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Sarah Affonso, mulher (de) artista

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Text of Sarah Affonso, mulher (de) artista

  • Idalina Conde* Anlise Social, vol. xxx (131-132), 1995 (2.-3.), 459-487

    Sarah Affonso, mulher (de) artista

    difcil, eu no sei explicar o que a pintura [...] Ainda hoje uma senhora que muito simptica quis conhecer-me, veio c a casa, olhou para os meus quadros e disse:'A sua pintura igual de Almada.' Disse isto para ser simptica, mas isto fere-me. Ele o que . Eu sou o que sou. Mas, que me venham dizer que a minha pintura igual dele, isso ofende-me, sobretudo porque ele tem um grande nome. E isso foi das coisas queme fez parar. Havia sempre algum a dizer: 'A sua pintura igual de Almada.' E no nada igual. Ora diz-me l se este quadro igual quele?!

    SARAH AFFONSO

    1. (IN)JUSTIAS CONJUGAIS NUMA TRAJECTRIACOMPLEMENTAR

    Com uma prematuridade histrica que mais parece suspender o passar dotempo, do sculo xii e pelas mos de Jacques Le Goff, que a cita na suahistria das origens dos intelectuais no Ocidente chega-nos esta cartaextraordinria de Helosa para Abelardo. Carta em que ela tenta dissuadi-lodo casamento, mas at como prova superior de amor ao querer poup-lo svicissitudes do lao conjugal a favor da sua carreira de pensador. E sobretudocarta que assim acaba por falar, num retrato exemplar, da saga da abnegaofeminina nesse drama domstico em que, de acordo com a histrica divisosexual do trabalho, mesmo mulher letrada e Helosa era-o cabem astarefas da matria do lar para ao homem reservar a liberdade do esprito:

    No poderias ocupar-te com o mesmo cuidado de uma esposa e dafilosofia. Como conciliarias as lies com as criadas, as bibliotecas com osberos, os livros com as rocas, as penas com os fusos? Aquele que tem dese absorver em meditaes teolgicas ou filosficas poder suportar osgritos dos bebs, as canes de embalar das amas, a multido barulhenta deuma criadagem masculina e feminina? Como tolerar as porcarias que ascrianas pequenas fazem constantemente? Para os ricos isso possvelporque tm palcios ou casas suficientemente grandes para nelas consegui-rem isolar-se, porque a sua opulncia no se ressente com as despesas,porque no so quotidianamente crucificados pelas preocupaes mate-

    * Instituto de Cincias do Trabalho e da Empresa, Lisboa. 459

  • Idalina Conde

    riais. Mas no essa a condio dos intelectuais (filosofia) e aqueles quetm de se preocupar com dinheiro e problemas materiais no podem entre-gar-se sua profisso de telogos ou de filsofos. [Le Goff, 1990, 57-58.]

    Ora, a muitos sculos de distncia, na verdade, o caso de Sarah Affonso(1889-1983), artista e mulher da personalidade mais incendiria da nossamodernidade, Jos de Almada Negreiros (1893-1970), reedita de novo estavelha histria. , pois, com Sarah que iremos ficar, ouvindo-a num testemu-nho da sua vida ao lado de Almada, testemunho tambm muito enriquecedorquanto viso do meio artstico e de figuras da poca com quem o casalmanteve relaes. O testemunho apareceu numa srie de conversas gravadase publicadas pela nora (Negreiros, 1982), sendo que essas memrias a umtempo falam da dupla condio de mulher artista e mulher de artista, assimcomo sobre as razes pelas quais esta ltima viesse a dominar numa relativadesistncia da primeira1.

    Iremos ouvi-la, mas na inteno de um equilbrio a conseguir com umadupla ateno ou duplo olhar, porque o cenrio supostamente mais simplesda injustia relativa cometida no casal de facto no consente um lquido juzomoral. Numa viso limitadamente feminista, j se sabe que o acento viriaposto no preo pago pela submisso da mulher face hegemonia do homemno contexto conjugal e para chamar aqui antinomias usadas por Jean--Claude Blassel (1988), o contraste entre ela e ele oporia recalcamento aexpresso, esvaziamento a expresso da identidade pessoal. No obstante, eparafraseando ainda o autor, a observao da conjugalidade nos seus vriosmodelos, do tradicional ao libertrio, requer que se atenda, isso sim, aomodo especfico como a, numa trama de mtuas concesses e desejos (er-ticos, dependenciais, narcsicos), em todo o caso h lugar para a reparaopossvel do desequilbrio que aqui tanto parece marcar a dade marido--mulher, Sarah-Almada.

    Por outras palavras, denncia da dominao masculina no quadro daassimetria social dos sexos interna ao par, responde o sopesar na balana dematizes e sentimentos que a seu modo tambm conferem uma justia relativa,simetrizando a relao na ordem do seu possvel, a relao onde uma trocaentre dvida masculina face ddiva feminina (na abnegao por devoo;por isso, com consentimento sem ressentimento) restabelece por vias a in-vestigar o sentido e a intensidade expressiva ou amorosa do lao conjugal.E, porque se trata de um casal de artistas, caber ainda levar em conta nessaadministrao da justia critrios de uma tica particular: aquela pela qualse rege essa forma de identidade, tanto pessoal como social, que ser artista,

    1 Os excertos seguintes, com a indicao da respectiva pgina, foram retirados de Conver-sas com Sarah Affonso (1982), mais recentemente retomadas em parte no pequeno livro Sarah

    460 Affonso (1989), da autoria da sua nora, Maria Jos de Almada Negreiros.

  • Sarah Ajfonso, mulher (de) artista

    com a sua parte de interferncia, mesmo se ambgua e ambivalente, nainteraco Sarah-Almada: Ele o que . Eu sou o que sou. Mas que mevenham dizer que a minha pintura igual dele, isso ofende-me, sobretudoporque ele tem um grande nome. E isso foi das coisas que me fez parar.

