Sem¢ntica Gerativa

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UM CAPTULO DA HISTRIA DA LINGSTICA: A SEMNTICA GERATIVA1Jos Borges Neto UFPR/CNPq

Em um texto denominado As Convulses Metodolgicas da Lingstica Contempornea, publicado como introduo coleo Fundamentos Metodolgicos da Lingstica, Marcelo Dascal levantou uma srie de questes que ainda hoje esto por a, desafiando os lingistas e os filsofos da Lingstica2. O propsito do texto era, em parte, justificar a existncia de uma coleo de textos clssicos, que estavam sendo reunidos e apresentados em portugus pela primeira vez, e, em parte, fazer uma provocao aos lingistas, colocando em questo uma certa prtica do ensino de lingstica que ignorava e continua ignorando, uma vez que esta prtica amplamente utilizada ainda em nossos dias a pluralidade essencial de concepes e de tratamentos, em permanente competio, que constitui o panorama normal da imensa maioria das disciplinas cientficas. De certa forma, o que Dascal nos dizia que um bom ensino de cincia de qualquer cincia no pode ignorar que os avanos cientficos implicam sempre em rupturas mais ou menos pronunciadas com teorias e mtodos amplamente aceitos num determinando momento e que um ensino fechado (um ensino que no deixe margem para dvidas ou para contestaes) cria cientistas intolerantes e incapazes de acompanhar os movimentos prprios das teorias cientficas. A argumentao de Dascal segue risca o conselho que d aos professores de lingstica e, ao mesmo tempo em que usa a proposta de Thomas Kuhn apresentada em seu livro A Estrutura das Revolues Cientficas (Kuhn 1962) como modelo historiogrfico dessa cincia convulsionada, faz uma crtica severa da adequao das propostas kuhnianas aos fatos da histria da lingstica. O exemplo de conflito entre teorias lingsticas que Dascal usa para justificar a necessidade de abandono da proposta de Kuhn o conflito que se deu, nos anos 1960 e 1970, entre a Gramtica Gerativa chomskiana (GG) e a chamada Semntica Gerativa (SG). Segundo Dascal opinio com a qual concordo inteiramente a histria desse conflito no descrita adequadamente pela historiografia kuhniana (por deficincias do prprio modelo de Kuhn). Dascal no apresenta, no entanto, nenhuma soluo para isso, ou seja, nenhuma histria alternativa do conflito GG versus SG. Meu objetivo, neste texto3, retomar o perodo e, com o auxlio de outra metodologia historiogrfica, descrever e explicar o perodo de conflito entre GG e SG perodo que1

Texto publicado em Negri, Foltran e Oliveira (org) Sentido e Significao em torno da obra de Rodolfo Ilari. So Paulo: Contexto, 2004, p. 181-216. 2 Ver Dascal 1978. 3 A maior parte do material contido neste texto est em minha tese de doutorado, intitulada A Gramtica Gerativa Transformacional: um ensaio de Filosofia da Lingstica, defendida no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp em 1991 e orientada por Rodolfo Ilari.

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ficou conhecido, a partir do ttulo do livro de Harris (1993), como perodo das Guerras Lingsticas. A metodologia historiogrfica que vou utilizar a Metodologia dos Programas de Investigao Cientfica de Imre Lakatos4.

1. Antecedentes. Em 1965, Chomsky publica uma de suas obras mais importantes Aspects of the Theory of Syntax livro que inaugura um modelo de anlise lingstica extremamente influente, conhecido como teoria-padro. A teoria-padro pode ser entendida como o fim de uma etapa na construo do programa da Gramtica Gerativa (GG). Depois de cerca de dez anos de construo do modelo terico dez anos em que o Programa da GG procurou afastar-se o mais possvel das postulaes do Estruturalismo Americano (EA) e buscou adquirir, efetivamente, uma identidade prpria aparentemente h um bom modelo de anlise lingstica para dar sustentao s exigncias do Programa. Os mecanismos sintticos parecem ser suficientemente poderosos para permitir a descrio adequada das estruturas lingsticas; os componentes interpretativos semntica e fonologia parecem adequados para que se d conta da maior parte dos fatos lingsticos (ao menos dos fatos considerados pertinentes desde o ponto de vista com origens no EA); e as teorias auxiliares, como a teoria inatista da aquisio da linguagem, a psicolingstica e uma teoria geral dos mecanismos gerativos (Teoria Formal da Gramtica) parecem dar suficiente sustentao s descries e explicaes obtidas pela GG. At por volta de 1965, os tericos do gerativismo eram unnimes com relao a praticamente todos os pontos importantes. Num certo sentido isso pouco surpreendente Aspects foi escrito por Chomsky com o feedback constante dos colegas e dos estudantes do MIT, que constituam cerca de 90% dos transformacionalistas do mundo na poca. Mas havia mais do que isso. Por volta de 1965 apareceram inmeros estudos que demonstraram conclusivamente que a teoria podia ser aplicada com sucesso anlise dos fenmenos lingsticos mais complexos. O mais digno de nota a dissertao de Peter Rosenbaum, defendida no MIT em 1965, The Grammar of English Predicate Complement Constructions (Rosenbaum 1967). Rosenbaum fez por Aspects o que Lees havia feito por Syntactic Structures, mostrando que a recursividade da base e o princpio da aplicao cclica forneciam um quadro satisfatrio para a anlise dos processos sintticos fundamentais no ingls. (Newmeyer 1980, p. 93)

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Ver Lakatos 1978.

