARGARIDA - Me adotiva de Paulo Honrio, negra, analfabeta, profunda-mente devotada ao filho.

    OBS.: A velha Margarida ser apresentada em duas etapas de sua vida:

    Aos 57 anos, trabalhando como doceira, quando adota e educa o menino Paulo Ho-nrio, impondo-lhe os valores culturais da regio.

    Aos 90 anos, beata e esclerosada.

    PADRE SILVESTRE - Sacerdote amigo de Paulo Honrio e Madalena. Tem um senti-mento paternal por ambos, em especial por Madalena.

    GOVERNADOR - Governador de Alagoas, na poca em que Paulo Honrio est no auge de seu prestgio. Um ambicioso poltico de ontem e de hoje.

    VELHO MENDONA - Proprietrio de Bom-Sucesso, fazenda vizinha de So Ber-nardo. Um representante tpico e tradicional de sua classe. Seu desprezo pelo adventcio Paulo Honrio evidente.

    GERMANA - Jovem, bela e sensual camponesa, com a qual Paulo Honrio, na mocidade, teve breve e marcante relacionamento.

    JOO FAGUNDES - Jovem simptico, rival de Paulo Honrio na disputa por Germana.

    JOAQUIM SAPATEIRO - Companheiro de priso de Paulo Honrio jovem e seu nico professor.

    NOTAS E / OU SUGESTES DO AUTOR

    1. O nmero de atores fica a critrio da direo. O autor, porm, esclarece que esta adaptao livre da obra-prima de Graciliano Ramos foi escrita de modo que um elenco reduzido de seis / sete atores possa encen-la. Observe-se que diversos personagens tm breve, embora importante, participao na pea, o que possibilitar (exceto os que fizerem Paulo Honrio e Madalena) aos atores dobrar papis.

    2. Os cenrios podero ser realistas e subjetivos: efeitos de luz e som podero, eventualmente, criar os diversos ambientes sugeridos no texto.

    3. De preferncia, em diversas cenas, no haver a diviso realista palco / platia. O teatro todo entrada, platia, palco, etc. poder ser a grande propriedade rural de So Bernardo.

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    I ATO

    TEATRO S ESCURAS.

    PAULO HONRIO - (VOZ IRRITADA, CHAMANDO) Madalena! Madalena! Madalena! (SENTINDO QUE NO SER OUVIDO) Madalena! (NUM MURMRIO) Madalena Madale

    FOCO DE LUZ. PAULO HONRIO SENTADO MESA, SOBRE A QUAL SE V UMA GARRAFA DE CONHAQUE E DOIS COPOS. A SEU LADO, EM P, COM UM BLOCO DE PAPEL NA MO, AZEVEDO GONDIM. MAIS FRENTE, ESQUERDA, CASI-MIRO LOPES PICA UM PEDAO DE FUMO. ESSES DOIS PERSONAGENS, DE IME-DIATO, NO SO BEM VISVEIS PELO PBLICO.

    PAULO HONRIO - (NUMA ANGUSTIADA LEMBRANA) Madalena!

    LUZ GERAL. SALA DE ESTAR DE SO BERNARDO.

    AZEVEDO GONDIM - (LENDO ANIMADO, QUASE DISCURSANDO) Foi ento que o destemido e pioneiro Sr. Paulo Honrio tomou a implacvel e corajosa deciso de empregar as tcnicas mais modernas para aumentar a produo, melhorar o rebanho e desenvolver So Bernardo! (BREVE PAUSA. OLHA PARA PAULO HONRIO, AGUARDANDO O EFEITO DE SUAS PALAVRAS)

    PAULO HONRIO - (IRRITADSSIMO) Esse o meu livro? V pro inferno, Gondim!

    AZEVEDO GONDIM - (ATINGIDO) Seu Paulo, o senhor acha que

    PAULO HONRIO - (CORTA) Est idiota! Pelo amor de Deus! Ningum fala desse jeito, Gondim!

    AZEVEDO GONDIM - Calma, seu Paulo, calma Um escritor no pode escrever como se fala.

    PAULO HONRIO - E por que no pode?

    AZEVEDO GONDIM - No pode porque porque no pode. (PONDERADO) O senhor entende muito de negcios, mas Negcios uma coisa, literatura outra

    PAULO HONRIO, AINDA IRRITADO, DIRIGE-SE AO PROSCNIO, DE ONDE PASSA A OBSERVAR OS SEUS DOMNIOS (A PRPRIA PLATIA). REFLETE. MUDANA DE LUZ. SILNCIO. UMA CORUJA PIA. PAULO HONRIO V MA-DALENA, CUJA FIGURA SURGE SOB LUZ EM FOCO, NUM PONTO QUALQUER DA PLATIA, PARA DESAPARECER LOGO EM SEGUIDA.

