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SOLANGE PEREIRA DINIZ FARACO TEMPO AMIGO ou …livros01.livrosgratis.com.br/cp102042.pdf · podemos encontrar tanto na mitologia suméria quanto na grega e na romana. 14 Figura 1

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SOLANGE PEREIRA DINIZ FARACO

TEMPO AMIGO ou INIMIGO? Conceptualizaes metafricas de TEMPO no discurso de mulheres brasileiras

Tese apresentada Coordenao de Ps-Graduao em Letras da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obteno do grau de Doutor. rea de Concentrao: Estudos Lingsticos.

Orientador: Prof Dr SOLANGE COELHO VEREZA

Niteri, 2 semestre de 2008

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2

SOLANGE PEREIRA DINIZ FARACO

TEMPO AMIGO ou INIMIGO? Conceptualizaes metafricas de TEMPO no discurso de mulheres brasileiras

Tese apresentada ao Curso de Ps-Graduao em Letras da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obteno do Grau de Doutor. rea de Concentrao: Estudos Lingsticos.

BANCA EXAMINADORA

___________________________________________ Prof. Dr. Mara Sofia Zanotto (PUC/SP)

___________________________________________

Prof. Dr. Srgio Nascimento de Carvalho (UERJ)

____________________________________________ Prof. Dr. Vanda Maria Cardoso de Menezes (UFF)

____________________________________________

Prof. Dr. Marlene Gomes Mendes (UFF)

____________________________________________ Prof. Dr. Solange Coelho Vereza (UFF)

Niteri, 2008

3

RESUMO

A presente pesquisa investiga o conceito de tempo para a mulher

contempornea brasileira luz da teoria da Metfora Conceptual (LAKOFF e

JOHNSON, 1980/2002, 1999; KVECSES, 2001, 2005; LAKOFF, 1987, 1993,

2004, GIBBS e STEEN, 1994, entre outros). Com base nessa abordagem lingstico-

cognitiva da metfora, que sugere que os nossos conceitos so influenciados pelas

dimenses corporais, sociais e culturais, investigo as conceptualizaes de tempo e

suas possveis implicaes para mulheres brasileiras adultas, na faixa etria 48-58

anos, membros de dois subgrupos diferentes: mulheres habitantes de zona urbana e

mulheres habitantes de zona rural.

O corpus utilizado na presente investigao consiste em discurso feminino e

discurso voltado para o pblico feminino adulto e provm de trs diferentes fontes:

discurso miditico publicado em revistas voltadas para o publico feminino adulto

pertencente classe mdia; transcries de conversas gravadas em udio de 6

mulheres habitantes de uma cidade na regio serrana do Rio de Janeiro, durante

participao das mesmas em eventos sociais de leitura; e transcries de narrativas

de vida produzidas por 5 mulheres habitantes de zona rural do estado de Minas

Gerais, obtidas durante entrevistas semi estruturadas.

Os dados utilizados na pesquisa foram analisados com base em Cameron

(2003, 2006), Charteris -Black (2004, 2005) e Musolff (2004).

Algumas das metforas conceptuais inseridas so comuns aos trs tipos de

discurso, entretanto, as motivaes para essas metforas no so as mesmas.

Palavras-chave: metfora conceptual, metforas de tempo, metfora e cultura,

discurso feminino.

4

ABSTRACT

This research investigates the concept of time for the contemporary woman,

using the Conceptual Metaphor Theory (LAKOFF e JOHNSON, 1980/2002, 1999;

KVECSES, 2001, 2005; LAKOFF, 1987, 1993, 2004, GIBBS e STEEN, 1994,

and others) as theoretical foundation. Based on this cognitive linguistic approach to

metaphor, which suggests that our concepts are influenced by social and cultural

dimensions, I investigate the conceptualization of time and its potential implications

for Brazilian mature women, aged between 48-58 years old, living in urban and rural

areas.

The corpus used in this research consists of womens discourse and discourse

aimed at women and comes from three different sources: media texts published in

magazines whose readers are middle class adult women; the transcription of tape

recorded talk of 6 women during organized social reading events in a medium sized

town in the state of Rio de Janeiro; and the transcription of life histories produced by

5 women living in a remote rural area in the state of Minas Gerais, obtained during

semi-structured interviews.

The data used in the research were analyzed based on Cameron (2003, 2006),

Charteris-Black (2004, 2005) e Musolff (2004).

Some of the conceptual metaphors inferred are evidenced in the three types of

discourse, however, the motivation for those metaphors are not the same ones.

Key words: conceptual metaphor, time metaphors, metaphor and culture, womens

discourse.

5

Aos meus pais, MARCELLO e MARIA da GLRIA, e ao meu marido, PAULO ROBERTO.

6

AGRADECIMENTOS

Prof. Dr. Solange Coelho Vereza, minha orientadora neste trabalho, pela

generosidade com a qual compartilha o conhecimento, pelo incentivo, pela

dedicao que dispensou na orientao da minha pesquisa e pelas crticas e

sugestes valiosas que ajudaram a nortear o meu trabalho.

CAPES/MEC e Universidade Federal Fluminense, em especial Coordenao

de Ps-Graduao em Letras, pela oportunidade de concorrer a uma bolsa PDEE, e

ser aceita pela Universidade de Leeds, Inglaterra.

Prof. Dr. Alice Deignan, por me ter aceitado como pesquisadora visitante sob

sua orientao na Universidade de Leeds, Inglaterra.

s mulheres que participaram como sujeitos desta pesquisa, sem as quais esta

investigao no seria possvel, por sua pronta colaborao.

7

Diante de coisa to doida Conservamo-nos serenos Cada minuto de vida Nunca mais, sempre menos Ser apenas uma parte do no-ser e no do ser. Desde o instante em que se nasce J se comea a morrer. (O relgio Cassiano Ricardo)

8

SUMRIO

1 INTRODUO ............................................................................................ 12

1.1 Apresentao e justificativa ............................................................ 12

1.2 Objetivos ........................................................................................... 25

1.3 Organizao do estudo ..................................................................... 26

2 METFORA: DA TRADIO VISO CONTEMPORNEA ........ 28

2.1 A metfora na viso tradicional ....................... ............................ 28

2.2 A viso contempornea da metfora ............................................ 31

2.3 Tipos de metfora conceptual ....................................................... 41

2.4 Metfora e cultura ......................................................................... 42

3 METONMIA: A VISO CONTEMPORNEA ....................... ............. 50

4 CONCEITUANDO O TEMPO: FILOSOFIA E METFORA ............. 58

4.1 O tempo na filosofia ...................................................................... 59

4.2 Metforas de tempo ...................................................................... 65

4.2.1 TEMPO ESPAO ......................... .................................. 67

4.2.2 O TEMPO COMO MOVIMENTO ....................................... 70

4.2.2.1 O modelo do TEMPO EM MOVIMENTO ............ 71

4.2.2.2 O modelo do OBSERVADOR EM MOVIMENTO. 72

4.2.3 O TEMPO UM RECURSO .............................................. 74

4.3 O tempo e o senso comum ........................................................... 76

5 METODOLOGIA ....................................................................................... 78

5.1 Paradigma interpretativista ......................................................... 78

5.2 A tcnica introspectiva .................................................................. 79

9

5.2.1 O pensar alto em grupo ...................................................... 81

5.3 A entrevista .................................................................................... 83

5.3.1 A entrevista semi estruturada ............................................ 85

5.4 Descrio do corpus ....................................................................... 85

5.5 Contexto de pesquisa e a coleta de dados .................................... 86

5.6 Participantes da pesquisa ......................................... ..................... 87

5.7 Metodologia de anlise do corpus ................................................. 88

5.8 MIV (Identificao da metfora atravs do veculo).................... 88

5.9 Anlise crtica da metfora ..................................................... ....... 96

5.10 Cenrios .......................................................................................... 99

6 ANLISE: INVESTIGANDO METFORAS DE TEMPO NO DISCURSO

............................................................................................................................. 102

6.1 Discurso miditico .......................................................................... 103

6.1.1 Textos publicitrios ............................................................ 103

6.1.2 Textos reflexivos ................................................................ 111

6.2 Discurso oral urbano ..................................................................... 116

6.3 Discurso oral rural ......................................................................... 130

6.4 Discusso dos resultados ................................................................ 149

7 CONSIDERAES FINAIS ..................................................................... 155

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ........................................................... 159

10

APNDICES

Apndice 1.............................................................................................. 166

Apndice 2 ............................................................................................. 168

Apndice 3 ............................................................................................. 169

Apndice 4 ............................................................................................. 170

Apndice 5 .............................................................................................. 173

11

RELAO DE TABELAS:

TABELA 1 Domnios-fonte utilizados nas expresses lingsticas metafricas de TEMPO identificadas no discurso oral urbano ............................................... 116 TABELA 2 Domnios-fonte utilizados nas expresses lingsticas metafricas de TEMPO identificadas no discurso oral rural ................................................... 130

12

1 INTRODUO

1.1 Apresentao e justificativa

A presente pesquisa prope-se a investigar, a partir do discurso feminino e do

discurso voltado para a mulher adulta, as conceptualizaes de tempo por mulheres

brasileiras na faixa etria 48-58 anos, pertencentes a duas subculturas distintas.

Como este estudo constitui o fruto de um processo de reflexo, inicialmente no

terico-metodologicamente informado, acredito ser necessrio justific-lo, o que

passo, ento, a fazer.

A motivao para esta pesquisa surgiu h, aproximadamente, quatro anos,

quando completei 50 anos de idade. Esse fato, para minha surpresa, teve um certo

impacto sobre mim. Sempre refleti sobre a noo de tempo e essa sempre se

apresentou, para mim, como uma incgnita. Mas parece que, ao entrar na faixa dos

50, eu passei a pensar mais freqente e intensamente sobre o assunto. Passei a

pensar mais sobre o tempo que j vivi e sobre como normalmente uso o meu tempo,

a prestar mais ateno nos efeitos do tempo sobre o meu corpo e tambm a tentar

administrar melhor o tempo que tenho ou que penso ter pela frente; a impresso

de que o tempo tem passado mais rapidamente. Em outras palavras, o meu olhar

diante do tempo mudou, passei a v-lo e a problematiz-lo de forma diferente e, de

um modo geral, a preocupar-me mais com ele. Entretanto, posso observar tambm

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que essa preocupao com o tempo no s minha, mas comum a todas as minhas

amigas na minha faixa etria. Seria ento essa uma questo intrnseca idade?

Talvez fruto do medo de se estar chegando no incio da reta final?