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Multiplicam-se anlises de novos fatos da lngua inglesa e multiplicam-se as anlises de fatos de outras lnguas. O sucesso dessas anlises refora a sensao de que se conseguiu chegar a uma teoria adequada do conhecimento lingstico dos falantes. O objetivo maior do Programa, ento, que era a construo de sistemas computacionais capazes de descrever a competncia lingstica dos falantes, se ainda no fora atingido, parecia bem prximo de s-lo. No final de 1965, no entanto, comearam a aparecer, no interior mesmo do gerativismo, as primeiras crticas s propostas de Chomsky. Particularmente, James McCawley, Paul Postal, John Robert Ross e George Lakoff entre outros ex-alunos e colaboradores de Chomsky comearam a contestar as anlises produzidas no quadro da teoria-padro. A principal rea de conflito, na poca, era o grau de abstrao das estruturas lingsticas subjacentes. O ponto em disputa era a distncia entre as estruturas profundas (EP) e as estruturas superficiais (ES) ou, em outras palavras, o grau de aproximao entre as EP e as representaes semnticas. Enquanto a teoria-padro procurava manter a EP e a ES bastante prximas, os dissidentes propunham que se distanciasse mais a EP da ES e que se aproximasse a EP das representaes semnticas. A afirmao de Chomsky de que A componente sintctica especifica um conjunto infinito de objectos formais abstractos, cada um dos quais incorpora toda a informao relevante para uma interpretao nica duma frase particular. (Chomsky 1965, p. 97) induziu os gerativistas a procurarem solues sintticas para os problemas semnticos e a buscarem estruturas profundas que representassem todos os aspectos do significado das sentenas sob anlise. Esse procedimento certamente levou postulao de estruturas profundas cada vez mais abstratas e mais prximas das representaes semnticas. O compromisso com a hiptese de que a interpretao semntica se d ao nvel da EP leva muitos lingistas a conclurem que no basta toda a informao necessria para a interpretao semntica da sentena estar na EP, preciso que tudo o que se considerar parte do significado da sentena esteja na EP. Assim, por exemplo, todas as ambigidades percebidas nas sentenas deviam ser resolvidas por meio da postulao de diferentes estruturas profundas. Note-se o raciocnio exposto por Newmeyer para o sentido de atividade percebido no verbo begin do ingls:

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(4.8) tem implcito um sentido verbal (escrevendo, lendo, etc.). Isto deve ser representado na estrutura profunda. (4.9) uma candidata plausvel: (4.8) John began the book. (4.9) S NP N it NP John 1.2 VS

VP V begin VP NP The book

[+activity] (Newmeyer 1980, p. 98)5

Uma srie de anlises e uma srie de argumentos empricos e tericos foram levantadas pelos abstracionistas, tudo levando a uma mesma concluso: necessrio postular estruturas profundas mais abstratas, que consigam representar mais diretamente as relaes semnticas presentes nas sentenas. importante destacar que os abstracionistas mantinham-se rigorosamente no interior da teoria-padro, o que pode explicar a aceitao quase geral de suas anlises pela comunidade gerativista. Com a expanso da postura abstracionista, chega-se a uma descaracterizao completa da noo de estrutura profunda, tal como imaginada por Chomsky quando de sua postulao. Como aponta Newmeyer: Pelo fim da dcada [de 1960], os sintaticistas abstracionistas tinham simplesmente abandonado a noo de estrutura profunda esse nvel tinha sido to alterado que no fazia nenhum sentido terico distingui-lo das representaes semnticas. (Newmeyer 1980, p. 96) Os abstracionistas tentam de forma desordenada reunir suas idias no que se chegou a considerar na poca um novo paradigma. Esse novo paradigma chamou-se Semntica Gerativa e pretendeu substituir o programa chomskiano6.5

O exemplo retirado por Newmeyer de um trabalho seu escrito no quadro terico da Semntica Gerativa (Newmeyer 1975). 6 O termo Generative Semantics apareceu pela primeira vez em Lakoff (1963).

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2. A Semntica Gerativa (SG). No incio, o que reunia os abstracionistas era a postulao de estruturas profundas mais abstratas e mais prximas das representaes semnticas do que as EP chomskianas. Logo se vai perceber que a abstrao das EP determina uma srie de alteraes em vrios pontos da gramtica da teoria-padro. O principal ponto alterado vem com o completo abandono da noo de EP e sua substituio por estruturas semnticas representadas na linguagem do clculo de predicados. O que se iniciou como uma disputa sobre o grau de abstrao das estruturas subjacentes acaba como uma disputa sobre a natureza e o lugar das representaes semnticas no interior da gramtica. O abandono da noo de EP torna inadequada a f