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MOÇÃO (1) MARILYN STRATHERN [tradução de Gustavo Godoy – é uma tradução rápida e sem as notas de roda pé] [50] Como questão à nossa frente está uma ideia abstrata, um objeto do do pensamento. Claramente, não pode ser com a abstração ela mesma que discordamos. Todos nós fazemos abstrações para expandir nosso pensamento. Mas trata-se muito mais de como nós estendemos nossos pensamentos quais abstrações fazemos. E o principal problema com abstrair "sociedade" como um conceito repousa nos outros conceitos que são engendrados. Um debate antropológico deve apelar para uma justificação antropológica, e por este motivo as posições teóricas devem ser entendidas em seu contexto cultural. Qualquer que seja o controle que pensemos ter sobre o desenvolvimento de nossas teorias, é também inevitável estarem permeadas de hábitos gerais do pensamento. Assim, ao argumentar que o conceito de sociedade é obsoleto em relação à teoria antropológica, argumento também sobre um artefato cultural saliente. De fato, estamos todos vivendo o resultado desastroso de um longo investimento cultural na ideia de "sociedade" como entidade. Este debate honra a memória de Edmund Leach. Ele foi relevante quando apontou para os hábitos do pensamento que viciavam as teorias de seus colegas, como costume de pensar dicotomicamente. Em sua crítica de 1961 1 , atacou as dicotomias então na moda como ecologia/estrutura social, localidade/linhagem, aldeia/grupo social. Argumentou que não há domínio autônomo da existência social a ser colocado contra os fatos materiais de propriedade e localidade. Antes, tais fatos materiais retratam as relações sociais, e são manipulados por estas. O que dá às dicotomias um realismo superficial foi uma oposição abrangente entre economia e sociedade, que por seu turno permaneceu como um modo específico no qual o conceito de "sociedade" foi modelado como um objeto abstrato do pensamento como se fosse um dado. Foi tratado como como se fosse coisa. Assim foi possível ver esta coisa se opondo à ou em relação com outras "coisas", neste caso a economia. Mas sociedade, declara Leach, não é uma coisa: é uma forma de ordenar a experiência 2 . Tal era a tenacidade (cultural) de nossos hábitos do pensamento que Leach achou necessário reiterar com uma objeção árdua ao modo que como os antropólogos falam em sociedades no plural 3 . O pontos que eu coloco são os mesmos. Pensar a sociedade enquanto coisa é pensar nela como uma entidade discreta. A tarefa teórica então torna-se a de elucidar "a relação" entre ela e outras entidades. Se vocês quiserem isto é uma matemática que vê o mundo inerentemente dividido em unidades. O corolário significante desta visão é que as relações [51] aparecem como extrínsecas a tais unidades: elas aparecem como um modo secundário de conectar as coisas. Não é exatamente assim que Leach expunha isso, e realmente não poderia ter apresentado a questão desta forma. A maturidade dessas ideias da metade do século provém com nossa presente posição. E esta faz- nos compreender os danos que o conceito de "sociedade" fez. Para tanto, repito, não é qualquer velha abstração que estamos debatendo. É uma em particular, e uma que trouxe um conjunto específico de consequências para o modo com que damos formas a outras. Deixem-me fazer uma pausa no fato de que fazer abstrações parece real quando rotineiramente nós as damos a elas uma forma concretam, e oferecer um breve resumo na forma tomada por várias ideias a 1 2 3

Strathern_ o conceito de sociedade é teoricamente obsoleto

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um manifesto estruturalista contra o conceito de sociedade =]

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MOÇÃO (1)

MARILYN STRATHERN

[tradução de Gustavo Godoy – é uma tradução rápida e sem as notas de roda pé]

[50]

Como questão à nossa frente está uma ideia abstrata, um objeto do do pensamento. Claramente, não pode ser

com a abstração ela mesma que discordamos. Todos nós fazemos abstrações para expandir nosso

pensamento. Mas trata-se muito mais de como nós estendemos nossos pensamentos quais abstrações

fazemos. E o principal problema com abstrair "sociedade" como um conceito repousa nos outros conceitos

que são engendrados.

Um debate antropológico deve apelar para uma justificação antropológica, e por este motivo as

posições teóricas devem ser entendidas em seu contexto cultural. Qualquer que seja o controle que

pensemos ter sobre o desenvolvimento de nossas teorias, é também inevitável estarem permeadas de hábitos

gerais do pensamento. Assim, ao argumentar que o conceito de sociedade é obsoleto em relação à teoria

antropológica, argumento também sobre um artefato cultural saliente. De fato, estamos todos vivendo o

resultado desastroso de um longo investimento cultural na ideia de "sociedade" como entidade.

