Sociologia Politica Da Guerra Camponesa de Canudos

  • View
    42

  • Download
    4

Embed Size (px)

Text of Sociologia Politica Da Guerra Camponesa de Canudos

SOCIOLOGIA POLTICA DA GUERRA CAMPONESA DE CANUDOSDa destruio do Belo Monte ao aparecimento do MST

Clvis Moura

SOCIOLOGIA POLTICA DA GUERRA CAMPONESA DE CANUDOSDa destruio do Belo Monte ao aparecimento do MST

EDITORA EXPRESSO POPULAR

Copyright 2000, by Editora Expresso Popular

Projeto grfico, Capa e diagramao ZAP Design Foto da Capa Ilustrao: montagem tendo como fundo foto de Sebastio Salgado manifestao dos camponeses em comemorao conquista da Fazenda Cuiab no serto do Xing, Sergipe, 1996. Impresso e acabamento Cromosete Grfica e Editora

ISBN 85-87394-06-1

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sem a autorizao da editora. 1 edio: Maio de 2000 EDITORA EXPRESSO POPULAR Rua Bernardo da Veiga, 14 CEP 01252-020 - So Paulo-SP Fone/Fax: (11) 262.4921 e-mail: editorapopular@cidadanet.org.br

Sumrio

Apresentao .......................................................... 11 1. Sociologia poltica da guerra camponesa de Canudos .................................... 21 2. Antnio Conselheiro: um abolicionista da plebe ................................. 63 3. De Canudos ao Movimento Sem Terra: novas perspectivas para a revoluo agrria no Brasil? ........................... 79 4. Depois do massacre de Canudos os camponeses se rearticulam e lutam .......... 107 5. A Fnix renascida? O Movimento Sem Terra ............................ 125

A libertao econmica, poltica, militar, de um povo do terceiro mundo, a renascena de sua identidade cultural singular s pode se concretizar pela ruptura radical com a cultura algena dominante. Ou bem um povo do terceiro mundo consegue conservar, ressuscitar, reinterpretar, transformar sua cultura ancestral autctone, ou ele desaparece como sujeito autnomo da histria.Jean Ziegler A vitria dos vencidos.

Toda histria remorsoCarlos Drummond de Andrade.

Para Haroldo Lima e Mrio Maestri, fanticos defensores dos heris de Canudos. memria de Paulo Fontelles, assassinado na luta pela revoluo camponesa no Brasil. E para Jean Ziegler, lembrana fraterna.

CLVIS MOURA

Apresentao

Quando em 1959, em So Paulo, aos 34 anos, o jornalista, cientista social e militante do Partido Comunista Brasileiro, Clovis Moura, publicou seu primeiro livro, Rebelies da senzala, registrou-se um novo marco na interpretao da histria do Brasil. Contrariando todo o pensamento da poca, mesmo o de seu companheiro de militncia Caio Prado Jnior, o jovem estreante defendia desde ento que, durante o perodo dominado pelo modo de produo escravista em nosso pas, o eixo fundamental da luta de classes se concentrou entre os senhores brancos e os escravos negros.

1 1

SOCIOLOGIA POLTICA

DA

GUERRA CAMPONESA

DE

CANUDOS

Tanto os intelectuais do PC, como as universidades brasileiras resistiram sua tese, que no entanto ir encontrar repercusso nos Estados Unidos. Para Moura, o problema que os PCs no apenas brasileiros, mas os latino-americanos em geral at o presente tm dificuldade em entender a questo raa/classe que envolveu e envolve a problemtica dos africanos trazidos fora para as Amricas durante o perodo colonial. De acordo com ele, quando o negro era trazido para o novo continente, ele j vinha marcado, enquadrado numa classe: a de escravo. O no entendimento disto faz com que o papel do negro escravo e em seguida o do ex-escravo permanea uma categoria no muito definida. Foi tambm nesse contexto que, afirma Moura, se criou o racismo, que no atinge apenas as elites. Para ilustrar a dificuldades dos PCs frente questo, o autor de Rebelies da senzala conta que, durante o processo constituinte psEstado Novo, o deputado Hamilton Nogueira (UDN) apresentou projeto contra o racismo

1 2

CLVIS MOURA

a ser includo na nova Constituio. No entanto, a bancada do PCB vota contra o projeto, sob o argumento de que no Brasil no existe luta de raas, mas de classes (!). De qualquer modo, alm de Rebelies na senzala ter se tornado base para cursos e estudos nos EUA e ser considerado um clssico na China (onde foi traduzido), hoje, no Brasil, em sua quarta edio, referncia obrigatria para estudiosos que rediscutem o tema. Mas o escravismo e a questo negra constituem apenas um dos quatro vieses da obra deste piauiense de Amarante, Clovis Steiger de Assis Moura, nascido em 10 de junho de 1925, e que tem entre seus antepassados um baro do imprio da Prssia (Ferdinando von Steiger, seu bisav pelo lado materno) e, pelo lado paterno, a bisav Carlota, a escrava negra de um portugus seu bisav. Os outros trs vieses do seu trabalho se constituem pelo estudo dos movimentos camponeses no Brasil; pelos ensaios e investigaes tericos e, por fim, sua obra potica. Com 24 ttulos publicados, o autor acaba de concluir seu Dicionrio da escravido negra

1 3

SOCIOLOGIA POLTICA

DA

GUERRA CAMPONESA

DE

CANUDOS

no Brasil, que ser lanado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ. Tem pronto tambm seu sexto volume de poemas, Duelos com o infinito. O livro que ora apresentamos, faz parte de seus estudos sobre as lutas no campo brasileiro, texto indito cedido por Clovis (incluindo direitos autorais) para a Editora Expresso Popular. Aqui, alm de importante reflexo terica sobre a natureza e carter poltico dos movimentos sociais em geral, e em particular dos movimentos camponeses, o leitor encontrar os elos histricos que nos fazem entender a Guerra Canudos e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra o MST, como parte de uma mesma cadeia de resistncia ao monoplio da propriedade da terra em nosso pas um dos pontos cruciais de nosso atraso econmico e social. O comportamento das elites de antanho e do presente so, por sua vez, provas cabais da permanncia da ignorncia, reacionarismo e truculncia das foras que desde sempre vm dirigindo os destinos da Nao.

