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Análise de textos multimodais da Web e o ISD D E L T A Sequências Didáticas como instrumento potencial da formação docente reflexiva Didactic Sequences as a potential instrument of the reflective formation of teachers Adair Vieira GONÇALVES (Universidade Federal da Grande Dourados) Mariolinda Rosa Romera FERRAZ (Universidade Federal da Grande Dourados) http://dx.doi.org/10.1590/0102-445027474109576182 RESUMO Este artigo tem o objetivo de relatar uma formação continuada de professores da educação básica, que constitui a primeira etapa do desenvolvimento de um projeto de pesquisa strictu sensu (Mestrado em Letras), e apresentar duas sequências didáticas dirigidas para o ensino da produção de textos nos gêneros artigo de opinião e notícia. A planificação do material aconteceu durante o processo de mediação de dois professores colaboradores da pesquisa, por sua vez, pautada nos aportes teórico-metodológicos do interacionismo sociodiscursivo (no que se refere à construção dos modelos e sequências didáticas) e nos paradigmas da pesquisa-ação e do trabalho colaborativo. No contexto investigado, a pesquisa colaborativa intervencionista é compreendida como uma metodologia eficaz para adentrar às escolas os produtos da pesquisa desenvolvida na Universidade. Palavras-chave: Interacionismo Sociodiscursivo; Gênero Textual; Transposição Didática; Sequência Didática. D.E.L.T.A., 32.1, 2016 (119-141)

Sequências Didáticas como instrumento potencial da formação

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    D E L T A

    Sequncias Didticas como instrumentopotencial da formao docente refl exiva

    Didactic Sequences as a potential instrument of the refl ective formation of teachers

    Adair Vieira GONALVES (Universidade Federal da Grande Dourados)Mariolinda Rosa Romera FERRAZ (Universidade Federal da Grande Dourados)

    http://dx.doi.org/10.1590/0102-445027474109576182

    RESUMO

    Este artigo tem o objetivo de relatar uma formao continuada de professores da educao bsica, que constitui a primeira etapa do desenvolvimento de um projeto de pesquisa strictu sensu (Mestrado em Letras), e apresentar duas sequncias didticas dirigidas para o ensino da produo de textos nos gneros artigo de opinio e notcia. A planifi cao do material aconteceu durante o processo de mediao de dois professores colaboradores da pesquisa, por sua vez, pautada nos aportes terico-metodolgicos do interacionismo sociodiscursivo (no que se refere construo dos modelos e sequncias didticas) e nos paradigmas da pesquisa-ao e do trabalho colaborativo. No contexto investigado, a pesquisa colaborativa intervencionista compreendida como uma metodologia efi caz para adentrar s escolas os produtos da pesquisa desenvolvida na Universidade.

    Palavras-chave: Interacionismo Sociodiscursivo; Gnero Textual; Transposio Didtica; Sequncia Didtica.

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    ABSTRACT

    This paper aims not only to report the continuing education of Elementary School teachers which comprises the fi rst stage of the development of a strictu sensu research project (Masters in Languages), but also to present two didactic sequences addressed to the teaching of text production in both genres, the article of opinion and news. The planning of the material happened during the mediation process of two collaborating teachers involved with the research which in turn was grounded on the theoretical and methodological contributions of sociodiscursive interactionism (regarding the construction of models and didactic sequences) and on the action-research paradigms and collaborative work. In the investigated context, interventional collaborative research is understood as an effective methodology for bringing the research products developed at the University into the schools.

    Key-words: Sociodiscoursive Interacionism; Textual Genre; Didactic Transposition; Didactic Sequence.

    1. Introduo

    Este artigo tem por objetivo relatar e discutir um processo de formao continuada de professores da educao bsica no municpio de Dourados/MS e apresentar duas sequncias didticas dos gneros artigo de opinio e notcia1, cujas planifi caes constituram uma das etapas da formao, articulada a um projeto de pesquisa desenvolvido pelo Programa de Ps-Graduao strictu sensu Mestrado em Letras, da Universidade Federal da Grande Dourados com fi nanciamento do CNPq/Capes2.

    A pesquisa visou investigao do processo ensino-aprendizagem por meio dos gneros discursivos (Bakhtin, [1979]2003) e de sequn-cias didticas (Dolz, Noverraz & Schneuwly, 2004) e dos efeitos desse processo na formao do professor refl exivo, na aprendizagem e na

    1. As sequncias didticas produzidas para a pesquisa podem ser encontradas em: e no banco de disser-taes e teses da Capes. 2. Projeto fi nanciado pelo CNPq, processo n. 471052/2011-6. A Capes fi nanciou a pes-quisa por meio da bolsa de Demanda Social.

