Sistemas eleitorais: um diálogo comparado Brasil e .... a inexistência de uma cláusula de barreira

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Sistemas eleitorais: um dilogo comparado Brasil e alemanha

sIlVAnA Kr Ause

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resumo

O artigo oferece um dilogo comparado de dois sistemas eleitorais distintos, o alemo e o brasileiro. Objetiva-se chamar a ateno para uma perspectiva incre-mental de reformas institucionais, alertando para riscos de modelos com propos-tas ambiciosas de alteraes institucionais. Tambm observamos a importncia de uma viso sistmica, salientando que instituies funcionam de forma inter-conectada. A seguir nos dedicamos especificamente ao caso do sistema eleitoral misto alemo. A experincia, por um lado, uma clara demonstrao de que uma engenharia institucional impacta na construo de um sistema poltico, produ-zindo uma menor fragmentao no sistema partidrio. A clusula de barreira um exemplo ilustrativo. Por outro, os recentes resultados da eleio alem alertam que alteraes de regras, como o caso da introduo do mandato compensatrio em 2013, produzem efeitos no desejados. Variveis contextuais, como cises de elites polticas e crises conjunturais tambm precisam ser consideradas para com-preender que regras eleitorais e de representao poltica no so suficientes para garantir ao sistema poltico boa qualidade. Destacamos fatores que impactam na representao do sistema proporcional brasileiro. A desconexo do desejo do elei-tor, que manifestado na lista aberta e distorcido com as coligaes nas eleies proporcionais, a frmula adotada para o clculo de distribuio das cadeiras no legislativo, a inexistncia de uma clusula de barreira e o tamanho dos distritos eleitorais so fundamentais para a produo de um quadro altamente fragmenta-do do sistema partidrio.

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AbstrAct

The article offers a comparative dialogue of two distinct electoral systems, the German and the Brazilian. The objective is to draw attention to an incremental perspective of institutional reforms, alerting to the risks of models with ambitious proposals for institutional changes. We also note the importance of a systemic view, emphasizing that institutions function in an interconnected way.

The following is a specific case of the German mixed electoral system. The expe-rience, on the one hand, is a clear demonstration that an institutional engineering impacts the construction of a political system, producing less fragmentation in the par-ty system. The barrier clause is an illustrative example. On the other hand, the recent results of the German election warn that changes in rules, such as the introduction of the compensatory mandate in 2013, have undesirable effects. Contextual variables such as the division of political elites and conjunctural crisis also need to be considered to understand that electoral and political representation rules are not enough to gua-rantee good quality to the political system. We highlight factors that impact the repre-sentation of the Brazilian proportional system. The disconnection of the voters desire, which is manifested in the open and distorted list with coalitions in proportional elec-tions, the formula adopted to calculate the distribution of seats in the legislature, the absence of a barrier clause, and the size of electoral districts are fundamental for the production of a highly fragmented party system.

1. A engenHArIA poltIcA: lImItes e AlcAnces

A construo, manuteno e o bom funcionamento de um sistema poltico nos remetem a uma longa tradio de pesquisas e debates na Cincia Poltica e um tema presente na agenda de vrios atores polticos no somente no Brasil.

As expectativas e alternativas apresentadas a respeito de uma boa en-genharia, seguidamente, so fundamentadas em demandas superestimadas. Obviamente, tambm preciso reconhecer que elas so sustentadas em pressu-postos normativos e epistemolgicos de diferentes matizes. Qualquer reflexo que seja feita sobre reforma poltica deve considerar que os modelos propostos car-regam estas dimenses.

Neste sentido, pretendemos, primeiramente, destacar alguns aspectos que consideramos importantes sobre as regras de um sistema poltico democrtico e seus efeitos. Para muitos, a base e a me de todas as reformas est na elaborao

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de boas regras do jogo, que definem o desenvolvimento do sistema poltico. Sem dvida, na crise atual do sistema poltico brasileiro, expondo os seus limites e es-gotamento, o tema da reforma poltica central.

Porm, em primeiro lugar, preciso ter claro que boas regras e normas so fundamentais, mas no podem fazer milagres. O fato de termos excelentes nor-mas e regras em um sistema poltico apenas um aspecto importante para que um sistema politico democrtico funcione com qualidade. Vamos pensar em um exemplo bem simples. Um excelente engenheiro ambiental constri um prdio perfeito. Aproveitamento de gua da chuva, energia solar, material de construo sustentvel, etc. Muito bem! Faamos a pergunta: O prdio garante a sustentabi-lidade? Diramos que no! Pelo simples fato de que os atores, as pessoas que vi-vem no prdio perfeitamente construdo, devem compreender, aceitar e respeitar as regras do prdio. Importante ter-se em mente que os atores podem destruir o belo prdio rapidamente. Em pases com uma cultura poltica criativa, os atores polticos geralmente conseguem, com sucesso, encontrar sadas que no ferem as normas, mas acabam produzindo efeitos que neutralizam os impactos positivos que eram esperados das regras e normas estabelecidas.