Esse meu novo olhar diante do tempo me levou a querer investigar o assunto

mais sistematicamente e, por isso, passei a pesquisar e ler mais sobre o tema. Foi

ento que me dei conta de que a preocupao do ser humano com o tempo de vida e

sua vontade e empenho em prolong-lo so fenmenos que podem ser verificados

em registros histricos, que remontam antiguidade.

A busca da fonte da juventude, por exemplo, algo que, desde a antiguidade,

esteve presente na mente dos homens. Registros histricos nos informam que a

lenda das guas que curam males ou rejuvenescem as pessoas que delas bebem ou se

banham surgiu na ndia h milnios. Depois, mercadores fizeram-na atravessar

continentes, oceanos e, atravs dos sculos, a lenda adquiriu variadas verses. E,

ainda nos dias de hoje, continua fascinando o homem moderno (PEREIRA, 2002).

Existe um quadro famoso do pintor alemo, Lucas Cranach, o Velho, que a

representou como uma piscina repleta de banhistas. Trata-se de uma grande piscina

ladeada de degraus. sua esquerda, pessoas idosas e doentes chegam em carroes

e padiolas. Entram na gua e ento se d o milagre do rejuvenescimento. Os sinais

do tempo se perdem e elas voltam a ser jovens e sadias. Dessa forma, Cranach

tocava num dos grandes mitos da humanidade, um tema sempre presente, que

podemos encontrar tanto na mitologia sumria quanto na grega e na romana.

14

Figura 1. A fonte do rejuvenescimento. Lucas Cranach (1472-1553).

Na mais antiga obra literria conhecida, o famoso livro sumrio Gilgamesh,

datado do 3 milnio a.C., o heri, Gilgamesh, procura uma fonte milagrosa que

promova a cura do corpo e o torne imortal. Pausnias, um gegrafo e historiador

grego do 2 sculo d.C., misturando lenda e realidade, fala sobre a existncia de uma

fonte chamada Calatos, situada no Peloponeso, na qual a deusa Hera se banhava

para parecer sempre jovem e bela a Zeus, seu marido.

A mitologia romana diz que Jpiter, o deus dos deuses, transformou a ninfa

Juventa em uma fonte cuja gua devolvia a mocidade; donde surgiu a palavra

juventude. Mas Jpiter escondeu a fonte, e ningum sabia onde ela ficava.

Alexandre, o Grande, procurou a fonte da juventude na verdade, no seu

caso, o rio da imortalidade durante sua campanha na ndia.

Na literatura inglesa do sculo XIX, O retrato de Dorian Gray, do escritor

Oscar Wilde, retrata um personagem disposto a qualquer ato, at mesmo vender sua

prpria alma, para que sua aparncia continue jovem e bela.

Em suma, de um modo geral, a maioria dos povos sempre apelou para a

fantasia quando procurava a fonte da juventude. Alguns pensaram encontrar a

juventude em longnquas ilhas, outros em rios caudalosos e at mesmo em extratos

especiais de testculos de ces. Dentro de uma perspectiva mais racional, a

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longevidade vista como dependente de uma rotina sem excessos e disciplinada.

Mas parece que houve sempre, entre os homens, uma vontade de parar o tempo.

Isso, pelo fato de o tempo ser o portador da morte (a "indesejada")1 ou aquele que

deixa suas marcas concretas no corpo: o envelhecimento.

Segundo Azevedo (1998), o envelhecimento ao do tempo sobre o

organismo tem sido sim uma preocupao constante do homem em todos os

tempos. Em nossa sociedade o homem rejeita o envelhecimento, no se

conformando com a sua evidncia. A assim chamada "terceira idade", como aponta

o autor, desperta sentimentos negativos, como a piedade, o medo e o

constrangimento.

De acordo com Silveira (2002), o envelhecime nto, embora marcado por

mudanas biolgicas visveis mudanas essas que ocorrem com o tempo

tambm cercado por determinantes sociais que tornam as concepes sobre velhice

variveis de cultura para cultura, de poca para poca. Desse modo, fica evidente,

segundo a autora, a impossibilidade de pensarmos sobre o que significa ser velho,

fora de um contexto histrico determinado. Sem dvida, parece-me correto

afirmarmos que uma das marcas da cultura contempornea a criao de etapas no

interior da vida adulta ou no interior desse espao de tempo que separa a juventude

da velhice (ou da morte) como "meia-idade", "idade da loba", "idade madura", a

"terceira idade", a "aposentadoria ativa". Seja como for, todas essas expresses tm

pelo menos duas razes de ser: uma delas o mercado de consumo para cada uma

das etapas, a outra a tentativa de quebrar preconceitos.

1 Denominao dada morte pelo jornalista Rodrigo Fonseca em um artigo publicado no jornal O Globo (5/11/2005), intitulado O xeque-mate da indesejada. Segundo Fonseca, a morte ("o fim do nosso tempo de vida") um tema eterno, presente em todas as culturas. Ela democrtica, pois apesar de terrvel, universal, niveladora, indiferente a monarcas e camponeses, santos e assassinos. Mesmo assim, "a indesejada das gentes". Essa denominao tambm foi dada morte por Manuel Bandeira, em 1953, quando esse escreveu o poema Consoada, que assim comea: Quando a indesejada das gentes chegar/ (No sei se dura ou corovel), / Talvez eu tenha medo./ Talvez sorria ou diga: /-Al, iniludvel! / O meu dia foi bom, pode a noite descer. / (A noite com os seus sortilgios.)/ Encontrar lavrado o campo, a casa limpa, / A mesa posta, / Cada coisa em seu lugar.

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Se formos pensar a partir de uma perspectiva histrica, comprovaremos a

viso de Silveira (2002) de que o significado de "velho" e sua conseqente

problematizao muda com o tempo. Muito provavelmente, esse fato se d devido

alterao da expectativa de vida das pessoas e melhoria da qualidade de vida do

idoso, pelo menos na populao de classe mdia.

Uma moa de 16 anos retratada como "solteirona idosa" em um romance de

Bernard Cornwell The last kingdom passado no sculo IX, onde hoje a

Inglaterra. Um grande nmero de romances escritos no sculo XIX (A Moreninha de

Joaquim Manoel de Macedo; Senhora e A Viuvinha de Jos de Alencar, entre outros)

tm como protagonistas mulheres jovens, algumas ainda adolescentes e outras recm

sadas da adolescncia. O que essas histrias tm em comum a faixa etria (final

da adolescncia) apontada como idade ideal para que as moas se casassem, pois

passada essa poca elas j seriam consideradas "maduras". A minha av, que se

casou aos 18 anos em 1910, sempre nos contava que, antes de conhecer o meu av,

sua grande preocupao era com "a idade que j estava chegando" e com o fato de

ela ainda no ter se casado.

A partir das dcadas de 60 e 70, parece ter incio um processo de valorizao

de faixas etrias antes estigmatizadas por estarem distantes da juventude: as

chamadas balzaquianas mulheres "maduras" na faixa dos 30 anos ganharam

evidncia nessas dcadas, sobretudo na mdia. O timo para esse vocbulo foi

fornecido pelo escritor francs Honor de Balzac, a partir de um de seus romances,

intitulado A mulher de trinta anos, no qual delineou o perfil de uma figura feminina

que soube caracterizar num misto de seduo e madureza.

A "idade da loba", a mulher de 40, foi tematizada e valorizada na dcada de

90 no Brasil. H inclusive um livro de autoria de Regina Lemos, intitulado Quarenta

A idade da Loba, publicado naquela dcada. Essa obra consiste em uma coletnea

de depoimentos de 97 mulheres de todo o pas, que viveram sua juventude nos

rebeldes anos 60, mudando padres de comportamento e que revelam autora como

elas estavam encarando as transformaes fsicas e emocionais da "meia-idade".

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Recentemente, venho observando que o foco atual a mulher de 50. Vale

lembrar que uma novela de grande audincia, veiculada pela rede Globo, no incio

de 2005 Senhora do Destino tinha como protagonista (a personagem Maria do

Carmo, interpretada pela atriz Suzana Vieira) uma mulher madura, na faixa dos 50

anos. Em meados de 2006, o autor Manoel Carlos escreveu um outro folhetim de

grande audincia Pginas da Vida que tinha como uma das personagens

principais (a personagem Helena , interpretada pela atriz Regina Duarte) uma mdica

bem sucedida na faixa dos 50 anos. A ltima novela veiculada no horrio nobre pela

rede Globo (Duas Caras) apresentava vrias personagens femininas de destaque na

faixa dos 50 anos as personagens interpretadas pelas atrizes Marlia Pra, Suzana

Vieira, Renata Sorrah e Marlia Gabriela.

A mulher de 50 ainda no designada por um termo especfico, mas

freqentemente lembrada e tematizada na mdia com reportagens que versam sobre

"a vida aos 50". Tais artigos parecem nos querer lembrar que os 50 anos constituem

um marco importante em nossas vidas e que chegou a hora de fazermos um balano

do tempo que j vivemos, e de planejarmos, da melhor maneira possvel, o tempo

que ainda temos.

A revista Veja publicou h algum tempo (31/08/2005) uma edio especial

sobre "a melhor idade", cuja reportagem de capa foi intitulada A vida depois dos 50.

Nesse artigo, o autor escreve sobre "alguns dos profissionais mais respeitados do

pas entre 52 e 88 anos de idade, que falam sobre o que envelhecer e de seus

planos para o futuro". Ou seja, os 50 anos parecem ser mesmo vistos como o incio

do envelhecimento e o mo mento propcio para planejar essa fase da vida. Os

depoimentos dos profissionais entrevistados nos apresentam algumas vises

reveladoras sobre essa faixa de idade. Uma das entrevistadas, de 53 anos, ao ser

perguntada sobre a vida depois dos 50, respondeu que "Fazer 50 no foi marcante.

s um nmero. Mas sinto falta da energia dos 20". Uma outra profissional, de 55

anos, respondeu: "Tenho muitas alegrias no mbito pessoal e profissional, mas

conflitos diante das perdas fsicas e frustraes".

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Nesse artigo, de um modo geral, as mulheres na faixa dos 50 anos mostram-

se satisfeitas quanto experincia acumulada ao longo dos anos e, de certa forma,

valorizam a idade, atribuindo-lhe maturidade, cometimento, maior tolerncia e

segurana para realizar projetos profissionais e lidar com problemas em geral. Por

outro lado, assim como as profissionais citadas acima, outras tambm se mostram

incomodadas com a falta de energia tpica da juventude e com perdas fsicas

ambas marcas do efeito do tempo sobre o organismo .

