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TRAÇOS MORFOSSINTÁTICOS E SUBESPECIFICAÇÃO MORFOLÓGICA NA GRAMÁTICA DO PORTUGUÊS: UM ESTUDO DAS FORMAS PARTICIPIAIS Alessandro Boechat de Medeiros Tese de Doutorado submetida ao Pro- grama de Pós-Graduação em Lingüística da Universidade Federal do Rio de Janei- ro – UFRJ, como parte dos requisitos ne- cessários para a obtenção do título de Doutor em Lingüística. Orientadora: Profa. Doutora Miriam Lemle Rio de Janeiro Fevereiro de 2008

TRAÇOS MORFOSSINTÁTICOS E SUBESPECIFICAÇÃO …poslinguistica-letras-ufrj-br.umbler.net/images/Linguistica/3... · iii Agradecimentos À minha orientadora, professora Miriam Lemle,

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  • TRAOS MORFOSSINTTICOS E SUBESPECIFICAO MORFOLGICA NA GRAMTICA DO PORTUGUS: UM

    ESTUDO DAS FORMAS PARTICIPIAIS

    Alessandro Boechat de Medeiros

    Tese de Doutorado submetida ao Pro-grama de Ps-Graduao em Lingstica da Universidade Federal do Rio de Janei-ro UFRJ, como parte dos requisitos ne-cessrios para a obteno do ttulo de Doutor em Lingstica. Orientadora: Profa. Doutora Miriam Lemle

    Rio de Janeiro Fevereiro de 2008

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    Traos Morfossintticos e Subespecificao Morfolgica na Gramtica do Portugus: Um estudo das Formas Participiais

    Alessandro Boechat de Medeiros Orientadora: Professora Doutora Miriam Lemle

    Tese de Doutorado submetida ao Programa de Ps-Graduao em Lings-tica da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, como parte dos requisitos necessrios para a obteno do ttulo de Doutor em Lingstica. Aprovada por: _________________________________________________ Presidente, Profa. Doutora Miriam Lemle _________________________________________________ Prof. Maximiliano Guimares Miranda, PhD UFPR _________________________________________________ Profa. Doutora Maria Cristina Figueiredo Silva UFSC _________________________________________________ Prof. Marcus Antnio Resende Maia, PhD UFRJ _________________________________________________ Profa. Doutora Aniela Improta Frana UFRJ _________________________________________________ Prof. Doutor Ricardo Joseh Lima UERJ; Suplente _____________________________________________ Profa. Doutora Marcia Maria Vieira Damaso UFRJ; Suplente

    Rio de Janeiro Fevereiro de 2008

  • iii

    Agradecimentos

    minha orientadora, professora Miriam Lemle, que sempre acreditou em mim e

    me ajudou em momentos muito importantes do meu doutorado e da minha vida acadmi-

    ca: com sua orientao, seu saber, as cartas para a CAPES e para o professor Alec Ma-

    rantz, meu co-orientador em Nova Iorque, imprescindveis para que eu conseguisse a bol-

    sa de estgio no exterior, os livros emprestados, a pacincia com minhas dificuldades e

    deficincias, a presteza em me ajudar com minhas trapalhadas burocrticas, etc. e outros

    etceteras.

    A Alec Marantz, meu co-orientador no estgio de doutorado em Nova Iorque, na

    NYU, com quem aprendi muito. Acho que aprendi at mesmo a ler melhor com ele. Que-

    ro agradecer sua boa vontade e a pacincia comigo em nossos encontros semanais, as su-

    gestes de leitura, sua permisso para assistir a seu curso como ouvinte, a permisso para

    ter acesso ao material de seu curso no semestre seguinte, quando j estava no Brasil, as

    cartas que escreveu tanto para a NYU quanto para a CAPES, que me ajudaram a conse-

    guir a bolsa para o estgio e a aceitao no departamento de Lingstica da NYU, como

    Visiting Scholar, a carta elogiosa que escreveu para a CAPES quando da minha volta, e

    muitas outras coisas que no sei enumerar.

    minha famlia, que criou as condies adequadas para meus estudos, meu de-

    senvolvimento intelectual e me incentivou na deciso de fazer este doutorado, e que sem-

    pre me deu carinho e compreendeu meus momentos ruins. A Juliana, que renova minha

    vida cada vez que nos encontramos, e que me ajudou a tomar decises importantes, como

  • iv

    a de ir para Nova Iorque e a de fazer a necessria cirurgia cardaca, que melhorou tanto a

    minha sade.

