Territorio Dap a Lavra

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  • TERRITRIO DA PALAVRA

    Antnio Campos

  • No princpio era o verbo.Evangelho segundo So Joo 1,1

  • Penetra

    surdamente

    no reinodas palavras.

    Carlos Drummond de Andrade

  • Se as portas da percepo fossem desobstrudas,todas as coisas surgiriam diante do homem

    como verdadeiramente so, infinitas.William Blake

  • Um dia, vir a palavra,e o tempo correr

    ao nosso lado.

    Ento, colheremos a safra:o sofrimento domesticado.

  • A HERANA E A PALAVRA

    Antnio Campos recebeu do pai, o escritor Maximiano Campos, autor do grande romance Sem Lei nem Rei e de muitoscontos memorveis, uma herana preciosa: a literatura. E nem sefez de rogado: comeou desde cedo a escrever, sobretudo contos ecrnicas que o colocam na linha de frente da atual prosa pernam-bucana. A princpio, eram publicados nas pginas dos jornais doEstado, mas logo ganharam vida prpria, incorporaram-se aos li-vros, disputados pelos leitores.

    Uma das principais caractersticas do seu trabalho literrio aconteno. Nada de frases longas, cheias de curvas e de vrgulas,apostos, travesses para expor notas e explicaes, palavras a esmo,soltas ao vento. Ou soltas nas frases. Ele aprendeu, tambm com opai, que as palavras tm vida prpria e se explicam sem ornamen-tos. Uma palavra o que ela , reunida a outras palavras e a outras,sem afetao nem contores desesperadas.

    claro, para isso teria que admirar como, alis, admira um outro escritor fundamental: Ernest Hemingway, o mgico quereuniu muitas sentenas em poucas palavras: exatas e definitivas.Tenho testemunhado as leituras e releituras que ele faz dos norte-americanos, nos quais todos ns fomos beber na gua da clareza eda exatido. Da exposio precisa. Porque literatura assim: jogode objetividade e clareza, mesmo quando a sofisticao vai em buscade elementos sensveis.

    Tem sido uma prtica quase geral no Brasil confundir escreverbem com romantismo, derramamento intil, jogo puro de adjeti-

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    vos que no se juntam aos substantivos e nem sempre aos verbos.Uma coisa nada tem a ver com a outra. Nesse caso, h tambmuma mistura de romantismo com um remoto barroco, com frasesque procuram frases e smiles que se confundem com smiles, so-bretudo com a expresso como repetida exausto. E, muitas ve-zes, chamam a isso de estilo.

    Alm do repetidssimo advrbio de modo de linhagem portu-guesa: artificialmente, diariamente, costumeiramente, termina umacoisa confusa, que no nem romntica nem barroca, mas apenasum amontoado de palavras. Repetem-se os vcios de linguagem e ouso de grias de qualquer maneira. De um lado, para demonstrarerudio ou, pelo menos, para justificar a leitura de clssicos e, deoutro, para estar na moda. E o catico termina ocupando o lugarda simplicidade.

    Tanto Hemingway quanto Maximiano forneceram a melhor li-nhagem literria a Antnio Campos, que terminou por trabalharcom essas sentenas do tempo, para lembrar um dos ttulos doescritor pernambucano. Portanto, atento herana, Antnio Cam-pos mostra, neste livro, como possvel ser preciso sem estragarpalavras, sem procurar esses caminhos duvidosos do romantismocom uma confuso do barroco. Alis, fique claro, muitssimo cla-ro, que no sou contra o barroco. Mas contra a confuso do barro-co, ornamentos e frases que terminam por complicar a escrita,muitas vezes complicando o que se quer dizer, sem a tcnica ele-mentar da sutileza.

    Basta, portanto, ler estas palavras: A arte de viver resistir emdefesa da vida e dos valores essenciais humanos. Jamais perdi aesperana. Fortes, incisivas, diretas. Sem enfeites ou sem esnoba-o. No h leitor que no as entenda, e no precisa de nenhumaoutra forma para ser dita. Pois bem, tudo isso est no poema queMaximiano Campos dedicou ao filho nesta herana e que repre-senta muito bem a sua vontade: Que seja assim alegre sem desco-nhecer a tristeza, capaz de uma iluso. Enfim, sem perder a espe-rana, mesmo quando parea ilusria. Com uma determinao que

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    no falha e que no encontra repouso. Resistir e resistir. Sempre.Mesmo quando a resistncia est no territrio das palavras, umadas expresses usadas por Antnio Campos. E uma das que maisexpressam seu carter de escritor e de intelectual.

    Resistir sempre, no front da literatura, esta mesma literatura queencontra um momento to difcil no comeo do sculo, quando asnovas geraes, por exemplo, procuram encontrar espao parapublicar seus poemas, suas novelas, seus romances. Embora a pu-blicao em livro tenha se tornado mais fcil o Pas tem hojemais editoras do que livrarias , o espao na mdia ficou mido,quando no desapareceu completamente. Afinal, parece que a lite-ratura tem um pblico pequeno, justificam os tericos, embora osfestivais tenham aumentado, atraindo um nmero cada vez maiorde pessoas. Os novos poetas e os novos prosadores esto a paracomprovar a necessidade da leitura em todos os quadrantes e emtodos os lugares. E o prprio Antnio Campos resiste com o seutrabalho renovador no campo da promoo cultural, produzindo,por exemplo, a Festa Literria Internacional de Porto de Galinhas Flip, hoje consolidada com a participao, sobretudo, de escri-tores da frica e da Amrica Latina.

