Sor (Metodo)

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  • A GUITARRA DO SCULO XIX EM SEUS ASPECTOS

    TCNICOS E ESTILSTICO-HISTRICOS A PARTIR

    DA TRADUO COMENTADA E ANLISE DO

    MTODO PARA GUITARRA DE FERNANDO SOR

    Guilherme de Camargo

    So Paulo

    2005

  • A GUITARRA DO SCULO XIX EM SEUS ASPECTOS

    TCNICOS E ESTILSTICO-HISTRICOS A PARTIR DA

    TRADUO COMENTADA E ANLISE DO MTODO PARA

    GUITARRA DE FERNANDO SOR

    Guilherme de Camargo

    Dissertao apresentada ao Departamento de Msica da Escola de Comunicaes e Artes da Universidade de So Paulo, como requerimento para a obteno do ttulo de Mestre Orientador: Prof. Dr. Lorenzo Mammi

    So Paulo 2005

  • Para o Edelton, que me ensinou a ler e a escrever

  • Agradecimentos Tarefa inglria a de agradecer a todos que, direta ou indiretamente, ajudaram neste trabalho. Os que o fizeram sabem, e a estes dedico tambm esta obra, e lhes agradeo imensamente. Ao Dr. Brian Jeffery abrimos justa exceo, agradecendo-lhe nominalmente por uma vida dedicada ao estudo das cordas dedilhadas, e pela criao de obra cuja consulta obrigatria para os que desejem compreender melhor o escopo deste trabalho.

  • Quando lhes disser para observar este ou aquele

    preceito, no me atribuam jamais autoridade,

    perguntem a razo; e se no a tenho bastante forte para

    satisfaz-los, devem reduzir muito a confiana com a

    qual me honraram com respeito cincia. Fernando Sor, Mthode pour la Guitare, 1830 ...em boa filosofia toda deduo que tem como base

    fatos ou verdades reconhecidas prefervel quela que

    s se apia em hipteses, ainda que engenhosas. Jean Le Rond dAlembert, Discurso Preliminar da

    Enciclopdia, 1751

  • v

    SUMRIO

    1. INTRODUO . . . vii

    1.1 A msica antiga e o Mtodo de Sor . . vii 1.2 Os instrumentos de 5 cordas duplas e os de

    6 cordas simples viii 2. FERNANDO SOR E O ILUMINISMO . xiv 2.1 Biografia . . . . . xiv 2.2 O Mtodo para Guitarra e a

    Enciclopdia, de Diderot e d Alembert . xxii . 3. CRITRIO EDITORIAL . . xxvi

    3.1 Comparao e uso dos originais . . . . xxvi 3.2 Notas do Autor . . . xxvii 3.3 Notas do tradutor da edio inglesa . . xxvii 3.4 Notas do tradutor . . . xxvii 3.5 Traduo de alguns termos tcnicos . . xxviii 3.6 Abreviaturas, smbolos e terminologia especfica . xxx 3.7 Pranchas e exemplos . . xxx 3.8 Grafia do nome do autor . . xxxi

    4. RESUMO . . . xxxii 5. ABSTRACT xxxiii 5. TRADUO COMENTADA do

    Mtodo para Guitarra, de Sor Introduo . . . . 1

    PRIMEIRA PARTE O Instrumento . . . . 7 Posio do Instrumento . . . 13 Mo Direita . . . . 17 Mo Esquerda . . . . 19 Maneira de Atacar a Corda . . . 24 Qualidade do Som . . . . 26

  • vi

    SEGUNDA PARTE Conhecimento da Escala. . . . 36 Digitao sobre o Comprimento da Corda . . 41 Emprego dos Dedos da Mo Direita . . 44 Digitao das Duas Mos . . . 45 Do Cotovelo . . . . 53

    TERCEIRA PARTE Das Teras, sua Natureza e Digitao . . . 57 Das Sextas . . . . . 63 Aplicao da Teoria das Teras e Sextas . . 71 Digitao da Mo Esquerda com Respeito Melodia. . 76 Digitao da Mo Direita . . . 88 Os Sons Harmnicos . . . . 91 Acompanhamentos . . . 99 Anlise do Acompanhamento de um Fragmento

    do Oratrio de Haydn (A Criao) 109 Da Digitao do Anular . . . . 137 Concluso . . . . . 139

    _____________________

    REFERNCIAS . . . . 148 Apndice 1 A Partitura Orquestral do Fragmento . . . 153 do Oratrio de Haydn (A Criao) Apndice 2 Capa do Mthode pour la Guitare, . . . 167 em fac-smile da edio de 1830 Apndice 3 Figura de guitarra de seis cordas simples . . 168 Apndice 4 Exemplos do Mthode pour la Guitarre, . . 169 em fac-smile da edio de 1830

  • vii

    Introduo

    1. A msica antiga e o Mtodo de Sor

    O movimento de msica antiga em instrumentos originais, da msica

    historicamente orientada, no mais uma novidade. Desde a dcada de 60 do sculo

    passado crescente o nmero de intrpretes, musiclogos e diretores musicais que

    orientam seus trabalhos com base na consulta de fontes primrias, na aproximao

    meticulosa dos tratados instrumentais e tericos e na recriao da tcnica

    instrumental com base nas informaes neles presentes.