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    formao integral dos alunos (Bortoni-Ricardo, 2008). Decorrente disso, fundamentou-se nos pressupostos terico-metodolgicos do interacionismo sociodiscursivo (Bronckart, 2007), pois se depreende que esta abordagem oferece aportes terico e prtico condizentes com a necessidade de fomento da leitura, da escrita e, por conseguinte, para o desenvolvimento da cidadania crtica.

    Amparada na abordagem interpretativista e no paradigma qualita-tivo, a pesquisa confi gurou-se como uma pesquisa-ao, de natureza social emprica, associada resoluo de um problema coletivo em que o pesquisador participa de forma cooperativa (Miranda & Resen-de, 2006) e objetiva discutir a relao entre teoria e prtica, sugerir intervenes sobre o fazer pedaggico, indicando ferramentas e ins-trumentos3 (Machado & Lousada 2010) para a realizao de prticas pedaggicas diferenciadas, neste caso, a construo e aplicao de sequncias didticas.

    Para alcanar seus objetivos, este artigo estrutura-se em quatro partes: na primeira, apresentam-se os pressupostos terico-metodol-gicos que fundamentaram a pesquisa; na segunda, relata-se a formao continuada de professores; na terceira, destacam-se as sequncias did-ticas planifi cadas e, na quarta parte, tecem-se algumas consideraes avaliativas da pesquisa e de seus resultados.

    2. Os pressupostos terico-metodolgicos da pesquisa4

    A pesquisa/formao continuada em relato fundamentou-se epis-temologicamente nos aportes do interacionismo sociodiscursivo (daqui

    3. Sinteticamente, ferramentas/artefatos e instrumentos so objetos materiais e/ou simblicos que favorecem o aprimoramento de conhecimentos sobre o mundo fsico e social. Ambos esto a servio da transformao do mundo, do homem e do prprio objeto. Distintamente, so instrumentos quando psicologicamente apropriados pelo homem; e artefatos ou ferramenta quando no so apropriados, apesar de scio-historicamente construdos para mediarem a ao do homem sobre o meio ou sobre o outro e para se atingirem determinadas fi nalidades. (Machado & Lousada, 2010: 625). 4. Como recorte de uma pesquisa, este artigo est intimamente associado a vrios outros. Indica-se a leitura do artigo Formao continuada de professores: o interacionismo so-ciodiscursivo das bases epistemolgicas prxis pedaggica, publicao na Revista Rado (Dourados, MS, v. 6, n. 11, jan./jun. 2012), para ampliao do conhecimento da fundamentao terica e das etapas da pesquisa.

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    para frente, ISD). Essa concepo terica (Bronckart, ([1999] 2007) e vertente didtica (Dolz, Noverraz & Schneuwly, 2004) entende que: 1) a linguagem o principal fator de desenvolvimento humano (Bronckart, 2006), posto que o agir comunicativo (Habermas, 1987) produto e, ao mesmo tempo, gerador da interao (Vygotsky, 1991, 1998) entre sujeitos partcipes em um contexto de produo e implicados em um projeto de dizer; 2) as aes de linguagem, materializadas nos textos empricos5, so o objeto de estudo do ISD; 3) os textos/discursos ad-quirem sentido nas prticas sociocomunicativas, ou seja, nas situaes reais de usos da linguagem que engendram os gneros discursivos (Bakhtin, [1979]2003, [1929]2004).

    De acordo com Bronckart, a tese central do interacionismo so-ciodiscursivo que a ao constitui o resultado da apropriao6, pelo organismo humano, das propriedades da atividade social mediada pela linguagem (Bronckart, 2007: 42). A linguagem indissocivel da in-terao social, uma vez que a lngua vive e evolui historicamente na comunicao verbal concreta, no no sistema lingustico abstrato das formas da lngua nem no psiquismo individual dos falantes (Bakhtin, [1929]2004: 124). Em sntese, as operaes de linguagem aprendidas (e apreendidas) engendram os gneros textuais, que, por sua vez, so transformados em objetos de ensino-aprendizagem.

    A transposio didtica7 (Machado & Cristvo, 2006; Barros, 2012) dos gneros textuais exige uma organizao sequencial e modular do fazer pedaggico, a que o ISD chama de sequncia didtica (daqui para frente, SD). Para tal didatizao, so necessrias as seguintes aes para o encaminhamento da sequncia: 1) a defi nio da prtica

    5. Os textos empricos (orais ou escritos) so produtos verbo-semiticos que refl etem/refratam uma ao linguageira e apropriam-se das modelizaes de um dado gnero discursivo, ao mesmo tempo em que instauram em si mesmos peculiaridades do agente-produtor e da prpria ao de linguagem. 6. Grifo do autor. A fi m de se evitarem repeties, todos os grifos em negrito ou em itlico (exceto palavras estrangeiras) devem ser assim entendidos. 7. A priori, a transposio didtica diz respeito entrada de uma teoria prtica de sala de aula. No entanto, em Lingustica Aplicada, cujas investigaes esto direcionadas para os usos reais da linguagem (Menezes, Silva & Gomes, 2012), ultrapassam-se os limites da aplicao de teorias em direo compreenso dos usos da linguagem dentro e fora do contexto escolar e, quando necessrio, sugesto de encaminhamentos para a potencializao do processo ensino-aprendizagem e do domnio da linguagem ante as demandas sociais e polticas.

