Tese final final.pdf

  • View
    214

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of Tese final final.pdf

  • A MORTE:

    ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR

    Dissertao de Mestrado em Biotica Teolgica

    Cilena do Cu Castro Canastra

    Orientao de

    Professor Doutor Manuel da Silva Rodrigues Linda

    PORTO

    2007

  • A MORTE:

    ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR

    Cilena do Cu Castro Canastra

  • Com a morte de cada homem termina um universo cultural especfico,

    mais ou menos rico mas sempre original e irrepetvel. O que o homem deixa

    quando morre os seus escritos, os objectos culturais que criou, a memria

    da sua palavra, dos seus gestos ou do seu sorriso naqueles que com ele

    viveram, os filhos que gerou tudo exprime uma realidade que est para

    alm do corpo fsico, de um certo corpo fsico que esse homem usou para

    viver o seu limitado tempo pessoal de ser homem.

    (Daniel Serro)

    (www.danielserro.com)

  • RESUMO

    Desde sempre o homem assistiu aos fenmenos do nascimento e da

    morte e ao ciclo que ambos assinalam. Nesse ciclo, o fenmeno da doena

    frequente, embora o padro e o tipo de doenas se tenham vindo a

    modificar ao longo da histria da humanidade.

    A intensidade da luta pela busca da cura de muitas doenas e a

    sofisticao dos meios associados a essa luta levaram de algum modo a

    uma cultura de negao da morte e ao triunfalismo herico sobre a mesma.

    A morte passou a ser encarada como derrota e frustrao por muitos

    profissionais de sade.

    O paradigma da morte foi alterado ao longo dos tempos. No passado a

    morte ocorria em casa, num ritual familiar. Hoje a pessoa morre em

    instituies hospitalares rodeada de mquinas de solido, esquecida pela

    famlia e pelos amigos.

    Foram as dificuldades sentidas pelos profissionais de sade perante

    doentes em fase terminal e os medos inadequados junto dos mesmos, que

    motivaram a realizao deste trabalho.

  • REZUMO

    Zde siempre l home ancarou ls fenmenos de l nacimiento i de la

    muorte i l ciclo que dambos a dous assinlan. Nesse ciclo, l fenmeno de la

    maleita ye frequente, ambora l padron i la tipo de maleitas se tngan benido

    a demudar al lhargo de la stria de l home.

    La fuora de la lhuita por la busca de la cura de muitas maleitas, i ls

    aperfeioamientos de las maneiras cumo essa lhuita se fai, lhebrun dalgua

    maneira a ua cultura de negaon de la muorte i a la bitria baliente subre

    eilha. La muorte passou a ser ancarada cumo derrota i frustraon por

    muitos professionales de la salude.

    L paradigma de la muorte fui demudado cun l tiempo. Dantes la

    muorte acuntecie an casa, nun ritual familiar. Hoije la persona muorre ne ls

    houspitales cun mquinas de solidon al redror, squecida pula famlia i puls

    amigos.

    Frun las deficuldades sentidas puls profissionales de salude an tratar

    doentes mui acerca de la muorte, i ls miedos einadequados acerca deilhes,

    que motibrun la realizaon deste trabalho.

  • Agradecimentos

    Ao Professor Doutor Manuel da Silva Rodrigues Linda, a minha

    gratido pelo estimulo e disponibilidade permanente na orientao deste

    trabalho.

    Aos Professores e Colegas de Mestrado por tudo- pois arranjei bons

    amigos, este trabalho tambm vos pertence.

    minha famlia, amigos e colegas pela pacincia e compreenso das

    minhas ausncias.

    A todos os que lutam pela dignidade da morte do homem.

  • MEMRIA DA MINHA FILHA SALOM

  • Parte desta dissertao foi co-financiada pelo PRODEP III.

  • SUMRIO

    INTRODUO GERAL 10

    Captulo I

    AS VISES DA MORTE 20

    Captulo II

    VISO INTERDISCIPLINAR DA MORTE 38

    Captulo III

    MORTE E DIGNIDADE HUMANA 97

    CONCLUSO GERAL 144

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS 150

    NDICE 165

    ANEXO I QUESTIONRIO 168

  • ________________________________________ A Morte: abordagem interdisciplinar

    10

    INTRODUO GERAL

    Desde os primrdios da civilizao que o nascimento e a morte

    despertam no ser humano uma grande curiosidade e inquietao. A morte,

    assim como a doena e o sofrimento, so partes integrantes da condio

    humana. Falar da morte difcil porque, queiramos ou no reconhec-la,

    sabemos que nascemos com um corpo para viver e para morrer um dia.

    Mas a ideia de morte difere ao pensarmos em ns prprios ou nos outros

    que nos so prximos. Pensar na morte deve conduzir-nos auto-reflexo,

    no necessariamente tristeza ou depresso. At podemos tornar-nos mais

    fortes e corajosos, de modo a tornar a nossa vida mais alegre e mais lgica.

