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  • TORTURA

    Flvio Augusto Monteiro de Barros

    Juiz de Direito em So Paulo Capital. Professor convidado para as reas de Direito Penal e Civil no CPC-Curso Preparatrio para Concurws-SP.

    1- CONCEITO

    A Lei n 9.455, de 7-4-97, regulamentando o inc. XLIII do art. 5 da Constituio Federal, trouxe tona a definio dos crimes de tortura.

    Efetivamente, dispe o inc. I do art. 1 da Lei n 9.455, de 7-497, que constitui crime de tortura:

    Constranger algum com emprego de violncia ou grave ameaa, causando-lhe sofrimento fsico ou mental:

    a) com o fim de obter informao, declarao ou confisso da vtima ou de terceira pessoa;

    b) para provocar ao ou omisso de natureza criminosa;

    c) em razo de discriminao racial ou religiosa;

    Pena - recluso, de dois a oito anos.

    Cumpre destacar a semelhana entre o delito de tortura, acima transcrito, e o crime de constrangimento ilegal, previsto no art. 146 do Cdigo Penal, pois em ambos o agente visa a obter da vtima um determinado comportamento positivo ou negativo.

    jeolaneCaixa de textoRevista do Instituto de Pesquisas e Estudos, n. 18, ago./nov. 1997

  • 236 FLVIO AUGUSTO MONTEIRO DE REVISTA JURDICA - INSTITUIO TOLEDO DE ENSINO

    2 - ELEMENTOS OBJETIVOS DO TIPO

    Tortura o sofrimento fsico ou mental causado a algum com emprego de violncia ou grave ameaa, com o fim de obter informao, declarao ou confisso da vtima ou de terceira pessoa, outrossim, para provocar ao ou omisso de natureza criminosa ou ento em razo de discriminao racial ou religiosa.

    Violncia fsica (vis absoluta) o emprego de fora bruta. Pressupe, no mnimo, a ocorrncia de vias de fato.

    Grave ameaa (vis compulsiva) a promessa de causar determinado malefcio.

    O tipo penal em apreo no contempla a violncia imprpria, divergindo, nesse aspecto, do crime de constrangimento ilegal, que a prev expressamente. Assim, a tortura provocada pelo uso de hipnose ou narctico configura apenas delito de abuso de autoridade (Lei n 4.898/65) ou constrangimento ilegal, conforme o caso. Lamentvel a lacuna da lei, que no pode ser suprida, diante da proibio da analogia in malam partem.

    Denota-se ainda a exigncia do efetivo sofrimento fsico ou mental da vtima, de modo que no basta, para consumao do crime, que o meio seja apto a causar o sofrimento.

    O sofrimento fsico pode consistir numa dor fsica ou desgaste corporal, como, por exemplo, obrigar a vtima a subir ou descer escadas.

    O sofrimento moral consiste no tormento psquico. Exemplos: impedimento do sono, terror, deixar a vtima nua, etc.

    3 - ELEMENTOS SUBJETIVOS DO TIPO

    Trata-se de crime doloso. Exige-se o dolo especfico, porque o agente realiza a tortura para obter um fim ulterior, consistente num determinado comportamento da vtima.

    Efetivamente, para a caracterizao do crime, urge que o sofrimento fsico ou mental tenha sido causado:

    com o fim de obt. da vtima ou de terceirG

    Informar instruir, manifestar a opinio. Cor Note-se que a lei no eJo criminoso. Portanto, a tOl fato, criminoso ou no, co tortura exercida contra sensibilize e confesse o f vtimas do delito de tOrtUl de crime de dupla subjetiv

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  • - INSTITUIO TOLEDO DE ENSINO FLVIO AUGUSTO MONTEIRO DE BARROS

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    ) emprego de fora bruta. vias de fato.

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    npla a violncia imprpria, de constrangimento ilegal, tortura provocada pelo uso penas delito de abuso de mgimento ilegal, conforme que no pode ser suprida, mpartem.

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    nento psquico. Exemplos: vtima nua, etc.

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    )dolo especfico, porque o 1 fim ulterior, consistente lma.