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    de linguagem a ser ensinada; 2) a construo do modelo didtico; 3) elaborao/construo da SD; 4) e sua transposio didtica.

    No que concerne aos aspectos metodolgicos, por fundamentar-se nos preceitos da pesquisa ao, a pesquisa adotou como paradigma o processo colaborativo ou, conforme Bortoni-Ricardo & Pereira (2006), a pesquisa etnogrfi ca colaborativa, que tributa aos envolvidos na pes-quisa o estatuto de sujeitos agentes/interlocutores, realmente, ativos (Machado, 2009).

    As aes colaborativas dos docentes envolvidos nesta pesquisa aconteceram na construo de modelos didticos, na avaliao da produo de texto inicial dos alunos, na produo de SD, na transpo-sio didtica dos objetos ensinveis e, posteriormente, na anlise dos resultados evidentes na produo fi nal dos alunos. As contribuies discentes, por sua vez, ocorreram na realizao das atividades da SD, na produo, reviso e reescrita dos textos, com o auxlio da lista de constatao8. A coparticipao permitiu a tomada de deciso sobre todos os aspectos prticos da pesquisa. Sobretudo, fundou seu carter dialgico e favoreceu a formao do professor refl exivo.

    3. Relato da Formao Continuada de professores

    A formao de professores, intitulada Formao Continuada para Professores de Lngua Portuguesa das Escolas das Redes Municipal e Estadual de Ensino de Dourados/MS: O Interacionismo Sociodiscur-sivo das bases epistemolgicas prxis pedaggica, totalizou 140 horas de estudos, dividida em trs momentos: realizao de encontros presenciais (80h), para estudo coletivo do aporte terico-metodolgico do ISD, construo/elaborao de modelos didticos e SD; posterior-mente, a aplicao das SD (40h); por fi m, novamente, em encontros presenciais (20h), para socializao das prticas efetivadas na sala de aula, apontando os benefcios e as difi culdades para a transposio didtica.

    8. Na literatura sua, grille de contrle (lista de controle). Trata-se de uma ferramenta metodolgica para interveno nos textos discentes., isto , serve para auxiliar o aluno na reviso e reescrita do texto e pode ser formulado pelos prprios estudantes, com mediao do professor, ao longo das ofi cinas.

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    Durante a formao de professores, entre os cinquenta cursistas, dois foram convidados para colaborar com a pesquisa (para preservar-lhes a identidade, codifi camo-los como PC1 e PC2). Da prosseguiu-se, efetivamente, para a segunda etapa da pesquisa, que consistiu na mediao (Vygotsky, 1991, 1998; Wertsch & Smolka, 2001) dos professores-colaboradores desde a construo do modelo didtico aplicao da SD. Durante este perodo de atendimento individual (na maioria das vezes, na casa dos professores), num processo interacional, realizaram-se todas as atividades para o ensino dos gneros artigo de opinio e notcia9.

    Para a construo do modelo didtico10 e a compreenso dos ele-mentos que estabilizam os gneros selecionados, sucederam-se con-sultas a vrias literaturas (artigos cientfi cos, em particular) em diversos suportes (revistas destinadas educao e site educacionais)11. Aps a leitura de exemplares dos gneros, empiricamente, confrontaram-se os elementos estveis na literatura consultada.

    Resumidamente, o artigo de opinio um gnero escrito da esfera jornalstica. Pertence ao mundo do expor, autnomo. Escrito por um cidado comum que assume o papel social de articulista, defensor de uma posio a respeito de um assunto polmico, pela qual se respon-

    9. Como afi rmam Dolz, Schneuwly & Haller (2004), a seleo de um gnero, por con-seguinte sua modelizao, repousa sobre trs princpios interdependentes e em evoluo constante: a legitimidade, a pertinncia e a solidarizao. A legitimidade diz respeito aos saberes legitimados pelos especialistas nos espaos acadmicos, so materializados em documentos que norteiam o fazer pedaggico; a pertinncia est relacionada s capacida-des dos alunos, s fi nalidades e objetivos do processo ensino-aprendizagem e podem ser identifi cados nos Projetos Polticos Pedaggicos e nos Projetos de Ensino; a solidarizao concerne efetivao de um novo saber. Segundo a PC1, a escolha do artigo de opinio justifi ca-se porque, primeiramente, era um dos contedos do bimestre constante no Re-ferencial Curricular e, principalmente, por se tratar de alunos do ltimo ano do ensino mdio, o objetivo era prepar-los para o vestibular. Ademais, este o gnero solicitado nos ltimos vestibulares da UFGD. A notcia foi escolhida pelo PC2 porque, desde o incio do ano, vinha realizando atividades de leitura de jornal com os alunos, no entanto, no tinha desenvolvido atividades de produo de texto. 10. importante destacar que os modelos didticos podem ser constantemente refi nados. O modelo didtico instrumento do professor e nele no se prev como a didatizao de um gnero ocorrer efetivamente. 11. Ainda para a construo do modelo didtico dos gneros em questo, utilizou-se como norte um esquema, elaborado por Eliana Merlin Deganutti de Barros, docente da UENP, Universidade Estadual do Norte do Paran. O quadro-esquema foi publicado por Gonalves (2009: 119-120).

