Saudades da Terra Volume 3

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FICHA TCNICA

Ttulo Autor Edio Reviso de texto e reformulao de ndices

SAUDADES DA TERRA Livro III DOUTOR GASPAR FRUTUOSO INSTITUTO CULTURAL DE PONTA DELGADA JERNIMO CABRAL

Catalogao Proposta FRUTUOSO, Gaspar, 1522-1591

Saudades da terra : livro III / Doutor Gaspar Frutuoso ; [Palavras prvias de Joo Bernardo de Oliveira Rodrigues ; Notcia biogrfica das Saudades da Terra por Joo de Simas] - Nova ed. - Ponta Delgada : Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1998.Ass: AORES / HISTRIA / HISTORIOGRAFIA AORIANA. sc. 15 - 16

LIVRO TERCEIRODAS

SAUDADES DA TERRA

SAUDADES DA TERRA

Livro Terceiro

PALAVRAS PRVIAS

Joo Bernado de Oliveira Rodrigues Ponta Delgada, 15 de Dezembro de 1970

Nesta longa e penosa caminhada que tem sido a publicao das Saudades da Terra, por incumbncia do Instituto Cultural de Ponta Delgada e de acordo com o manuscrito original, eisnos chegados ao Livro III, aquele que o Dr. Gaspar Frutuoso dedicou ilha de Santa Maria e que, na ordem que vimos seguindo, o penltimo dos seis que constituem o precioso cdice, hoje depositado na Biblioteca Pblica e Arquivo Distrital de Ponta Delgada. Deste livro, em 1922, por motivo das comemoraes centenrias do nascimento do seu autor, saiu uma edio, cuja tiragem, em extremo reduzida, cedo a converteria em raridade bibliogrfica, pelo que, de h muito, se impunha ser reimpressa. No entanto, ela constitui, juntamente com a do Livro IV, referente a S. Miguel, e sada dos prelos pouco depois, a melhor homenagem que os micaelenses podiam prestar ao seu mais antigo cronista, assinalando a data memorvel que, ento, se festejava. Isto se deveu a um grupo de estudiosos e admiradores do Dr. Gaspar Frutuoso, que, institudos em sub-comisso editora, e aps baldadas diligncias para uma publicao integral da obra (em vista do inexplicvel e incompreensvel sequestro que durante longos anos interditou o autgrafo a olhos estranhos), se limitaram a dar luz da publicidade os Livros dedicados s ilhas que constituem o distrito de Ponta Delgada, e que, precisamente, eram dos poucos de que existiam cpias merecedoras de confiana. No limiar desta segunda edio -me sumamente grato evocar os nomes desses benemritos, que, no se poupando a canseiras de qualquer espcie, conseguiram repor da melhor forma possvel o texto que, ento, se presumia constar do manuscrito do Dr. Gaspar Frutuoso. So eles: Alexandre de Sousa Alvim, Dr. Humberto Bettencourt de Medeiros e Cmara, Joo de Simas, Dr. Lus Bernardo Leite de Athayde, Dr. Manuel Monteiro Velho Arruda e Rodrigo Rodrigues, os quais, com o contributo financeiro dos Corpos Administrativos do distrito, designadamente da Junta Geral, tudo fizeram para que o IV centenrio do nascimento do nosso mais ilustre cronista fosse, naquela data, condignamente comemorado na terra da sua naturalidade.

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A primeira edio deste Livro III das Saudades da Terra ficou logo valorizada de forma notvel com os trabalhos que lhe foram apensos, respectivamente da autoria de Rodrigo Rodrigues e Joo de Simas. Refiro-me, como bvio, Notcia Biogrfica do Dr. Gaspar Fructuoso e Notcia Bibliogrfica das Saudades da Terra, que, pelo seu extraordinrio valor histrico e documental, consideramos no deverem ficar circunscritas reduzida tiragem do volume em que foram impressas. E, assim, logo foi nosso intento inclu-las na presente publicao, tanto mais que no me consta que algum, aps aqueles autores, tenha chegado a concluses diferentes ou mais actuais acerca das matrias ali versadas. Se a Notcia biogrfica do Dr. Gaspar Fructuoso saiu j na recente edio do Livro I, como, alis, estava indicado a abrir uma obra para cuja leitura se no dispensa o conhecimento da vida do autor, a Notcia bibliogrfica das Saudades da Terra acompanha novamente este Livro III, embora se reconhea que na parte que se refere ao autgrafo, o qual Joo de Simas, ao tempo que a escreveu, ainda no conhecia, esteja em alguns pontos ultrapassada; contudo, no seu conjunto

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e, especialmente, em matria de cpias, constitui ainda um eruditssimo trabalho da maior valia, a que entendemos juntar a srie de artigos (infelizmente incompleta) que aquele biblifilo publicou no Correio dos Aores em Agosto e Setembro de 1950, por ocasio da oferta do cdice frutusiano Junta Geral de Ponta Delgada pelo falecido Marqus da Praia e Monforte e, por conseguinte, quando o mesmo foi entregue sua guarda, como director que, ento, era da Bibloteca Pblica desta cidade. Pena foi que Joo de Simas no levasse por diante o seu intento de dar testemunho pblico do raro valor do mais importante cimlio que hoje ali se encontra, pois que o interrompeu no momento em que ia entrar numa anlise mais detalhada e crtica, relacionando-a, segundo parece, com factos da histria nacional.

