Seção Especial – Com a Palavra, o 47 - secao especial - com a... · acidente de trabalho ocorrido

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Seo Especial Com a Palavra, o Procurador

Aspectos Atuais do Acidente de Trabalho in Itinere

JOS ALDZIO PEREIRA JR.Procurador Federal, com atuao funcional perante o INSS, Especialista em Direito Processual Civil, Direito Administrativo, Direito Tributrio e Finanas Pblicas, Ps-Graduando em Direito Previdencirio pela PUC-Minas.

RESUMO: O breve estudo aqui desenvolvido tem o objetivo de contextualizar alguns aspectos do acidente de trabalho ocorrido fora do ambiente de trabalho, trazendo baila os pontos caractersticos e mais polmicos discutidos na atualidade.

PALAVRAS-CHAVE: Acidente de trabalho in intinere.

Na legislao brasileira, o conceito de acidente de trabalho trazido pelo art. 19 da Lei n 8.213, que trata, como cedio, dos planos de bene-fcios da Previdncia Social, verbis:

Art. 19. Acidente do trabalho o que ocorre pelo exerccio do trabalho a servio da empresa ou pelo exerccio do trabalho dos segurados referidos no inciso VII do art. 11 desta lei, provocando leso corporal ou perturbao fun-cional que cause a morte ou a perda ou reduo, permanente ou temporria, da capacidade para o trabalho.

Tal conceito, de per si, no bastante para dar a exata noo do que se caracteriza como acidente de trabalho. A maior utilidade do artigo, por-tanto, servir para aclarar os destinatrios da proteo acidentria, quando se refere determinada classe de segurados.

Bem se v que houve explcita excluso dos empregados domsti-cos e contribuintes individuais, que no fazem jus ao auxlio-acidente, em caso de sequelas e reduo da capacidade laboral. No primeiro caso, dos domsticos, em razo de o empregador no estar obrigado ao recolhimento compulsrio ao seguro de acidente de trabalho; no segundo, no havendo vnculo empregatcio e no possuindo a figura do empregador, igualmente, no ocorre recolhimento de seguro de acidente de trabalho. Para ambas as categorias, o amparo unicamente previdencirio, no sentido estrito.

Com base na indigitada previso legal, a doutrina convencionou de-nominar os acidentes ocorrido dentro do ambiente de trabalho e a ele asso-ciados como tpicos, elegendo o art. 19, j colacionado, como a sua matriz legal.

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Diante da insuficincia da conceituao legal, alguns autores buscam complementar a definio legal do acidente tpico. O autor Cludio Brando d os seguintes contornos a esse espcie:

Trata-se de um evento nico, subitneo, imprevisto, bem configurado no espao e no tempo e de consequncias geralmente imediatas, no sendo essencial a violncia, podendo ocorrer sem provocar alarde ou impacto, oca-sionando, meses ou anos depois de sua ocorrncia, danos graves e at fatais, exigindo-se, apenas, o nexo de causalidade e a lesividade.1

Alguns autores divergem em alguns aspectos da conceituao ora apontada. Enunciam, por exemplo, a violncia como elemento estruturante do acidente de trabalho, ao contrrio do excerto do pr-falado autor. Talvez a divergncia se d por entendimento distinto da acepo violncia. O sentido mais consentneo seria, ao nosso ver, aquele que concebe o voc-bulo como um evento que produz violao integridade do indivduo2. E nesse sentido deve, necessariamente, compor o conceito de acidente. Dessa feita, da violncia que resulta a leso corporal ou a perturbao funcional que torna o indivduo incapaz, provisria ou definitivamente, ou lhe cause a morte. O acidente que no gera danos integridade do indivduo no integra, portanto, o conceito3.

O autor d outra acepo para violncia, tanto que, ao final da sua definio, fala em lesividade como exigncia do acidente. Ora, a violn-cia que leva lesividade, estando, portanto, uma intrinsecamente ligada outra.

Para ns, o elemento precpuo caracterizador do acidente de trabalho sua ocorrncia em razo do exerccio de atividade laborativa nexo de causalidade. Evidentemente, para se falar em acidente, deve haver neces-sariamente alguma sorte de ofensa integridade fsica do segurado, sem a qual, a todas as luzes, no se cogita de falar em acidente, seja qual for a sua espcie. Portanto, o nexo de causalidade entre a causa e a atividade labora-tiva o elemento que o diverge dos demais acidentes ou infortnios sociais.