1 4

CLVIS MOURA

isto enfim que nos ensina Clovis Moura que desde aps o levante de Natal em 1935 (onde morava), ainda pr adolescente, passa a simpatizar com as idias de esquerda, vindo por fim encontrar o Partido Comunista somente em 1946, no interior da Bahia (Juazeiro) ao qual se ligar, militando naquele estado at 1949, quando se transfere para So Paulo, passando a atuar na Frente Cultural, organismo que reunia Caio Prado, Villanova Artigas, Artur Neves e outros importantes intelectuais comunistas.

Alipio Freire So Paulo, maio de 2000

1 5

CLVIS MOURA

A obra de Clovis Moura

1959 Rebelies da senzala, Ed. Zumbi-SP. Reedies: 1972, Ed. Conquista- RJ; Ed. Cincia Humanas-SP, e 1988, Ed. Mercado Aberto-RS. 1961 Espantalho na feira (poesia), Ed. Fulgor-SP 1964 Argila da memria (poesia), Ed. FulgorSP. Reedio, Ed. Corisco-PI. 1964 Introduo ao pensamento de Euclides da Cunha, Ed. Civilizao Brasileira-RJ. 1964 ncora do Planalto (poesia), Ed. do BrasilSP.

1 7

SOCIOLOGIA POLTICA

DA

GUERRA CAMPONESA

DE

CANUDOS

1976 O preconceito de cor na literatura de cordel, Ed. Resenha Universitria-SP. 1976 Sociologia de la Praxis, Editorial Siglo XXI, Mxico. 1977 O negro: de bom escravo a mau cidado?, Ed. Conquista-RJ. 1977 Manequins corcundas (poesia), Ed. Ila Palma, S. Paulo-Palermo. 1978 A sociologia posta em questo, Ed. Cincias Humanas-SP. 1979 Sacco e Vanzetti o protesto brasileiro, Ed. Brasil-Debate-SP. 1979 Dirio da guerrilha do Araguaia (apresentao), Ed. Alfa-mega-SP. 1981 Os quilombos e a rebelio negra, Ed. Brasiliense-SP 8 edio, 1994. 1983 Brasil: razes do protesto negro, Ed. GlobalSP.

1 8

CLVIS MOURA

1984 A imprensa negra, Imprensa Oficial-SP. 1987 Quilombos: resistncia ao escravismo, Ed. tica-SP 3 edio, 1993. 1987 Histria de Joo da Silva (poesia), Ed. Corisco-PI. 1987 Da insurgncia negra ao escravismo tardio (Separata de Estudos Econmicos) FEA/USP. 1988 Sociologia do negro brasileiro, Ed. tica-SP. 1989 Histria do negro brasileiro, Ed. tica-SP 2 edio, 1992. 1990 As injustias de Clio o negro na historiografia brasileira, Ed. Oficina de livros-MG. 1994 Dialtica radical do Brasil negro, Ed. Anita-SP . 1995 Flauta de argila (poesia), Ed. Mons. Chaves-PI. 1997 Bahia de todos os homens, Ed. BDA-BA.

1 9

CLVIS MOURA

Captulo I

Sociologia poltica da guerra camponesa de Canudos

IntroduoCem anos depois da destruio de Canudos e a morte dos seus defensores, h a necessidade de se resgatar da penumbra em que esteve at hoje o seu significado poltico. Movimento social dos mais significativos, visto ainda ou atravs de uma manifestao de religiosidade popular, ou como um simples episdio de misticismo no qual as populaes sertanejas expressaram os seus sentimentos de fanatismo religioso. O mximo que se costuma destacar nele a manifestao de herosmo dos seus habitantes, os quais lutaram abnegadamente at o ltimo homem na defesa de um falso direito na expresso de Rui Barbosa.

2 1

SOCIOLOGIA POLTICA

DA

GUERRA CAMPONESA

DE

CANUDOS

O seu contedo de protesto organizado na direo de reordenar as relaes sociais no campo, expresso atravs de vus ideolgicos possveis e compatveis com a poca e as circunstncias muitas vezes escamoteado e ressaltada a forma messinica atravs da qual ele se expressou. No entanto, Canudos um dos movimentos sociais mais importantes da Amrica do Sul e culminou na maior guerra civil do Brasil, depois da Cabanagem no Par e do Contestado em Santa CatarinaParan. O seu contedo social e por isto tambm poltico no tem sido devidamente avaliado. A guerra liderada por Antnio Conselheiro o reflexo eloqente e ao mesmo tempo incompleto (pelo suporte ideolgico religioso em que se apoiou) das contradies que existiam naquela poca e ainda persistem nas relaes sociais (no nvel das relaes de produo) do nosso setor agrri