Tecidos decorativos e interiores dom©sticos oitocentistas ... Tecidos decorativos e interiores

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    Tecidos decorativos e interiores domsticos oitocentistas na literatura prescritiva inglesa e norte-americana1

    Luz Garca Neira2

    RESUMO: Os manuais e jornais de decorao publicados na Inglaterra e Estados Unidos durante o sculo XIX deram escolha dos txteis um papel fundamental na configurao dos ambientes. Txteis artsticos, artesanais e industriais compartilharam o espao domstico, sendo recomendados, em cada situao, conforme seu valor social, diretamente proporcional ao seu valor artstico. Baseado na literatura destinada a auxiliar na decorao domstica e na bibliografia prvia que explora o assunto, este artigo trata dessa relao e procura demonstrar que com o avano da industrializao e o crescimento da utilizao de tecidos industrializados, valores artsticos foram transmitidos aos tecidos produzidos pela indstria com a inteno de melhorar sua aceitao entre os consumidores.PALAVRAS-CHAVE: Decorao finissecular. Tecidos decorativos. Manuais de decorao.

    ABSTRACT:The handbooks and magazines about decorating that were published in England and North America during the19th Century meant that the choice of textiles played a key role in shaping the environment. Artistic, craftsman and industrial textiles shared domestic space and in each situation, it was advised that their social value should be directly proportional to their artistic value. This article is based on the literature designed to serve as an aid to house decoration and the bibliography of works that have previously explored this subject. It addresses this relationship and seeks to show that through industrial advances and the growth in the use of industrialized fabrics, artistic values were transmitted to the textiles produced by industry with the aim of ensuring they had a better acceptance among the customers.KEYWORDS: Fin-de-sicle decorations. Decorative fabrics. Handbooks on decoration.

    Anais do Museu Paulista. So Paulo. N. Sr. v.22. n.1. p. 199-216. jan.- jun. 2014.

    1. Esta pesquisa foi reali-zada para subsidiar o Proje-to de Renovao Museogr-fica do Museu Casa de Rui Barbosa no perodo 2010-2012 e financiada pela Fun-dao Casa de Rui Barbosa / Ministrio da Cultura.

    2. Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela FAUUSP, docente da Universidade Anhembi-Morumbi, So Paulo. E-mail: .

  • Anais do Museu Paulista. v. 22. n.1. Jan.- Jun. 2014.200

    A cultura material txtil nos interiores domsticos oitocentistas

    Ao longo do sculo XIX, os avanos tecnolgicos experimentados em diferentes segmentos industriais, trouxeram prosperidade e conforto material s casas urbanas de grande parte das maiores cidades do mundo ocidental3 e aos seus proprietrios4. Tornando-se o consumo um evento social e a posse e a ostentao de produtos industriais e/ou artsticos parte das exigncias de socializao distintiva, o ambiente domstico, segundo Houze, transformou-se numa fonte de prazer e desfrute para a famlia, o que constitui um excelente exemplo para comprovar a transformao das artes e at mesmo a construo de um novo estilo5.

    Em tais circunstncias, as famlias burguesas, por meio de expresses da cultura visual e material da decorao, desejavam comunicar sua prosperidade econmica. Massey lembra que ao atribuir personalidade casa a partir das escolhas individuais, contudo, manifestava-se o medo causado pela insegurana que a burguesia tinha com seu prprio gosto6, marcando a primeira questo importante a respeito da disseminao dos manuais de decorao ao longo de praticamente todo o sculo XIX: o conflito entre as preferncias pessoais e os mecanismos que ditavam as regras que pretendiam homogeneizar o gosto da populao7.

    Revistas e livros eram os meios mais comuns de disseminar ou instruir a respeito da decorao da casa, e neles no se alcanou consenso a respeito do que poderia ser considerado a decorao domstica. Ao longo do sculo, publicaes inglesas e norte-americanas sugeriram a utilizao da decorao interior e suas variveis artsticas para expressar sentidos da sociabilidade, algo que sinaliza que o papel da arte numa sociedade em transformao pela indstria, de algum modo, devia exprimir os valores fundamentais dos indivduos.

    A complexidade dessa relao identificvel nas diferentes perspectivas que a decorao do espao domstico assumiu ao longo do tempo, em especial durante o sculo XIX. Nesse sculo, a reflexo sobre os interiores domsticos os elementos e seu arranjo , foi impulsionada pela conscincia das transformaes sociais decorrentes da Revoluo Industrial expressa tanto nos debates acerca da produo artstica e sua seriao, quanto em manuais de decorao e seus postulados de bom gosto. A relao entre a forma dos objetos industriais e a natureza do trabalho na indstria foram questionados do ponto de vista social, religioso, moral e, sem dvida, esttico, tornando-se um debate comum acerca da cultura material na Inglaterra e nos principais centros urbanos da Europa, chegando, inclusive, ao Brasil8. Nesse perodo, destacam-se as trs perspectivas a seguir.