Este debate honra a memória de Edmund Leach. Ele foi relevante quando apontou para os hábitos do

pensamento que viciavam as teorias de seus colegas, como costume de pensar dicotomicamente. Em sua

crítica de 19611, atacou as dicotomias então na moda como ecologia/estrutura social, localidade/linhagem,

aldeia/grupo social. Argumentou que não há domínio autônomo da existência social a ser colocado contra os

fatos materiais de propriedade e localidade. Antes, tais fatos materiais retratam as relações sociais, e são

manipulados por estas.

O que dá às dicotomias um realismo superficial foi uma oposição abrangente entre economia e

sociedade, que por seu turno permaneceu como um modo específico no qual o conceito de "sociedade" foi

modelado como um objeto abstrato do pensamento como se fosse um dado. Foi tratado como como se fosse

coisa. Assim foi possível ver esta coisa se opondo à ou em relação com outras "coisas", neste caso a economia.

Mas sociedade, declara Leach, não é uma coisa: é uma forma de ordenar a experiência 2. Tal era a tenacidade

(cultural) de nossos hábitos do pensamento que Leach achou necessário reiterar com uma objeção árdua ao

modo que como os antropólogos falam em sociedades no plural3.

O pontos que eu coloco são os mesmos. Pensar a sociedade enquanto coisa é pensar nela como uma

entidade discreta. A tarefa teórica então torna-se a de elucidar "a relação" entre ela e outras entidades. Se

vocês quiserem isto é uma matemática que vê o mundo inerentemente dividido em unidades. O corolário

significante desta visão é que as relações [51] aparecem como extrínsecas a tais unidades: elas aparecem

como um modo secundário de conectar as coisas.

Não é exatamente assim que Leach expunha isso, e realmente não poderia ter apresentado a questão

desta forma. A maturidade dessas ideias da metade do século provém com nossa presente posição. E esta faz-

nos compreender os danos que o conceito de "sociedade" fez. Para tanto, repito, não é qualquer velha

abstração que estamos debatendo. É uma em particular, e uma que trouxe um conjunto específico de

consequências para o modo com que damos formas a outras.

Deixem-me fazer uma pausa no fato de que fazer abstrações parece real quando rotineiramente nós

as damos a elas uma forma concretam, e oferecer um breve resumo na forma tomada por várias ideias a

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antropologia social britânica no tempo da crítica de Leach.

Primeiro, como vimos, "sociedade" foi reificada como uma coisa individual, configurada como uma

entidade em antítese a entidades de uma ordem conceitual similar: sociedade versus economia, o mundo

material e mesmo biologia ou natureza. Apesar disto, pode ser vista como um domínio conceitual entalhado a

partir da vida humana, pensada como "coisas" aparecem como tendo uma identidade anterior a serem

colocadas em relação. Nesta empreitada, "sociedade" é referida geralmente como associação. Nenhuma

sociedade em particular, então, aparece como uma manifestação da sociedade neste sentido geral. Isto

introduz uma nova concretude.

Segundo, então, sociedade é personificado como uma população entre populações similares.

Consideradas junto, aparecem de forma semelhante a uma coleção de pessoas, excluindo que como a maioria

das sociedades não está em comunicação, as conexões entre elas pode ser apenas tipológicas. O que é

tipificado são as diferenças e semelhanças entre unidades discretas. Da mesma forma que se pode contar

pessoas individuais, pensa-se que se pode também enumerar sociedades individuais.

Terceiro, cada população pode por sua vez ser vista como uma coletividade de seres humanos

individuais que aparecem como membros da "sociedade", como partes de um todo. Caso sociedade seja

concebida como a soma de interações individuais ou como uma entidade que regula a conduta dos

indivíduos, a questão é a mesma4. Na medida em que a "sociedade" construiu o conjunto de relações entre

seus membros, a individualidade dos últimos é tomada como logicamente anterior. Então os seres humanos

individuais aparecem como um fenômeno primário da vida, e as relações como secundárias. Esta dicotomia

emerge aqui entre sociedade e as pessoas que a compõem enquanto são pensadas como indivíduos, estes são

vistos como tendo uma existência separada.

