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Saudade dos militares: hipóteses sobre os pedidos de ... · PDF file1 Saudade dos militares: hipóteses sobre os pedidos de retorno das Forças Armadas ao poder* Vitor de Angelo**

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    Saudade dos militares: hipteses sobre os pedidos de retorno das Foras Armadas ao poder*

    Vitor de Angelo**

    Resumo O presente trabalho busca discutir os recentes pedidos de retorno das Foras Armadas ao poder no Brasil. A esse respeito, sustenta-se duas hipteses que explicariam tais pedidos. A primeira hiptese afirma que aqueles que, hoje, defendem o retorno dos militares ao poder tm uma memria positiva acerca da ditadura e de seus desdobramentos na histria recente do Brasil. Nesse sentido, como se, entre 1964-1985, tivssemos vivido um perodo cuja herana, perdida no presente, s poderia ser restabelecida pelos mesmos atores polticos que nos deixaram tal legado no caso, os militares. A segunda hiptese sustenta que os defensores da volta das Foras Armadas poltica institucional consideram que apenas os militares poderiam extirpar problemas que, em sua avaliao, so criados ou alimentados exclusiva ou quase exclusivamente pelos que hoje esto frente do governo brasileiro. Sabendo-se que o partido do governo, assim como a atual presidente, so ligados direta (no caso de Dilma Rousseff) ou indiretamente (no caso do PT, por meio de muitos de seus militantes) luta contra a ditadura, ter chegado ao poder significaria, na viso dos que defendem a volta dos militares, que estes no concluram o propsito saneador que os havia levado ao poder em 1964. As prticas polticas mais recentes dos integrantes do governo e do partido governante apenas indicariam, dessa perspectiva, que as Foras Armadas seriam as nicas capazes de corrigir os graves problemas nacionais ligados ao sistema poltico brasileiro corrupo, caixa dois, patronagem, dentre outros. Essas duas hipteses so aqui formuladas tendo em vista as manifestaes sociais e polticas recentes demandando a volta dos militares ao poder, particularmente as que ocorreram no incio de 2015 contra o governo petista da presidente Dilma Rousseff. Essas manifestaes, de vis nitidamente mais conservador que as de 2013, oferecem exemplos relevantes para a discusso que se prope. Este trabalho se insere no campo de reflexes acerca da memria poltica e tem como propsito realizar uma reflexo inicial sobre o tema em questo, associando-a a trabalhos anteriores do autor sobre a memria, em particular ligados ao perodo da ditadura brasileira.

    Palavras-chave: protestos, governo Dilma Rousseff, Foras Armadas, ditadura, memria.

    1. Ponto de partida: uma aparente contradio

    O ano de 2015, no Brasil, ficou marcado por um aparente paradoxo de natureza poltica

    e social que, a meu ver, merece uma reflexo mais detida. A contradio a que me refiro est

    no fato de que, exatamente um ano depois de o golpe de 1964 ter completado meio sculo, e

    somente quatro meses aps a divulgao do relatrio final da Comisso Nacional da Verdade

    (CNV), manifestaes contra o governo Dilma Rousseff organizadas pelo pas afora tiveram entre

    * Trabalho apresentado no 13th International Congress of the Brazilian Studies Association (BRASA), Brown University, Providence, 31 de maro a 02 de abril de 2016. ** Doutor em Cincias Sociais. Professor do Programa de Ps-Graduao em Sociologia Poltica da Universidade Vila Velha (ES). Email: [email protected]

    mailto:[email protected]
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    suas reivindicaes pedidos de interveno militar. Digo que essa contradio apenas aparente

    porque, da perspectiva dos manifestantes, no haveria, a princpio, um antagonismo de posio

    entre o apelo a uma ao poltico-institucional das Foras Armadas, de um lado, e o propsito

    de derrubar o governo reeleito democraticamente em outubro de 2014.

    Como de amplo conhecimento, em 2014, o golpe que deps o presidente Joo Goulart

    completou 50 anos. Ao longo daquele ano, houve, no Brasil e no exterior, uma agenda de

    intensos debates, pesquisas e reflexes sobre o processo que levou queda de Jango, em maro

    de 1964, e implementao da ditadura que governou o Brasil at 1985. No meio acadmico,

    por exemplo, foram lanadas diversas obras com o objetivo de examinar os detalhes daquele

    perodo histrico, nas mais diferentes perspectivas analticas e tericas (FERREIRA e GOMES,

    2014; FICO, 2014; MOTTA, REIS FILHO e RIDENTI 2014; NAPOLITANO, 2014; REIS FILHO, 2014;

    VILLA, 2014). A imprensa tambm deu ampla cobertura cronologia dos processos poltico-

    sociais do perodo de 1964 a 1985 e s suas interpretaes mais recentes, de vis crtico aos

    governos militares. Em suas verses digitais, alguns veculos da mdia chegaram a criar hotsites

    a respeito dos 50 anos de 1964, como os jornais Folha de S.Paulo1 e O Estado de S.Paulo2 e o

    portal de notcias G13. Vrios jornais impressos tambm lanaram cadernos alusivos data,

    como o Especial 64/50, por exemplo, publicado pelo dirio O Globo (30/03/2014).