    Na clssica publicao Hints on Household Taste in Furniture, Upholstery and other details de Charles Eastlake (primeira edio em 1870), por exemplo, considerava-se que a faculdade de distinguir o bom do mau design nos objetos familiares da vida domstica uma faculdade que as pessoas mais educadas e especialmente as mulheres devem possuir9, atribuindo a competncia do gosto instruo e moralidade. O Movimento Esttico (Aesthetic Movement), por outro lado, mesmo em parte coincidindo com as instrues decorativas do vitorianismo,

    3. Considera-se aqui que as principais capitais europeias e as grandes cidades norte--americanas, assim como o Rio de Janeiro, inserem-se nesse processo de transfor-mao, acelerado tanto pela rpida circulao de artefa-tos decorativos no Ocidente, quanto por textos normati-vos que preconizavam seu uso e que constituem a base documental deste artigo. As publicaes aqui examina-das encontram-se nos acer-vos da British Library (Lon-dres) e National Art Library (Victoria and Albert Mu-seum, Londres).

    4. Ver Katryn Ferry (2010).

    5. Ver Rebeca Houze (2006).

    6. Ver Anne Massey (2008).

    7. Ver Adrian Forty (2007), para quem os manuais de decorao representam o paradoxo daquela socieda-de, que buscava a individua-lidade mas simultaneamente cerceava e criticava as esco-lhas individuais que fugis-sem do que fosse, em cada momento, considerado de bom gosto. Tambm era uma outra misso dos ma-nuais educar o senso estti-co da populao em geral, de modo a trazer benefcios sociais para alm de seus resultados aplicados deco-rao domstica.

    8. Conforme apresenta Ma-rize Malta (2011), a Bibliote-ca de Obras Raras do Museu Dom Joo VI tem grande quantidade de manuais de decorao do perodo. Se-gundo a autora, essas publi-caes tinham uso pedag-gico na Escola de Belas Artes e, por isso, faziam parte da biblioteca. Solange Ferraz de Lima (2008) tam-bm elenca a presena de repertrios de ornamentos e similares em bibliotecas e outras instituies em So Paulo (apurando 128 ttu-los), de modo que ambas as autoras destacam o papel educativo desse tipo de ma-terial no Brasil.

  • Annals of Museu Paulista. v. 22. n.1. Jan.-Jun. 2014. 201

    pregava a arte pela arte, evitando o critrio decorativo baseado na moralidade burguesa, aceitando, ainda, criao dedicada conquista da beleza, o que liberava a arte para a criao livre e no s para a reproduo da natureza. Nessa mesma direo, Oscar Wilde (1854-1900) sugeria que a individualidade expressiva poderia ser nociva noo de beleza artstica; apesar de reconhecer que a casa deveria expressar o sentimento daqueles que nela moravam, existiam certos princpios de arte que sempre deveriam ser observados em sua decorao10. Uma proposta mais prtica e que deixou seu legado para o sculo XX , prezava a decorao racionalizada do ponto de vista plstico. Defendendo que a arte-decorao submetia-se arquitetura, sugeria que os mesmos princpios estticos fossem seguidos na utilizao das cores, materiais, propores etc., com a finalidade de constituir um sistema decorativo. Desse ponto de vista, embora tais princpios pudessem ser aprendidos por todos, sua aplicao, obviamente, dependeria do decorador11.

    Beverly Gordon explica que a tradio dos livros de decorao que buscavam a construo do lar ideal associado moralidade surgiu em decorrncia da necessidade de ver materializado o julgamento da mulher no papel de boa esposa e me, o que explicado pelo entendimento que a mulher era vista como a corporificao da casa, e a casa era vista como a sua extenso, tanto de esprito, quanto corprea12. Mas, se as publicaes do incio do sculo XIX detinham-se sobretudo em aspectos relacionados conduta familiar e no exatamente decorao da casa13, a partir das dcadas de 1820 e 1830 comearam a ser ofertados livros totalmente dedicados aos elementos fsicos da casa e detalhando como os mveis e decorao poderiam ser empregados em cada cmodo14 acompanhando, como visto, a prpria reflexo terica a respeito do papel das artes na decorao interior. No que a mudana na difuso das normas decorativas, tivessem perdido seu carter moral, mas, adquiriam outra nuance a finalidade material e igualmente nobre do sentido artstico , visto que as virtudes que espelhariam ainda davam continuidade s ideias precedentes.

    A passagem de uma casa cuja decorao era marcada pelo excesso que buscava o conforto e a ostentao em si mesmos manifestou-se principalmente nas ltimas dcadas do sculo XIX, obedecendo aos princpios vitorianos e, portanto, ao exagero, para a construo de um interior artstico que contava com a singularidade de seus elementos para simbolizar riqueza, bom gosto e status15. Para Martha McClaugherty, o movimento artstico denominado Household Art tinha a inteno de estabelecer um padro artstico para a casa para que ela estivesse em harmonia com a recente industrializao da sociedade16, sendo o consumidor da classe mdia encorajado a reconhecer o valor do design, pr