Os defeitos teóricos dessas posições são bem conhecidos. Uma vez mais encontramos problemas

criados pelo conceito inicial.

Consideremos primeiro as dicotomias entre domínios de estudo. O debate criação/natureza

[nurture/nature] encalhou; a ideia de sociedade como algo oposto a biologia encalhou à distância de outros

campos das ciências humanas5; enquanto o exagero da sociedade como um fenômeno autônomo levou-nos a

descartar áreas inteiras da competência humana como uma desinteressante "cultura material".

Segundo, como meus oponentes certamente concordarão, a antropologia comparativa está em um

impasse. Um impasse derivado de nossa matemática de números inteiros, a tendência a contar por unidades.

Uma regra de casamento em 20 sociedades torna-se 20 exemplos da regra de casamento! Sabemos que há

um problema em pensar sociedades como unidades estanques, nessas não podemos realmente contar. Mas

esse segundo absurdo é composto do primeiro. [52] Sociedade ou é uma metade de um fenômeno (do qual a

outra metade é tudo o mais a ser estudado sobre a vida humana); ou então é um fenômeno inteiro dividido

em partes – sistemas instituições, conjunto de regras. Partes que aparecem como componentes individuais

que também pode ser enumerados. Portanto enumeramos fenômenos através da sociedade, de modo que

uma regra ou prescrição pode também aparecer como um exemplo de algo com uma certa taxa de ocorrência.

Finalmente a ideia de sociedade como um todo para além dos humanos (individuais) que a

constituem atrai-nos para outra materialização: elaborar os indivíduos como sendo de alguma forma

membros dela. Isto leva, por exemplo, para a adequação fatal de "sociedade" com "grupo"6. Solidariedade de

grupo sendo interpretada como solidariedade societal. É fatal porque produz um cancro interno de questões

tais como "mulheres" que, por não pertencerem a grupos, parecem não pervencerem à sociedade. Ora, isto

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leva para a bizarra ideia de que as pessoas em qualquer lugar representa a sociedade para si mesmas como

um objeto externo, entesourado numa coesão ritual ou ordens legais. Tal abstração proliferou outras 0

religião representando a sociedade, lei representando a sociedade – igualmente colocadas contra o indivíduo

que tem que ser "socializado" presando o poder desta entidade externa. Em resumo, o que o antropólogo fez

em um objeto abstrato do pensamento que necessitava de material teve que ser visibilizada como objeto da

representação de outras pessoas. Aqui começam os anos que agora parece uma busca fútil pela ordem social.

Claramente nossas teorias esgotaram-se a si mesmas. Vocês tem a evidência – endossando um ponto

muito simples sobre a natureza das revoluções científicas. Teorias repousam em paradigmas. Um paradigma

torna-se visível no ponto de sua exaustão. Não mais uma forma tomada como certa de organizar o mundo,

ele aparece retroativamente como um conjunto de artifícios de analogia e metáfora. Em particular, note-se as

analogias para o conceito de relação: temos relações entre domínios separados de estudo (relacionado

sociedade com outras coisas), entre sociedades distintas (correlações trans-societais) e finalmente entre seres

humanos individuais, onde a natureza externa das relações foi hipostasiada no próprio conceito de

sociedade.

As reificações, personificações e numerosos jogos que jogamos com este conceito, ora no singular ora

no plural, ora relacionada com outras entidades, ora soma de relações, sã revelados como retórica. Uma vez

entendido como retórica, o conceito de sociedade não pode ser reivindicado pela teoria.

O terreno no qual movemos sua obsolescência é simplesmente que ela é um calamitoso "tem sido"7.

{I on one} calamidade teórica.

Pontuei que o problema com o conceito de "sociedade" são os outros conceitos que ele produz. E o

mais problemático para a antropologia tem sido o de "o indivíduo". Os dois têm operado como polos de um

pêndulo entre os quais as teorias do século 20 oscilam8.

Quando "sociedade" engloba os conceitos adicionais de organização e regras, atrai a atenção [53]

para as regularidade da vida social. Mas então ela aparece como uma ordem contra a qual o ator individual

constrói a ambição ou experiência; Então estamos familiarizados com o contrapeso que vem para ser dado às

interações na análise social. Em vez de "grupo" regulador, a sociedade tornou-se concreta como um

"mercado" [market place] interativo. De modo similar, quando "sociedade é imaginada como um objeto das

representações das pessoas, atrais a atenção para a importância da atividade simbólica, nos dá um ponto de

compreensão mútua: como "nós" imaginamos a sociedade como uma pretenção externa o devem "eles"

imaginar o mesmo. Mas representações então são vistas como forma mistificadas de dominação, como nas

relações de gênero, embora estas pessoas atuem "em favor da" ou "em nome da" sociedade. Em vez disto,

grupos de interesses vêm a ser percebidos como vários concorrentes.