    ) do crime, urge que o ausado:

    com o fim de obter informao, declarao ou confisso da vtima ou de terceira pessoa;

    Informar instruir, ensinar. Declarar expor a dizer, manifestar a opinio. Confessar admitir a autoria de um fato. Note-se que a lei no exige que a confisso recaia sobre fato criminoso. Portanto, a tortura para obter a confisso de qualquer fato, criminoso ou no, configura o delito em apreo. s vezes, a tortura exercida contra a vtima para que terceira pessoa se sensibilize e confesse o fato. Nesse caso, ambas figuram como vtimas do delito de tortura, que, nessa hiptese, assume o perfil de crime de dupla subjetividade passiva.

    para provocar ao ou omisso de natureza criminosa;

    Nesta modalidade criminosa, o constrangimento exercido para que a vtima pratique um crime. Por exemplo: A obriga B a furtar um veculo. Se a coao for irresistvel, consoante dispe o art. 22 do Cdigo Penal, apenas o coator responde pelo delito de furto, em concurso material com o crime de tortura. Se a coao for resistvel no haver delito de tortura, pois uma ameaa resistvel no pode ser considerada grave. Nesse caso, ambos (coator e coacto), respondem pelo delito de furto: o coator como partcipe (CP, art. 29) e o coacto como autor, sendo porm, esse ltimo beneficiado pela atenuante genrica do art.65, lU, c.

    em razo de discriminao racial ou religiosa;

    O tipo penal no esclarece a ao ou omisso que o agente pretende obter da vtima. Todavia, para a configurao do delito, no basta a violncia ou ameaa, por motivo de discriminao racial ou religiosa. Sim, porque o ncleo do tipo o verbo constranger, que significa obrigar pela fora, compelir, coagir, de modo que em todo constrangimento inerente o propsito do agente em obter da vtima uma conduta positiva ou negativa. Na hiptese, o racismo do agente motivou o legislador a enquadr-lo como torturador, qualquer que seja a ao ou omisso que ele pretenda obter da vtima. No se perca de vista, porm, que a simples violncia ou ameaa, por motivos raciais ou religiosos, sem que o agente pretenda obter da vtima uma ao ou omisso determinada, no constitui delito de tortura.

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  • 238 REVISTA JURDICA - INSTITUIO TOLEDO DE ENSINO FLVIO AUGUSTO MONTEIRO DE

    4 - CONSUMAO

    Nas trs modalidades, o delito formal, consumando-se quando do emprego da violncia ou grave ameaa advm o sofrimento fsico ou mental, independentemente da vtima realizar o comportamento desejado pelo agente. Nesse passo, distingue-se do crime de constrangimento ilegal, que material, consumandose quando a vtima realiza a conduta desejada pelo agente.

    5 - TENTATIVA

    Admite-se a tentativa quando o sofrimento fsico ou mental no ocorre por circunstncias alheias vontade do agente. Exemplo: o agente surpreendido no ato de iniciar a violncia fsica.

    6 - SUBTIPOS DE TORTURA

    a) Aplicao de castigo pessoal ou medida de carter preventivo

    Dispe o inc. 11 do art l, da Lei n 9.455, de 7-4-97:

    Submeter algum, sob sua guarda, poder ou autoridade, com emprego de violncia ou grave ameaa, a intenso sofrimento fsico ou mental, como forma de aplicar castigo pessoal ou medida de carter preventivo.

    Pena - recluso, de dois a oito anos.

    Trata-se de delito prprio, porque sujeito ativo quem tem a vtima sob seu poder, guarda ou autoridade. O termo poder est empregado no sentido de domnio, influncia, fora, como, por exemplo, a bab em relao criana ou o seqestrador em relao ao seqestrado. Guarda a assistncia permanente sobre determinada pessoa, como, por exemplo, os pais em relao aos filhos. Autoridade o poder de uma pessoa sobre outra derivado de direito pblico ou privado, como, por exemplo, o diretor do colgio em relao aos alunos.

    o ncleo do tipo o \ obedincia, subjugar, sujei

    Os meios de execuo ~ Exclui-se a violncia impn

    O elemento subjetivo d revele como forma de apli( preventivo.

    Castigo pessoal a pun prtica de algum ato.

    Medida de carter prev de algum ato.

    O deli to s se consuma advm intenso sofriment< portanto, que o sofrimentl fora do comum, enrgico. conta o perfil subjetivo d etc.

    Admite-se a tentativa.

    b) Tortura contra pt: segurana

    Dispe o 1, do art. l,

    Na mesma pena i sujeita a medida de sei por intermdio da prt resultante de medida lei

    Trata-se de norma pen delito complementada p medidas que podem ser ir medida de segurana.

    O tipo penal no faz ameaa. Admite-se, assirr a violncia imprpria (pOl cela escura, cessao da ali

    Note-se ainda que no

  • \ - INSTITUIO TOLEDO DE ENSINO FLVIO AUGUSTO MONTEIRO DE BARROS

    , fonnal, consumando-se ou grave ameaa advm o ientemente da vtima realizar te. Nesse passo, distingue-se que material, consumandoiesejada pelo agente.

    rimento fsico ou mental no ntade do agente. Exemplo: o r a violncia fsica.

    li ou medida de carter

    1.455, de 7-4-97:

    ~arda, poder ou autoridade, grave ameaa, a intenso I fonna de aplicar castigo 'uivo.

    I anos.

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    O ncleo do tipo o verbo submeter, que significa reduzir obedincia, subjugar, sujeita