    No universo das cordas dedilhadas, entretanto, particularmente no Brasil, esta

    pesquisa permanece pouco divulgada, no obstante a existncia de alguns intrpretes

    dedicados ao uso dos instrumentos antigos. Esta lacuna, em parte, deve-se pequena

    quantidade de obras especficas publicadas sobre o assunto e, sobretudo, ausncia

    de tradues para o portugus de anlises dos principais mtodos e tratados

    relacionados aos instrumentos de cordas dedilhadas, assim como de tradues

    fidedignas dos textos originais.

    O Mtodo para Guitarra, de Fernando Sor, um dos principais documentos

    do sculo XIX, capaz de sintetizar a tcnica instrumental de ento, e fornecer um

    retrato preciso da insero do instrumento no perodo. Sua anlise possibilita melhor

    compreenso do instrumento que ora chamamos de violo e dos elementos que,

    historicamente, definiram a tcnica de execuo atual, alm de criar espao para que

    os demais instrumentos de cordas dedilhadas, como o alade, a teorba e a guitarra

    barroca, sejam futuramente analisados e compreendidos, e possam vir a fazer parte,

    como em inmeros locais do mundo, do cotidiano musical do pas.

    A aproximao destes instrumentos atravs da anlise de seus documentos

    fundamentais, capazes de informar sem causar preconceitos, pode possibilitar, tanto a

    jovens estudantes, ainda em fase de escolha de seu instrumento principal, quanto a

    violonistas formados, uma nova fonte de inspirao e trabalho. O Mtodo de Sor,

    por pertencer e participar justamente do momento de transio entre a tcnica antiga

    e a atual, bem como da passagem dos instrumentos antigos de cordas dedilhadas para

  • viii

    o violo, representa, simbolicamente, a possibilidade real de dedicao a ambos,

    sendo cada intrprete capaz de estabelecer suas prprias prioridades e seus limites.

    2. Os instrumentos de 4, 5 e 6 cordas duplas e o de 6 cordas simples

    Para que se possa avaliar a importncia da anlise do Mtodo torna-se

    fundamental compreender, preliminarmente, as diferenas fundamentais entre os

    instrumentos de cordas dedilhadas dos sculos XVI a XVIII, suas transformaes em

    direo ao instrumento do sculo XIX, utilizado por Sor, e aos instrumentos dos

    sculos XX e XXI, traando desta forma uma anlise anacrnico-sincrnica que

    permita uma viso global dos instrumentos e de sua insero esttica dentro de cada

    perodo.

    Os instrumentos da famlia das guitarras dos sculos XVI a XVIII diferiam

    bastante daquele para o qual Sor escreveu toda a sua obra. Vejamos em seguida um

    pequeno sumrio das afinaes1 existentes, e suas transformaes em direo

    afinao do sculo XIX, que permanece como padro at os dias de hoje. Os autores

    citados so exemplos dentre os que as prescreveram.

    Ex. 1) afinao padro para a vihuela

    1 Consideramos o termo aqui como a relao intervalar entre as cordas do instrumento, muito mais do que em relao altura absoluta de cada corda, esta varivel em funo de diversos fatores. Os termos equivalentes seriam, por exemplo, accord, em francs, e tuning, em ingls. A dobradura da primeira ordem ser indicada entre parnteses, uma vez que ambas as prticas aconteciam, a no ser nas fontes que prescrevem, especificamente, uma ou outra forma. preciso ter em mente que os instrumentos no eram padronizados como hoje, e que existiram inmeros outros instrumentos com afinaes diversas. Michel Praetorius escreve no Syntagma Musicum, de 1619, sobre as transformaes dos instrumentos de cordas dedilhadas no sculo XVII: A cada ano tantas modificaes esto sendo feitas, que nada muito definitivo pode ser escrito.

  • ix

    Ex. 2) segundo Mudarra, 1546, e Bermudo, 1555, para a guitarra de quatro ordens:

    2 A) temple viejo (afinao antiga)

    2 B) temple nuevo (afinao nova)

    Ex. 3) segundo Amat, 1596, Sanz (instrues para realizao de contnuo), 1697,

    e le Moine, 1773

    Ex. 4) segundo Briceo, 1626, e Marsenne, 1635 e Sanz, 1797 (instrues para

    msica no estilo punteado)

  • x

    Ex. 5) segundo Corbetta, 1671, e Vise, 1682

    Ex. 6) segundo Ferandiere, 1799

    Ex. 7) segundo Moretti,1799

    Ex. 8) afinao padro a partir do incio do sculo XIX, segundo le Moine, 1800,

    Carulli, 1811, Sor, 1830, e Pujol, 1911

    Atravs de uma anlise inicial podemos notar que a primeira diferena

    fundamental entre os exemplos 1 a 7 e o exemplo 8 que os anteriores apresentam

    todos cordas duplas para todas as ordens1, exceo da primeira, chamada de

    1 Ordem o termo usado na terminologia tcnica dos instrumentos de cordas dedilhadas para designar cada corda, ou par de cordas do instrumento. Outra designao cabvel Curso.

  • xi

    chanterelle, que podia ser simples ou dupla. Toda a tcnica de execuo instrumental

    apresenta, como decorrncia do dobramento das ordens, uma modificao bsica,

    particularmente no uso da mo direita. O uso primordial dos chamados dedos

    fortes (polegar, indicador e mdio), o apoio do dedo mnimo sobre o tampo, a

    tcnica da alternncia polegar e indicador em passagens de velo