Suspiros Poéticos e Saudades

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  • MINISTRIO DA CULTURAFundao Biblioteca NacionalDepartamento Nacional do Livro

    SUSPIROS POTICOS E SAUDADESDomingos Jos Gonalves de Magalhes

    Lede

    Pede o uso que se d um prlogo ao livro, como um prtico ao edifcio; e como este deve indicar por sua construo a quedivindade se consagra o templo, assim deve aquele designar o carter da obra. Santo uso de que nos aproveitamos paradesvanecer alguns preconceitos, que talvez contra este livro se elevem em alguns espritos apoucados.

    um livro de poesias escritas segundo as impresses dos lugares; ora sentado entre as runas da antigaRoma, meditando sobre a sorte dos imprios; ora no cimo dos Alpes, a imaginao vagando no infinitocomo um tomo no espao; ora na gtica catedral, admirando a grandeza de Deus e os prodgios docristianismo; ora entre os ciprestes que espalham sua sombra sobre tmulos; ora, enfim, refletindosobre a sorte da ptria, sobre as paixes dos homens, sobre o nada da vida. So poesias de um peregrino,variadas como as cenas da natureza, diversas como as fases da vida, mas que se harmonizam pelaunidade do pensamento e se ligam como os anis de uma cadeia; poesias dalma e do corao, e que spela alma e o corao devem ser julgadas.

    Quem ao menos uma vez separou-se de seus pais, chorou sobre a campa de um amigo, e armado com obasto de peregrino, errou de cidade em cidade, de runa em runa, como repudiado pelos seus; quemno silncio da noite, cansado de fadiga, elevou at a Deus uma alma piedosa, e verteu lgrimas amargaspela injustia, e misrias dos homens; quem meditou sobre a instabilidade das coisas da vida e sobre aordem providencial que reina na histria da humanidade, como nossa alma em todas as nossas aes;esse achar um eco de sua alma nestas folhas que lanamos hoje a seus ps, e um suspiro que seharmonize com o seu suspiro.

    Para bem se avaliar esta obra, trs coisas releva notar: o fim, o gnero e a forma.

    O fim deste livro, ao menos aquele a que nos propusemos, que ignoramos se o atingimos, o de elevara poesia sublime fonte donde ela emana, como o eflvio dgua, que da rocha se precipita, e ao seucume remonta, ou como a reflexo da luz ao corpo luminoso; vingar ao mesmo tempo a poesia dasprofanaes do vulgo, indicando apenas no Brasil uma nova estrada aos futuros engenhos.

    A poesia, este aroma dalma, deve de contnuo subir ao Senhor; som acorde da inteligncia deve santificaras virtudes e amaldioar os vcios. O poeta, empunhando a lira da razo, cumpre-lhe vibrar as cordaseternas do santo, do justo e do belo.

  • Ora, tal no tem sido o fim da maior parte dos nossos poetas; e o mesmo Caldas, o primeiro dos nossoslricos, to cheio de saber e que pudera ter sido o reformador da nossa poesia, nos seus primores darte,nem sempre se apoderou desta idia; compe-se uma grande parte de suas obras de tradues; e quandoele original causa mesmo d que cantasse o homem selvagem de preferncia ao homem civilizado,como se aquele a este superasse, como se a civilizao no fosse obra de Deus, a que era o homemchamado pela fora da inteligncia com que a Providncia dos mais seres o distinguira!

    Outros apenas curaram de falar aos sentidos; outros em quebrar todas as leis da decncia!

    Seja qual for o lugar em que se ache o poeta, ou apunhalado pelas dores, ou ao lado de sua bela,embalado pelos prazeres; no crcere, como no palcio; na paz, como sobre o campo da batalha; se ele verdadeiro poeta, jamais deve esquecer-se de sua misso, e acha sempre o segredo de encantar ossentidos, vibrar as cordas do corao, e elevar o pensamento nas asas da harmonia at as idiasarquetpicas.

    O poeta sem religio e sem moral, como o veneno derramado na fonte, onde morrem quantos procurama aplacar a sede.

    Ora, nossa religio, nossa moral aquela que nos ensinou o Filho de Deus, aquela que civilizou omundo moderno, aquela que ilumina a Europa e a Amrica: e s este blsamo sagrado devem verter oscnticos dos poetas brasileiros.

    Uma vez determinado e conhecido o fim, o gnero se apresenta naturalmente. At aqui, como s seprocurava fazer uma obra segundo a arte, imitar era o meio indicado: fingida era a inspirao, e artificial,o entusiasmo. Desprezavam os poetas a considerao se a mitologia podia, ou no, influir sobre ns:contanto que dissessem que as musas do Hlicon os inspiravam, que Febo guiava seu carro puxado pelaquadriga, que a aurora abria as portas do Oriente com seus dedos de rosas, e outras tais e quejandasimagens to usadas cuidavam que tudo tinham feito, e que com Homero emparelhavam; como sepudesse parecer belo quem achasse algum velho manto grego e com ele se cobrisse; antigos e safadosornamentos, de que todos se servem, a ningum honram.

    Quanto forma, isto , construo, por assim dizer, material das estrofes e de cada cntico em particular,nenhuma ordem seguimos, exprimindo as idias como elas se apresentaram, para no destruir o acentoda inspirao; alm de que a igualdade dos versos, a regularidade das rimas e a simetria das estnciasproduzem uma tal monotonia e do certa feio de concertado artifcio que jamais podem agradar. Ora,no se compe uma orquestra s com sons doces e frautados; cada paixo requer sua linguagem prpria,seus sons imitativos, e perodos explicativos.