Entretanto, dos homens na faixa dos 50 anos que prestaram depoimento sobre

a idade, apenas um deles revelou "ter largado o cigarro deliberadamente com o

intuito de se cuidar mais ". Os outros depoimentos so curiosos, uma vez que trs dos

entrevistados declararam que os 50 anos lhes trouxeram jovialidade: "...tive mais

dois filhos, que me trouxeram uma jovialidade extraordinria"; "Trouxe-me

rejuvenescimento. Fui pai de um casal de gmeos no ano passado"; e "Passei to

animado e jovem pelos 50 que me casei de novo". Ser que o homem se sente mais

jovem do que a mulher pelo fato de ainda se encontrar em fase reprodutiva? Ou ele

faz questo de reproduzir nessa idade para se afirmar como jovem? De qualquer

forma, a maior parte das mulheres na faixa dos 50 no mais capaz de reproduzir,

fato que as torna diferentes das mulheres jovens e dos homens na mesma faixa etria

que elas.

Nessa reportagem, os depoimentos das mulheres na faixa dos 50 apontam

para uma tentativa de valorizar a idade que normalmente desvalorizada

(enaltecendo a experincia acumulada ao longo dos tempos) e para uma

preocupao com limitaes fsicas que realmente existem que podem interferir

na vida das pessoas.

Por outro lado, uma grande quantidade de artigos publicados, principalmente

em revistas voltadas para o pblico feminino adulto de classe mdia, assim como as

propagandas veiculadas pelo mesmo tipo de publicao, evidenciam uma

preocupao excessiva com rugas e "marcas de expresso". Vale observar que, esse

tipo de efeito do tempo sobre nosso corpo no interfere no nosso cotidiano, ao

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contrrio das limitaes fsicas. Atribuo essa preocupao valorizao da

juventude, do corpo jovem e ao preconceito contra a velhice (conseqncia

inevitvel do tempo que no pra). E, curiosamente, essa preocupao parece estar

muito mais vinculada ao universo feminino do que ao masculino. Pelo menos o

que retrata a mdia. A maior parte dos textos publicitrios encontrados na mdia

voltada para a mulher madura so anncios de cosmticos ou clnicas de

rejuvenescimento que prometem apagar os efeitos malficos causados no nosso

corpo pelo tempo.

Por outro lado, revistas masculinas tais como Estampa (revista publicada pelo

Valor Econmico, um jornal lido principalmente por homens de classe mdia) e

Quatro Rodas (outra revista dirigida ao pblico ma sculino dessa mesma classe

scio-econmica), veiculam propagandas de canetas, celulares, bancos, cartes de

crdito, companhias areas, vinhos e, s vezes, perfumes. As empresas de

cosmticos, que investem em produtos antienvelhecimento, tm como principal

pblico-alvo mulheres adultas. So muito poucas as que produzem e divulgam

produtos rejuvenescedores voltados para os homens.

Dito isto, importante lembrar que, como aponta Sarup (1996), vrias teorias

nos informam que a nossa identidade determinada por fatores externos a ns. De

acordo com essas teorias, as instituies possuem um papel crucial na determinao

da identidade: a famlia, a escola, o local de trabalho e, cada vez mais ativamente, a

mdia. E, segundo Bakhurst e Sypnowich,

Somos seres situados em um ambiente cultural, em comunidade com outros tais seres. Somos seres pensantes, mas nossos pensamentos so nutridos e sustentados por este ambiente cultural e seu carter deriva dele. (BAKHURST & SYPNOWICH, 1995:5)

Assim sendo, dentro dessa perspectiva , entendo que, se nossa identidade

influenciada pela sociedade e pela cultura, da mesma forma o so nossas crenas,

valores e angstias. Desse modo, a cultura e a sociedade em que vivemos

20

incluindo as instituies sociais, como a mdia, que, a todo o momento, aponta para

os efeitos do tempo sobre o nosso corpo seriam, em grande parte, responsveis

pela nossa preocupao em relao ao tempo e sua ao.

Tenho observado, entretanto, que o tempo no problematizado apenas como

agente de envelhecimento. Ele tambm pode ser visto como um bem precioso e

escasso. Percebo, freqentemente, no discurso cotidiano de mulheres de classe

mdia na minha faixa etria, a presena de falas como: "no tenho tempo para nada",

"no posso perder tempo", "meu tempo precioso", "h uma total falta de tempo",

"assim posso ganhar tempo", "preciso rever o uso do meu tempo", "essa atividade

consome muito tempo", "hoje no consegui fazer nada, s perdi tempo", "o tempo

me parece faltar cada vez mais nesses dias agitados". A preocupao com o "recurso

escasso tempo" na sociedade urbana contempornea tal que alguns livros contendo

conselhos sobre como administrar esse recurso j foram publicados. Um exemplo

desse tipo de publicao o livro Reengenharia do tempo, de Rosiska Darcy de

Oliveira, que aponta como principal causa da escassez do tempo para a mulher

contempornea o fato de ela, alm de ter ingressado no mercado de trabalho,

continuar sendo a nica ou principal responsvel pelas tarefas domsticas e criao

dos filhos. Outras publicaes desse gnero so: Voc, dona do seu tempo, de C.

Barbosa (especialista em produtividade pessoal e empresarial), que trata de temas

como mais tempo para o trabalho, a famlia, a casa e o relacionamento;

Gerenciamento de Tempo, de Melissa Raffoni; e Sem tempo para nada: Vencendo a

epidemia da falta de tempo, de Edward M. Hallowell.

Um outro fato que reflete a preocupao da mulher com a escassez do tempo

a freqncia com que recebo e- mails de amigas abordando esse assunto.

Recentemente, uma amiga me enviou um resumo de um livreto escrito em 1992,

intitulado Administrao do tempo (MOURO, 1992). De acordo com esse resumo,

administrar o tempo uma questo de definir prioridades e decidir com o que voc

vai usar o seu tempo, se com o que importante ou o que urgente. Segundo o

autor, no somos donos de todo o nosso tempo. Quando aceitamos um emprego, por

21

exemplo, estamos nos comprometendo a ceder a outrem o nosso tempo. Ele

prossegue dizendo que h os que afirmam, hoje, que o recurso mais escasso na

nossa sociedade no o dinheiro, no so matrias primas, no energia, no nem

mesmo inteligncia: o tempo. Mas tempo se ganha, deixando de fazer coisas que

no so nem importantes nem urgentes. O autor conclui dizendo que quando nosso

tempo termina, acaba nossa vida. No h maneira de obter mais. Por isso, tempo

vida. Quem administra o tempo ganha vida, mesmo vivendo o mesmo tempo

(MOURO, 1992).

Em suma, a princpio, essa escassez e busca de tempo, estariam vinculadas

apenas ao universo masculino, uma vez que, at alguns anos atrs, o mercado de

trabalho, com exceo de algumas poucas profisses, era ocupado quase que

exclusivamente pelos homens. Isso, no que diz respeito classe mdia. As mulheres

desse estrato scio-econmico normalmente se ocupava m dos afazeres domsticos e

da famlia, enquanto seus maridos eram os nicos responsveis pelo sustento da

casa. Entretanto, com a entrada da mulher no mercado profissional, essa viso de

tempo passou a fazer parte tambm do universo feminino. At recentemente, esse

tipo de publicao sobre administrao do tempo, era escrito por homens e voltado

para leitores do sexo masculino preocupados em maximizar o tempo de trabalho,

pois o tempo, para esses profissionais, fator primordial para medir e estabelecer a

produtividade, fora motriz da moderna noo de trabalho. No entanto, atualme nte,

h vrias publicaes desse tipo que foram escritas por e para mulheres, como o

caso dos livros de Oliveira, Barbosa e Raffoni mencionados acima. Constatamos,

ento, que a mulher madura, tendo entrado efetivamente no mercado de trabalho,

sofre presses do tempo no que diz respeito tanto sua ao quanto sua gesto.

Um artigo da jornalista Cssia Almeida publicado no jornal O Globo em

16/10/2005 vem confirmar essa constatao. No referido artigo, intitulado A

Desigualdade no Relgio, a jornalista nos informa, com base em uma pesquisa

realizada pela sociloga Neuma Aguiar, da Universidade Federal de Minas Gerais,

que a carga de trabalho da mulher de 5% a 62% maior que a do homem. O estudo

22

realizado pela sociloga registrou em minutos a "dupla jornada feminina". Segundo

Almeida, "com um relgio na mo foi possvel verificar a desigualdade que aflige a

mulher brasileira". A pesquisadora constatou que, durante a semana, a jornada diria

da mulher de 502 minutos, 5% maior que a do homem, que trabalha 480 minutos.

No fim de semana, a diferena dispara. Enquanto a carga masculina de 201

minutos, a da mulher de 326 62% maior. A pesquisa tambm mostrou que em

qualquer comparao a diferena se mantm. Em casais com ou sem filhos, quem

faz a maior parte do servio domstico a mulher.

Assim sendo, uma primeira reflexo mais atenta sobre a questo com que

vinha me deparando o tempo levou-me a identificar duas dimenses principais

que parecem canalizar a preocupao das mulheres da minha faixa etria e classe

social com o tempo. Por um lado, o tempo preocupa pelos seus efeitos no corpo, sob

a forma do que visto como envelhecimento. Por outro, o tempo uma varivel

escassa que precisa ser bem administrada para que possamos desempenhar nossas

funes domsticas e profissionais. E, em ltima instncia, o tempo relaciona-se

com a vida e seu oposto: ele que nos leva morte.

Se observarmos atentamente essas duas vises, perceberemos que elas podem

ser agrupadas em duas conceituaes de tempo. A primeira seria uma viso de

tempo como inimigo, que age negativamente sobre o corpo da mulher madura e,

conseqentemente, deve ser combatido. A segunda seria uma viso de tempo como

recurso/bem escasso e necessrio, o qual devemos administrar, gerir, economizar e

investir para que ele renda mais. Ou seja, nos dois casos a nossa viso do tempo

parece ser metaforicamente construda.

Assim, para investigarmos mais aprofundadamente a viso de tempo de

mulheres maduras, questo que se torna aqui objeto de investigao de uma pesquisa

de doutoramento, faz-se necessrio compreendermos justamente essa dimenso

metafrica do tempo. Desse modo, a seguir, discutirei, brevemente, a viso

contempornea da metfora, para que os objetivos especficos desta pesquisa, que

sero apresentados na prxima seo, fiquem mais claros.