    Quando a morte se anuncia na nossa vida ou na vida dos seres da nossa

    intimidade atravs duma doena incurvel, ou nas premissas de uma

    sentena irreversvel, ficamos demasiados abalados por tudo aquilo que

    acontece para nos entregarmos a consideraes gerais sobre a morte.

    A morte suscita numerosas interrogaes, para as quais a cincia, as

    doutrinas filosficas, as religies e a orientao metafsica dos valores, dos

    costumes, atitudes, prticas e supersties, procuram encontrar respostas,

    na tentativa de suavizar a angstia, acalmar a ansiedade, compensar a dor

    ou vencer o temor da morte. O poder da morte imenso, avassalador,

    observvel em toda a parte, em qualquer ser vivo, e todos ns percebemos

    que vamos morrer. Que a morte faz parte da constante renovao da vida e

    inerente condio humana, algo que o homem sempre teve dificuldade

    em aceitar, sobretudo no que lhe diz respeito.

    Confiado no seu poder, o homem moderno quer negar a morte e esta

    que em tempos ocupava um lugar primordial nas crenas, nos ritos e nas

    tradies das vrias civilizaes, foi removida para a periferia da nossa

    vida, dos nossos hbitos, dos nossos pensamentos, dando-lhe o lugar de

  • ________________________________________ A Morte: abordagem interdisciplinar

    11

    esquecimento. Como dizia Pascal, Os homens, como no puderam

    substituir a morte, tiveram a audcia de no pensarem nela.1 Tambm

    Stendhal, no sculo XIX, escreve: ...uma vez que a morte inevitvel,

    esqueamo-la....2

    A busca da imortalidade ou da fonte da juventude so mitos presentes

    na histria da humanidade desde os tempos mais antigos. A f numa vida

    para alm da morte, presente nas grandes religies monotestas, ou a crena

    em sucessivas reincarnaes (tpica do Budismo), no deixam de ser modos

    de ultrapassar a nossa finitude e temporalidade e assim dar um sentido

    dor e sofrimentos terrenos. A presena da morte impe-se-nos ainda mais

    forte, quando sabemos que morreu uma pessoa da nossa idade ou mais

    nova, e principalmente quando ns prprios vivemos uma situao de

    doena grave.3 Porm, sobretudo quando morre algum a quem amamos

    que a morte nos toca e nos afecta profundamente e que at, de certo modo,

    morremos um pouco com a relao que finda. nestas ocasies que

    emerge mais intensamente o sentimento da nossa prpria mortalidade e que

    a autenticidade da morte se torna evidente, irrefutvel, implacvel e

    presente na nossa vida. Com efeito, a reflexo sobre a morte uma reflexo

    sobre a vida, no sendo possvel analisar o sentido desta sem se deparar

    com o sentido da morte e vice-versa. Podemos at afirmar que o homem

    nunca compreendeu que a primeira questo a colocar no seria a morte,

    mas a sua atitude para com a morte. necessrio, segundo Morin, revelar

    as paixes profundas dos homens para com a morte, considerar o mito na

    1 SOUSA, Paulino As Representaes da Morte no Ensino de Enfermagem. Dissertao de Mestrado, Porto, 1995, 48. 2 SOUSA, Paulino, O.C., 49. 3 Cfr. RENAUD, Isabel O corao e a razo no acompanhamento dos doentes terminais. Cadernos de Biotica, 12, 29 (2002).

  • ________________________________________ A Morte: abordagem interdisciplinar

    12

    sua humanidade e considerar o prprio homem como guardio

    inconsciente do segredo. Ento, e s ento, poderemos interpelar a morte

    desnudada, lavrada, desmaquilhada e dissec-la na sua pura realidade

    biolgica.4

    sobretudo porque estamos vivos e porque pensamos na morte como

    oposta vida, que rejeitamos e afastamos aquela como se nos fosse

    estranha e no nos dissesse respeito. Enquanto viventes nunca

    experimentamos a nossa prpria morte. Esta s acontece uma vez a cada

    pessoa, e vivida e sentida apenas pela pessoa que morre.5 Nunca podemos

    pens-la como uma experincia que j fizemos, mas apenas como a morte

    dos outros, uma vez que no temos o sentimento nem do morrer nem de

    estar morto. Toda a morte nica, solitria, pessoal e intransmissvel.

    Tendo em conta a condio do homem como ser mortal, dada a sua

    condio corprea, e do ponto de vista biolgico, todos estamos

    condenados morte. Assim sendo, ningum duvida da existncia da morte,

    e to pouco da sua prpria morte. O que leva algum a afirmar: se nascer,

    viver, foi e ser o privilgio de apenas alguns bilies de seres humanos,