Click here to load reader

Timpanismo espumoso em bovinos leiteiros em pastagens · PDF filepastagem consorciada de Trifolium repens (trevo-bran-co) e Trifolium pratense (trevo-vermelho) (Fig.1), ao entardecer

  • View
    215

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of Timpanismo espumoso em bovinos leiteiros em pastagens · PDF filepastagem consorciada de...

  • 401

    Pesq. Vet. Bras. 29(5):401-403, maio 2009

    RESUMO.- O pastejo de plantas leguminosas que provo-cam fermentao excessiva pode causar surtos de timpa-nismo e mortes em ruminantes. Em uma propriedade nomunicpio de So Francisco de Paula, Rio Grande do Sul,oito bovinos de um total de 66 morreram subitamente, aohaverem sido transferidos de um potreiro de campo nativo,para outro cuja pastagem era composta por Trifolium repense Trifolium pratense. Os animais foram encontrados mor-tos no amanhecer do dia seguinte transferncia, no fo-ram observados sinais clnicos prvios. Os principais acha-dos macroscpicos incluram aumento de volume abdomi-nal, protruso de vagina e lngua, distenso ruminal, fga-do de colorao plida e aumento do bao. Na histologia,havia congesto e edema pulmonares e hiperplasia linfidedifusa e acentuada no bao. A evidncia de ingesto das

    leguminosas associada aos achados patolgicos e au-sncia de microrganismos no exame bacteriolgico confir-maram o diagnstico de timpanismo.

    TERMOS DE INDEXAO: Timpanismo, Trifolium pratense, T.repens, Leguminosae Caesalpinoideae, bovinos.

    INTRODUOTimpanismo caracterizado por dilatao anormal dormen por reteno excessiva de gases de fermentaona forma de espuma persistentemente dispersa no con-tedo ruminal ou gs livre. A ocorrncia de timpanismoespumoso associada com o pastoreio de plantas queprovocam fermentao excessiva ou dieta com excessode gros finamente triturados (Radostits et al. 2002, Riet-Correa 2007). Embora controverso, o mecanismo de for-mao da espuma est associado com o estgio de de-senvolvimento das plantas leguminosas e o tipo de prote-nas citoplasmticas solveis presentes nas folhas des-sas plantas (Majak et al. 1995). Essas substncias seri-am digeridas mais rapidamente do que o usual pela mi-crobiota ruminal e as bolhas de gs resultantes da fer-

    Timpanismo espumoso em bovinos leiteiros empastagens de Trifolium spp. (Leg.Caesalpinoideae)1

    Andr Gustavo Cabrera Dalto2, Paulo Mota Bandarra2, Pedro MiguelOcampos Pedroso2, Fbio de Souza Guagnini2, Juliano de Souza Leal2,

    Djeison Lutier Raymundo2 e David Driemeier2*

    ABSTRACT.- Dalto A.G.C., Bandarra P.M., Pedroso P.M.O., Guagnini F.S., Leal J.S.,Raymundo D.L., Driemeier D. 2009. [Leguminous bloat in dairy cattle on Trifoliumspp. pastures.] Timpanismo espumoso em bovinos leiteiros em pastagens de Trifoliumsp. (Leg.Caesalpinoideae). Pesquisa Veterinria Brasileira 29(5):401-403. Setor dePatologia Veterinria, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Av. Bento Gonalves9090, Agronomia, Porto Alegre, RS 91540-000, Brazil. E-mail: [email protected]

    Leguminous bloat may occur in cattle which graze pastures consisting of lush forages.In a dairy farm located on the municipality of So Francisco de Paula, Rio Grande do Sul,eight out of 66 cows died suddenly after being transferred to a paddock whose pastureswere composed of Trifolium repens and Trifolium pratense. Animals were found dead inthe morning of the next day after being transferred; no clinical signs were noticed. Maingross findings included enhanced abdominal volume, protrusion and congestion of thetongue and vagina, ruminal distension, pale liver, and enhanced spleen. Histologically,there were lung congestion and edema, and splenic lymphoid hyperplasia. The evidenceof leguminous forages consumption associated with the pathological findings and theabsence of growth on bacteriology confirmed the diagnosis.

    INDEX TERMS: Bloat, Trifolium pratense, T. repens, Leguminosae Caesalpinoideae, cattle.

    1 Recebido em 6 de novembro de 2008.Aceito para publicao em 18 de dezembro de 2008.

    2 Departamento de Patologia Clnica Veterinria, Universidade Federaldo Rio Grande do Sul (UFRGS), Av. Bento Gonalves 9090, Porto Alegre,RS 91540-000, Brasil. *Autor para correspondncia: [email protected]

  • Pesq. Vet. Bras. 29(5):401-403, maio 2009

    Andr Gustavo Cabrera Dalto et al.402

    mentao permaneceriam capturadas entre as partculasdispersas do contedo ruminal (Lowe et al. 1991).

    O principal fator de risco do timpanismo agudo oconsumo de pastagens compostas por mais de 50% deleguminosas (Radostits et al. 2002, Riet-Correa 2007). Adoena tem sido associada, principalmente, com aingesto de espcies de Trifolium (T. repens, T. pratensee T. subterraneum) e Medicago (M. sativa e M. hispida)(Riet-Correa 2007), que so pobres em fibra e tm altoteor de carboidratos solveis e protenas de elevadadegradabilidade ruminal (Tokarnia et al. 2000, Rajan etal. 1996). A doena afeta principalmente bovinos e osbezerros de at um ano de idade so mais resistentesque os adultos (Riet-Correa 2007). H variaes na sus-ceptibilidade associadas com caractersticas hereditriascomo composio das protenas salivares, taxa desalivao, motilidade e capacidade ruminais (Cockrem etal. 1987). Os sinais clnicos podem surgir 20 minutos apsa introduo dos animais nas pastagens (Tokarnia et al.2000) e incluem aumento do volume abdominal (inicial-mente esquerdo), dispnia, dificuldade para eructao,decbito e morte. Na maioria dos casos, so registradoscasos de morte sbita devido brevidade de exposiodos sinais clnicos (Riet-Correa 2007). Os principais acha-dos de necropsia so fgado e bao plidos, pulmo pli-do e enfisematoso, vescula biliar repleta e rins conges-