    A alguns amigos: a Cacau, que me passou o mapa da mina de Nova Iorque, antes

    de eu chegar l; a Alexandre e Luciana, que me ajudaram em Nova Iorque e na NYU, e

    se tornaram grandes amigos, de quem eu sinto muitas saudades; a Cilene Rodrigues, que

    fez o contato entre mim e o casal Alexandre e Luciana; a Andr Fayo, meu amigo de

    sempre, com quem tive e tenho boas conversas sobre Lingstica, Literatura, Filosofia,

    Poltica, etc., conversas estimulantes que me ajudam a formular de maneira mais clara as

    idias que defendo; a Flvia Pedroza, tambm amiga de sempre, incentivadora e quase

    irm; a Ricardo Kubrusly, por tudo que fez por mim quando precisei de um amigo, e que

    tm alguma responsabilidade, ainda que indireta, nas boas decises que tomei nos ltimos

    anos.

    A alguns professores: Llian Ferrari, do Departamento de Lingstica e Filologia

    da UFRJ, que me ajudou com a documentao necessria obteno da bolsa de estgio

    no exterior, inclusive escrevendo uma carta importante para a CAPES; Celso Novaes, do

    mesmo departamento, que me deu orientaes sobre o funcionamento da ps-graduao

    tanto durante o mestrado quanto durante o doutorado, e foi quem me ajudou no meu in-

    cio na Lingstica, sugerindo at mesmo uma bibliografia bsica; Marcus Maia, tambm

    do departamento, que no s faz parte da banca de defesa desta tese como tambm me

    deu uma idia do que era a pesquisa em Lingstica antes de eu entrar no mestrado, me

    ajudando, pois, na deciso de ingressar nesse mundo; a Aniela Improta, que tambm

    membro da minha banca de defesa, me ajudou a escrever o projeto para a NYU, exign-

    cia do departamento de Lingstica para me aceitar entre eles, e sempre foi uma amiga

  • v

    muito querida; a Evani Viotti, do Departamento de Lingstica da USP, que fez parte da

    banca de defesa da minha dissertao de mestrado e escreveu um parecer muito elogioso

    a meu respeito, que contribuiu muito para a obteno da bolsa de estgio no exterior; aos

    professores Maximiliano Guimares, da UFPR, e Maria Cristina Figueiredo, da UFSC,

    que aceitaram participar da banca de defesa desta tese; a Anna Sabolcsi, do Departamento

    de Lingstica da NYU (coordenadora do departamento na poca em que estive l), que

    me aceitou no departamento como Visiting Scholar e me deixou fazer seu curso de se-

    mntica como ouvinte; a Heidi Harley, do Departamento de Lingstica da Universidade

    do Arizona, com quem tive a oportunidade de discutir por duas vezes meu trabalho: uma

    em Nova Iorque em 2006 e outra na UFMG, em 2007; seus comentrios foram muito im-

    portantes para o desenvolvimento de alguns dos pontos abordados aqui.

    A meus roomates (talvez seja melhor dizer housemates) de Nova Iorque: Mnica,

    Lides, Marcos, Dalva e Sajad, que me receberam em suas casas e me deram dicas muito

    teis sobre a vida naquela cidade. A Aneide Torres, tambm de Nova Iorque, de quem

    no fui colega de quarto nem de casa, mas que me ajudou de muitas maneiras, inclusive a

    encontrar uma nova casa quando decidi me mudar. A Paula Mila, tambm de Nova Ior-

    que, irm da professora Miriam Lemle, que me ajudou com algumas orientaes sobre a

    vida na cidade. A NYU por ter-me recebido como Visiting Scholar, e, em particular, a

    Lorraine Jerrome, secretria do Departamento de Lingstica, que sempre me deu infor-

    maes corretas e sempre teve boa vontade em resolver os problemas que apareciam.

    Ao CNPq, que me concedeu bolsa de doutorado de abril de 2005 a maro de

    2007; CAPES, que me concedeu bolsa de estgio no exterior (PDEE) de setembro de

    2006 a dezembro de 2006; FAPERJ, que me concedeu a bolsa Aluno Nota 10 de maro

  • vi

    de 2007 a fevereiro de 2008. Sem essas bolsas, no teria sido possvel ir adiante com o

    doutorado nem participar de congressos ou produzir artigos acadmicos.

