SEPÉ TIARAJU, 250 ANOS DEPOIS

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SEP TIARAJU, 250 ANOS DEPOIS

Comit do ano de Sep Tiaraju (org.)

SEP TIARAJU, 250 ANOS DEPOIS

EDITORA EXPRESSO POPULAR

Copyright 2005, by Editora Expresso Popular Reviso: Geraldo Martins de Azevedo Filho Projeto grfico, capa e diagramao: ZAP Design Ilustrao da Capa: Jos Carlos Melgar Impresso e acabamento: Cromosete

ISBN 85-87394-84-3

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sem a autorizao da editora. 1 edio: novembro de 2005 EDITORA EXPRESSO POPULAR Rua Abolio, 266 - Bela Vista CEP 01319-010 So Paulo-SP Fone/Fax: (11) 3112-0941 vendas@expressaopopular.com.br www.expressaopopular.com.br

Sumrio

APRESENTAO ....................................................................................................... 7 1 - SEP TIARAJU, 250 ANOS DEPOIS ................................................................... 9 2 - 1956: A HOMENAGEM EMBARGADA A SEP TIARAJU ............................. 27 3 - SO SEP TIARAJU: UTOPIA E PROFECIA ................................................... 35 4 - SEP TIARAJU E A IDENTIDADE GACHA ................................................. 41 5 - ENTREVISTAS 5.1. Sep representa a luta pela nossa dignidade ................................................ 49 Entrevista com Maurcio da Silva Gonalves 5.2. Um smbolo da resistncia guarani ................................................................ 53 Entrevista com Alcy Cheuiche 5.3. Sep j foi canonizado por ndios e pobres ................................................. 60 Entrevista com Antonio Cechin 5.4. A relao de povoamento do Brasil meridional com as sociedades indgenas um processo etnocida ............................................ 68 Entrevista com Tau Golin 5.5. As vidas de Sep ............................................................................................. 74 Entrevista com Eliana Inge Pritsch 5.6. A experincia missioneira continua viva ........................................................ 83 Entrevista com Ceres Karam Brun 5.7. Um ano para lembrar Sep Tiaraju ................................................................ 92 Entrevista com Luiz Carlos Susin 5.8. Creio que no se deva exagerar o alcance individual de Sep Tiaraju ......... 94 Entrevista com Arthur Rabuske

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APRESENTAO

Nos ltimos anos das Misses Guaranis, entre a morte de Sep Tiaraju, em 1756, e a expulso de todos os jesutas da Amrica do Sul, no ano de 1768, Voltaire pronunciou sua famosa frase: A experincia crist das Misses Guaranis representa um verdadeiro triunfo da humanidade. No ano de 1979, mais de dois sculos depois, a UNESCO, organismo das Naes Unidas para Educao e Cultura, tombou as Runas de So Miguel Arcanjo como Patrimnio da Humanidade. Nos Sete Povos das Misses, no Rio Grande do Sul, e nos 26 que existiram em territrio hoje da Argentina e Paraguai, a paz resultava do trabalho comunitrio e cooperativo, cujos frutos eram divididos entre todos os habitantes. No havia convivncia da riqueza com a misria. Guarani, em seu prprio idioma, significa guerreiro. Esses guerreiros, homens e mulheres, enderearam suas energias para tarefas pacficas, chegando ao ponto de imprimir livros, fundir sinos de bronze, fabricar violinos e compor msica para toc-los. Jos Tiaraju, mais conhecido como Sep, o Facho de Luz, era corregedor da Reduo de So Miguel, ou seja, prefeito da cidade,

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eleito pelos concidados ndios guaranis, quando da assinatura do Tratado Madri, em 1750. Por esse tratado, os reis de Portugal e Espanha trocavam os Sete Povos das Misses pela Colnia do Sacramento, obrigando cerca de 50 mil ndios cristos a abandonarem suas cidades, igrejas, lavouras, fazendas, onde criavam dois milhes de cabeas de gado e, principalmente, a abandonarem a terra de seus ancestrais. Insurgindo-se contra esse tratado esprio, Sep Tiaraju liderou a resistncia dos ndios guaranis, pronunciando a famosa frase, decantada no Rio Grande do Sul, em prosa e verso: Esta terra tem dono. Ao final da luta, Sep Tiaraju tombou em combate no dia 7 de fevereiro de 1756, enfrentando tropas portuguesas e espanholas no local chamado Batovi, hoje cidade de So Gabriel. Trs dias depois, no dia 10 de fevereiro, mil e quinhentos ndios foram trucidados na batalha do Caiboat, no havendo oficialmente nenhuma baixa nos exrcitos invasores. Poucos meses depois, nada mais existia do sonho missioneiro de uma sociedade crist, mas o povo do Rio Grande do Sul, por sua prpria conta, canonizou o heri guarani missioneiro como So Sep, nome dado ao arroio, margem do qual passou sua ltima noite, e atual cidade de So Sep. O dia 7 de fevereiro de 2006 marca os 250 anos da morte de Sep Tiaraju. A lembrana do heri missioneiro, que morreu na luta contra os dois maiores imprios da poca e na defesa da terra e de seu povo, reascende a mstica da luta popular. O povo indgena, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, oprimidos de toda a Amrica Latina se unem para gritar contra os imprios do sculo 21: Alto l! Esta terra tem dono! Que os textos e entrevistas que trazemos neste livro contribuam para que tenhamos um grande Ano de Sep Tiaraju. Comit Pr-Comemoraes do Ano de Sep www.projetosepetiaraju.org.br