    tos e de consistncia amolecida (Radostits et al. 2002,Riet-Correa 2007). O tratamento depende das circunstn-cias, mas os animais devem ser retirados imediatamentedas pastagens onde ocorreu o problema. Nos casos gra-ves, necessria a ruminotomia de emergncia. Para ocontrole, recomenda-se o emprego de pastagens consor-ciadas (leguminosas e gramneas) e a administrao deantiespumantes aos animais (Radostits et al. 2002, Riet-Correa 2007). Este estudo relata a ocorrncia de um sur-to de timpanismo espumoso em bovinos leiteiros, apsingesto de pastagens compostas por Trifolium repens eTrifolium pratense no Rio Grande do Sul.

    MATERIAL E MTODOSEm janeiro de 2006, realizaram-se necropsias em seisbovinos na zona rural do municpio de So Francisco dePaula, Rio Grande do Sul. Os dados epidemiolgicos fo-ram registrados pelo mdico veterinrio responsvel pelorebanho. Durante as necropsias, fragmentos de diversosrgos foram coletados e fixados em formol 10%, proces-sados de forma rotineira para histologia, includos emparafina, cortados a 5m de espessura e corados pelahematoxilina-eosina (HE) (Prophet et al. 1992). Adicio-nalmente, amostras de sangue sem anticoagulante e debao foram encaminhadas para bacteriologia.

    RESULTADOSSessenta e seis vacas da raa Holandesa foramtransferidas de um piquete de campo nativo para umapastagem consorciada de Trifolium repens (trevo-bran-co) e Trifolium pratense (trevo-vermelho) (Fig.1), aoentardecer de um dia de janeiro de 2006. Ao amanhecerdo dia seguinte, oito animais foram encontrados mortos

    Fig.1. Aspecto da pastagem composta por Trifolium repens (tre-vo-branco) e Trifolium pratense (trevo-vermelho), onde hou-ve o surto de timpanismo espumoso em rebanho bovino.

    Fig.2. Vacas holandesas mortas com acentuada distenso ab-dominal, no surto de timpanismo espumoso.

    Fig.3. Vaca holandesa morta com edema na cabea e protrusoda lngua no surto de timpanismo espumoso.

    2

    1

    3

  • Pesq. Vet. Bras. 29(5):401-403, maio 2009

    Timpanismo espumoso em bovinos leiteiros em pastagens de Trifolium sp. 403

    (Fig.2). Durante a necropsia, as principais alteraesforam aumento de volume abdominal, protruso de reto,vagina e edema da cabea e lngua protrusa (Fig.3), f-gado com colorao plida e bao levemente aumenta-do de tamanho. O exame histopatolgico revelou pul-mo com edema difuso e congesto acentuada e baocom hiperplasia linfide difusa acentuada. No houvecrescimento bacteriano.

    DISCUSSOEste diagnstico foi fundamentado nos dados epidemio-lgicos, achados de necropsia e histopatologia (Riet-Correa 2007). As evidncias de que as plantas haviamsido consumidas pelos bovinos no piquete associada comos achados macroscpicos e histolgicos e com a ausn-cia de outras alteraes significativas comprovam a ocor-rncia de timpanismo por ingesto de leguminosas pelosbovinos. As possibilidades de infeces bacterianas quecursam com morte sbita como o carbnculo hemtico,carbnculo sintomtico, edema maligno e hemoglobinriabacilar foram excludas com base na bacteriologia e pa-tologia (Riet-Correa 2007). As mortes por picada de co-bra e fulminao por raio foram descartadas por ausnciade leses locais caractersticas dessas doenas. im-portante que a necropsia seja realizada o mais rapida-mente possvel aps a morte dos animais, para que asalteraes post-mortem no compliquem a interpretaodos achados macroscpicos (Riet-Correa 2007).

    Agradecimentos.- Este estudo foi financiado, em parte, pelo ConselhoNacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico (CNPq) e pelaCoordenao de Aperfeioamento de Pessoal de Nvel Superior (CA-PES). Os autores agradecem ao Professor Cludio Estvo Farias daCruz (UFRGS) pela reviso deste artigo.

    REFERNCIASCockrem F.R.M., McIntosh J.T., McLaren R.D. & Morris C.A. 1987. The

    relationship between volume of rumen contents and genetic susceptibilityto pasture bloat. Anim. Prod. 45:43-47.

    Lowe L.B., Ball G.J., Carruthers V.R., Dobos R.C., Lynch G.A., MoateP.J., Poole P.R. & Valentine S.C. 1991. Monensin controlled-releaseintraruminal capsule for control of bloat in pastured dairy cows. Aust.Vet. J. 68(1):17-20.

    Majak W., Hall J.W. & McCaughey W.P. 1995. Pasture managementstrategies for reducing the risk of legume bloat in cattle. J. Anim. Sci.73:1493-1498.

    Prophet E.B., Mills B., Arrington J.B. & Sobin L.H. 1992. LaboratoryMethods in Histotechnology. Armed Forces Institute of Pathology,American Registry of Pathology, Washington, DC. 279p.

    Rajan G.H., Morris C.A., Carruthers V.R., Wilkins R.J. & Wheeler T.T.1996. The relative abundance of a salivary protein, bSP30, is