23

Uma rpida pesquisa na literatura sobre essa questo (Metfora e Tempo) nos

leva viso de metfora introduzida formalmente por Lakoff & Johnson em sua

obra seminal Metaphors we live by (1980/2002). Essa viso desenvolveu-se no que

hoje conhecido como "teoria da metfora conceptual", que aborda a metfora sob

uma nova tica que se tornou conhecida como uma "viso lingstico-cognitiva"

(KOVECSES, 2002: VII), mudando o status da metfora de uma simples figura de

retrica para o de uma operao cognitiva fundamental (ZANOTTO et al., 2002).

Ou seja, o "locus" da metfora, segundo Lakoff e Johnson (1980/2002), no

a linguagem, mas sim o pensamento. A metfora parte indispensvel da nossa

maneira convencional e comum de conceptualizar o mundo, e nosso comportamento

cotidiano reflete nossa compreenso metafrica da experincia. Nesse processo,

conceitos abstratos presentes no nosso cotidiano, tais como tempo, estados,

mudanas, causa, e propsito tambm se mostram metafricos.

Como a idia abstrata de tempo ocupa uma posio central em nossas vidas,

como pudemos observar no relato feito at agora, ela conceptualizada de vrias

maneiras diferentes, uma vez que temos vrias experincias diferentes de tempo. E

segundo a teoria da metfora conceptual (LAKOFF & JOHNSON, 1980/2002), essas

diferentes conceptualizaes consistem em mapeamentos metafricos baseados em

domnios concretos que experienciamos em nossa cultura ou subcultura. Ou seja, a

cultura tambm tem um papel importante nas representaes metafricas de tempo,

assim como de vrios outros conceitos abstratos.

Em outras palavras, de acordo com a viso lingstico-cognitiva da metfora,

ns compreendemos conceitos abstratos (por exemplo: tempo, amor, vida) por meio

de mapeamentos metafricos de domnios-fonte baseados em experincias fsicas ou

sociais que ocorrem dentro de uma determinada cultura ou subcultura. Ou seja, para

conceptualizar tais domnios abstratos ns os relacionamos a conceitos concretos

com os quais temos uma experincia mais direta. Isso feito atravs de um

mapeamento entre domnios, estabelecendo conexes entre os elementos de um

domnio conceitual mais abstrato, o domnio-alvo, e os elementos correspondentes

24

de um domnio mais concreto, o domnio-fonte. Assim sendo, o domnio-alvo o

domnio que ns tentamos compreender atravs do uso do domnio-fonte (LAKOFF

& JOHNSON,1980/2002; LAKOFF, 1993; KOVECSES , 2002).

Esse mapeamento trans-domnio revelado na linguagem utilizada pelas

pessoas ao falarem sobre o conceito abstrato. Ou seja, expresses lingsticas

metafricas (palavras ou expresses lingsticas provenientes de um domnio

conceitual mais concreto) podem indicar o mapeamento metafrico subjacente, uma

vez que a metfora conceptual no ocorre na linguagem explicitamente, mas subjaz,

conceitualmente, a expresses metafricas explcitas (LAKOFF &

JOHNSON,1980/2002; LAKOFF, 1993; KOVECSES, 2002). Utilizarei, como exemplo,

minhas prprias palavras usadas para falar sobre tempo no incio desta apresentao:

"tentar administrar melhor o tempo que tenho ou que penso ter pela frente". O fato

de eu ter usado palavras como administrar e ter (expresses lingsticas

metafricas) indica que a minha compreenso de tempo em termos de um conceito

mais concreto um recurso. Da a metfora conceptual TEMPO UM BEM DE

CONSUMO .

Do mesmo modo, o uso de marcas lingsticas tais como uma nova arma

contra o envelhecimento, XXX ajuda a combater os efeitos do tempo e

preciso deter a ao do tempo (marcas lingsticas encontradas em propagandas de

cosmticos para mulheres adultas) nos levam a acreditar que a metfora conceptual

subjacente seria O TEMPO UM INIMIGO (A SER VENCIDO ).

A abordagem terica em questo, como apontam Lakoff & Johnson

(1980/2002), advoga a idia de que os conceitos que governam nosso pensamento,

tambm governam nossa atividade cotidiana. Eles influenciam como ns

percebemos o mundo, e at mesmo o que ns percebemos, a maneira como nos

comportamos e o modo como nos relacionamos com outras pessoas. Devo admitir

que o conhecimento desse fato contribuiu bastante para a minha deciso de

investigar o conceito de tempo para mulheres na minha faixa etria. Pois, assim

como Kvecses (2002), acredito que tentar compreender que metforas conceptuais

25

de tempo as pessoas possuem significa tentar entender uma parte vital de quem ns

somos e em que tipo de mundo vivemos. Tambm entendo que esta investigao

pode me ajudar a comp reender como as metforas conceptuais de tempo

influenciam a vida das mulheres ou, o contrrio, como a vida das mulheres

influencia suas conceptualizaes de tempo.

Assim sendo, por uma hiptese ainda no teoricamente informada e com base

na abordagem lingstico-cognitiva da metfora, que sugere que os nossos conceitos

so influenciados pelas dimenses sociais e culturais, acredito que a viso de tempo

que compartilho com outras mulheres na minha faixa etria e habitantes de zona

urbana no , necessariamente, a mesma de mulheres membros de uma outra

subcultura. Investigar essa hiptese um dos objetivos do presente estudo.

1.2 Objetivos

A questo central desta pesquisa investigar como mulheres na minha faixa

etria conceptualizam o tempo e se essa conceptualizao dialoga com as

conceptualizaes de tempo que podem ser inferidas no discurso miditico voltado

para essas mulheres. A hiptese levantada acima, de que a viso de tempo

compartilhada por mulheres de subculturas diferentes pode no ser a mesma,

tambm constitui objeto de investigao deste estudo. Portanto, tendo como suporte

epistemolgico a teoria da metfora conceptual, as perguntas que norteiam a minha

pesquisa so:

1. Que metforas conceptuais sobre o tempo fundamentam o discurso miditico

voltado para mulheres brasileiras adultas de classe m dia?

26

2. Que metforas conceptuais sobre o tempo subjazem ao discurso de mulheres

brasileiras, de classe mdia, na faixa etria de 50 anos? Como essas metforas

se articulam s metforas inferidas e m "1"?

3. Haveria diferena entre as metforas conceptuais e/ou suas marcas

lingsticas no discurs o de mulheres de diferentes subculturas mulheres

habitantes de zona urbana e mulheres habitantes de zona rural?

1.3 Organizao do estudo

Este trabalho se divide em sete captulos, que abrangem o corpo terico assim

como a metodologia utilizada na investigao, a metodologia de anlise, a anlise

propriamente dita e a discusso dos resultados.

No captulo dois, trao uma comparao entre as vises da metfora

tradicional e da metfora conceptual. Nesse mesmo captulo tambm discuto a

relao entre metfora e cultura dentro da abordagem da metfora conceptual. Ou

seja, qual seria o papel da cultura no desenvolvimento de conceitos metafricos.

No terceiro captulo, discuto o conceito de metonmia luz da teoria

cognitiva.

O quarto captulo versa sobre as diversas conceituaes de tempo.

Inicialmente, abordo o tema sob uma perspectiva filosfica, introduzindo vises de

tempo segundo Santo Agostinho, Aristteles, Kant e outros filsofos. A seguir,

apresento uma reviso das metforas conceptuais de tempo encontradas na literatura.

Por fim, discuto algumas metforas de tempo, informadas pelo senso comum,

encontradas na mdia voltada para mulheres brasileiras adultas de classe mdia .

O quinto captulo trata do contexto de pesquisa e da metodologia utilizada na

presente investigao. Assim, apresento uma breve discusso sobre o paradigma

interpretativista de pesquisa e, dentro desse, discuto o evento social de leitura e a

27

entrevista, instrumentos de coleta de dados utilizados neste estudo. Uma descrio

resumida dos sujeitos de pesquisa tambm apresentada nesse captulo, assim como

os contextos de coleta de dados. O captulo cinco tambm versa sobre a metodologia

de anlise do corpus, portanto, discuto trs metodologias desenvolvidas para

pesquisar metfora em discursos produzidos em situaes reais de uso da lngua e

suas respectivas unidades de anlise.

O captulo seis apresenta a anlise dos dados, ou seja, uma discusso das

metforas de tempo (marcas lingsticas e suas metforas conceptuais subjacentes)

identificadas no discurso miditico e nas transcries das falas resultantes dos

eventos sociais de leitura e das entrevistas. Ainda no captulo seis, discuto os

resultados da anlise, procurando estabelecer uma articulao entre as constataes

feitas a partir da anlise dos trs diferentes tipos de discurso que compem o corpus.

No captulo sete, intitulado Consideraes Finais, sumarizo e re-discuto as

constataes feitas durante a investigao, agora, tendo em vista as possveis

projees que podem advir deste trabalho.

Os apndices reproduzem o material utilizado por parte dos

participantes para a realizao dos eventos sociais de leitura e apresentam amostras

do processo de anlise do corpus .

28

2 METFORA: DA TRADIO VISO CONTEMPORNEA

Neste captulo abordarei, inicialmente, a viso tradicional de metfora

iniciada com Aristteles h 2400 anos. A seguir, discuto a teoria contempornea da

metfora conceptual. Na terceira subseo, apresento os diferentes tipos de metfora

dentro dessa viso contempornea. Na ltima subseo exploro a relao entre

metfora e cultura, ilustrando-a com alguns exemplos de metforas conceptuais

presentes em nosso cotidiano.

2.1 A metfora na viso tradicional

O conceito tradicional de metfora tem origem no sculo IV a.C., na tradio

retrica iniciada com Aristteles. A metfora, como todas as outras figuras de

linguagem, seria um recurso lingstico com motivao fundamentalmente potica

ou retrica; em outras palavras, um ornamento lingstico. A partir do uso de um

determinado tropo, um sentido literal seria "desviado" atravs de palavras, imagens,

frases ou expresses para que um determinado significado fosse alcanado. A

metfora seria, ento, considerada uma linguagem prpria de linguagens especiais,

como a potica e a persuasiva e, ainda de acordo com a viso aristotlica, o uso da

metfora seria indesejvel no discurso cientfico, que deveria se utilizar da

29

linguagem literal, considerada, ento, clara, precisa e determinada. Nessa viso,

portanto, a cincia se faria com a razo e o literal, enquanto a poesia se faria com a

imaginao e a metfora (ZANOTTO et al., 2002).