    Do ponto de vista artstico, se a dade em tudo resulta paradigmtica docasal de artistas com a mulher demissionria em contraste e a favor da car-reira, valor, sucesso, do marido jogando ento o papel de acompanha-mento que em retorno lhe fornece o sentido da sua existncia (Singly eCharrier, 1988, 51) , ainda mais emblemtica se torna de uma espcie dediviso sexual do trabalho esttico (Pasquier, 1983, pp. 425 e segs.). Por-que vigorosidade viril, racional e radical da modernidade de Almadanuma obra futurista e picassiana Sarah contrape a sua maneira totipicamente feminina, conotada com a subjectividade sensvel, sentimentoe emoo numa figurao mais marcada pelo decorativismo tradicional.Dizia ela: Eu entrei na pintura por emoo. A primeira vez que vi o soldesaparecer no mar, a impresso que isso me fez! Era ainda muito pequena,to pequena que nem sabia que aquilo era o pr-do-sol, mas fiquei comaquela recordao [...] {In Negreiros, 1982, 17.) Por isto, a Sarahcorresponde uma trajectria complementar, verdadeiro contrrio da traject-ria serpentina de Almada, tal como a vimos noutro lugar (Conde, 1995a).O Almada com quem casou tardiamente em 1936, aos 47 anos, quando ele,de 43, j era um nome com passado de peso ligado ao pioneirismo dosfuturistas e modernistas entre ns.

    E, embora por idade, mesmo pelo seu primeiro percurso artstico, Sarahdevesse pertencer primeira gerao do marido, devido a este casamento,aps o qual se afasta voluntariamente da vida artstica em 1940 apesarde pontualmente vir a expor depois e at a realizar algumas das suas obrasmais significativas , por isso pertence ao decnio seguinte, aparecendocitada, como faz Jos-Augusto Frana, na chamada segunda gerao. Ci-tada como pintora caracterstica de um universo feminino de noivados ematernidades, de uma viso ingnua e encantada capaz de ousadias de core desenho, com um lirismo de inspirao popular e minhota tudolembrando a sua infncia alde num mundo de festa e magia, comfeiras, procisses e romarias, carrossis e coretos de bandas rsticas, ou aindacasamentos tratados com a facilidade do brinquedo, a mesma facilidadecom que acorda uma temtica original que vai da dana das sereias (a)meninos brincando com papagaios. Num bvio contraste com a obra deAlmada, a pintura de Sarah repousa em pilares da figurao feminina tradi-cional, mesmo que a seu modo recriada. Nela existe a simplicidade natura-lista fixada com amorosa ateno, paisagens mais raras marcando umaatmosfera emotiva que exprimiriam a primeira inteno da artista: Perantea natureza, procuro a emoo [...] e fao por ser coerente e sincera. (Frana,1984, 302-303.) Em suma, citada pela qualidade com que manuseia um 461

  • Idalina Conde

    mundo mgico de histrias tradicionais e smbolos infantis (Silva, inMiranda et ai, 1991, 115-116), na obra de Sarah v-se uma pintura femininacomo duplo expressivamente enftico do seu papel de mulher.

    Metonimicamente, pois, pelo prprio facto de o casal retratar com extraor-dinria fidelidade a dupla diviso sexual dos papis e da esttica, Sarah emnada parece singular. As poucas mulheres conhecidas numa actividade domi-nantemente masculina como a das artes plsticas ganhavam nome nesta ten-dncia vocacional, j antes bem representada nos meninos e bodegonesde Josefa d'bidos no sculo xvii. Uma tendncia que tambm na pinturaas devolve ao seu lugar social de mulheres por recorrentemente fazer uso dadita natureza, imaginrio, interioridade ou sensibilidade feminina. Pelo queidntica recorrncia se encontra na retrica emotiva com que o discurso dacrtica e da histria da arte fala delas, assim como fala das obras de algumasoutras da segunda gerao: Milly Possoz (1888-1967) ou Oflia Marques(1902-1952), por exemplo, ambas no por acaso ligadas por relaes fami-liares e at conjugais a homens artistas [Oflia foi mulher de BernardoMarques (1888-1962)]. Onde a singularidade do caso se pe ser antes nomodo como biograficamente Sarah Affonso vive esta experincia de sermulher num mundo artstico de homens ao lado de um homem artista2.

    2. UMA PROMESSA DE CARREIRA NO COMEO

    Filha mais velha de seis irmos, Sarah nasceu em Lisboa, mas viveria dos4 aos 14 anos em Viana do Castelo devido colocao, a, do pai, oficial do

    2 to longa a tradio desta tendncia vocacional das mulheres artistas que, para o dizercomo Dominique Pasquier (1983, 419 e segs.), no estatuto sexual encontram-se as caracters-ticas auxiliares ligadas profisso de artista. Por isso mesmo, embora no sem as armadilhasda autogue-tizao feminista, compreende-se a reaco rei