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    sabiliza, assinando o texto e tentando convencer seu leitor. O texto, claro e conciso, geralmente de uma lauda, composto, predominante-mente por sequncias argumentativas e explicativas. Sua estrutura se compe de: apresentao de uma tese, desenvolvimento de argumen-tos e explicaes que a justifi quem, e retomada da tese na concluso. Costumeiramente, inicia-se por uma contextualizao, para situar o leitor na questo polmica; marcado por retomadas anafricas, uso de elementos de conexo, modalizadores lgicos, denticos e pragm-ticos, mobilizao de outras vozes, como argumento de autoridade, ou para negociao e refutao, e utiliza recursos de pontuao e notaes lxicas para organizar a articulao das ideias.

    Sinteticamente, o modelo didtico do gnero notcia pode ser assim delimitado: um gnero jornalstico, do grupo do relatar, estrutural-mente formado por um ttulo atraente (manchete), subttulo e body (corpo do texto). O agente-produtor, no implicado no texto, assume-se como jornalista ou redator e tem o objetivo de informar acontecimentos ao leitor crimes, roubos, assaltos, trfi co, crimes ambientais, mortes, apreenses etc.12 Pela imparcialidade tpica, no se utilizam adjetivos ou expresses apreciativas. Os conectivos organizam o texto conforme a ordem dos fatos e as vozes que aparecem no texto so tambm obje-tivas com a funo de agregar informaes, sem avaliar.

    As sequncias didticas elaboradas foram aplicadas em duas escolas estaduais da cidade de Dourados numa sala de terceiro ano do Ensino Mdio e outra de nono ano do Ensino Fundamental. Todas as aulas foram gravadas em vdeos e os encontros de mediao dos professores, gravados em udio13. Efetivamente, trinta aulas foram utilizadas para a aplicao da SD na turma da PC1 e trinta e uma na turma do PC2.

    Durante a mediao, percebeu-se que o estabelecimento do dilogo e troca fortalecem os professores e imprime-lhes um processo de autor-refl exo. A atividade coletiva provoca um sentimento de autoavaliao

    12. Cabe ressaltar que as duas sequncias didticas foram temticas e os temas foram escolhidos pelos alunos. A SD notcia tratou exclusivamente de fatos policiais. Para a produo dos artigos de opinio, debateu-se a descriminalizao da maconha. 13. Alm do material fonogrfi co e audiovisual, constituram o corpus da pesquisa, dois questionrios aplicados durante a formao de professores e as produes (inicial e fi nal) dos alunos.

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    e autovalorizao, visto que o professor, ao perceber-se como o e no outro, sente-se amparado para continuar e criar. Alm do mais, os atores estabelecem um pacto (virtual) social de estudo, aprendizagem e desenvolvimento, podendo, inclusive avaliar sua formao, as prticas realizadas em curso e na escola e as polticas da educao.

    4. As sequncias didticas: causas e efeitos

    O termo SD surgiu em 1996, nas instrues ofi ciais para o ensino de lnguas na Frana, quando pesquisadores viram a necessidade de superao da compartimentalizao dos conhecimentos no campo do ensino de lnguas. Para Dolz & Schneuwly (2004: 53), elas procuram favorecer a mudana e a promoo dos alunos a uma melhor mestria dos gneros e das situaes de comunicao. Ainda para os mesmos autores, elas devem ser compreendidas como um conjunto de atividades planejadas, de maneira sistemtica, em torno de um gnero textual oral ou escrito. Desse modo, entre as aes de uma SD esto as atividades de escuta, leitura, escrita e reescrita de textos (anlise lingustica), superando os limites da gramtica normativa:

    [...] esse dispositivo didtico contribui para uma conscientizao necessidade de repensar o ensino e a aprendizagem da escrita em uma perspectiva que ultrapassa a decodifi cao de fonemas, grafemas, sin-tagmas, frases, indo em direo ao letramento (que implica a aquisio da leitura e escrita). (Nascimento, 2009: 68).