Enquanto o pêndulo estiver em movimento, o conceito de sociedade estará em um útil lugar de

descanso. Mas o pêndulo está potelcialmente parando. Tendo oscilado entre morfologias sociais e interação

individual, de representações coletivas para ideologias de interesses de grupos a antropologia do final do

século 20 aterrissou no pântano do construtivismo social. Este é uma forma colapsada, implodida da versão

da dicotomia sociedade-indivíduo na medida em que o modelo inspira-se na ideia de forças externas

afetando o indivíduo afirmando sua experiência pessoal contra a sociedade.

Minha pontuação é simples. O pêndulo têm sido útil, proveu posições criativas e constituiu muito da

dinâmica interna da disciplina. E na medida em que o conceito de sociedade serviu como um foco para

pensar sobre organização social, vida coletiva e relações, ele serviu a seu propósito. Realmente, ele tem

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derivados afortunadamente úteis – o epiteto "social", o conceito de "socialidade" enquanto matriz de

relacional que constitui a vida das pessoas, e mesmo "sociedades" como um pluralismo taquigráfico para

populações com organizações distintivas. A nenhum destes nós fazemos objeções, por todos se referirem à

significância das relações dentro das quais as pessoas existem. Nossa objeção é para a distorção que surge

quando o quando o conceito de sociedade cessa de sinalizar estes fatos relacionais e em vez disso oblitera-os.

Inversamente de socialidade ser vista como intrínseca à definição de pessoalidade [personhood], "sociedade"

é colocada contra "o indivíduo". E por causa da concretude dos indivíduos em nossa visão cultura do mundo,

tem sido difícil livrar-se do indivíduo como tendo uma existência logicamente prioritária. De fato, a

prioridade dada ao conceito de indivíduo é tal que tem sido aplicada à própria sociedade: "sociedades"

tomam as características de unidades holísticas discretas.

O conceito de sociedade tem, então, existido como um instrumento retórico – como desfecho na

narrativa etnográfica9, acomodando em grupo partes da análise como se a estrutura social se acomodasse em

grupo; como a possibilidade de integração teórica tornada concreta no englobamento de todo fenômeno

social. Talvez isso possa parecer inócuo para vocês. Em retrospectiva, entretanto, a retoricamente acaba por

ter sido neutra. Passo agora evidências de um domínio diferente, aquele que forma o pano de fundo para

nossa presente teorização. Joga-se explicitamente com a dicotomia entre sociedade e indivíduo. Isto é, de

fato, uma terrível paródia, uma literalização deste pêndulo teórico, que golpeia-nos na cabeça com um de

seus polos.

Quando Leach falou que a sociedade não é uma coisa, ele queria dizer que as práticas sociais são um

meio de comportamento humano e não podem ser colocadas contra este. Ele antecipava a cilada que que

nossa presente patroa das profecias autorrealizáveis caiu. Refiro-me, é claro, à declaração infame feita pela

Primeira Ministra Margaret Thatcher:

Não existe essa coisa chamada de sociedade. Há apenas indivíduos homens e mulheres e há

famílias

A afirmação mostra-nos o que foi desastrosamente errado na criação de uma entidade abstrata fora

do conceito particular em questão. Escutem as consequências.

Primeiro, as motivações pessoas apareceram como a única realidade. Hoje vivemos sob um regime

político que que tenta varrer as coletividades que intervêm entre o Estado e os "cidadãos" e as organizações

que promovem interesses específicos. E é o mesmo ataque à diversidade social que encorajou tanto a

privatização de industrias anterioremente nacionalizadas e incrementou o controle sobre os serviços sociais.

Diversos modos da organização social se degradaram. As corporações devem ser moldadas em um modelo;

toleradas apenas se concebíveis como indivíduos.

Segundo, vivemos num regime cultural que define o indivíduo de um modo específico – como

financeiramente autossuficiente. Todas as empresas – industrial, educacional, artística – devem se

comportar como tais indivíduos, empresas de recursos independente que prestam atenção para suas próprias

necessidades, e que portanto são socialmente parecidas na medida em que fazem seus lançamentos

contábeis, conquistam suas metas de desempenho e assim por diante. Elas interlacem somente como

"clientes" de outras, a ação social torna-se uma questão da capacidade individual para mobilizar serviços.