Para explicar melhor essa questo, me parece adequada uma breve discusso

da idia aristotlica de sentido literal, idia essa advinda de sua teoria do

conhecimento. Como apontam Lakoff e Johnson (1999), segundo a perspectiva

epistemolgica de Aristteles, o nosso conhecimento resultado da nossa

capacidade de apreendermos a essncia das coisas como elas realmente existem no

mundo. Assim sendo, nossas idias no apenas correspondem s coisas no mundo,

mas elas realmente so as essncias das coisas no mundo. Em outras palavras, as

idias so aspectos do mundo fsico. E para que possamos expressar e comunicar

essas idias, precisamos lanar mo de uma linguagem convencional cujas

expresses lingsticas designem, de maneira correta e adequada, as idias. Ou seja,

deve haver uma correspondncia perfeita entre as expresses lingsticas e as idias

por elas expressas. Isso nos leva, segundo Lakoff e Johnson (ibid.), teoria

aristotlica do sentido literal: "Cada termo designa corretamente pelo menos uma (e

talvez mais de uma) idia, a qual, por sua vez, consiste em uma forma que

caracteriza uma essncia no mundo" (LAKOFF & JOHNSON, 1999:382).

Em suma, quando os termos lingsticos so utilizados para designar o que

eles devem, convencionalmente, designar, o sentido literal. E na viso de

Aristteles, o conhecimento cientfico no pode ser comunicado se os termos no

so utilizados em seu sentido literal.

Passo agora a discutir a viso aristotlica de metfora, viso essa que,

segundo vrios autores (FILIPAK, 1983; RICOEUR, 1994, LAKOFF E JOHNSON, 1999)

perdura h aproximadamente 2500 anos.

Como aponta Filipak (1983), aps Aristteles, vrios estudiosos (Konrad,

Bhler, Guiraud, Fontanier, Cohen, Richards, Black, Beardsley, entre outros)

desenvolveram inmeros postulados, proposies e teorias sobre a metfora.

Entretanto, esses demais enfoques vm apenas esclarecer, explicitar, reanimar e

30

complementar a viso de metfora de Aristteles, que constitui a grande novidade

metafrica. Foi Aristteles, segundo Ricoeur (1994), que, na verdade, definiu a

metfora para toda a histria subseqente do pensamento ocidental, fundamentado

em uma semntica que toma a palavra, ou o nome, como sua unidade bsica. Ou

seja, a metfora consiste em um dos procedimentos da lxis (a expresso). E sua

anlise se situa no ponto de encontro entre duas disciplinas a retrica e a potica

com dois objetivos distintos: a persuaso no discurso oral, a retrica; e a mimsis

(imitao) da ao humana na potica trgica.

METAPHOR (METFORA), em grego, meta = trans + pherein = levar,

uma mudana, transposio; mudana de sentido prprio para figurado. Aristteles,

na Potica, define a metfora tanto para a retrica quanto para a potica da seguinte

maneira:

A metfora consiste em dar a uma coisa um nome que pertence a uma outra; tal transferncia pode ser do gnero para a espcie, da espcie para o gnero, da espcie para a espcie e, por fim, pela relao de analogia (RICOEUR, 1994:13).

Aristteles tomou a semelhana como base geral para o uso metafrico da

linguagem. Para ele, a razo primria para se usar o nome de uma coisa para

designar um outro tipo de coisa simplesmente estabelecer alguma semelhana

entre as duas coisas. Entretanto, sob o rtulo de metfora, o filsofo grego designa

toda a sorte de transposies, tanto as que se inspiram nas relaes de similaridade

quanto nas de contigidade. (FILIPAK, 1983, RICOEUR, 1994).

Em outras palavras, para Aristteles, a metfora uma epfora, ou seja, uma

espcie de deslocamento, transferncia, movimento de ... at ... E esse cruzamento

de espcies fundamentado no conceito aristotlico se processa da seguinte maneira:

1. Transferncia do gnero para a espcie: toma parte pelo todo, particular pelo

geral, menos pelo mais. Exemplos: Vela por barco, teto por casa. (sindoque

particularizante)

31

2. Transferncia da espcie para o gnero: vai do particular para o geral, da

parte para o todo, do menos para o mais. Exemplo: Tomar mortais por homens.

(Sindoque generalizante)

3. Transferncia de espcie para espcie: consiste em uma transnominao de

objetos ou passagem de um nome para outro; um objeto designado por outro

que tem com o primeiro uma relao de causa e efeito, de continente e

contedo e de produtor e produto. Exemplo: Tomar uma San Pellegrino.

(Metonmia)

4. Uma transposio, uma substituio de um nome pelo outro, cujas bases se

estribam nas relaes de similaridade. a metfora que se apia na analogia.

Exemplo: A tarde a velhice do dia, a velhice a tarde da vida. (Metfora

analgica) (FILIPAK,1983).

Em suma, a metfora, ao dar coisa um nome que pertence outra, vale-se

do desvio, da substituio. Ela se define em termos de epfora entendida como

deslocamento. Esse deslocamento, em Aristteles, aplica-se tambm metonmia e

s sindoques, como visto acima . A metfora, para Aristteles, lingstica. Um

mero uso desviante de palavras para se atingir um determinado efeito.

Como conseqncia dessa viso tradicional, at recentemente, a metfora era

vista pela maioria dos lingistas, filsofos e outros pesquisadores da linguagem

como uma singularidade lingstica, posicionada fora do espectro de interesse desses

estudiosos. Estudos metafricos eram considerados como sendo da alada de crticos

literrios ou estudiosos da retrica e no eram vistos como merecedores de ateno

por parte dos lingistas.

2.2 A viso contempornea da metfora

Os dois vetores fundamentais da viso tradicional de metfora seriam, como

visto acima, a teoria da comparao e a teoria da substituio. De acordo com a

32

teoria da comparao, a semelhana constitui a base para o uso metafrico da

linguagem e, nessa perspectiva, uma expresso metafrica pode ser substituda por

uma comparao literal equivalente (BLACK, 1962) . Ou seja, a razo para se usar um

termo para designar um outro tipo de coisa estabelecer uma semelhana entre as

duas coisas. E, segundo a teoria da substituio, a metfora constituiria um uso

desviante de palavras, um deslocamento ou substituio de um termo por outro com

a inteno de se atingir um determinado efeito retrico ou potico. Esse

deslocamento se daria em um contexto tal que permitisse a deteco da expresso

substituda e sua transformao na expresso literal que a metfora veio substituir.

Em outras palavras, essa viso trata a expresso metafrica como um substituto para

uma outra expresso literal que expressaria o mesmo significado, caso tivesse sido

utilizada (BLACK, 1962).

Black (ibid.) veio criticar essas duas vises a favor do que ele denominou

Teoria Interacional da Metfora. De acordo com essa nova abordagem, tanto a fonte

quanto o alvo da metfora interagem para produzir uma nova viso de mundo. Desse

modo, uma metfora produtiva gera novo conhecimento e no pode ser considerada

semanticamente equivalente a nenhum conjunto de expresses literais co-existentes.

A verdadeira virada paradigmtica, no entanto, como apontam vrios autores

(STEEN, 1994; KVECSES, 2002; BROWN, 2003), ocorreu, no final da dcada de 70,

por meio de diversas publicaes (ORTONY, 1979; REDDY, 1979; LAKOFF &

JOHNSON, 1980/2002), que levaram ao que pode ser chamada de virada cognitiva,

que trouxe pelo menos trs conseqncias significativas para a metfora (STEEN,

1994), que deixou de:

a) ser um desvio de linguagem ou algo a ser evitado na linguagem;

b) ter contornos claros e definidos; e seu estudo passou da metfora

como expresso meramente lingstica para a metfora como fenmeno

de cognio;

c) ter um papel ornamental dentro da linguagem, passando a

desempenhar um papel central.

33

Na verdade, essa nova perspectiva, que veio desafiar os aspectos mais

importantes de uma teoria tradicional milenar, foi formalizada e sistematizada por

George Lakoff e Mark Johnson em, segundo Kvecses (2002), sua obra seminal -

"Met aphors we live by" - publicada em 1980. Lakoff e Johnson vem a metfora sob

uma nova tica, que se tornou conhecida como uma "viso lingstico-cognitiva"

(KOVECSES, 2002: VII), mudando seu status de uma simples figura de retrica para

o de uma operao cognitiva fundamental (ZANOTTO et al., 2002). Na concepo

daqueles dois estudiosos, a metfora no simplesmente uma questo de palavras

ou expresses lingsticas, como em Aristteles, mas sim uma questo de

pensamento, de compreender um conceito em termos de outro. Assim sendo, no se

trata mais de um dispositivo de criao literria, ou manipulao retrica, mas um

instrumento cognitivo valioso sem o qual nem poetas, retricos ou pessoas comuns,

poderiam construir e comunicar significados.

Segundo Lakoff e Johnson (1980/2002), a metfora est infiltrada na vida

cotidiana, no apenas na linguagem, mas tambm no pensamento e na ao. Esse

fato pode ser considerado evidncia de que o nosso sistema conceptual, em termos

do qual no s pensamos como tambm agimos, fundamentalmente metafrico por

natureza.

Entretanto, Lakoff (1993) atribui a Reddy a proeza de ter sido o primeiro a

demonstrar que o locus da metfora o pensamento e que a metfora constitui parte

indispensvel da nossa maneira convencional de conceptualizar o mundo, e que o

nosso comportamento cotidiano reflete essa nossa compreenso metafrica da

experincia.

Como aponta Lakoff (1993), o artigo The conduit Metaphor, escrito por

Reddy (1979), tido como a introduo das idias de que a metfora de natureza

fundamentalmente conceptual, convencional e parte do sistema de pensamento e

linguagem. Nesse trabalho, Reddy analisou enunciados e expresses que os falantes

de lngua inglesa usam para falar de comunicao, concluindo que esses podem ser

34

organizados a partir de quatro parmetros que representam o arcabouo conceptual

da metfora do canal:

(1) a linguagem funciona como um canal, transferindo pensamentos corporeamente de uma pessoa para outra; (2) na fala e na escrita, as pessoas inserem seus pensamentos e sentimentos nas palavras; (3) as palavras realizam a transferncia ao conter pensamentos e sentimentos e conduzi- los s outras pessoas; (4) ao ouvir e ler, as pessoas extraem das palavras os pensamentos e os sentimentos novamente. (REDDY 1979, p. 290)

Seguindo a trilha aberta por Reddy, segundo Zanotto et al. (2002), Lakoff e

Johnson (1980/2002) deram um tratamento mais explcito metfora do canal ao

descobrirem as metforas conceptuais subjacentes s expresses lingsticas

metafricas. Esses dois autores mostram que os enunciados analisados por Reddy

so manifestaes lingsticas de metforas conceptuais , quando eles apontam que:

Reddy observa que nossa linguagem sobre a linguagem , grosso modo, estruturada pela seguinte metfora complexa: IDIAS OU SENTIDOS SO OBJETOS, EXPRESSES LINGUSTICAS SO RECIPIENTES, COMUNICAR ENVIAR. (LAKOFF & JOHNSON, 2002: 54)

Dessa forma, Lakoff e Johnson (1980/2002) consideram a metfora do canal

como uma metfora complexa, constituda por uma rede de metforas conceptuais

(geralmente representadas por maisculas), que se manifestam nos enunciados

lingsticos, como nos exemplos a seguir:

A. A MENTE UM RECIPIENTE

No consigo tirar essa msica da minha cabea

Sua cabea est recheada de idias interessantes

B. IDIAS (OU SENTIDOS) SO OBJETOS

Quem te deu essa idia?