    Tendo como referncia o ensino em espiral, ou seja, a compre-enso de que no se deve tentar esgotar o trabalho com um gnero em uma nica srie/ano da educao bsica, posto que a maturidade psicolingustica deve ser respeitada, que o aluno, ao longo dos anos, pode entrar em contato com o mesmo gnero e, tambm, que os gne-ros transmutam-se e imbricam-se, sendo necessrio voltar a antigos gneros para entender os mais recentes, o ensino de um gnero deve

    permitir o ensino da oralidade e da escrita a partir de um encaminha-mento, a um s tempo, semelhante e diferenciado;

    propor uma concepo que englobe o conjunto da escolaridade obrigatria;

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    centrar-se, de fato, nas dimenses textuais da expresso oral e es-crita;

    oferecer um material rico em textos de referncia, escritos e orais, nos quais os alunos possam inspirar-se para suas produes;

    ser modular, para permitir uma diferenciao do ensino;

    favorecer a elaborao de projetos de classe. (Dolz, Noverraz & Schneuwly, 2004: 96).

    No que se refere, propriamente, construo da SD nesta pesquisa, destaca-se que cada detalhe foi discutido com os professores colabo-radores: os textos, os mdulos, as atividades e as questes para o seu desenvolvimento, at aspectos formais, como espaamento, tamanho da letra etc. As difi culdades diziam respeito correlao entre a soluo das difi culdades dos alunos, pelo desenvolvimento das capacidades de linguagem, formulao dos comandos para a realizao das atividades, e, especialmente, adequao perspectiva do trabalho com gneros textuais, conforme preconiza o ISD.

    Cabe esclarecer que capacidades de linguagem equivalem ao conjunto de operaes que permitem a realizao de uma determinada ao de linguagem, um instrumento para mobilizar os conhecimentos que temos e operacionalizar a aprendizagem. (Cristovo, 2009: 319). Resultam das operaes psquicas dos sujeitos no agir linguageiro, mediadas pelos contextos de produo e so divididas em trs: capa-cidade de ao (adequao da linguagem ao contexto de produo), capacidade discursiva (composta pelos tipos de discurso e tipos de sequncia, diz respeito forma de organizao do contedo temtico, de concatenao das ideias para totalizao do que dito) e capacidade lingustico-discursiva (relacionada organizao formal do texto, visa potencializao das operaes de textualizao e enunciativas)14.

    Alm do aporte terico e do modelo didtico, tambm foram consideradas as produes iniciais dos estudantes para planifi cao da SD. Para a avaliao dos textos dos alunos, em ambos os gneros, foi criado um Quadro de anlise das produes iniciais, no qual se

    14. Para aprofundamento nesta questo, remetemos o leitor a Schneuwly & Dolz (2004) referenciados no fi nal deste trabalho.

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    categorizam os domnios dos alunos em (D) Domina, (DP) Domina parcialmente e (ND) No domina.

    No caso do gnero artigo de opinio, a anlise dos textos permitiu perceber que a grande difi culdade dos alunos est no desenvolvimento das capacidades discursivas (elaborao de argumentos, contra-argu-mentos, refutao, retomada de argumento, negociao, concluso). Consequentemente, no produzem sequncias argumentativas e explicativas adequadas. Entretanto, h um domnio signifi cativo dos aspectos estruturais do gnero (ttulo, coeso verbal, concordncia, regncia, ortografi a, pontuao, anforas, conexes), em sntese, do uso da norma culta.

    Essas observaes, por conseguinte, delimitaram o enfoque da SD. Ou seja, as atividades planejadas conduziam o aluno para: o reconhe-cimento do contexto de produo; o desenvolvimento da capacidade discursiva e o emprego das sequncias tipolgicas argumentativas e explicativas, em particular; a percepo da composio do gnero, especialmente as diferentes formas de contextualizar um artigo; a lei-tura e audio de vrios exemplares do gnero para constatarem e se apropriarem dos diferentes argumentos e apreenderem os mecanismos enunciativos; o uso dos conectivos e as retomadas anafricas.

    Em relao notcia, foi possvel observar que todos os alunos escreveram sobre fatos policiais, logo, dominam o contedo temtico, e, nesse aspecto, assumem o papel social do produtor do gnero, inclusive sendo imparciais, isto , no avaliaram os fatos nem deram opinio a respeito. Eles dominam parcialmente a produo de sequncias narrativas e alguns aspectos estruturais do texto, como a produo de manchete, o uso adequado da 3 pessoa e dos tempos verbais, ortografi a, pontuao (a maior difi culdade est no emprego da vrgula). No entanto, assim como no artigo de opinio, as difi culdades dos alunos residiram no desenvolvimento da capacidade discursiva. Boa parte no oferece informaes sufi cientes para o completo entendimento da notcia. A maioria dos textos apresentava apenas um pargrafo e os que apre-sentaram mais de um pargrafo estavam redundantes. Nenhum aluno construiu pargrafo-guia (ou lide/lead). Poucos fi zeram citaes de testemunhas (os que fi zeram sempre foi por meio do discurso indireto) ou utilizaram os conectivos para organizar o texto.

