Territorialização camponesa na várzea da Amazônia

  • View
    272

  • Download
    41

Embed Size (px)

Text of Territorialização camponesa na várzea da Amazônia

  • UNIVERSIDADE DE SO PAULO

    FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CINCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM GEOGRAFIA HUMANA

    TERRITORIALIZAO CAMPONESA NA VRZEA DA AMAZNIA

    Manuel de Jesus Masulo da Cruz

    Tese apresentada ao Programa de Ps-Graduao

    em Geografia Humana, do Departamento de

    Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e

    Cincias Humanas da Universidade de So Paulo,

    para a obteno do ttulo de Doutor em Geografia

    Humana.

    Orientador: Prof. Dr. Ariovaldo Umbelino de Oliveira

    So Paulo 2007

  • 1

    Agradecimentos

    Ao Prof. Dr. Ariovaldo Umbelino de Oliveira, que soube com pacincia e rigor

    orientar essa tese.

    Prof. Dr. Valria de Marcos e Ao Prof. Dr. Marcelo Justo, pelas contribuies

    oferecidas durante a realizao do exame de qualificao.

    Aos camponeses-ribeirinhos do baixo rio Solimes, que gentilmente me

    atenderam, apresentando-me informaes preciosas para a elaborao da tese.

    Sem o seu apoio, com certeza, esse trabalho seria mais rduo.

    Prof.. Dr. Terezinha de Jesus P. Fraxe, por colocar disposio sua biblioteca

    e pelas contribuies dadas ao trabalho, principalmente durante a elaborao do

    projeto de pesquisa.

    Ao Prof. Dr. Antnio Carlos Witskoski, pelas sugestes na realizao desse estudo

    e pelos inmeros puxes de orelhas, que me serviram de estmulo para a

    concluso desta tese.

    Ao Prof. Marcos Castro, pela amizade, pacincia e apoio tcnico na jornada de

    elaborao dos desenhos e mapas.

    Jackie e a Manuela, pela compreenso das longas ausncias.

    Prof.. Dr. Amlia Regina e ao Prof.. Ricardo Nogueira, pela amizade e apoio

    na realizao da tese.

    FAPEAM (Fundao de amparo pesquisa no estado do Amazonas), pela bolsa

    de estudo.

  • 2

    RESUMO

    Esta tese analisa as transformaes territoriais ocorridas na produo

    camponesa nas reas de vrzea, nas ltimas dcadas, decorrentes da expanso

    capitalista na Amaznia. A rea da pesquisa compreende um trecho do baixo rio

    Solimes, no municpio de Manacapuru, no estado do Amazonas, onde foram

    selecionadas trs localidades: Costa do Pesqueiro, Costa do Arapap e Lago So

    Loureno.

    Para compreender os camponeses-ribeirinhos na vrzea amaznica, parte-

    se do pressuposto de que necessrio observ-los no interior do desenvolvimento

    capitalista no campo, fundamentado no processo de monopolizao do territrio,

    na qual o capital contraditoriamente monopoliza o territrio sem, contudo,

    territorializar-se. Isto significa que o capitalismo se expande de forma contraditria,

    ou seja, no expropria os camponeses, porm, os transforma e efetua a

    metamorfose da renda da terra em capital.

    Este estudo procura entender como a expanso do capitalismo gerou

    profundas transformaes nas relaes dos camponeses-ribeirinhos com as

    diferentes territorialidades que configuram seu modo de vida. Essas

    territorialidades foram definidas em agropastoris, aquticas e florestais. A primeira

    se refere ao uso da terra na vrzea amaznica, na qual so discutidas as

    diferentes formas de ocupao familiar da terra, tanto as existentes quanto as

    acrescidas. Outra preocupao discutir as formas de uso comum da terra. A

    segunda trata do uso da gua no que se refere s atividades haliuticas e est

    dividida no uso do ambiente lago, utilizado de forma comum e no uso do ambiente

    rio, no caso o rio Solimes, onde as guas so de aceso livre e de uso comum. A

    terceira est pautada no uso da floresta, em que so analisadas as diferentes

    formas de territorialidades florestais.

    Palavras chave: camponeses, campesinato, territrio, territorialidade, vrzea

    amaznica.

  • 3

    Abstract

    This thesis analyses the territorial changes in the campestral production in

    the holm area, in the cast decades, resulting from the capitalist expansion in

    Amazonia. The research area includes a stretch of the low-river Solimes, in

    Manacapuru town in Amazonas state, where selected: Costa do Pesqueiro, Costa

    do Arapap and So Loureno Lake.

    To understand the camponeses-ribeirinhos in amazonian holm, we begin

    with the presupposition that is necessary to observ them inside the capitalist

    development in the countryside, grounded in the process of territory

    monopolization in which the money contradictorily monopolizes the territory without

    territorializine it. It means that the capitalism increases in a contradictory way; it

    does not expropriate the peasants, but changes them and stimulates the

    transformation of the land gains into money.

    This study tries to understand how the expansion of the capitalism created

    deep changes in the relations of the camponeses-ribeirinhos with different

    territorialities that configures their way of life. These territorialities were defined in

    agropastoris, aquatic forestal. The first one refers to the use of the land in the

    amazonian holms, where different forms of familiar occupation are treated.