Voc encontrar idias melhores que essa nos livros.

35

C. COMUNICAR ENVIAR OU TRANSFERIR A POSSE

Vou tentar passar o que tenho em mente.

Ele me deu essa idia.

Lakoff e Johnson, segundo Zanotto et all. (2002), avanaram em relao a

Reddy, pelo fato de, a partir da, terem feito uma ampla anlise de enunciados da

linguagem cotidiana e terem mostrado, com base nessas anlises, que a nossa

linguagem cotidiana revela um imenso sistema conceptual metafrico, que rege

tambm nosso pensamento e nossa ao. Ou seja, assim como a metfora do canal

no simplesmente uma forma de falar sobre a comunicao, mas uma forma de

pensar e agir quando nos comunicamos, as outras metforas da linguagem cotidiana

tambm influenciam nossa vida: so metforas que vivenciamos cotidianamente.

Em outras palavras, nessa conceituao, a metfora estaria situada no nvel

conceptual ou cognitivo, deixando de ser uma figura de linguagem como

abordada na teoria aristotlica para assumir o papel de uma figura de pensamento,

um processo atravs do qual experincias so elaboradas cognitivamente a partir de

outras j existentes no nvel conceptual. Desse modo, segundo Vereza (1996),

haveria uma superposio de um conceito j incorporado e lingisticamente

determinado a uma outra experincia a ser "mapeada" pelo pensamento e pela

linguagem.

Poderamos pensar nesse processo como a utilizao de uma "forma de pastel" para se dar forma a uma massa disforme, sem limites, sem caractersticas prprias, sem uma linguagem e, conseqentemente, sem acesso a redes conceptuais que viabilizariam a conscincia (VEREZA , 1996: 166).

Para facilitar a compreenso desse tipo de mapeamento, Lakoff e Johnson

(1980/2002) adotaram a nomenclatura A B, na qual A o domnio-alvo e B o

domnio-fonte, explicando as correspondncias presentes no sistema conceptual da

36

metfora2. Um de seus exemplos clssicos DISCUSSO GUERRA, sendo essa

metfora conceptual expressa atravs de expresses metafricas lingsticas, tais

como "Ele atacou cada ponto fraco da minha argumentao", "suas crticas

acertaram o alvo".

Assim, como esclarece Leme (2003), a metfora conceptual se refere ao

conjunto de correspondncias existente entre os domnios-fonte e alvo, um

mapeamento trans-domnio no sistema conceptual, como j foi dito. E, segundo

Lakoff (1993), o termo expresso metafrica se refere expresso lingstica (uma

palavra, frase ou orao) que constitui a realizao superficial do referido

mapeamento trans-domnio. Logo, podemos dizer que a metfora o caminho que

nos permite explicar ou compreender uma rea menos conhecida de nossa

experincia em termos de outra mais conhecida.

Kvecses (2002) realizou um estudo dos domnios-fonte e alvo mais comuns

e listou os seguintes:

Domnios-fonte mais comuns entidades bsicas tais como recipientes,

substncias e objetos; o corpo humano; sade e doena; animais; plantas;

construes; mquinas e ferramentas; jogos e esportes; dinheiro e transaes

econmicas; cozinha e alimento; calor e frio.

Domnios-alvo mais comuns emoes; desejo; moralidade; pensamento;

sociedade/nao; poltica; economia; relaes humanas; comunicao; tempo;

vida e morte; religio; eventos e aes.

O mapeamento metafrico firmemente estruturado. No caso da metfora

conceptual DISCUSSO GUERRA, por exemplo, assim como em qualquer outra,

2 Como observa Cameron (1999), as denominaes Tpico e Veculo, atribudas a Black (1979) e Perrine (1971), so utilizadas mais ou menos convencionalmente por vrios pesquisadores como termos alternativos para Fonte e Alvo. Ou seja, se definirmos a metfora como Burke (1945: 503, citado em Cameron, 1999:13) o faz, como "...um dispositivo que nos permite ver uma coisa em termos de outra coisa", a primeira coisa freqentemente denominada "Tpico" (s vezes "Tenor"), e "Veculo" a denominao dada outra coisa.

37

h correspondncias ontolgicas, de acordo com as quais entidades no domnio-alvo,

da discusso (os interlocutores, seus objetivos, seus argumentos, dificuldades,

motivos, etc.) correspondem sistematicamente a entidades no domnio-fonte, da

guerra (os inimigos/adversrios, a vitria, as estratgias, emboscadas, etc.).

Na metfora DISCUSSO GUERRA, um conceito metafrico estrutura, pelo

menos parcialmente, o que fazemos quando discutimos, assim como a maneira pela

qual compreendemos o que fazemos. "A essncia da metfora compreender e

experienciar uma coisa em termos de outra" (LAKOFF & JOHNSON, 2002: 48). As

discusses no so subespcies de guerra. Discusso e guerra so duas coisas

diferentes discurso verbal e conflito armado, respectivamente e as aes

correspondentes so igualmente diferentes. Mas discusso parcialmente

estruturada, compreendida, realizada e tratada em termos de guerra. Assim sendo, a

metfora no est presente apenas nas palavras que utilizamos para falar de

discusso, ela se encontra presente no conceito de discusso. Ou seja, ns

experienciamos a discusso como se fosse uma guerra. Desse modo, os enunciados

que se seguem no so simples formas de dizer, mas formas de pensar e agir:

. Seus argumentos so indefensveis.

. Suas crticas foram direto ao alvo.

. Eu nunca o venci numa discusso.

Alm dessa caracterstica estrutural da metfora, isto , a superposio de um

determinado domnio conceptual sobre outro, uma outra caracterstica a

legitimao. A legitimao o processo necessrio de conveno no qual o

mapeamento tem que ser legitimado socialmente, isto , tornado conveno para

poder fazer parte de "nossa maneira automtica de compreender a experincia"

(LAKOFF & JOHNSON, 1980/2002).

Como aponta Lakoff (1993), cada metfora convencional, ou seja, cada

mapeamento constitui um padro fixo de correspondncias trans-domnios. Em

outras palavras, esses mapeamentos no devem ser considerados processos, mas

devem ser vistos como padres fixos de correspondncias trans-domnios que

38

podem ou no ser aplicados estrutura cognitiva do domnio-fonte ou a um item

lexical do domnio-fonte. Assim, itens lexicais convencionais no domnio-fonte nem

sempre so convencionais no domnio-alvo. Se um item lexical do domnio-fonte

utilizado pelo mapeamento, ele adquire um sentido estendido no domnio-alvo,

sentido esse que caracterizado pelo mapeamento. Se um item lexical do domnio-

fonte no utilizado pelo mapeamento, ele no ir adquirir um sentido convencional

no domnio-alvo, mas ainda assim poder ser mapeado, no caso de metforas novas.

Desse modo, o termo arma branca no convencionalmente utilizado para

discusso, mas a estrutura cognitiva associada a ele mapeada pela metfora

DISCUSSO GUERRA no caso de "ele fez uso de uma arma branca para vencer a

discusso ", o que nos leva a compreender a metfora nova. Esse mapeamento

adicional devido ao nosso rico conhecimento a respeito do domnio-fonte e

denominado desdobramento (KVECSES, 2002: 94).

Uma terceira caracterstica da metfora conceptual, essa referente sua

origem, o fato de os valores de uma cultura no serem independentes, mas de

formarem com os conceitos metafricos um sistema coerente. Um exemplo seria a

expresso "quanto mais ele tem, melhor" que coerente com as metforas

conceptuais MAIS EST NO ALTO e BOM EST NO ALTO. Assim, os valores

culturais que existem em nossa sociedade so compatveis com nosso sistema

metafrico.

Uma das hipteses decorrentes da concepo de metfora em questo o

"Princpio da Invarincia", segundo o qual Lakoff (1993: 215) observa que "os

mapeamentos metafricos preservam a topologia cognitiva do domnio-fonte de

forma coerente com a estrutura inerente do domnio-alvo". Devemos entender esse

princpio como aquele que limita as correspondncias entre partes diferentes dos

domnios-fonte e alvo. Ele garante, por exemplo, que em esquemas metafricos de

"caminhos", as partidas sero mapeadas sobre partidas, os objetivos sobre objetivos,

as trajetrias sobre trajetrias, e assim por diante.

39

Alm dessas metforas exemplificadas at ento, em que ocorre um

mapeamento de um domnio conceptual sobre um outro domnio conceptual, no qual

geralmente h vrios conceitos no domnio-fonte mapeados sobre vrios conceitos

correspondentes no domnio-alvo, Lakoff (ibid.) apresenta uma outra categoria

metafrica, a qual ele denominou metfora de imagem. Nesse tipo de mapeamento o

que ocorre uma superposio de uma imagem mental sobre uma outra. Como no

caso anteriormente visto, a me tfora de imagem tambm conceptual; entretanto ela

no se encontra nas palavras, mas nas imagens mentais do indivduo. Se tomarmos o

seguinte exemplo (uma frase de Andr Breton): "minha esposa, cuja cintura uma

ampulheta" (LAKOFF, 1993: 229), imediatamente ocorre a superposio da imagem

de uma ampulheta sobre a imagem da cintura de uma mulher, em decorrncia da

forma semelhante entre as duas entidades. Ns possumos a imagem mental de uma

ampulheta e a de uma mulher, e ns mapeamos a parte central, estreitada da

ampulheta sobre a cintura da mulher. Um outro exemplo seria a expresso hot dog

(cachorro quente), derivada da forma semelhante entre a salsicha e o corpo do

cachorro da raa basset. Ainda um outro exemplo de metfora de imagem, esse

proveniente da nossa cultura, seriam as expresses corpo de ma e corpo de pra,

atribudos a mulheres.