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    Em consonncia com as observaes feitas, na planifi cao da SD, foram enfatizados os seguintes aspectos: a hierarquizao da no-tcia (ordenao dos fatos); a realizao de exerccios pelos quais os alunos compreendessem que o texto deve ter informaes sufi cientes para compreenso do fato (deve responder: O qu? Quando? Quem? Onde? Com quem?); a construo do pargrafo-guia; o desenvolvimen-to dos fatos da notcia para estabelecer a continuidade textual; o uso de outros tipos de anforas que no sejam as pronominais dominadas pelos alunos; o emprego dos discursos indireto e direto, este associado ao uso de aspas.

    Nas duas sequncias didticas, na construo dos mdulos, as ati-vidades foram variadas, alternando-se entre: atividades de observao e de anlise de textos; tarefas simplifi cadas de produo de textos e a elaborao de uma linguagem comum (Dolz, Noverraz & Schneuwly, 2004: 105).

    O primeiro tipo de atividade conduz para o entendimento e desen-volvimento da capacidade de ao e discursiva, ao destacar o plano textual global e o plano geral dos textos15. Nas sequncias didticas planifi cadas, estas atividades podem ser reconhecidas nos seguintes exemplos (Figuras 1 e 2):

    Figura 1 Atividade da SD Artigo de Opinio para desenvolvimento da ca-pacidade de ao.

    15. O plano textual global compreende a silhueta do texto emprico. De outro modo, o plano geral refere-se organizao de conjunto do contedo temtico; mostra-se visvel no processo de leitura e pode ser codifi cado em um resumo(Bronckart, 2007: 120).

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    Essa foi a primeira atividade da SD - artigo de opinio. Os obje-tivos eram 1) fazer o aluno compreender o sentido da prpria palavra gnero de texto; 2) conduzi-lo ao reconhecimento dos variados gneros a comear pelo plano textual global; 3) torn-los conscientes de seus prprios saberes acerca dos gneros. Sobretudo esta atividade poten-cializa o domnio da capacidade de ao.

    Na SD do gnero notcia, destaca-se a atividade a seguir como propiciadora do reconhecimento do suporte textual (o jornal em si) e dos gneros textuais que o constituem pela observao e anlise de textos. Da mesma forma, a atividade contribui para a compreenso do contexto de produo dos gneros jornalsticos.

    Figura 2 Atividade da SD Notcia para desenvolvimento da capacidade de ao.

    No segundo tipo de atividade, tarefas simplifi cadas de produo, desenvolvem-se habilidades de escrita de pequenos textos. Esse tipo de atividade promove a ativao das capacidades de linguagem pela/para seleo antecipada do contedo do texto ou pela/para focagem em um elemento estvel. O exerccio abaixo (Figura 3) exemplifi ca essa atividade na SD para o gnero artigo de opinio.

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    Figura 3 Atividade da SD Artigo de Opinio para produo de textos curtos.

    Esse era o ltimo exerccio de uma srie de atividades. Em grupo, os alunos foram orientados leitura de vrios jornais para identifi car a questo polmica de um artigo de opinio contido no suporte. Em se-guida, haveriam de identifi car a questo polmica e socializarem-na no grande grupo. Na etapa fi nal, individualmente, o aluno era orientado a escrever de forma concisa (em um pargrafo) a respeito de uma questo polmica apresentada por outro grupo. Dessa forma, procurou-se traba-lhar o contedo temtico, a questo polmica, a sntese de argumentos, e os elementos coesivos organizacionais em um pargrafo.

    Na SD do gnero notcia, os seguintes exerccios (Figuras 4 e 5) evidenciam tarefas simplifi cadas.

    Figura 4 Atividade da SD Notcia para produo de textos curtos.

    Pela anlise das produes iniciais constatou-se que os alunos no dominavam o emprego do antettulo ou subttulo, sendo, ento, necessrio elaborar atividades que desenvolvessem tais elementos. A

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    Fig. 4 exemplifi ca essa ao, ao mesmo tempo em que remete a tarefas tradicionais da esfera escolar. Dessa forma, representa uma atividade simplifi cada porque delimita a extenso do texto a ser produzido (uma pequena notcia) e estimula a aplicao de um elemento estvel ausente na primeira produo, ou seja, se confi gura como uma possibilidade de apropriao dos elementos ausentes nos textos dos alunos. Desse modo, fi nalizava uma srie de outras atividades, cujo objetivo era investigar as partes da notcia, especifi camente, o ttulo, a manchete, o antettu-lo ou subttulo, porquanto, depois de desenvolver vrios exerccios, os alunos foram estimulados a aplicar os conhecimentos adquiridos, inclusive realizando inferncias sobre as manchetes para o desenvolvi-mento do texto. Essa dinmica visava provocar no aluno a ativao de capacidades psicolingusticas que possibilitassem a adequao da linguagem ao gnero notcia.

