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TELA TOTAL

JEAN BAUDRILLARD

TELA TOTALmito-ironias do virtual e da imagem

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EDIO

ORGANIZAO E TRADUO DE JUREMIR MACHADO DA SILVA

de Jean Baudrillard, 1997Capa: Eduardo Miotto Reviso: Gabriela Koza Projeto grfico e editorao: ComTexto Editorao Eletrnica

Editor: Luis Gomes

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao ( CIP ) Bibliotecria Responsvel: Ginamara Lima J. Pinto CRB 10/1204

B342t

Baudrillard, Jean Tela total : mito-ironias da era do virtual e da imagem / Jean Baudrillard; traduo de Juremir Machado da Silva. 4. ed. Porto Alegre : Sulina, 2005. 158p. ISBN 85-205-0139-7 CDU 30

Todos os direitos desta edio reservados EDITORA MERIDIONAL LTDA.Av. Osvaldo Aranha, 440 cj. 101 Cep: 90035-190 Porto Alegre RS Tel.: (51) 3311-4082 Fax: (51) 3264-4194 www.editorasulina.com.br sulina@editorasulina.com.br Maio/2005 IMPRESSO NO BRASIL/PRINTED IN BRAZIL

Sumrio

Introduo: Jean Baudrillard ou o niilismo irnico ................... 7 1 Nada de piedade de Sarajevo .................................................. 11 2 A impotncia do virtual ........................................................... 17 3 Servilizao ocidental................................................................ 21 4 Quando o Ocidente toma o lugar do morto ..................... 25 5 A grande faxina .......................................................................... 29 6 s lgrimas, cidados! ............................................................... 35 7 Os hilotas e as elites .................................................................. 39 8 A informao no estgio meteorolgico ............................. 45 9 O continente negro da infncia ............................................. 51 1 0 A dupla exterminao .............................................................. 57 1 1 Perdidos de vista e realmente desaparecidos ...................... 63 1 2 A sexualidade como doena transmissvel .......................... 69 1 3 A soberania da greve ................................................................. 75 1 4 Terra do Fogo Nova York ou o fantasma do fim do mundo ..................................................................................... 81 1 5 Dvida mundial e universo paralelo...................................... 87 1 6 A sombra do comandante ....................................................... 93 1 7 O espelho da corrupo .......................................................... 99 1 8 Disneyworld Company......................................................... 105 1 9 O mundial e o universal ........................................................ 111 20 Deep Blue ou a melancolia do computador .................... 117 2 1 Ruminaes para encfalos esponjosos ............................ 123

22 23 24 25 26

Tela total .................................................................................... 129 O compl da arte ..................................................................... 135 Fantasmas televisuais .............................................................. 141 Certo, Chirac uma nulidade .............................................. 147 Histria de clones o original e seu duplo ...................... 153

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Introduo Jean Baudrillard ou o niilismo irnico

Apresentar Jean Baudrillard? Desnecessrio. Explicar Baudrillard?Impossvel. Ele nunca est nos lugares onde pretendem encontrlo os funcionrios da classificao sociolgica. Tomar o texto de Baudrillard como pretexto para um discurso escolar? Tampouco. Navegar com o pensador nas guas do desaparecimento da falsa realidade construda pela modernidade? Eis uma aventura intelectualmente excitante. Baudrillard um outro. Como Rimbaud, no cessa de escapar de si mesmo para contemplar, com olhos irnicos, o formidvel avano da banalidade, encarnada, neste fim de sculo, na espetacularizao do vazio. Histria universal da extino. Desaparecimento do sentido, do sexo, da Verdade, do sonho, da poltica, da utopia, da infncia, da morte, da realidade, etc. Tudo desapareceu. E tudo est preservado, salvo, catalogado, guardado para um futuro extinto. No vale a pena chorar. A nostalgia tambm foi eliminada, mas, paradoxalmente, subsiste, embalsamada, no corao dos otimistas. Baudrillard, em todo caso, no profeta nem anjo do apocalipse. Aqum e alm do pessimismo e do otimismo, desestabiliza em permanncia a eterna vontade intelectual de introduzir certezas nas clulas de sociedades consumidas pelo vrus do aleatrio. Conhecimento e verdade parecem evoluir em direes opostas. Quanto maior o conhecimento, bem ilustrado naTELA TOTAL