Outra varivel a ser considerada neste debate o clculo dos atores, pois possvel haver espaos de opes a serem feitas dentro das regras estabelecidas. Queremos dizer com isto que as regras de um sistema poltico que produzem efeitos perversos e impactam de forma negativa em um sistema poltico nem sempre necessitam ser absorvidas pelos atores polticos. Em interessante trabalho de Hunter (2007), este aspecto muito bem demonstrado sobre o processo de decises e adaptaes do Partido dos Trabalhadores em relao a importantes regras do jogo do sistema poltico brasileiro, consideradas responsveis pela baixa qualidade da democracia brasileira. Primeiramente, o partido estabeleceu regras prprias que iam de encontro s do sistema poltico brasileiro em que funciona-vam os partidos tradicionais, porm sem estar em conduta ilegal. Isto pode ser visto na forma como as mazelas centrais das regras do sistema eleitoral brasileiro foram deliberadamente evitadas pelas lideranas e pela organizao da legenda. O incentivo da lista aberta de criar uma competio fratricida e fragilizar os par-tidos brasileiros foi, por exemplo, deliberadamente evitado com a estratgia de apoio ao voto na legenda. A criao de normas e controles internos rgidos so-bre o processo de formao das candidaturas aos legislativos e, especialmente, a resistncia do partido em relao ao financiamento de grupos empresariais so claros demonstrativos de que o espao de ao dos atores polticos dentro de uma determinada engenharia institucional no pode ser negligenciado. A opo da

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legenda por priorizar as eleies e, especialmente, a eleio ao executivo nacional a partir de meados dos anos 90 foi fundamental para a organizao fazer uso dos incentivos institucionais e ser absorvida por elementos nefastos do sistema pol-tico brasileiro.

Em segundo lugar, tambm importante ter uma compreenso de que um sistema poltico funciona de forma integrada e sistmica. Queremos dizer com isto que, quando pensamos em uma mudana de regra ou uma reforma no sistema poltico, preciso v-lo como um todo. Uma boa regra especfica aplicada isoladamente em um determinado pas pode ter efeitos distintos com uma mesma regra ou reforma poltica, feita em outro pas. Por exemplo: quan-do temos um paciente com cncer no estmago, no basta atacar o cncer com quimioterapia. preciso tratar o paciente como um todo. Uma mesma quimio-terapia com dois pacientes diferentes poder ter efeitos distintos. Um paciente com um histrico alimentar saudvel, sem diabetes, sem problemas de presso alta, sem obesidade, com uma gentica diferenciada e em um ambiente apro-priado certamente ter mais chances de ser curado. Para ficar mais claro, vamos sair da medicina e dar um exemplo na rea da poltica, que o que nos inte-ressa. Um financiamento partidrio exclusivamente pblico em um pas com pouca competitividade partidria tende a acomodar as lideranas polticas esta-belecidas e criar um sistema partidrio cartelizado. Um financiamento partid-rio exclusivamente privado em uma economia altamente concentrada e pouco competitiva, com desigualdades sociais, tende a gerar um sistema partidrio tambm cartelizado. Queremos dizer que regras ou mudanas de regras em um sistema poltico devem ser avaliadas com cuidado e observadas no contexto em que esto ou pretendem ser inseridas. Neste sentido, chamamos a ateno para a importncia de se ter claro que no h respostas simples e solues mgicas para melhorar a qualidade de um sistema poltico democrtico. Quando se trata do tema sobre o financiamento da poltica, por exemplo, isto fundamental se ter em mente. A poltica tem sido crescentemente acusada como um centro de corrupo e responsabilizada por ser a maior causadora da corrupo. Isso tem afetado a estabilidade das democracias e feito cidados terem resistncia aos partidos polticos estabelecidos. Este fenmeno no um privilgio de demo-cracias jovens, como no Brasil ou frica do Sul, mas pases com democracias maduras (Espanha, Itlia, inclusive, Japo). No nosso objetivo aqui falar do fenmeno corrupo, apenas queremos fazer essa considerao, pois, certamen-te, a relao do sistema eleitoral e do financiamento partidrio com a questo da corrupo esto muito interligados.

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