    Para Dolz, Noverraz & Schneuwly (2004) a reviso de um texto em funo de critrios bem defi nidos um tipo de atividade simplifi cada. A Fig. 5 exemplifi ca essa atividade na SD do gnero notcia.

    Figura 5 Atividade da SD Notcia para domnio dos mecanismos enuncia-tivos.

    Tal atividade tinha por objetivo conduzir o aluno avaliao e ao entendimento de como se mobilizam os verbos de dizer, a pontuao, as aspas para uso da voz de testemunhas em uma notcia policial.

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    Entende-se que a atividade facilita o domnio da capacidade lingustico-discursiva, pois se trabalham esses elementos relativamente estveis do gnero notcia diretamente no texto do aluno.

    A terceira categoria de atividade que deve constar em uma SD, segundo Dolz, Noverraz & Schneuwly (2004), aproxima-se do con-texto de produo, j que estabelece uma linguagem comum para o gnero. Ela pode ser dinamizada com exerccios de correo de textos, como mostra a Fig. 6. Para a realizao da atividade, o aluno deveria recuperar os elementos estveis da notcia desenvolvidos ao longo da SD. A delimitao de seu papel social (jornalista) direciona para a linguagem a ser empregada.

    Figura 6 Atividade da SD Notcia para retomada do contexto de produo e reviso de texto.

    Da mesma forma, o exerccio a seguir da SD - Artigo de opinio fi xa os limites da linguagem a ser empregada luz do papel social do agente-produtor.

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    Figura 7 Atividade da SD Artigo de opinio para reconhecimento do contexto de produo de textos (papel social do emissor).

    Em sua estrutura completa, as duas sequncias didticas seguem um padro. So compostas de 60 pginas. A primeira pgina, cujo ttulo Palavras Iniciais, apresenta algumas explicaes: o que o material, a opo pelo gnero, a forma e o objetivo do trabalho. Ambas se estruturam em cinco mdulos, que visam ao desenvolvimento das capacidades de ao, capacidades discursivas, capacidades lingustico-discursivas, pela realizao de vrias atividades, como: estudo de textos, atividades em grupo, atividades virtuais16, atividades orais, escuta de textos, reviso e reescrita.

    Alguns textos audiovisuais vdeos foram utilizados na SD Artigo de opinio. Eles variaram entre reportagens, documentrios, trailer de fi lmes, crnicas jornalsticas faladas, entrevistas, programa de auditrio e cenas de novela. Todos, explcita ou implicitamente, ofereciam subsdios para o desenvolvimento da capacidade discursi-va, pois debatiam a descriminalizao da maconha (das drogas). As Figuras 8, 9 e 10 exemplifi cam o uso de textos miditicos e/ou aes de incentivo ao multiletramento (ROJO, 2009).

    16. As atividades virtuais nas duas SD consistiram em aulas ou exerccios em que o recurso principal foi o computador, de preferncia com conexo internet.

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    Figura 8 Atividade da SD Artigo de opinio para reconhecimento e introduo da questo polmica (tema da SD).

    As atividades que confi guraram a Figura 8 abordam as capacidades discursivas, ao procurar munir os estudantes dos discursos correntes na mdia sobre o contedo temtico em foco. Outro exemplo de atividade est na fi gura que segue.

    Figura 9 Atividade da SD Artigo de opinio para desenvolvimento da capa-cidade discursiva.

    Esta fi gura representa uma das atividades aplicadas para o desen-volvimento da capacidade discursiva. O objetivo era oferecer subsdios possveis de serem aplicados na contextualizao inicial dos artigos a serem produzidos e argumentos para apropriao, refutao ou ne-gociao.

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    Entre os objetivos da atividade representada na Fig. 10 estavam o desenvolvimento da capacidade de ao, pela observao de jornais impressos e virtuais.

    Figura 10 Atividade da SD Notcia para reconhecimento de diferentes layout dos jornais.

    Quanto aos mdulos e objetivos, ambas as SD foram planifi cadas da seguinte forma: no primeiro mdulo, o objetivo era o reconhecimen-to do contexto de produo e do plano textual global dos gneros; no segundo mdulo, as atividades eram direcionadas para a observao dos elementos discursivos (plano geral); no terceiro, visava-se ex-plorao de aspectos estruturais da lngua; no quarto mdulo, o foco era a reviso e a reescrita; e, fi nalmente, no quinto mdulo, a nfase recaa na publicao dos textos.