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atualidade pela revoluo da informtica, menor a compreenso da existncia. Salvo engano. Apenas o erro est garantido. sombra do iluminismo quase defunto, Baudrillard ironiza, ri, desconcerta, relativiza, zomba e estraga os esquemas explicativos do prt--porter terico. Traduzir Baudrillard? Sim e no. A traduo faz-se necessria embora nunca se livre da impreciso. O texto de Baudrillard oferece-se converso, mas guarda zonas de sombra, ambigidades irredutveis, falsas opacidades. Intraduzvel enquanto escritor singular, Jean Baudrillard permite ao tradutor a descoberta, o prazer da palavra voltil, o gozo da frase em perptua evoluo. Num passeio irreverente pelos territrios das cincias humanas, o autor usa e abusa das metforas e dos termos emprestados s mais diversas especialidades. Fantasmas de demiurgo? Vertigem potica do discurso. Fantasma, palavra-conceito do domnio psi, de uso coloquial na cultura francesa, merece traduo literal, apesar de ultrapassar a utilizao corrente, fora do campo especializado, do vocbulo no Brasil, pois condensa a versatilidade da prosa de Baudrillard, tecida no ponto de encontro entre o erudito, o miditico e o popular; prosa feita de fragmentos que se complementam e contradizem em permanncia. Prosa fantasmtica. Apenas um exemplo dessa operao complexa que a argumentao de Jean Baudrillard. Na contramo da homogeneidade, da padronizao, cada vez que uma expresso se repete surge nova possibilidade de interpretao. Camadas sucessivas de sentido nuanadas pelo contexto numa incessante deriva na direo do silncio ruidoso da perplexidade. Cada leitor continuar a traduzir Baudrillard ad infinitum. A fora da sua sociologia encontra-se na violncia retrica, na abertura consciente ao indizvel, ao que s a arte consegue, em parte, tocar. Baudrillard procura ultrapassar o limiar do dito para buscar no no8 JEAN BAUDRILLARD

dito algo mais do que o senso comum. Conotativo por excelncia, o discurso baudrillardiano explora o grau superior da virtualidade. A realidade resume-se a um ndice, um vetor, um ponto de partida para o sonho; feroz ironia do homem que se recusa a fazer o jogo da lgica binria. Tela Total rene pela primeira vez (antes mesmo de uma edio francesa) a ntegra dos artigos/ensaios publicados por Jean Baudrillard, no dirio parisiense Libration, entre 1993 e 1997. A maioria dos textos apareceu entre junho de 1995 e maio de 1996, poca em que o jornal contou com a colaborao oficial do terico, na primeira segunda-feira de cada ms; depois, quinzenalmente. Criado em 1974, com a participao de Jean-Paul Sartre, Libration representou durante muito tempo, sob a direo de Serge July, o espao da irreverncia mxima do jornalismo francs, global mas intelectualizado. Nada mais justo, portanto, na fase de tentativa de um terceiro salto qualitativo do veculo, que abrigar a reflexo impiedosa de Baudrillard. Perpassados do incio ao fim pela sofisticada ironia do socilogo/escritor, os 25 artigos figuram como verdadeiras lies (cursos) sobre a era da imagem, do virtual, da extino das verdades ideolgicas, da crise dos paradigmas modernos, etc. A unidade analtica alcana o estatuto de unidade temtica, apesar da variedade de assuntos (guerra da Bsnia, corrupo, mdia, novas tecnologias...), pois por trs de cada tpico circunstancial aparece uma maneira de olhar, metodologia libertria e implacvel, que permite ao leitor perceber o jogo de simulacros, o desaparecimento do Outro, o vazio das posturas pessimistas ou otimistas, a imploso das iluses, a falcia das apologias da tcnica, o imprio virtual da imagem, etc. Caador inspirado do absurdo travestido de novidade ou de promessa do paraso terrestre, Jean Baudrillard desconcerta e provoca indignao por no fazer concesses s utopias desejveis mas nem por isso realizveis. Embora muitos intelectuais, entre os quaisTELA TOTAL

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Paul Virilio, atuem no mesmo registro o exame radical das condies de possibilidade da autonomia sob o signo da mdia , nenhum apresenta o conjunto de caractersticas de Baudrillard: o niilismo irnico associado qualidade literria original do texto e inveno de instrumentos inditos de interpretao. A lgica comunicacional moderna deveria produzir sentido. s cincias humanas, holofotes da razo, caberia descobrir o Sentido da Histria. Ora, Jean Baudrillard, em seu delrio filosfico iconoclasta, aponta para a entrada na era da irrealidade, estgio viral da circulao sgnica, no qual o valor irradia em todas as direes, em todos os interstcios, sem referncia ao que quer que seja, por pura contigidade*. No apenas a referncia do signo que se perde, mas tambm a capacidade ltima de decifrao do objeto pelas cincias. A certeza cede lugar incerteza e pode-se substituer enfin lternelle thorie critique une thorie ironique **. Em Tela Total, todo o arsenal tpico da reflexo baudrillardiana est presente. O mundo contemporneo, instvel e inquietante, surge como uma gargalhada sarcstica. Brilhante. Juremir Machado da Silva

*

BAUDRILLARD, Jean. A transparncia do mal - ensaio sobre os fenmenos extremos. Campinas, Papirus, 1990, p.11. ** ___ Les stratgies fatales. Paris, Grasset, 1983, p.101.

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1 Nada de piedade de Sarajevo

No programa da Arte , em duplex de Estrasburgo e Sarajevo,*