SOCIOLOGIA E PROGRESSO: UMA ANÁLISE DA SOCIOLOGIA

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  • SOCIOLOGIA E PROGRESSO: UMA ANLISE DA SOCIOLOGIA MODERNA A PARTIR DO

    CONCEITO DE COSMOVISO - JAN VERHOOGT

    Na verdade, pode-se esta simples proposio, que comumente esquecida, deveria ser

    colocada no princpio de todos os estudos que pretendem lidar com o racionalismo racionalizar

    a vida a partir de pontos de vista fundamentalmente distintos e em direes significativamente

    diferentes. Max Weber1

    Cosmoviso e Racionalismo

    Questes sobre o relacionamento entre cosmoviso e sociologia so to antigas quanto a

    prpria disciplina. As cosmovises dos socilogos seus valores e interesses pessoais

    penetram seu pensamento cientfico? Em que medida podem tais influncias serem eliminadas

    por meio de uma anlise conceitual acurada e por procedimentos metodolgicos? Em quais

    sentidos estes so inevitveis? Estes so tpicos recorrentes na filosofia das cincias sociais. Na

    principal corrente da sociologia, temas relacionados cosmoviso surgem primariamente em

    relao ao seu efeito deletrio na sociologia como uma cincia em gradual maturao. O

    objetivo o de aperfeioar a sociologia tornando-a uma cincia objetiva e neutra em termos de

    valores.

    O relacionamento entre cosmoviso e sociologia pode tambm ser considerado na

    direo inversa. O ponto central aqui o que uma cosmoviso distinta ou deveria ser. Como a

    sociologia como uma cincia afeta esta viso da vida e os padres de comportamento

    construdos sobre esta? Em quais sentidos tal influncia aceitvel? Em quais sentidos isto

    deveria ser resistido? O primeiro propsito de tais questes defender e articular uma

    cosmoviso em contraste sociologia.

    1 Max Weber, The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism (London: Unwin University Books, 1971), 77.

  • Mas estas questes no pressupem uma imagem em alguma medida abstrata e

    distorcida do relacionamento real entre a sociologia e cosmoviso? pode-se perguntar. No

    pode a prpria sociologia como uma cincia se tornar parte de uma cosmoviso? No seria a

    cultura moderna profundamente permeada por tal cosmoviso cientfica ou racionalista?

    Obviamente, ningum negar que a cincia molda o esprito de nossos tempos e afeta tanto o

    pensamento quanto a ao. Precisamente porque isto to patentemente bvio, ns

    deveramos ser cuidadosos ao caracterizar este processo, seja em nossa anlise ou em nossa

    avaliao crtica, como o reconhecimento de uma cosmoviso cientfica ou racionalista. E esta

    a tese um tanto provocativa que eu espero defender.

    Qual o sentido e o motivo originalmente includo no conceito de cosmoviso?

    Responder a esta questo parece ser uma condio necessria para se fazer um uso apropriado

    do conceito hoje. Dilthey elaborou o sentido formal do conceito de cosmoviso. Ele pontua que

    as pessoas sempre oferecem respostas a questes ltimas a partir de uma perspectiva subjetiva

    e mutvel. Respostas a questes tais como O que a realidade? ou Qual o meu lugar e

    destino nesta? nunca so uma questo de mera sabedoria contemplativa. Cosmovises so

    sistemas de ideias que so ao mesmo tempo fontes de ao a partir dos quais as pessoas

    constroem seus mundos.

    Deveria ser reconhecido, no entanto, que a elaborao de Dilthey do conceito de

    cosmoviso foi influenciado por sua filosofia historicista e relativista. Poderia ser dito que, em

    razo de sua estrutura filosfica, Dilthey em um sentido traiu a crtica do racionalismo clssico,

    ou filosfico, implicado no conceito de cosmoviso como articulado dentro do Romantismo.

    No Romantismo, o conceito de cosmoviso surgiu para legitimar a rica variedade de culturas

    dentro da histria humana contra o impacto nivelador da filosofia racionalista clssica

    representada por Descartes e Kant. Apesar de suas diferenas, os racionalistas clssicos

    buscaram convencer as pessoas de que eles deveriam superar a pluralidade social e cultural

    estabelecendo uma sociedade humana unificada, construda nas verdades gerais e absolutas da

    razo filosfica. Era pensado que a pluralidade cultural sempre implicava a supresso e a

    violncia dentro e entre diferentes culturas, enquanto uma sociedade construda sobre

    verdades universais da razo filosfica seria caracterizada pela liberdade e a paz. Esta era a

    promessa implcita do progresso oferecida pela filosofia racionalista clssica. Ao justificar a

  • pluralidade de cosmovises, ento, o Romantismo era nada mais do que uma contrarrevoluo

    em oposio ao racionalismo.2

    Entre os ideais racionalistas clssicos de uma boa sociedade e cosmovises

    prevalecentes existentes existia um relacionamento complexo. Construda em argumentos

    lgicos convincentes, os ideais racionalistas universais invariavelmente ofuscaram todas as

    cosmovises existentes, as quais, por contraste, demonstravam estreiteza no conhecimento e

    nas ideias. No entanto, a partir do ngulo das prticas sociais e polticas, os ideais racionalistas

    abstratos eram inferiores s cosmovises predominantes, pois nestas ltimas a fuso de ideias

    e a ao humana era autoevidente.