    PAULO HONRIO - Madalena! Madalena, eu

    POR INSTANTES, ABATIDO, FICA PENSANDO EM MADALENA. DE NOVO, PIAR DE CORUJA QUE SE SOBREPE A OUTROS SONS, DESPERTANDO-O.

    PAULO HONRIO - Esse livro no anda! Trs tentativas num ms e nada! o diabo! (BREVE PAUSA. AUTORITRIO) Beba conhaque, Gondim!

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    AZEVEDO GONDIM BEBE. PAULO HONRIO, DE NOVO, ENTREGA-SE A SEUS PENSAMENTOS.

    AZEVEDO GONDIM - A gente pode recomear o livro descrevendo aquele episdio em que o senhor (NOTA QUE NO EST SENDO OUVIDO) Seu Paulo! Seu Paulo!

    PAULO HONRIO - Beba conhaque, Gondim Conhaque!

    AZEVEDO GONDIM BEBE. OBSERVA PAULO HONRIO, CUJA MENTE DIVAGA.

    AZEVEDO GONDIM - Se o senhor precisar de mim, estou s suas ordens. (VAI SAINDO, VOLTA-SE) Aquele pequeno problema do Cruzeiro que eu contei pro se

    PAULO HONRIO - (CORTA, BRUSCO) Que problema?

    AZEVEDO GONDIM - Nada, nada A gente deixa pra conversar outro dia.

    PAULO HONRIO - (DESCONFIADO) Que problema, Gondim?

    AZEVEDO GONDIM - (DISPARA) Seu Paulo, o governo vive dizendo que a situao fi-nanceira do pas muito boa, que conseguiu salvar a moeda, controlar a inflao, mas est tudo subindo de preo e O Cruzeiro anda com falta de capital de giro. Desse jeito, o meu jornal vai

    PAULO HONRIO - (CORTA, RSPIDO) Boa noite, seu Gondim!

    AZEVEDO GONDIM - A gente deixa esse assunto pra depois Boa noite! (SAI)

    BREVE PAUSA.

    PAULO HONRIO - (IRADO) Canalha! Me chantageando de novo! Esse Cruzeiro est me custando os olhos da cara! (PENSA) Vou ter mesmo que gemer, de novo, com mais uns cobres pro Gondim

    PAUSA. LUZ EM FOCO. PAULO HONRIO REFLETE.

    PAULO HONRIO - (LEMBRANDO, AMARGO) Madalena (DEVANEIA. NOVO PIO DE CORUJA O DESPERTA. OBSERVA CASIMIRO LOPES QUE, NO SEU CANTO, CONTINUA PICANDO FUMO. REFLETE) Tem coisas em minha vida que eu nunca vou revelar, cara a cara, pra ningum. (OBSERVA O BLOCO DE PAPEL EM CIMA DA MESA) Mas vou contar tudo no meu livro. Vai ser publicado com pseudnimo mesmo (EXAMINA AS FOLHAS) Que porcaria! (RASGA AS FOLHAS, ATIRANDO-AS NO LIXO) Casimiro, eu sempre achei esse Gondim uma besta Uma besta!

    CASIMIRO LOPES - Uma besta Uma besta, seu Paulo

    PAULO HONRIO - Casimiro, me esquenta o caf.

    PAULO HONRIO REFLETE. CASIMIRO LOPES, LENTO, VAI ATENDER ORDEM. BARULHO VINDO DE FORA. CASIMIRO LOPES APANHA SUA ESPINGARDA E PASSA A OBSERVAR PELA FRESTA DA JANELA.

    CASIMIRO LOPES - (TENSO) Tem gente l fora, seu Paulo! O Tubaro deu o alarme.

    PAULO HONRIO, DESCRENTE, OBSERVA CASIMIRO LOPES. O CO LOGO PRA DE LATIR. ALVIO DE CASIMIRO LOPES.

    PAULO HONRIO - Que isso, Casimiro? Foi-se o tempo que

    CASIMIRO LOPES - Acho que era s um bicho do mato que assustou o Tubaro.

    BREVE PAUSA.

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    PAULO HONRIO - As coisas mudam, Casimiro. Mudam (O.T.) Me traz o caf. (OBSERVA CASIMIRO LOPES QUE, TRPEGO, SEGUE EM DIREO COZINHA) Todo estropiado! Est que no se agenta (COM DESPREZO) Um molambo! (REFLETE) O Casimiro, agora, s me serve pra fazer caf e de companhia por isso que ainda no mandei o Casimiro embora (SURGE-LHE UMA IDIA) Ainda! (ARREPENDE-SE) No, no, o Casimiro eu no posso mandar embora nunca. Nunca! (VOLTA MESA, APANHA PAPEL E CANETA. SENTE DIFICULDADE EM COMEAR. EST TENSO) Vou desistir desse troo (BREVE PAUSA) Essa idia de escrever o livro no me sai da cabea Me persegue! (IRRITA-SE. VAI AT O PROSCNIO E OBSERVA OS SEUS DOMNIOS) Se eu tives