[Torga Miguel] Bichos

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libro de cuentos de miguel torga en portuguese.

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  • P R E F C I O

    Querido leitor:

    So horas de te receber no portal da minha pequena Arca de No. Tens sido de uma contnciato espontnea e to pura a visit-la, que preciso que me liberte do medo de parecer ufano daobra, e venha delicadamente cumprimentar-te uma vez ao menos. No se pagam gentilezas comdescortesias, e eu sou instintivamente grato e correcto.

    Este livro teve a boa fortuna de te agradar, e isso encheu-me sempre de jbilo. Escrevo para tidesde que comecei, sem te lisonjear, evidentemente, mas tambm sem ser insensvel s tuasreaces. Fazemos parte do mesmo presente temporal e, quer queiras, quer no, do mesmo futurointemporal. Agora, sofremos as vicissitudes que o momento nos impe, companheiros da prementerealidade quotidiana; mais tarde, seremos o p da Histria, o exemplo promissor ou maldito, opretrito que se cumpriu bem ou mal. Se eu hoje me esquecesse das tuas angstias, e tu dasminhas, seramos ambos traidores a uma solidariedade de bero, umbilical e csmica; se amanhno estivssemos unidos nos factos fundamentais que a posteridade h-de considerar, estes anosdecorridos ficariam sem qualquer significao, porque onde est ou tenha estado um homem preciso que esteja ou tenha estado toda a humanidade.

    Ligados assim para a vida e para a morte, bom foi que o acaso te fizesse gostar destes Bichos.Apostar literriamente no porvir um belo jogo, mas um jogo de quem j se resignou a perder opresente. Ora eu sou teu irmo, nasci quando tu nasceste, e prefiro chegar ao juzo final contigoao lado, na paz de uma fraternidade de raiz, a ter de entrar l solitrio como um lobotresmalhado. Ningum feliz szinho, nem mesmo na eternidade. De resto, um conto que teagradou, tem algumas probabilidades de agradar aos teus netos. Porque no ho-de eles tirarninhos quando forem crianas? E, se tal no acontecer, pacincia: ficarei um poco triste, massempre junto de ti, firme, na consolao simples e honrada de ter sido ao menos homem do meutempo.

    s, pois, dono como eu deste livro, e, ao cumprimentar-te entrada dele, nem pretendo sugerir-te que o leias com a luz da imaginao acesa, nem atrair o teu olhar para a penumbra da suasimbologia. Isso no comigo, porque nenhuma rvore explica os seus frutos, embora goste quelhos comam. Saudo-te apenas nesta alegria natural, contente por ter construdo uma barcaa ondea nossa condio se encontrou, e onde poderemos um dia, se quiseres, atravessar juntos o Letes,que , como sabes, um dos cinco rios do inferno, cujas guas bebem as sombras, fazendo-asesquecer o passado.

    Teu

    Miguel Torga

  • N E R O

    Sentia-se cada vez pior. Agora nem a cabea sustinha de p. Por isso encostou-a ao cho, devagar.E assim ficou, estendido e bambo, espera. Tinha-se despedido j de todos. Nada mais lhe restavasobre a terra seno morrer calmo e digno, como outros haviam feito a seu lado. claro que escusavade sonhar com um enterro bonito, igual a muitos que vira, dentro dum caixo de gales amarelos,acompanhado pelo povo em peso Isso era s para gente, rica ou pobre. Ele teria apenas uma tristecova no quintal, debaixo da figueira lampa, o cemitrio dos ces e dos gatos da casa. E louvar aDeus apodrecer a dois passos da cozinha! A burra nem sequer essa sorte tivera. Os seus ossosreluziam ainda na mata da Pedreira. Chuva, geada, sincelo em cima. At um lebro descarado se foraaninhar debaixo da arcada das costelas, de caoada! Ah, sim, entre dois males J que no haviamelhor, ficar ao menos ali. No tempo dos figos, pela fresca, a patroa viria consolar a barriga.Gostava de figos, a velhota. E sempre se sentiria acompanhado uma vez por outra. No que fizessegrande finca-p naquela amizade. Longe disso. A menina dos seus olhos era a morgada, a filha, que oacariciara como a uma criana. A velha toda a vida o pusera a distncia. Dava-lhe o naco de broa(honra lhe seja), mas borrava a pintura logo a seguir: Ala! E ele retirava-se cerimoniosamentepara o ninho. S a rapariga o aquecera ao colo quando pequeno, e, depois, pelos anos fora, oconsentira ao lume, enroscado a seus ps, enquanto a neve, branca e fria, ia cobrindo o telhado. Ovelho tambm o apaparicava de tempos a tempos. Se a vida lhe corria e chegava dos bens de testadesenrugada, punha-lhe a manpula na cabea, meigamente, e prometia-lhe a vinda do patro novo.Porque o seu verdadeiro senhor era o filho, um doutor, que morava muito longe. S aparecia na terranas frias de Natal. Mas nessa altura pertencia-lhe inteiramente. Os outros apenas o tratavam, osustentavam, para que o menino tivesse co quando chegasse. Apesar disso, no ntimo, considerava-se propriedade dos trs: da filha, do velho e da velha. Com eles compartilhara aqueles longos oitoanos de existncia. Com eles passara invernos, outonos, e primaveras, numa paz de famlia unida.Tambm estimava o outro, o fidalgo da cidade, evidentemente, mas amizades cerimoniosas no sedavam com o seu feitio. Gostava era da voz cristalina da dona nova, da ndole daimosa da patroavelha e da mo calejada do velhote.