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1 - SEP TIARAJU, 250 ANOS DEPOISALCY JOS DE VARGAS CHEUICHE *

Sep Tiaraju

O olhar perdido ao longe pelas coxilhas do tempo. Os cabelos pelos ombros, do negro da noite longa, onde brilha seu lunar. Lunar riscado na testa, como marca de um destino que um dia se vai cumprir. O torso nu, ofegante, sorvendo o ar transparente. Os ps chantados na terra* Nascido em Pelotas (RS), em 1940, escritor e autor, entre outros livros, da obra "Sep - Romance dos Sete Povos das Misses", publicado em diversas lnguas e tambm editado em quadrinhos.

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que defendeu numa guerra como cultivou na paz. Quem esse ndio triste? Esse Sep ainda existe no sangue de todos ns? Esse ndio de alma leve como o vo do barreiro que carrega o dia inteiro o barro pra um novo lar? Esse que olha o presente, l do fundo do passado, o derradeiro soldado de um sonho de liberdade. Morreu o filho dos Tapes, ante a espada lusitana, ante o arcabuz de Castela, sob a cruz do Nazareno, num dia de fevereiro que o tempo no apagou. E morreu porque queria ver seus irmos guaranis dedilhando os instrumentos de msica e de trabalho, livres na terra onde um dia o jesuta os encontrou. Foi por isso que lutou nosso Sep Tiaraju, caindo de lana em punho

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junto a milhares de irmos que ergueram suas mos numa fronteira de sangue, numa fronteira de idias, outra filosofia que afinal triunfou. Morreu o jovem cacique Sep, o filho do tempo, mas voltou junto com o vento, na chama que renasceu e que nunca se apagou. Pois o povo que julgou a nobreza no martrio, sem consultar a Igreja, um dia o santificou. E da Cruz do Batovi, o ndio santificado, cabelos soltos ao vento, olhar perdido ao longe, pelas coxilhas do tempo, para toda a eternidade, volta da lenda campeira, lunar brilhando na testa, para guiar as conscincias, cada vez, que nesta terra se luta por liberdade. Com esse poema eu sado a Nao Guarani. H 30 anos atrs, quando escrevi o livro Sep Tiaraju, Romance dos Sete Povos das Misses, felizmente depois lanado em espanhol, alemo e em

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quadrinhos, era uma poca de ditadura. O meu primeiro livro chamava-se O Gato e a Revoluo. Era uma stira poltica e eu fui preso, respondi dois processos, o livro foi retirado de circulao. A eu pensei, no vou escrever outro livro para ser cassado. E decidi: vou tratar de um fato histrico que tenha demonstrado que socialismo cristo no utopia. Foi quando comecei a pesquisar sobre Sep Tiaraju e as Misses Guaranis. preciso que eu diga a todos que me ouvem que nunca aceitem a palavra utopia (no sentido de algo impossvel de realizar) para a Repblica Missioneira dos Guaranis. Porque, se Sep Tiaraju nasceu no ano de 1722, as Misses Guaranis nasceram no ano de 1612, portanto, quando Sep nasceu j havia mais de um sculo que as Misses existiam, comeando pelas de Guara, hoje Estado do Paran. E o que aconteceu? Vamos responder. Mas, primeiro, uma palavra em relao ao descobrimento. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, no houve nenhum descobrimento. Senhores professores, orientadores educacionais, vamos riscar a palavra descobrimento dos livros escolares, porque quando os portugueses chegaram havia mais ndios no Brasil do que portugueses em Portugal. Juntando Portugal e Espanha, havia menos portugueses e espanhis nos seus territrios do que tupisguaranis e outros ndios no territrio brasileiro. Os antroplogos discutem, mas viviam entre 5 e 10 milhes de seres humanos em nosso atual territrio. Portanto, o Brasil no foi descoberto. Pero Vaz de Caminha, que era um homem honesto, colocou na sua carta ao rei Dom Manoel apenas elogios ao povo que os recebeu. ndios, porque eles acreditavam estar chegando na ndia, onde procuravam fortuna, especiarias. Caminha relatou ao rei que os ndios os receberam pacificamente. Que no houve a menor agresso, at a cruz da primeira missa, eles no estavam entendendo, mas ajudaram a cortar madeira e a

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levant-la. Que eles tinham uma sade maravilhosa, que tinham os dentes perfeitos, que gostavam de se jogar dentro dgua. O banho para o ndio era um hbito comum, uma terapia quando tinham alguma dor. E aqueles portugueses, barbudos e sujos, ao partir deixaram de presente, alm de dois bandidos degredados, a gripe e outras doenas. Eles deixaram doenas que no existiam no territrio brasileiro. Esse foi o primeiro crime. No Mxico, os maiores aliados de Cortez no foram apenas as armas de fogo e os seus cavalos, mas a varola, que os mexicanos no conheciam. A varola levada da Espanha dizimou grande parte da populao asteca e facilitou a conquista. Portanto, nos livros de histria, no vamos mais falar nessa palavra. Eles no descobriram nada, chegaram a um territrio habitado. Na dedicatria do meu li