Lakoff (1993: 244-245) destaca que a Teoria Contempornea da Metfora

revolucionria, porque, em sntese, apresenta os seguintes aspectos bsicos que a

distinguem das teorias anteriores:

Quanto natureza da metfora: A metfora o principal mecanismo pelo qual

compreendemos conceitos abstratos e raciocinamos abstratamente.

Muitos assuntos, do mais comum mais complexa teoria cientfica, somente podem ser compreendidos via metfora.

A metfora de natureza fundamentalmente conceptual e no lingstica.

A linguagem metafrica uma manifestao superficial do conceito metafrico.

40

Embora grande parte do nosso sistema conceptual seja metafrica, uma parte significativa no-metafrica. A compreenso metafrica fundamentada na compreenso no metafrica.

A metfora nos permite compreender um assunto relativamente abstrato ou inerentemente desestruturado em termos de um mais concreto ou pelo menos mais altamente estruturado.

Quanto estrutura da metfora:

As metforas so mapeamentos entre domnios conceptuais.

Tais mapeamentos so assimtricos e parciais. Cada mapeamento um conjunto estabelecido de

correspondncias ontolgicas entre entidades num domnio-fonte e entidades no domnio-alvo.

Quando essas correspondncias estabelecidas so ativadas, os mapeamentos podem projetar padres de inferncia do domnio-fonte para os padres de inferncia do domnio-alvo.

Os mapeamentos metafricos obedecem ao Princpio da Invarincia: a estrutura esquema-imagem do domnio-fonte projetada no domnio-alvo de modo que seja coerente com a estrutura inerente do domnio-alvo.

Os mapeamentos no so arbitrrios, mas embasados no corpo e nas experincias e conhecimentos cotidianos.

O sistema conceptual contm milhares de mapeamentos metafricos convencionais que formam um subsistema altamente estruturado do sistema conceptual.

H dois tipos de mapeamentos: os mapeamentos conceptuais e os de imagem; os dois obedecem ao Princpio da Invarincia. (LAKOFF, 1993: 244-245)

41

2.3 Tipos de metfora conceptual

Discutirei, nesta subseo, os trs principais tipos de metforas conceptuais,

classificadas, segundo Kovecses (2002), com base em Lakoff e Johnson

(1980/2002), quanto sua funo cognitiva. So elas: metforas estruturais,

metforas ontolgicas e metforas orientacionais.

A metfora conceptual abordada neste trabalho at o presente momento o

que chamamos metfora estrutural. Ou seja, nesse tipo de metfora, o domnio-

fonte fornece uma estrutura cognitiva para o domnio-alvo (LAKOFF & JOHNSON,

1980/2002; KOVECSES , 2002). Em outras palavras, a funo cognitiva dessas

metforas permitir que as pessoas compreendam um alvo A por meio da estrutura

de uma fonte B. Como visto em 2.2, essa compreenso ocorre devido a

mapeamentos conceptuais entre elementos de A e elementos de B.

J as metforas ontolgicas no propiciam uma estrutura cognitiva to

completa quanto as estruturais. Sua funo conceber status ontolgico a conceitos-

alvo abstratos. Desse modo, elas nos permitem compreender emoes, idias,

eventos, etc. como entidades (objetos e recipientes) e substncias. Segundo

Kovecses (2002), uma vez que o nosso conhecimento de objetos, substncias e

recipientes limitado, ns no podemos usar essas categorias gerais para uma

compreenso mais aprofundada dos domnios-alvo. Essa funo fica a cargo das

metforas estruturais.

As metforas orientacionais, por sua vez, so ainda menos estruturais do que

as ontolgicas. Sua funo "organizar um sistema de conceitos em relao a outro"

(LAKOFF & JOHNSON, 2002: 59). Ou seja, as metforas orientacionais so

responsveis pela coerncia do nosso sistema conceptual. O termo coerncia

empregado aqui no sentido de que geralmente conceptualizamos idias abstratas

alvo de maneira uniforme. Por exemplo, orientao para cima geralmente

combinada com avaliao positiva, enquanto que orientao para baixo

combinada com avaliao negativa (FELIZ PARA CIMA/TRISTE PARA BAIXO;

42

SADE E VIDA SO PARA CIMA/DOENA E MORTE SO PARA BAIXO ). A

denominao orientacional devido ao fato de a maioria dessas metforas ter a ver

com orientaes espaciais tais como: para cima para baixo, dentro fora, frente

trs, fundo raso, central perifrico (LAKOFF & JOHNSON, 1980/2002; KOVECSES ,

2002).

Como veremos mais adiante, a maior parte das metforas do tempo so

metforas estruturais (TEMPO UM RECURSO ESCASSO) ou personificaes

(TEMPO INIMIGO), essa ltima constituindo um tipo especial de metfora

ontolgica.

2.4 Metfora e cultura

Nesta subseo, discutirei a questo da cultura e sua relao com a viso

contempornea da metfora, pois acredito ser essa de grande importncia para as

questes abordadas neste estudo.

Segundo Laraia (2003), Ruth Benedict escreveu em seu livro O crisntemo e

a espada que a cultura como uma lente atravs da qual o homem v o mundo.

Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e, portanto, tm vises

desencontradas das coisas.

O autor acima citado endossa e expande a viso de Benedict ao afirmar que o

modo de ver o mundo, as apreciaes de ordem moral e valorativa, os diferentes

comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais so produto de uma herana

cultural, ou seja, o resultado da operao de uma determinada cultura.

Podemo s, ento, entender o fato de que os indivduos de culturas diferentes

podem ser facilmente identificados por uma srie de caractersticas, tais como o

modo de agir, vestir, caminhar, comer, sem mencionar a evidncia das diferenas

lingsticas, o fato de mais imediata observao.

43

At mesmo o exerccio de atividades consideradas como parte da fisiologia

humana pode refletir diferenas de cultura, observa Laraia (2003). Um exemplo

seria o riso, tido como uma propriedade do homem e dos primatas superiores. O riso

se expressa, primariamente, atravs da contrao de determinados msculos da face

e da emisso de um determinado tipo de som vocal, e exprime quase sempre um

estado de alegria. Todos os homens riem, mas o fazem de maneira diferente e por

motivos tambm diferentes. Os japoneses, por exemplo, riem muitas vezes por

questo de etiqueta, mesmo em momentos evidentemente desagradveis.

Marcel Mauss (1872-1950), citado por Laraia (2003), em um artigo intitulado

Noo tcnica corporal, analisa as formas como os homens, de sociedades

diferentes, sabem servir-se de seus corpos. Mauss cita, por exemplo, as tcnicas do

nascimento e da obstetrcia. Em algumas sociedades da ndia as mulheres do luz

em p. Para ns, a posio normal a me deitada sobre as costas, e entre os ndios

Tupis e outras tribos brasileiras, a posio de ccoras.

Dentro de uma mesma cultura, a utilizao do corpo diferenciada em funo

do sexo. As mulheres sentam, caminham, gesticulam, etc. de maneiras diferentes das

dos homens. Todos os homens so dotados do mesmo equipamento anatmico, mas

a utilizao do mesmo, ao invs de ser determinado geneticamente, depende de um

aprendizado e esse consiste na cpia de padres que fazem parte da herana cultural

do grupo.

Laraia (2003) argumenta que a cultura, alm de interferir na satisfao das

necessidades bsicas dos indivduos, pode tambm condicionar outros aspectos

biolgicos e at mesmo decidir sobre a vida e a morte dos membros de um sistema.

Se a cultura se encontra to arraigada na vida das pessoas, de se esperar que ela

tambm tenha um papel importante nos nossos mapeamentos metafricos

conceptuais.

O papel da cultura na metfora conceptual discutido por vrios autores

(LAKOFF & JOHNSON, 1980/2002; LAKOFF, 1987; LAKOFF, 1993; GIBBS, 1999;

KVECSES, 2002; DEIGNAN, 2003; KVECSES , 2005; entre outros). H, na literatura,

44

um grande nmero de estudos que se ocupam das diferenas trans-lingsticas do

uso da metfora. Entretanto, como informa Deignan (2003), o termo cultura tem

sido interpretado de vrias maneiras, muito provavelmente pela dificuldade notria

de se desenvolver uma definio operacional para essa noo.

Kvecses (2005) estabelece uma conexo entre a metfora, como vista pelo

enquadre lingstico-cognitivo iniciado por Lakoff e Johnson, e cultura. O autor,

alinhado com algumas vises contemporneas da antropologia, considera cultura

como sendo "um conjunto de entendimentos compartilhados que caracterizam

grupos (maiores ou menores) de pessoas" (KVECSES, 2005:1). E essa noo que

adotarei neste trabalho. Essa definio de cultura, segundo o autor, exclui objetos,

artefatos, instituies, prticas, aes e etc., que as pessoas usam e das quais

participam em qualquer que seja a cultura, mas ela inclui uma parte importante de

qualquer um desses aspectos: o entendimento compartilhado que as pessoas tm

com relao aos mesmos.

De acordo com Kvecses (2005), quando pensamos em cultura dessa

maneira, a conexo entre cultura e metfora se torna visvel no que diz respeito

abordagem lingstico-cognitiva da metfora. Um dos principais argumentos de

Lakoff & Johnson (1980/2002), como j visto anteriormente, que a metfora no

ocorre primariamente na linguagem, mas no pensamento. Em outras palavras, eles

argumentam que ns, na verdade, compreendemos o mundo atravs de metforas, e

no apenas as usamos na fala/linguagem. Assim sendo, o entendimento

compartilhado sugerido por antroplogos como parte da definio de cultura pode

ser entendimento metafrico. E as metforas que usamos para compreender

conceitos abstratos, como o tempo, por exemplo, podem tornar-se crucialmente

importantes para o modo como experienciamos tais conceitos em nossa cultura. Em

suma, segundo Kvecses (2005), dentro dessa abordagem terica da metfora, as

metforas podem ser uma parte inerente de uma cultura.