    Qual o valor que o conceito de cosmoviso tem para ns hoje? Eu sugiro que nosso

    ponto de partida ao responder a esta questo deveria ser a elaborao de Dilthey sobre o

    significado de cosmoviso. Em particular, devemos fazer justia crtica do racionalismo

    implicada no uso romntico deste conceito, o qual requer que levemos em conta os

    desenvolvimentos na natureza do prprio racionalismo. O racionalismo se modificou desde que

    o conceito de cosmoviso foi primeiramente proposto? Se sim, qual a relao, de um ponto

    de vista tanto lgico como histrico, com as cosmovises predominantes na sociedade

    moderna? Para respondermos a estas questes ns devemos dar ateno histria do

    racionalismo moderno e a seus efeitos na realidade social. Um tema principal deste artigo que

    o racionalismo moderno representado de forma suprema pela cincia moderna da sociologia.

    Como consequncia, ns precisamos adquirir um insight sobre a histria da sociologia moderna

    e seus efeitos na sociedade. Aps isto, ns podemos ser capazes de entender qual o valor que o

    conceito de cosmoviso pode ter em relao ao mundo atual.

    2 O contraste entre cosmoviso e filosofia elaborado por H. W. von der Dunk, De organisatie van het verleden (Bussum: van Holkema en Warendorf, 1982), 90. Johannes Hoffmeister afirma as implicaes

    prticas de cosmovises em seu artigo, Weltanschauung in Worterbuch der philosophischen Begrijfe

    Hamburg: Felix Meiner Verlag, 1955), 661.

  • Sociologia e Progresso

    Embora o Iluminismo tenha sido um movimento amplamente europeu, o curso que este tomou

    na Frana exerceu uma influncia profundamente distinta e de longo alcance. Na Frana, a Igreja

    Catlica Romana, juntamente com a nobreza e a monarquia absoluta, apresentava um modelo

    de autoridade que demandava submisso e pacincia. Em uma aguda oposio a este estado de

    coisas, o Iluminismo francs era abertamente anticlerical e rejeitava todo o poder e autoridade.

    Seus ideais mobilizadores de liberdade e igualdade foram manifestos na Revoluo Francesa.3

    Os resultados da Revoluo deixaram claros, no entanto, que a derrubada de um antigo

    regime era consideravelmente mais fcil do que o estabelecimento de uma sociedade livre e

    pacfica. Primeiramente, houve o Terror, e ento o estabelecimento de um Diretrio e o

    Consulado no dia seguinte ao 18 de Brumrio, quando Bonaparte declarou a si mesmo como o

    Primeiro Cnsul vitalcio. Para um segmento da sociedade francesa, pareceu bvio que estes

    eventos eram apenas novas incorporaes da velha opresso. Da mesma forma, estas pessoas

    continuaram a reafirmar os antigos ideais da liberdade e da igualdade. Para outro segmento da

    sociedade, os eventos que se deram aps 1789 revelaram a natureza inerentemente m do

    homem, demonstrando alm e toda a dvida a necessidade de se reestabelecer a autoridade

    absoluta do Papa e da Igreja Catlica Romana. Ainda, uma terceira reao argumentou que tanto

    os slogans jacobinos quanto os clamores pela autoridade tradicional seriam guias inadequados

    para o alcance apropriado da boa sociedade. Proponentes desta terceira viso eram Saint-Simon

    e Auguste Comte, dois dos mais proeminentes Profetas de Paris.4

    O princpio orientador de Comte era o de que a nova ordem social em vias de se iniciar

    deveria ser construda sobre a sociologia como uma cincia positiva. At este momento, a

    reflexo sobre a sociedade tinha sido profundamente permeada por compromissos religiosos

    ou especulaes metafsicas. Esta, de acordo com Comte, foi a principal razo dos conflitos e da

    violncia que permearam a histria humana. A partir do perodo de Comte em diante, a natureza

    exata da realidade social seria revelada por meio de conceitos bsicos e a metodologia das

    cincias naturais (particularmente da biologia). Assim, de acordo com as leis universais da ordem

    e da mudana social, uma sociedade racional e harmoniosa seria estabelecida.

    3 Geoffrey Hawthorn, Enlightenment and Despair: A History of Sociology (Cambridge: Cambridge

    University Press, 1976), 66. 4 Frank E. Manuel, The Prophets of Paris (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1962), 251.

  • O prprio Comte estava firmemente convencido de que tanto a Frana quanto a Europa

    em geral