    Quando em outro tempo publicamos um volume das poesias da nossa infncia, no tnhamos aindaassaz refletido sobre estes pontos e em quase todas estas faltas incorremos; hoje, porm, cuidamos terseguido melhor caminho. Valha-nos ao menos o bom desejo, se no correspondem as obras ao nossointento; outros mais mimosos da natureza faro o que no nos dado.

    Algumas palavras acharo neste livro que nos dicionrios portugueses se no deparam; mas as lnguasvivas se enriquecem com o progresso da civilizao e das cincias, e uma nova idia pede um novotermo.

  • Eis as necessrias explicaes para aqueles que lem de boa-f, e se aprazem de colher uma prola nomeio das ondas; para aqueles, porm, que com olhos de prisma tudo decompem, e como as serpentessabem converter em veneno at o nctar das flores, tudo perdido; o que poderemos ns dizer-lhes?...Eis mais uma pedra onde afiem suas presas, mais uma taa onde saciem sua febre de escrnio.

    Este livro uma tentativa, um ensaio; se ele merecer o pblico acolhimento, cobraremos nimo, econtinuaremos a publicar outros que j temos feito, e aqueles que fazer poderemos com o tempo.

    um novo tributo que pagamos ptria, enquanto lhe no oferecemos coisa de maior valia; o resultadode algumas horas de repouso, em que a imaginao se dilata, e a ateno descansa, fatigada pela seriedadeda cincia.

    Tu vais, livro, ao meio do turbilho em que se debate nossa ptria; onde a trombeta da mediocridadeabala todos os ossos, e desperta todas as ambies; onde tudo est gelado, exceto o egosmo: tu vais,como uma folha no meio da floresta batida pelos ventos do inverno, e talvez tenhas de perder-te antesde ser ouvido, como um grito no meio da tempestade.

    Vai; ns te enviamos cheios de amor pela ptria, de entusiasmo por tudo o que grande e de esperanasem Deus e no futuro.

    Adeus!

    Paris, julho de 1836

  • I

    INVOCAOAO ANJO DA POESIA

    A VOZ DE MINHA ALMA

    Quando da noite o vu caliginosoDo mundo me separa,

    E da terra os limites encobrindo,Vagar deixa minha alma no infinito,Como um subtil vapor no areo espao,Uma anglica voz misteriosa

    Em torno de mim soa,Como o som de uma frauta harmoniosa,Que em sagradas abbadas reboa.

    Donde vem esta voz? No de virgem,Que ao prazo dado o bem-amado aguarda,E mavioso canto aos cus envia;Esta voz tem mais grata melodia!

    Donde vem esta voz? No dos Anjos,Que leves no ar adejam,

    E com hinos alegres se festejam,Quando uma alma inocente

    Deixa do barro a habitao escura,E na sidrea altura,Como um astro fulgente

    Penetra de Adonai o aposento;A voz que escuto tem mais triste acento.

    Como dara turcrema se exalaNuvem de grato aroma que a circunda,

    E lenta vai subindoEm faixas ondeantes,Nos ares espargindoPartculas fragrantes,

    E sobe, e sobe, at no cu perder-se,Tal de mim esta voz parece erguer-se.

    Sim, esta voz do peito meu se exala!Esta voz minha alma que se espraia, minha alma que geme, e que murmura,Como um rgo no templo solitrio;Minha alma, que o infinito s procura,E em suspiros de amor a seu Deus se ala.

    Como surdo at hoje

  • Fui eu a to anglica harmonia?Porventura minha alma muda esteve?Ou foram porventura meus ouvidos

    At hoje rebeldes?Perdoa-me, oh meu Deus, eu no sabia!Eram Anjos do cu que me inspiravam,E outras vozes meus lbios modulavam.

    Castas Virgens da Grcia,Que os sacros bosques habitais do Pindo!

    Oh Numes to fagueiros,Que o bero me embalastesCom risos lisonjeiros,

    Assaz a infncia minha fascinastes.Guardai os louros vossos,

    Guardai-os, sim, queu hoje os renuncio.Adeus, fices de Homero!Deixai, deixai minha alma

    Em seus novos delrios engolfar-se,Sonhar coas terras do seu ptrio Rio.S de suspiros coroar-me quero,De saudades, de ramos de cipreste;S quero suspirar, gemer s quero,E um cntico formar coos meus suspiros;Assim pela aura matinal vibradoO Anemocrdio, ao ramo pendurado,

    Em cada corda geme,E a selva peja de harmonia estreme.

    J nova MusaMeu canto inspira;No mais empunhoProfana lira.

    Minha alma, imitaA Natureza;Quem vencer podeSua beleza?

    De dia, e noiteLouva o Senhor;Canta os prodgiosDo Criador.

    Tu no escutasEsta harmonia,Que ao trono excelsoA terra envia?

  • Tu no reparasComo o mar geme,Como entre as folhasO vento freme?

    Como a ave chora,A ovelha muge,O trovo brama,O leo ruge?

    Cada qual cantaAo seu teor,Mas louvam todosO seu Autor.

    Da grande orquestra Aumente o brilho O Canto humano Da razo filho.

    Minha alma, aprende,Louva a teu Deus;Os teus suspirosEnvia aos cus.

    Oh como belo o cu azul sem ndoa!Que puro amor nos coraes ateia,Como a pupila de engraada virgem,Que serena nos olha,