    No final do ano, quando j havia diminudo drasticamente a cobertura miditica sobre

    1964, bem como o lanamento de livros e a organizao de eventos temticos, a CNV divulgou

    seu relatrio final contendo a ntegra do trabalho de pesquisa realizado a partir de maio de 2012.

    O documento, em trs volumes, trouxe poucas novidades em relao ao que j se conhecia

    sobre o perodo, sendo esta, alis, uma das principais crticas dos especialistas aos trabalhos da

    CNV. De qualquer forma, o documento final apresentado pela Comisso teve um significado

    importante ao elencar uma srie de violaes contra os direitos humanos ocorridas durante a

    ditadura, detalhando o processo de estruturao de um sistema nacional de informao e

    represso, apontando as ligaes da ditadura com governos de outros pases da Amrica Latina

    e da Europa, indicando as formas e os locais de tortura, revelando os nomes de torturadores e

    de financiadores da estrutura informativo-repressiva, assim como narrando os casos mais

    emblemticos de torturas, desaparecimentos e mortes registrados naqueles anos.

    Nesse contexto, como seria possvel que, j em maro de 2015, pessoas fossem s ruas

    para pedir uma ao das Foras Armadas contra o governo federal, semelhantemente ao que

    1 http://arte.folha.uol.com.br/especiais/2014/03/23/o-golpe-e-a-ditadura-militar/a-ditadura.html. Acessado em 28 dez. 2015. 2 http://www.estadao.com.br/tudo-sobre/1964. Acessado em 28 dez. 2015. 3 http://g1.globo.com/politica/50-anos-do-golpe-militar/linha-do-tempo-33-dias-do-golpe/platb/. Acessado em 28 dez. 2015.

    http://arte.folha.uol.com.br/especiais/2014/03/23/o-golpe-e-a-ditadura-militar/a-ditadura.htmlhttp://www.estadao.com.br/tudo-sobre/1964http://g1.globo.com/politica/50-anos-do-golpe-militar/linha-do-tempo-33-dias-do-golpe/platb/
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    tinha acontecido em maro de 1964, s vsperas da deposio do presidente Joo Goulart? A

    defesa de uma sada militar para a crise poltica vivida pelo Brasil em 2015 invalidou a mxima

    de que o conhecimento da histria serve para coibir os mesmos erros do passado4. Se

    lembrarmos da divisa para que no se esquea, para que nunca mais acontea, to cara aos

    setores da sociedade brasileira que questionam a memria oficial sobre a ditadura, poderemos

    concluir, at com alguma facilidade, que o problema parece estar associado menos falta de

    conhecimento factual sobre nosso passado recente, e mais ao sentido que se atribui a ele.

    certo que a ditadura brasileira no foi a mais violenta da Amrica Latina, conforme

    evidenciado em trabalhos como os de Pereira (2010). Na comparao com outros pases da

    regio, como Argentina e Chile, o Brasil teve governos militares com caractersticas muito

    particulares, desde os seus primeiros momentos agindo dentro de uma estrutura de legalidade,

    ainda que autoritria. Mesmo assim, o fato que, tanto na teoria como na prtica poltica,

    medida em que historicamente a democracia foi sendo considerada a melhor forma de governo,

    a tipologia das formas de governo ficou basicamente reduzida polaridade democracia versus

    autocracia sendo que, no uso corrente, esta foi paulatinamente sendo substituda pelo termo

    ditadura (BOBBIO, 2010).

    Para mim, isso significativo pois os dados que mostrarei a seguir revelam que um

    percentual elevado de manifestantes de maro de 2015 declarou apoiar o regime democrtico.

    Os mesmos resultados foram encontrados em surveys realizados junto a manifestantes que

    saram s ruas para protestar em abril e agosto, meses em que ocorreram dois outros grandes

    atos contra o governo Dilma Rousseff. Aceitando o argumento de que o nome ditaduras

    [passou a ser atribudo] a todos os governos que no so democracias, e que geralmente

    surgiram derrubando democracias precedentes (BOBBIO, 2010, p. 158, grifos meus), logo, que

    razo haveria para os pedidos de interveno militar por parte desses manifestantes? Por que,

    em sua viso, no existiria um antagonismo entre o apoio democracia e a defesa de uma ao

    das Foras Armadas contra o governo federal? Por que o profundo conhecimento histrico que

    temos hoje sobre o perodo da ditadura, revisitado exaustivamente em 2014, por ocasio dos

    50 anos do golpe, no conseguiu isolar socialmente as posies polticas mais autoritrias?

    Meu propsito, com este texto, tentar responder a essas questes, ainda que de modo

    preliminar, discutindo os possveis significados dos pedidos de interveno das Foras Armadas

    na conjuntura poltica brasileira recente, marcada por uma grave crise de governabilidade. O

    4 Assumo, aqui, a posio de que a ditadura foi um erro histrico, em razo de tudo o que est demonstrado no relatrio da CNV, dentre tantos exem