De acordo com a viso ortodoxa da metfora conceptual (LAKOFF & JOHNSON,

1980/2002), muitas metforas so baseadas em experincias humanas do corpo. Por

45

exemp lo, ns, metaforicamente, conceptualizamos afeio como calor devido

correlao, em nossas experincias quando crianas, entre o abrao carinhoso de

nossos pais e o calor corporal reconfortante que o acompanhava. Isso nos d a

metfora conceptual, a idia AFEIO CALOR. Pensar e falar de afeio em termos

de calor emerge naturalmente de nossas experincias corporais. Metforas que

emergem diretamente de correlaes com experincias corporais so denominadas

metforas primrias (GRADY, 1997, citado em LENZ, 2003). Tipos de metforas

conceptuais como essas, baseadas em experincias corporais universais, ocorrem em

muitas lnguas e culturas e so considerados universais (KVECSES, 2005).

Entretanto, quando se observam metforas nas diversas lnguas, tem-se a impresso

de que h um nmero grande, na verdade bem maior, de metforas no universais. Ou

seja, a variao na metfora parece ser to importante e comum ou mais que a

universalidade (KVECSES, 2002; KVECSES, 2005).

A variao metafrica, segundo Kvecses (2005), toma muitas formas, e, em

uma das formas mais comuns, um determinado domnio abstrato compreendido de

diferentes maneiras, variando de cultura para cultura. A explicao para essa

variao, como observa o autor, deve-se ao fato de as pessoas viverem em

sociedades complexas, estruturadas de diversas maneiras. Somos membros de

grupos que possuem mais ou menos poder social; em muitas sociedades

pertencemos a grupos tnicos diferentes; vivemos em regies geogrficas que

deixam suas marcas nos grupos de pessoas que as habitam; seguimos certos

costumes e convenes em situaes particulares, nas quais nos comunicamos com

outras pessoas; e, naturalmente, todos ns, como indivduos, temos as nossas

idiossincrasias.

Essas dimenses da vida social e cultural so bem conhecidas por socilogos,

antroplogos e outros estudiosos. Elas tambm so do conhecimento de

sociolingistas que estudam a variao no uso da lngua. Esses estudiosos observam

que as lnguas apresentam uma grande variao e que essas variaes refletem os

diversos aspectos da sociedade (KVECSES , 2005). Um outro fator que influencia a

46

variao lingstica o fato de que as experincias das pessoas agrupadas de acordo

com as diversas dimenses sociais tambm variam. Assim sendo, se for verdade que

as metforas revelam e, em alguns casos, constituem a experincia humana, seria

bvio esperar que as metforas variem de acordo com essas dimenses sociais.

As dimenses sociais incluem a diviso da sociedade em homens e mulheres,

jovens e idosos, e classe mdia e classe operria. No h ainda, segundo o autor,

estudos relevantes realizados sob uma perspectiva lingstico-cognitiva que apontem

para o uso de diferentes metforas por parte de, por exemplo, homens jovens de

classe mdia e mulheres idosas de classe operria. Entretanto, h alguma indicao

de que alguns desses fatores sociais possam produzir variao na conceptualizao

metafrica. A presente investigao pretende contribuir para a elucidao da relao

entre conceptualizaes metafricas e fatores sociais, uma vez que as participantes

da pesquisa pertencem a classes scio-econmicas diferentes.

Um exe mplo, apontado por Kvecses (ibid.), de um fator social que parece

ser responsvel por variao metafrica seria a dimenso homem- mulher. Essa

dimenso parece ser operacional em vrios aspectos: a maneira como os homens e

as mulheres falam sobre as mulheres, a maneira como os homens e as mulheres

falam sobre os homens e a maneira como homens e mulheres falam sobre o mundo e

sobre as coisas do mundo. O autor observa que em pases de lngua inglesa e em

alguns outros pases comum o fato de os homens usarem expresses como

"coelhinho", "gatinha", "passarinho", "pintinho", "biscoito", "docinho" ao se

referirem s mulheres. Essas expresses metafricas pressupem certas metforas

conceptuais como MULHERES SO (PEQUENOS) ANIMAIS PELUDOS OU COM

PENA , e MULHERES SO ALIMENTOS DOCES. Entretanto, quando as mulheres

falam sobre os homens, elas no usam essas metforas ou elas as usam de modo

limitado.

Um outro exemplo de diferentes metforas utilizadas por homens e mulheres

para conceptualizar coisas do mundo dado por Kvecses (ibid.) ao citar a autora

Annette Kolodny. Kolodny, em dois livros publicados em 1975 e em 1984, mostra

47

que homens e mulheres americanos dos sculos XVII a XIX apresentavam

diferentes imagens metafricas das terras inexploradas do oeste do pas. Os homens

pensavam nessas reas como uma terra virgem a ser tomada, j as mulheres

pensavam nessa mesma rea como um jardim a ser cultivado.

Aparentemente, as variedades regionais de uma mesma lngua tambm

revelam variaes metafricas. Variedades regionais incluem dialetos locais ou

regionais. Pelo que parece, segundo Kvecses (ibid.), no h at agora, nenhum

estudo envolvendo variedades locais. H investigaes feitas em variedades

nacionais. Um exemplo de tais investigaes seria um estudo feito em holands e

afrikaans, uma lngua que se originou do holands e que falada em algumas partes

da frica do Sul. Nesse estudo, Ren Dirven (1994), citado em Kvecses (2005),

compara, sistematicamente, metforas em holands e em afrikaans. Em sua

descrio de metforas holandesas envolvendo a natureza, o autor observa a

presena de imagens de gua, luz e sombra, relmpagos, terremoto, areia, estrelas e

nuvens permanentes, e lembra que essas constituem uma imagem tpica da paisagem

dos pases baixos. Um trao curioso das metforas holandesas envolvendo a

natureza que elas quase nunca incluem animais. Por outro lado, o autor encontra

em afrikaans metforas associadas a uma paisagem bem mais serena, contendo

montanhas, plancies, planaltos, e vrios tipos de animais que so usados para

compor imagens estereotipadas da aparncia e do comportamento humanos.

Esse exemplo vem reforar a idia de que o ambiente fsico onde o dialeto

falado parece exercer um impacto na variao metafrica.

Kvecses (2005) sugere que um outro local bvio para se investigar a questo

da variao metafrica seria os dialetos e as variedades individuais, estilsticas

culturais e sociais que j foram identificados por sociolingistas, antroplogos e

outros pesquisadores da variao lingstica em contextos sociais ou culturais.

Boers (2003) um outro autor que vem investigando a influncia da cultura

nos mapeamentos metafricos. O estudioso argumenta que alguns domnios-fonte

talvez no se encontrem igualmente disponveis para mapeamento metafrico em

48

todas as culturas. Diferenas culturais e geogrficas, segundo o autor, podem ser

responsveis pelo fato de que, para falantes de uma lngua, um determinado domnio

mais significativo e, conseqentemente, utilizado como domnio-fonte para

metforas (BOERS, 2003).

Deignan (2003) apresenta alguns exemplos que podem corroborar essa

hiptese. Um estudo realizado por Deignan e Potter apontou para o uso de

metonmias associadas ao domnio "boca" por falantes de ingls e italiano. Tais

expresses em ingls tm como domnio-alvo a fala, mas, por outro lado, em

italiano, o domnio-alvo o ato de comer. Um outro exemplo citado por Deignan

(2003) um estudo realizado por Boers (2003), em que o estudioso encontra um

grande nmero de metforas de sade nas edies de inverno da revista The

Economist . No norte europeu, essa a poca do ano em que as pessoas esto mais

propensas a adoecerem, devido ao rigoroso inverno, e, conseqentemente, se

preocupam mais com a sade do que em outra poca do ano e do que outros povos,

habitantes de outras regies, como o Brasil, por exemplo.

Um outro estudo comparativo mostrou que metforas da lngua inglesa do

domnio de corridas de cavalo no so encontradas em espanhol. E, por outro lado,

metforas do espanhol dos domnios de tourada e religio no so encontradas em

ingls (DEIGNAN, 2003).

No Brasil, pas onde o futebol considerado o esporte mais popular (tanto

nas classes menos favorecidas quanto na classe mdia), podemos encontrar um

grande nmero de expresses lingsticas metafricas do domnio desse esporte:

"ele driblou o problema", "fez uma tabelinha", "jogou a oportunidade para

corner/escanteio", "bate um bolo", "vou tirar meu time de campo", "ele est com a

bola cheia", entre outras.

A influncia da cultura futebolstica do nosso pas nas expresses metafricas

tambm pode ser observada no livro O ingls na marca do pnalti (2003) de Ulisses

Wehby de Carvalho. Nesse livro, voltado para professores e aprendizes de ingls

como lngua estrangeira, o autor apresenta e d o significado de uma lista de

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expresses metafricas em ingls, do domnio dos esportes expresses

cristalizadas que so utilizadas pelas pessoas em seu cotidiano. interessante

notar que muito poucas dessas expresses em ingls so do domnio do futebol

jogado no Brasil (soccer), entretanto, muitas delas foram traduzidas pelo autor como

expresses metafricas do domnio desse esporte (bottom of the ninth = aos 44

minutos do segundo tempo; drop the ball = pisar na bola; foul out = levar carto

vermelho, etc.).

O prximo captulo versa sobre a viso lingstico-cognitiva da metonmia, a

qual, juntamente com a metfora conceptual constitui o fundamento terico desta

investigao.

50

3 METONMIA: A VISO CONTEMPORNEA

A metfora, segundo vrios autores, entre eles Kvecses (2002) e Barcelona

(2002), no o nico tropo que desempenha um papel importante nas nossas

atividades cognitivas. A metonmia tambm possui um papel significativo.

Metfora e metonmia constituem processos de natureza diferente, como

apontam vrios autores (LAKOFF E JOHNSON, 1980/2002; LAKOFF, 1987; GIBBS ,

1994; KVECSES, 2002; BARCELONA, 2002). A metfora, como visto anteriormente

(cf. 2.1), constitui um modo de conceber uma coisa em termos de outra, e sua funo

primordial a compreenso. Por outro lado, Gibbs define metonmia como o

processo pelo qual as pessoas fazem uso de um aspecto bem compreendido ou

facilmente percebido de alguma coisa para representar a coisa como um todo

(1994:320).3 Sua funo , principalmente, referencial. Seguem alguns exemplos de

conceitos metonmicos existentes em nossa cultura:

(1) PARTE PELO TODO

Precisamos de sangue novo na empresa.

Acabei de comprar um 16 vlvulas .

(2) PRODUTOR PELO PRODUTO

3 People take one well-understood or easily perceived aspect of something to represent or stand for the thing as a whole.

51

Ele comprou um Ford.

Estou lendo Shakespeare.

(3) OBJETO PELO USURIO

Os nibus esto em greve hoje.

O saxofone est gripado.

(4) CONTROLADOR PELO CONTROLADO

Bush