    Tens o teu patro ai no tarda, NeroO nome fora-lhe posto quando chegou. Antes disso, l onde nascera, no tinha chamadoiro. Nesse

    tempo no passava dum pobre lapuz sem apelido, muito gordo, muito maluco, sempre agarrado mama da me, que lhe lambia o plo e o reconduzia quentura do ninho, entre os dentes macios, malo via afastar-se. Pouco mais. Com dois meses apenas, fez ento aquela viagem longa, angustiosa, nosbraos duros dum portador. Mas chegada teve logo o amigo acolhimento da patroa nova. Festas nolombo, leite, sopas de caf. De tal maneira, que quase se esqueceu da teta doce onde at aliencontrava a bemaventurana, e dos irmos sfregos e birrentos.

    Nero! Nero! Anda c, meu palerma!A princpio no percebeu. Mas foi reparando que o som vinha sempre acompanhado de broa, de

    caldo, ou de um migalho de toucinho. E acabou por entender. Era Nero. E ficou senhor do nome, doseu nome, como da sua coleira. Principalmente depois que o patro novo chegou, srio, com doisolhos como dois faris. Apareceu tarde, num dia frio. Fora-o esperar na companhia da patroa nova. claro que nem sequer lhe passara pela ideia a vinda de semelhante figuro. Seguira-amaquinalmente, como fazia sempre que a via transpor a porta. Habituara-se a isso desde os primeirosdias. Com o velho no ia tanto. E com a velhota, ento, s depois de ter a certeza que se encaminhava

  • para os lados da Barrosa. Na cardenha do casal morava o seu grande amigo, o Fadista. De maneiraque o passeio, nessas condies, j valia a pena. Enquanto a dona mondava o trigo, chasquiavabatatas ou enxofrava a vinha, aproveitava ele o tempo na eira, de pagode com o camarada. Mas, seela tomava outro rumo, boa viagem. Com a nova, sim. A farejar-lhe o rasto, conhecera a terra de ls-a-ls. At missa ouvia aos domingos, coisa que nenhum co fazia. Aninhava-se a seu lado, e ficava-se quieto a ver o padre, de saias, fazer gestos e dizer coisas que nunca pde entender. Foi a seguir auma cerimnia dessas que o doutor chegou terra. Todo muito bem vestido, todo lorde. Quando viuaquele senhor beijar a rapariga, atirou-lhe uma ladradela, por descargo de conscincia. E o estranho,ento, olhou-o atentamente, deu um estalo com os dedos, a puxar-lhe pelos brios, e teve umcomentrio:

    O demnio do cachorro bem bonito!Envaideceu-se todo. Mas o homem perdeu-se logo em perguntas irm, em cumprimentos a quem

    estava, sem reparar mais nele. E no teve remdio seno segui-los a distncia, num ressentimentoprovisrio. Ao chegar a casa, foi direito ao cortelho. E ali esteve uma boa hora espera, a morder-sede ansiedade. Por fim, o recm-vindo chamou do fundo da sala:

    Nero! Venha c!Era a posse. Havia naquela voz um timbre especial que o fez estremecer. Pela primeira vez sentia

    que tinha realmente um dono. Contudo, l arranjou foras para se deixar ficar enroscado na palha,salamurdo, a fingir que dormia.

    Mas a ordem voltou logo a seguir, mais forte, mais imperativa:- Nero!Ergueu-se. Subiu os degraus da loja e, humilde e desconfiado, apresentou-se.O fulano acabara de jantar. No prato onde comera, jaziam, apetitosos, os restos do frango pedrs

    que a patroa velha degolara de manhzinha. Apesar de o desgraado ser seu amigo (at em cima dolombo se lhe empoleirava), sentia crescer a gua na boca s de ver aqueles ossos descarnados.Misrias O hspede, porm, em vez de lhe acalmar a gula pecadora, ps-se a fazer-lhe festas, aapalpar-lhe a cabea, a admirar-lhe a grossura do rabo, a examinar-lhe as patas, e rematou a vistoriadesta maneira:

    No h dvida nenhuma: um lindo bicho!Rosnou, insofrido. Outra vez a mesma conversa de h bocado! Se guardasse o paleio e lhe desse o

    esqueleto do seu compadre caludo, melhor fazia!Deu-lho, e a seguir despediu-o com uma ordem seca, de quem gostava de ser obedecido. No dia

    seguinte que voltou carga, e de que maneira! No o largou durante uma hora! Comeara o calvrioda educao.

    Correu a princpio ao leno enrolado, a cuidar que se tratava de uma brincadeira. Mas depois viuque o negcio era a srio, que o sujeito tinha l qualquer coisa encasquetada.

    V buscar, Nero, v lFez-se desentendido. E o sacripanta, depois de insistir, de se cansar a ver se o convencia por bem,

    larga-lhe uma vergastada rija! A primeira que apanhouSeguiu-se uma semana triste. At que num sbado de madrugada sairam ambos para os montes,

    ainda enevoados e cobertos de sincelo. Nunca deixara o ninho to cedo. Gostava das manhs nacama, mornas, a dormitar. O galo acordava-o sempre ainda o sol sonhava, cantar-lhe mesmo ao p,quase ao ouvido, a lenga-lenga parva, estridente, sempre igual. A princpio, resmungou. Depoisacostumou-se ao fadrio, e at estimava o despertador, s para ter o prazer de saborear os lenis.Mas naquele dia foi o doutor que lhe bateu ao ferrolho. Andavam quase de mal desde a ltima lio.

  • Mandara-lhe buscar um ovo, e quebrara-o nos dentes, sem querer. E vai logo um puxo valente deorelhas, sem d nem piedade! Apesar de ress