  • vii

    Sinopse

    Este trabalho analisa as formas participiais do portugus usando o arcabouo terico da Morfologia Distribuda. Assumindo a idia de subespecificao morfolgica, damos conta do fato de que os particpios passado e presente ocorrem em diversos contextos e tm interpretaes variadas. A idia princi-pal da tese que termos como particpio passado ou presente so enganadores e mas-caram o fato de que vrias estruturas mor-fossintticas subjazem a tais rtulos. Esta te-se procura, entre outras coisas, estabelecer tais estruturas e, dentro do esprito da Mor-fologia Distribuda, as restries de insero das peas fonolgicas que lhes so prprias.

  • viii

    Resumo

    Esta tese de doutorado investiga as formas participiais do portugus brasileiro

    tendo como arcabouo terico o modelo da Morfologia Distribuda. O interesse pelos

    particpios se justifica por estes permitirem um olhar sobre questes que esto na interse-

    o de vrios mdulos da gramtica. E a arquitetura separacionista proposta pela Morfo-

    logia Distribuda nos permite no s estabelecer que contribuies a sintaxe, a morfologia

    e a semntica do individualmente, como tambm nos oferece uma boa explicao de

    como estes mdulos interagem para a produo das formas aqui estudadas. O texto da

    tese se divide em duas partes. Na primeira, o foco o particpio passado nas formas ver-

    bais: tempos verbais compostos e Voz passiva. A idia bsica (Ippolito 1999) de que o

    item de Vocabulrio /d/ do sufixo participial -do subespecificado, podendo realizar in-

    formaes gramaticais diversas no verbo principal, como aspecto e voz. A segunda parte

    se debrua sobre os particpios nos adjetivos e as nominalizaes. Alm do particpio pas-

    sado, o que chamado nas gramticas tradicionais de particpio presente tambm estu-

    dado. A questo mais importante aqui a da altura de anexao do morfema aspectual

    estrutura: se ele for diretamente anexado raiz, o adjetivo derivado de raiz associada ao

    verbo no necessariamente ter um significado relacionado a esse verbo; se a anexao

    for mais alta, acima do morfema verbalizador, o que define a categoria gramatical do par-

    ticpio o contexto sinttico em que ele ocorre, e seu significado ter que levar em consi-

    derao o do verbo, sempre.

    Palavras-chave: particpios, Morfologia Distribuda, subespecificao morfolgica

  • ix

    Abstract

    This dissertation investigates Portuguese participial forms in the framework of

    Distributed Morphology. The interest for participles is justified by the fact that these

    forms allow us to look into some issues that belong to the intersection of various modules

    of grammar; and the separationist architecture proposed by Distributed Morphology al-

    lows us not only to establish the exact contributions of syntax, morphology and semantics

    to the constitution of participles, but it also offers us a good explanation for the way these

    modules interact to the production of the forms studied here. The text is divided into two

    parts. The first one focuses on the past participles in verbal structures: periphrastic tenses

    and passive Voice. The basic idea (Ippolito 1999) is that the Vocabulary item /d/ is un-

    derspecified, and this condition allows it to spell-out various kinds of grammatical infor-

    mation, such as aspect and voice. The second part is devoted to participial adjectives and

    nominalizations. Besides the past participles, present participles are studied here as well.

    The main question for nominal and adjectival forms is how high in the structure the as-

    pectual morpheme is attached: if it is directly attached to the root, the adjective derived

    from a root typically associated to a verb will not necessarily have a meaning related to

    the verb meaning in question; if the aspectual morpheme is attached higher, above the

    verbalizer morpheme, what defines the grammatical category of the participle is the syn-

    tactic context, and the verb meaning must be taken into consideration, always.

    Keywords: participles, Distributed Morphology, morphological underspecification.

