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A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSES DA ANLISE E DA AO

DE 9 A 12 DE OUTUBRO

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TERRITRIOS DE MOVIMENTO: MULTIPLICIDADE NA POESIA DE AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

MARCOS AURELIO MARQUES1

Resumo: O objetivo desse trabalho apresentar as possibilidades criativas de novas experincias espaciais na obra do poeta Affonso Romano de SantAnna. Utilizamos para isso as abordagens terico-prticas de Deleuze e Guattari, a partir, sobretudo, dos conceitos de devir e de multiplicidade. A poesia de ARS resulta e decorre de multiplicidades, trata de um territrio cosmopolita que tem dimenses mveis e existe enquanto expresso plural, instaurando uma poesia diluidora das fronteiras de tempo e espao. Entendemos ainda que um elemento fundamental na constituio do espao-tempo do poeta o movimento. Assim, observamos a movimentao da espacialidade potica de ARS e visualizamos em suas imagens, constitudas a partir de seus textos, as formas expressivo-dimensionais do territrio que se agenciam em devir na multiplicidade da linguagem. Palavras-chave: Geografia; literatura; multiplicidade. Abstract: In this paper we aim at presenting the creative possibilities of new spatial experiences in Affonso Romano de Sant'Annas poetical work. Deleuze and Guattari theoretical and practical approaches especially the concepts of becoming and multiplicity are important support for our argument. ARS poetry results and rises from multiplicities, and form a cosmopolitan area that has moving dimensions . It exists as plural expression by introducing a diluting poetry of time and space borders. We also believe that a fundamental element in the constitution of the poet of space-time is the movement. Thus, we observe the movement of ARS poetic spatiality and visualize in its images, present in the poets writings, the expressive-dimensional shapes of the territory which form the becoming in the multiplicity of language. Key-words: geography; literature; multiplicity.

1 Introduo

A explorao do novo um dos princpios fundadores da geografia. Nossa

proposta neste trabalho explorar as possibilidades espaciais da poesia de Affonso

Romano de SantAnna (doravante tambm denominado ARS), poeta mineiro que

tem a maior parte da sua obra publicada na segunda metade do sculo XX. A obra

do poeta extensa e se depara com diversos temas, entretanto, abordaremos aqui o

carter cosmopolita de sua potica. Uma poesia que se coloca cidad do mundo, em

dilogo, evidentemente, com o Brasil. O que queremos aprofundar, contudo, como

1 Acadmico do programa de ps-graduao em Geografia da Universidade Federal do Paran.

E-mail de contato: [email protected]

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se d esse cosmopolitismo e como o poeta projeta as multiplicidades de sua poesia,

pois no apenas cita pases e locais diversos, mas efetivamente cria um novo

cosmo: seu devir-mundo.

Para darmos suporte ao trabalho, utilizamos as abordagens terico-prticas

de Deleuze e Guattari (1995; 1996; 1997), a partir, sobretudo, dos conceitos de devir

e de multiplicidade, este ltimo tambm desenvolvido apenas por Deleuze (2005). O

primeiro conceito nos oferece a possibilidade de entender o espao como vir a ser,

como um perptuo tornar-se. J o segundo conceito por ns apresentado e discutido

prope um olhar entre o um e o mltiplo: uma multiplicidade.

A poesia de ARS perpassada por multiplicidades, trata de um territrio

cosmopolita com dimenses mveis. Contudo, o poeta no apenas vivencia a

existncia (ou a coexistncia) de diversos territrios j dados ou estabelecidos, ele

tambm cria novos tempos e espaos. Assim sendo, pretendemos entender qual o

espao-tempo de ARS. Posta esta questo, queremos entender o que ela funda em

si e por contiguidade. Contiguidade esta que forma seu agenciamento, constitui seu

territrio. Entendemos ainda, que um elemento fundamental na constituio do

espao-tempo do poeta o movimento. Assim, observamos a movimentao da

espacialidade potica de ARS e visualizamos em suas imagens, constitudas a partir

de seus textos, as formas expressivo-dimensionais do territrio que se agenciam em

devir na multiplicidade da linguagem.

2 A multiplicidade

Comecemos por melhor entender o que entendemos por multiplicidade. Para

Deleuze (1996, p. 49) a filosofia a teoria das multiplicidades, assim como a

multiplicidade um dos grandes temas da filosofia de Deleuze e Guattari. Para

melhor entender o conceito de multiplicidade em Deleuze, acreditamos que o livro

mais claro a esse respeito seja sua anlise sobre Foucault, intitulado assim mesmo,

Foucault (2005). Primeiro porque nele Deleuze faz uma ampla discusso do

conceito de enunciado, embora Foucault fale muito mais de discurso. Poderamos,

grosso modo, dizer que onde Foucault v discurso, Deleuze v enunciado. O

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interessante que o conceito de enunciado que Deleuze l em Foucault est na

esteira de uma projeo do seu rizoma no muito distante do dialogismo de Bakhtin.