    Concerning as the existing ones as the new ones. Another preoccupation is to

    discuss the forms of common use of the land. The second one is associated to the

    use of the water related to the halieutic activities and it is divided into the use of the

    lake environment used as common way and the use of the river environment, as in

    the Solimes case, where the waters are of free access and of common use. The

    third one is associated with the use of the forest, in which the different forms of the

    forestall territorialities are analysed.

    Key Words: peasants, peasantry, territory, territoriality, Amazonian holms.

  • 4

    SUMRIO

    INTRODUO 01 PARTE 1 - TRANSFORMAES NA AMAZNIA NO INCIO DO SCULO XXI........17

    CAPTULO 1 - FORMAO DOS CAMPONESES-RIBEIRINHOS NA VRZEA

    AMAZNICA ......18

    CAPTULO 2 - A MUNDIALIZAO DA ECONOMIA 25 2.1. A Zona Franca de Manaus 26

    2.2. A Zona Franca e o crescimento populacional da cidade de Manaus 29

    2.3. O fluxo dos barcos na cidade de Manaus 31

    CAPTULO 3 - MANACAPURU E AS TRANSFORMAES NAS RELAES

    INTERNACIONAIS, NACIONAIS E REGIONAIS 33

    3.1. A formao das comunidades em Manacapuru 33

    3.2. As comunidades como unidades de articulao territorial 35

    3.3. As propriedades/posses e suas estruturas internas de ordenamento territorial... 51

    3.4. O fluxo dos barcos no municpio de Manacapuru 61

    PARTE 2 - A VRZEA AMAZNICA E O PROCESSO DE TERRITORIALIZAO

    CAMPONESA .66

    CAPTULO 4 - AS TERRITORIALIDADES AGROPASTORIS: O USO DA TERRA

    NA VRZEA DA AMAZNIA 67

    4.1. A preparao da terra para o cultivo 72

    4.2. Terras de cultivos: a roa 74

    4.3. Terras de cultivos: a cultura da juta... 78

    4.3.1. O processo de incorporao da produo camponesa agricultura da juta

    na vrzea amaznica 82

    4.3.2. A Segunda Guerra Mundial e o fim do domnio da Companhia Industrial

    Industrial amazonense S/A 84

    4.3.3. Oscilaes e crise no sistema de produo de juta na vrzea amaznica. 87

    4.3.4. O processo de trabalho da juta/malva na vrzea amaznica 91

    4.3.5. A meia da juta/malva 96

    4.4. Terras de cultivos: os stios 98

    4.5. Apropriao familiar e utilizao das terras acrescidas na frente da propriedade 113

    4.5.1. A formao das novas terras de cultivos 114

    4.6. Apropriao familiar e utilizao das terras acrescidas no fundo da propriedade 119

  • 5

    4.6.1. A formao das novas terras de cultivos e de pastagens 120

    4.7. Uso comum, apropriao e uso familiar das terras surgidas no rio: as ilhas 131

    4.8. Terras de uso comum 134

    4.8.1. Pasto natural: pastagem comum 137

    CAPTULO 5 - AS TERRITORIALIDADES AQUTICAS: O USO DA GUA NA

    VRZEA DA AMAZNIA 146

    5.1. Os pesqueiros reais 147

    5.2. As canoas de pesca - as poveras 151

    5.3. Os barcos motorizados... 154

    5.4. O aparecimento da malhadeira 158

    5.5. Os lagos de vrzea: gua de uso comum 162

    5.6. A pesca dos camponeses-ribeirinhos X a pesca dos pescadores profissionais. 172

    5.7. O rio Solimes: guas de acesso livre e de uso comum 174

    5.7.1. As territorialidadesde pesca no rio Solimes 178

    5.7.2. Casas Flutuantes: elos da articulao local e regional 197

    5.7.3. A pesca da piracatinga e da piramutaba no baixo rio Solimes 204

    5.7.4. A pesca dos cariciformes migradores... 207

    5.7.5. A pesca com espinhel no baixo rio Solimes 209

    5.8. Os lagos de terra firme: a apropriao familiar das guas 210

    5.8.1. A pesca de lano de apropriao e uso familiar. 210

    5.8.2. A preparao da terra para a pesca: o lano 213

    5.8.3. A pesca de lano: parcelizao e controle dos direitos de pescar em pores

    das guas 222

    CAPTULO 6 - AS TERRITORIALIDADES FLORESTAIS: O USO DA FLORESTA

    NA VRZEA DA AMAZNIA 231

    6.1. Apropriao familiar e utilizao da floresta 231

    6.2. Florestas de uso comum e de apropriao familiar.. 232

    6.2.1. As territorialidades extrativas 235

    CONSIDERAES FINAIS 244

    BIBLIOGRAFIA 251

  • 6

    LISTA DE FIGURA

    Fig. 01. rea da pesquisa 02

    Fig. 02. Organograma da prelazia de Coari 36

    Fig. 03. Organizao nuclear das comunidades rurais - Municpio de

    Manacapuru 37

    Fig. 04. Croqui esquemtico de uma comunidade catlica na vrzea de