    No captulo da anlise do texto, verificamos, ainda, o uso ade-quado do andamento, algo essencial para quem quer escrever e,sobretudo, para seduzir o leitor. Toda busca do escritor est nessecaminho, que ele faz muito bem. O andamento, como qualquermsico sabe, cria novas sensaes, variaes de tempo e de movi-mento, em busca da pulsao narrativa. Ou seja, atrai o leitor, le-vando-o para aquilo que bsico em qualquer escritor: o ritmo.So movimentos que influenciaram poetas do porte de Edgar AllanPoe, talvez o primeiro a falar do assunto, na Filosofia da Composi-o. O ritmo pode ser uniforme, mas, dentro desse ritmo univer-sal, h vrios andamentos. Mas como se realiza esse andamento?Basta ver o que Antnio Campos escreveu aqui. Depois daqueleexemplo de prosa enxuta, rpida, podemos observar algo que setorna mais leve, mais longo, mais prolongado. Assim:

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    Nesta poca chamada de ps-utpica ou era dasiluses perdidas, na qual os grandes ideais foramimplodidos, marcada por uma forte crise de identi-dade do homem da modernidade, tem sobrado pou-co espao para se falar do significado da existnciae do propsito de vida.

    Ou seja: um andamento enxuto, rpido, e um andamento lento,elaborado. Isso no gratuito e pode, muito bem, mostrar as melho-res qualidades de um prosador. Qualidades encontradas, por exem-plo, num Machado de Assis, que renovou completamente o textoliterrio no final do sculo XIX, muito marcado pelo romantismo.Aquele romantismo que destacamos anteriormente e que, mistura-do a uma tentativa de barroco inconseqente, leva a prosa para ca-minhos tortuosos. Mas preciso destacar aqui, antes que fique tardedemais, que no estamos criticando nem o romantismo nem o bar-roco. A crtica gira em torno de uma confuso estilstica que apare-ce no Brasil, sobretudo em poca de tanta economia de palavras.

    Assim, procuramos analisar o texto em Antnio Campos no usoadequado dos andamentos, inclusive na questo dos sinais grficos.Este um problema muito srio: fazer o texto conquistar o leitorpelas pausas e pelos movimentos. o caso deste pargrafo, no quala seduo do argumento acompanhada pela pontuao adequada:

    A violncia no um problema apenas policial.Nenhuma poltica pblica voltada para a seguran-a poder ter xito garantida apenas no envolvimen-to de foras policiais. O Estado e a sociedade preci-sam realizar aes efetivas tambm no campo socialcom nfase na educao. Temos que combater ocrime, mas temos que tentar salvar aqueles que po-dem se tornar criminosos ou reincidir no crime.

    Quatro frases com andamentos diferentes para um s ritmo nar-rativo: a primeira bem rpida, a segunda mais longa, a terceiramais fechada, com o fechamento de uma frase que se distende na

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    sua concluso. Muitas vezes, a pessoa no sabe, sequer, porqueest sendo conquistada por um texto, mesmo quando ele apresentaum bom contedo. Admite apenas a paixo pelo contedo. No en-tanto, sem que haja artesanato nas frases e nos pargrafos, quaseno se pode falar em conquista. Dificilmente uma prosa disformepode levar um leitor a acompanh-la at o final. Esse , sem dvi-da, um dos segredos da palavra escrita.

    Por isso, no se pode negar que Antnio Campos herdou a litera-tura de Maximiano Campos, mas encontrou os seus prprios cami-nhos. H nele um caminho muito pessoal, particular, envolvente,mesmo quando escreve poemas. Uma qualidade que no se podenegar: a de que, mesmo herdando do pai essa qualidade, soube pro-curar e encontrar suas prprias formas literrias, com a habilidadede quem teve ouvidos para ouvir e olhos para ler. Porque acompa-nhou sempre os movimentos do pai, com o carinho de quem acom-panha e com a certeza de quem precisa traar suas prprias veredas.

    dessa maneira que leio os trabalhos desse jovem escritor e ad-vogado que no usa a solidariedade apenas como palavra. Vive-a. Olivro est repleto de mensagens de solidariedade, esperana e amor,mas no so repito apenas palavras. ao. Todos podemtestemunhar de que maneira prtica se solidariza com os pobres e osmiserveis, mas de que forma tambm est sempre ao lado dos ami-gos nas circunstncias mais diversas, sempre com determinao ecoragem. No texto ou na vida. Em todas as circunstncias.

    Assim, herdeiro das palavras, pode se afirmar como escritor dequalidades e virtudes, construindo textos que se realizam num dis-curso vigoroso, ao mesmo tempo poltico e literrio, testemunhado seu tempo, em busca de solues para as dores do mundo. E doseu pas. Basta l-lo. Basta l-lo sempre. Para se verificar que aqui reunida uma prosa que faz sempre bem, acalenta e vibra. Atporque, e a seu modo, Antnio Campos tambm um rebelado.