Pois as formaes discursivas so verdadeiras prticas, e suas linguagens, em vez de um logos universal, so linguagens mortais, capazes de promover e, s vezes, exprimir mutaes. Eis o que um grupo de enunciados, ou mesmo um enunciado sozinho: multiplicidades (DELEUZE, 2005, p. 24) [grifo do autor].

As formaes discursivas, os enunciados, so prticas: mltiplas. Sabemos

que a linguagem enquanto prtica social tambm contemplada no pensamento de

Bakhtin (2011, p. 326), pois este v o enunciado como criao.

O enunciado nunca apenas um reflexo, uma expresso de algo j existente fora dele, dado e acabado. Ele sempre cria algo que no existia antes dele, absolutamente novo e singular, e que ainda por cima tem relao com o valor (com a verdade, com a bondade, com a beleza, etc.).

Em todo caso o enunciado, e por consequncia a linguagem, sempre

criativo, seja nas estratgias de poder, seja na obra de arte. O enunciado tem

estreita relao com a criao, que na obra de ARS, se d atravs da multiplicidade.

A filosofia multiplicidade, Deleuze multiplicidade, assim como o rizoma, o

dialogismo, as teias de poder de Foucault. Entretanto, o avano do conceito est em

entende-lo alm de uma mera oposio ao uno.

O essencial do conceito , entretanto a constituio de um substantivo tal que o mltiplo deixe de ser um predicado que se pode opor ao Um, ou que se pode atribuir a um sujeito referido como um. A multiplicidade permanece totalmente indiferente aos problemas do mltiplo e do um e, sobretudo, ao problema do sujeito que a condicionaria, pensaria, derivaria. No h nem um nem mltiplo (...). H apenas multiplicidades raras, com pontos singulares, lugares vagos para aqueles que vm, por um instante ocupar a funo de sujeitos (DELEUZE, 2005, p. 25).

Momento de encontro Deleuze e Foucault. O segundo se refere iminente

morte do sujeito e o surgimento do ser da linguagem (FOUCAULT, 2007, p. 60), ser

este de multiplicidade, o primeiro coaduna pensando que a multiplicidade est alm

dos problemas do um ou do mltiplo. O substantivo multiplicidade ultrapassa os

problemas do sujeito, que passa a ser apenas uma funo temporria. Supera da

mesma forma o axiolgico e o tipolgico para ser topolgico. A multiplicidade

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acontece ao nvel da linguagem: o enunciado uma multiplicidade que atravessa os

nveis (DELEUZE, 2005, p. 25). O ser da linguagem de Foucault uma imagem

potica. Deleuze fala da obra de Foucault em vrios momentos como poesia. Quer

assim enevoar ou mesmo demonstrar que no h uma diferena entre poesia e

filosofia. Tudo se equivale ao nvel do saber, cincia e poesia so, igualmente,

saber (DELEUZE, 2005, p. 31). Assim, as formas do pensamento estariam em um

mesmo plano como seus enunciados tambm seriam equivalentes.

Mas Deleuze trata do conceito de multiplicidade em outros momentos de sua

obra. Juntamente com Guattari em Mil Plats, afirmam que cada indivduo uma

multiplicidade infinita, e a Natureza inteira uma multiplicidade de multiplicidades

perfeitamente individuada (1997, p. 39). Em um oxmoro filosfico, como se tudo

se unificasse em multiplicidades interminveis, tambm definidas pelo fora pela

linha abstrata, linha de fuga, desterritorializao segundo a qual elas mudam de

natureza ao se conectarem s outras (DELEUZE E GUATTARI, 1995, p. 17). Ou

seja, a aproximao das multiplicidades afetam umas s outras, transformam-nas

sempre.

por esta razo que no temos o menor receio de aproximar filsofos e

artistas e ainda mais a cincia geogrfica em uma cadeia de multiplicidades. No h

nada de grandioso na cincia, na filosofia ou na arte que no esteja impregnada pela

inventividade. assim com a fsica de Newton, com a geometria cubista de Picasso,

com o Cogito de Descartes ou com o Poder de Foucault. So todas invenes,

puras criaes do intelecto.

Para entender plenamente o conceito de multiplicidade, preciso agenci-lo

ao conceito de Devir, lembrando