    Como vimos, o ensino por meio das SD favorecem tarefas simpli-fi cadas (o que no quer dizer simples) de reconhecimento do gnero (leitura), produo e reescritas de textos, com a mediao docente. Portanto, para um ensino efi caz por meio de SD, preciso que o profes-

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    sor seja preparado, isto , que lhe sejam garantidas horas de atividades extraclasses para preparao de material e formao em servio.

    Consideraes fi nais

    Compreende-se que esta pesquisa atende aos preceitos dos Pa-rmetros Curriculares Nacionais (Brasil, 1998a; 1998b) e a outros relativos importncia de uma formao continuada fundamentada epistemologicamente. Em primeiro lugar, a formao dos professores relatada percorreu um caminho de estudo de uma concepo terico-prtica que fundamenta a prxis pedaggica para o ensino dos gneros textuais. Em segundo lugar, os professores em formao praticaram seus conhecimentos modelizando gneros e planifi cando SD. Em seguida, desenvolveram as atividades em sala e aula e, por ltimo, ao socializarem as experincias, os professores puderam avaliar todo o percurso e a prpria proposta da didtica das lnguas.

    Entende-se que todas essas atividades resultaram em grande apren-dizagem para todos os professores envolvidos na pesquisa, posto que as pesquisas colaborativas so uma possibilidade de propiciar opor-tunidades de refl exo, de crtica e de negociao entre os participantes [...]. (Cristvo, 2009: 181). Sobretudo, o trabalho colaborativo, por estabelecer um sistema tridico (professor-pesquisador-objeto), funda a corresponsabilidade, ou seja, os sujeitos da pesquisa/formao tornam-se coautores de todo o processo. Ademais, a colaborao provoca um refi namento de conhecimentos, das prticas pedaggicas e contribui para que o professor olhe com mais criticidade para os materiais di-dticos (Machado, 2009).

    Vale dizer ainda que, diante das limitaes contextuais da pes-quisa, especialmente do ineditismo da planifi cao de SD para os professores-colaboradores e a pesquisadora, possvel considerar que as SD elaboradas se constituem como instrumentos didticos para o trabalho preliminar com gneros17. Elas podem apresentar limites nos

    17. Evidencia-se na SD a possibilidade de uma prtica contextualizada de ensino-aprendizagem da estrutura da lngua. Em primeiro lugar, observou-se o texto, a fi m de promover no aluno a formao e/ou aprimoramento das capacidades de produo, como preconiza o ISD.

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    exerccios, porm, como advertiu Bronckart, Os exerccios propostos em uma sequncia no podem evidentemente abordar todos os aspectos necessrios para o domnio de um determinado gnero, portanto eles devem ser escolhidos com base no critrio de transferibilidade das aprendizagens a outros setores da organizao textual. (2010: 173).

    De um lado, o objetivo no era a formao de produtores de ma-terial didtico, mas de professores conscientes que, com olhar arguto, refl itam sobre a realidade do contexto educacional. De outro, torna-se evidente a falta de uma cultura escolar de anlise da realidade, de ve-rifi cao do que o aluno j sabe, de decidir claramente o que ensinar, para quem ensinar, quando e como ensinar. Falta, ainda, compromisso, j que diante da impossibilidade social de modifi car radicalmente o estatuto e o predomnio do ensino gramatical e considerando os processos de aprendizagem efetivamente desenvolvidos pelos alunos, parece-nos que o ensino da lngua s pode evoluir na direo de um compromisso [...]. (Bronckart, 2007: 88). Falta, enfi m, ao professor assumir o protagonismo de seu trabalho.

    Outra situao apresentada na pesquisa foi a de que os professores no conheciam o ISD e o instrumento SD, mesmo que alguns deles j tivessem participado da Olimpada de Lngua Portuguesa (eles no reconheciam os Cadernos do Professor18 como SD). Nesse sentido, constata-se a necessidade de intensifi car a formao continuada de pro-fessores na perspectiva da pesquisa-ao e do trabalho colaborativo.

    Enfi m, a pesquisa constatou que alguns dfi cits educacionais ultrapassam o campo de atuao do professor. Assim, novas pesqui-sas no formato desta so necessrias e devem retornar s instncias diretivas da educao para discusso dos resultados e para que, assim, provoquem uma reformulao das polticas pblicas para a educao. Afi nal, o dfi cit no est [s] no professor, mas nas prprias pres-cries ou nas condies de trabalho que impedem a realizao de seu agir profi ssional e, portanto, o seu desenvolvimento particular. (Machado, 2007a: 94).

    18. Os Cadernos de Professor, material distribudo pela Olimpada de Lngua Portuguesa, constituem-se em SD para o ensino-aprendizagem dos gneros poema, memrias literrias, crnica e artigo de opinio.

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    Recebido em maio de 2013Aprovado em abril de 2015

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