Dando continuidade ao nosso trabalho, verificamos que a legislao previdenciria, ainda, alargando o enquadramento acidentrio, equiparou as denominadas doenas ocupacionais aos acidentes de trabalho, conforme se depreende do art. 20:

1 BRANDO, Cludio. Acidente do trabalho e responsabilidade civil do empregador. So Paulo: LTr, 2006. p. 137-138.

2 LAZZARI, Joo Batista. Manual de direito previdencirio. 12. ed. Florianpolis: Conceito Editorial, 2010. p. 577.

3 Idem, ibidem.

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Art. 20. Consideram-se acidente do trabalho, nos termos do artigo anterior, as seguintes entidades mrbidas:

I doena profissional, assim entendida a produzida ou desencadeada pelo exerccio do trabalho peculiar a determinada atividade e constante da respec-tiva relao elaborada pelo Ministrio do Trabalho e da Previdncia Social;

II doena do trabalho, assim entendida a adquirida ou desencadeada em funo de condies especiais em que o trabalho realizado e com ele se relacione diretamente, constante da relao mencionada no inciso I.

Como o objeto do presente trabalho ser uma das situaes que ve-remos a seguir, no nos aprofundaremos nessa abordagem legal, limitando--nos a apontar a sua existncia.

Por derradeiro, aqui j entrando no ponto que nos propomos a anali-sar, a legislao faz referncia a outras situaes que so consideradas tam-bm como acidente de trabalho, em uma tentativa de se alargar a proteo acidentria:

Art. 21. Equiparam-se tambm ao acidente do trabalho, para efeitos desta lei:

I o acidente ligado ao trabalho que, embora no tenha sido a causa nica, haja contribudo diretamente para a morte do segurado, para reduo ou per-da da sua capacidade para o trabalho, ou produzido leso que exija ateno mdica para a sua recuperao;

II o acidente sofrido pelo segurado no local e no horrio do trabalho, em consequncia de:

a) ato de agresso, sabotagem ou terrorismo praticado por terceiro ou com-panheiro de trabalho;

b) ofensa fsica intencional, inclusive de terceiro, por motivo de disputa rela-cionada ao trabalho;

c) ato de imprudncia, de negligncia ou de impercia de terceiro ou de companheiro de trabalho;

d) ato de pessoa privada do uso da razo;

e) desabamento, inundao, incndio e outros casos fortuitos ou decorrentes de fora maior;

III a doena proveniente de contaminao acidental do empregado no exerccio de sua atividade;

IV o acidente sofrido pelo segurado ainda que fora do local e horrio de trabalho:

a) na execuo de ordem ou na realizao de servio sob a autoridade da empresa;

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b) na prestao espontnea de qualquer servio empresa para lhe evitar prejuzo ou proporcionar proveito;

c) em viagem a servio da empresa, inclusive para estudo quando financiada por esta dentro de seus planos para melhor capacitao da mo de obra, independentemente do meio de locomoo utilizado, inclusive veculo de propriedade do segurado;

d) no percurso da residncia para o local de trabalho ou deste para aquela, qualquer que seja o meio de locomoo, inclusive veculo de propriedade do segurado.

Uma dessas situaes a que nos interessa mais de perto: a conti-da na letra d do inciso IV do art. 21 da Lei n 8.213. Trata-se do acidente ocorrido fora do ambiente laboral, no percurso para o trabalho, o chamado acidente in itinere, ou de trajeto.

CONCEITO E CARACTERIZAO

Como se infere da previso normativa, o conceito de acidente in itinere est ligado ao infortnio ocorrido fora do ambiente e horrio de tra-balho, mas em razo do deslocamento do segurado de sua residncia para o ambiente onde exerce seu labor. Portanto, a proteo legal se preocupou em alcanar as mais diversas situaes, de sorte a proteger o segurado da forma mais ampla possvel, sempre mantendo, por bvio, o nexo, ainda que no direto, com o desempenho da atividade laboral. Fica sempre patente o carter excessivamente protecionista da nossa legislao securitria.

Os elementos caracterizadores so os mesmos do acidente de traba-lho tpico: objetivo existncia de leso corporal ou perturbao funcional que cause a morte ou a perda ou a reduo, permanente ou temporria, da capacidade para o trabalho; subjetivo aqui irrelevante a existncia ou no de culpa do segurado, pela aplicao da teoria do risco social, segundo a qual a coletividade suporta o nus do indivduo incapacitado.

PECULIARIDADES DO DESCOLAMENTO DO SEGURADO LIMITES CARACTERIZAO DO ACIDENTE DE TRAJETO

Aspecto bastante interessante quanto ao trajeto a ser percorrido en-tre o trabalho e sua residncia. Nesse contexto, preciso ter sempre em mente que o percurso deve respeitar o nexo causal entre o acidente e o tra-balho, eis o grande elemento-chave da configurao do acidente in itinere; noutro giro, mister que o segurado no promova alteraes significativas de percurso, em funo de interesses pessoais, o que acabaria por romper a relao do infortnio e o trabalho.

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