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Achamos igualmente oportuno rematar esta edio com as Anotaes ao Livro III das Saudades da Terra, da autoria do historiador e genealogista mariense Dr. Manuel Monteiro Velho Arruda, que foram encontradas no seu esplio literrio e se introduziram no fim do XV volume do Arquivo dos Aores, que, como se sabe, exclusivamente dedicado ilha de Santa Maria. Publicao que se deveu iniciativa e pesquisa daquele incansvel investigador, cujo falecimento em 1950 no consentiu v-la concluda, prosseguiu alguns anos mais tarde a expensas da Cmara Muncipal de Vila do Porto, mas com uma tiragem to diminuta de exemplares, que pode muito bem considerar-se hoje uma espcie rara. Por isso, entendemos que aquelas Anotaes, conhecidas apenas de um restrito nmero de pessoas, tinham inteiro cabimento nesta edio das Saudades da Terra, no s pela matria que lhes diz respeito e toda ela se prende com figuras e factos referidos por Frutuoso, como pela homenagem que assim se presta memria do seu autor, que foi, indiscutivelmente, um notvel cabouqueiro da histria aoriana, em especial da ilha em que nasceu.

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este Livro III, porque trata da ilha dos Aores que mais cedo foi habitada, aquele que Frutuoso primeiramente aproveitou para se ocupar do problema do seu descobrimento, que o mesmo dizer do descobrimento do Arquiplago, apesar deste assunto lhe escorrer dos bicos da pena sempre que se lhe oferecia a oportunidade; da t-lo versado em outros livros da sua obra, em especial no Livro IV e no Livro VI. j um lugar comum dizer-se que o cronista micaelense nesta matria no pode ser apontado como fonte das mais fidedignas. Tendo escrito a 150 anos de distncia do acontecimento, no fez mais do que transmitir a tradio que recolheu atravs de variadas origens e de que nos d verses nem sempre concordantes e, por vezes, inaceitveis, se quisermos tom-las letra rigorosamente. Isto acarretou-lhe na opinio de muitos a fama de escritor destitudo em absoluto de esprito crtico, o que em nosso parecer no corresponde verdade, porque em vrios passos das Saudades da Terra ele revela possuir qualidades apreciveis de argumentao e independncia de juzos. Alguns tm ido longe demais nas suas atitudes depreciativas, negando ao nosso cronista o menor merecimento como historiador probo e digno de admirao. A este respeito, dou a palavra ao Sr. Dr. Martim de Faria e Maia, que, respondendo crtica 1 bastante acerba do falecido Dr. Manuel Menezes ( ), que o acusa de excessiva e absurda credulidade, quase retirando qualquer valor sua crnica, diz o seguinte: As suas Saudades

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da Terra so farto manancial de ocorrncias, dados e tradies orais, cujo conhecimento indispensvel a quem queira fazer a histria dos primitivos tempos das ilhas portuguesas do Atlntico. Esse alfobre de informaes de vria ordem, que se deve exclusivamente ao virtuoso vigrio da Ribeira Grande, mesmo a nica grande fonte de elucidao sobre aquele tempo. Tal mrito subsiste independentemente da circunstncia de naquela obra no se encontrar a manifestao do tal esprito crtico... maneira moderna e, alis, mais vale ser infantilmente ingnuo e demasiadamente crdulo (no este precisamente o caso de Frutuoso) do que 2 aparecer suspeito de paixo e parcialidade. ( ) E na sua brilhante defesa, que no exclui calma, serenidade e bom senso na apreciao dos juzos formulados, o Dr. Martim de Faria e Maia demonstra como o absurdo e o inverosmil eram frequentes nos cronistas do sculo XVI, citando, a propsito, Andr de Rezende e Damio de Gis, e exemplifica com passos extrados das Saudades da Terra que Frutuoso no precisamente e sempre o expositor passivo e irreflectido, de que o querem acusar. -nos grato assinalar aqui a importncia do trabalho daquele nosso ilustre conterrneo, hoje embaixador de Portugal em Oslo, que, confinado aos estreitos limites de uma publicao peridica, foi pena no ter sofrido uma maior divulgao como estudo, que , dos mais valiosos sobre a personalidade do patriarca das letras aorianas. Para testemunhar o apreo que ainda hoje Frutuoso merece aos verdadeiros cultores da Histria, recorro tambm a Joaquim Verssimo Serro, o insigne autor de O Reinado de D. Antnio, Prior do Crato, e que, com o seu persistente estudo, continua a acarretar importantes materiais para o enriquecimento da historiografia nacional. Em livro publicado h poucos anos refere-se ao nosso cronista, usando dos seguintes termos: Apesar da sua erudio, por vezes cai em erros temporais e que historiador se pode gabar de no os cometer? sendo a cronologia o seu nico tendo de Aquiles (servese de uma expresso de Velho Arruda), e acrescenta: Mas a grandeza da sua obra supera os possveis defeitos que aqui e alm nela se enxergam. (3) E Duarte Leite, alis, conhecido pela severidade dos seus juzos crticos, embora considere Frutuoso confuso e fonte de pouca confiana em matria do descobrimento dos Aores, no hesita em reconhecer a sua probidade indiscutvel e a sua diligncia em aproveitar todos os elementos de informao. (4) A p