Terceiro, em seguida, vivemos sob um regime que gostaria de tornar invisível qualquer forma de

relação social que não possa ser modelada em interações entre indivíduos e para as quais o mercado [o lugar:

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market-place] pode servir como metáfora.

Intolerância pela diversidade de formas sociais, indivíduos definidos como consumidores e

prestadores de serviços, relações invisibilizadas – vemos aqui o resultado de um hábito há muito estabelecido

da abstração sociedade como um objeto do pensamento. É porque o conceito de sociedade propagou-se como

se fosse um tipo de entidade autônoma que ela transformou-se em algo possível de ser toda jogada fora e de

"revelar" os supostamente concretos indivíduos debaixo dela. Para o que a Primeira Ministra fez uma

pequena análise de obviação sobre o conceito – compreendendo que sociedade não é afinal uma coisa

concreta mas uma abstração. Então, corte a cabeça dela! O "mundo real" consiste em corpos consumidores,

surgindo do gráfico de tempos em tempos para conferirem os índices das cotações. Abstrações não

pertencem a este mundo; apenas indivíduos pertencem. Vejam o que aconteceu.

Em um ataque cruel o thatcherismo pode reunir todos os tipos de coletividades e organizações com

uma presença social e, jogando fora a ideia de sociedade, jogou fora eles. Eles não retiram mais sua

legitimidade de sua natureza social porque a sociedade não existe mais. Então o que substituiu a falsa

"coisas, a sociedade, foi a "coisas" real, o indivíduo. A forma que este conceito toma aqui que permite isto.

Porque a sociedade foi reificada é possível reificar o indivíduo em antítese. É um fato cultura triste que um

pareça sempre precipitar o outro.

Aqui está o absurdo, e mesmo a tragédia, de operacionalizar um polo da dicotomia. Onde o indivíduo

é produzido nestas condições "em oposição à" sociedade, o deslocamento dissimula as formações sociais e

relações de poder. Este é o individualismo prescritivo que, entre outras coisas, invisibiliza os interesses

comerciais e militares das multinacionais, já que tudo que "vemos" é na medida em que o cliente é recipiente

de serviços. Além disso, isto alimenta a trágica promoção da gratificação do cliente. Neste ponto pode-se

argumentar pela restauração do próprio conceito de sociedade, e para isto equilibraríamos a balança. A

probabilidade cultural, entretanto, é que não seria: fazer isto apelas recriaria sua [55] antítese.

A moção que eu apresento a vocês é que não precisamos do conceito de sociedade exatamente porque

não precisamos do conceito de indivíduo em contraposição a ele. Como antropólogos, "nós" certamente não

temos que negociar com esta dicotomia. O que é calamitoso para a nação do final do século 20 é ainda mais

triste para nós. Na conceitualização de sociedade, do começo do século 20, como um objeto de estudo, a

antropologia começou como intenções muito boas. Mas mostrei os prejuízos que já eram evidentes na crítica

de Leach. Chegamos ao pode de ter que falar novamente a nós mesmo que se estamos produzindo teorias

adequadas da realidade social, então o primeiro passo é apreender pessoas como contendo simultaneamente

o potencial para as relações e sempre incorporada numa matriz relacional com outras. Christina Toren vai

falar mais sobre o que queremos dizer.

Enquanto isso, posso somente tomar a seguinte posição. Certamente precisamos de uma análise de

obviação sobre o conceito, mas não para recusar a abstração. Precisamos recuperar a intenção original da

abstração que é transmitir o significado das relações na vida e no pensamento humanos.

Relações sociais são intrínsecas à existência humana, não extrínsecas. Como objetos do estudo

antropológico, não se pode, portanto, conceber as pessoas como entidades individuais. Infelizmente, foi a

mesma ideia de sociedade que tem sido a culpada por isso. O resultado lamentável de conceber a sociedade

ela própria como uma entidade atualmente tem sido fazer as relações aparecerem como secundárias e não

como primárias para a existência humana. Muito simples, então, que nós chegamos ao ponto teórico de

reconhecer como um conceito de "sociedade" veio a interferir muito na nossa apreensão da socialidade.

Desafio que ele seja despachado como obsoleto.

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