  • x

  • xi

    Sumrio

    1. Introduo .1

    Parte I ........13

    2. A Morfologia Distribuda ..15

    2.1 Introduo .15

    2.2 Por que a Morfologia Distribuda? .............................................................21

    2.3 As trs listas ...................................................................................................23

    2.4 Morfemas e Itens de Vocabulrio ................................................................26

    2.4.1 Morfemas ...........................................................................................26

    2.4.2 Itens de Vocabulrio e sua Insero ...............................................27

    2.4.3 Enciclopdia ......................................................................................31

    2.5 A Estrutura Morfolgica .............................................................................32

    2.5.1 As Operaes Morfolgica ...............................................................33

    2.6 Regras de Reajuste Fonolgico ...................................................................39

    2.7 Revendo a Arquitetura da Gramtica .......................................................40

    2.7.1 A Organizao da Gramtica .............................................................43

    2.7.2 Derivaes por Fase ...........................................................................44

    2.8 Concluso .......................................................................................................47

    3. Tempos Perfeitos e Voz Passiva .........................................................................49

  • xii

    3.1 Introduo .....................................................................................................49

    3.2 Tempo e Gramtica ......................................................................................52

    3.2.1 Reichenbach 1947 ..............................................................................52

    3.2.2 Giorgi & Pianesi 1998 .......................................................................55

    3.2.3 Hornstein 1993 ..................................................................................58

    3.2.4 O Sistema de Klein 1992 ...................................................................63

    3.3 Dois Pretritos ...............................................................................................67

    3.3.1 Giorgi & Pianesi 1998 .......................................................................68

    3.3.1.1 Resposta de G&P para a questo (1) .........................................68

    3.3.1.2 Resposta de G&P para a questo (2) .........................................68

    3.3.1.3 Problemas das propostas de G&P .............................................69

    3.3.2 Schmitt 2001 ......................................................................................72

    3.3.2.1 Problemas das propostas de Schmitt 2001 ...............................76

    3.3.3 A Morfologia Distribuda e os Dois Pretritos ...............................77

    3.3.3.1 Ippolito 1999 e a morfologia do particpio passado italiano ...78

    3.3.3.2 Respondendo a questo (1) 84

    3.3.3.3 Respondendo a questo (2) 88

    3.3.3.4 Problemas? ..96

    3.4 O Particpio Passado na Voz Passiva ..97

    3.5 Concluses ....................................................................................................101

    Parte II ............................................................................................................................103

  • xiii

    4. Argumentos e Estrutura de Eventos ................................................................105

    4.1 Introduo ....................................................................................................105

    4.2 O Verbo e os Argumentos Internos ...........................................................109

    4.3 O VP e o Argumento Externo ....................................................................122

    4.3.1 O Sujeito das Sentenas e a Gramtica .........................................123

    4.3.2 Chomsky 1995, Kratzer 1996, Pylkknen 2002 ............................126

    4.4 Sintaxe e Estrutura de Evento: onde esto os argumentos do verbo? ...133

    4.4.1 As propostas de Cuervo 2003 .........................................................133

    4.4.2 As propostas de Lin 2004 ...............................................................137

    4.4.3 As propostas de Marantz ...............................................................139

    4.4.3.1 Marantz 2006, 2007 ..................................................................141

    4.5 Razes ...........................................................................................................149

    5. Passivas Adjetivos .............................................................................................157

    5.1 Introduo ...................................................................................................157

    5.2 Preliminares .................................................................................................160

    5.3 Estados alvo e resultantes ...........................................................................171

    5.4 Os Particpios Adjetivos: Anlises .............................................................174

    5.5 As Passivas Estativas no Portugus ...........................................................185

    5.6 Vertebrados e Desmiolados ........................................................................188

    5.7 Concluses ...................................................................................................191

    6. As Nominalizaes em ada .............................................................................195

  • xiv

    6.1 Introduo ...................................................................................................195

    6.2 Que tipos de Verbos lhes servem de base? ................................................197

    6.3 Morfossintaxe das Nominalizaes em ada .............................................202

    6.3.1 As propostas de Scher 2005 ............................................................202

    6.3.2 Problemas da proposta de Scher 2005 ..........................................207

    6.3.3 Propondo alternativas ....................................................................210

    6.3.3.1 Que sintaxe tm as nominalizaes em ada? ........................214

    6.4 O que o verbo leve dar est fazendo aqui? ...........................................219

    6.4.1 E agora algo um pouco diferente ...................................................228

    6.4.2 O que falta: respostas para as perguntas (1) e (5) da seo 2 .....234

    6.5 Outras nominalizaes em ada ................................................................237

    6.5.1 Coletivos ...........................................................................................237

    6.5.2 Pratos, sucos, doces .....................................................................239

    6.5.3 Concluindo .......................................................................................241

    7. Particpio Presente ............................................................................................243

    7.1 Introduo ...................................................................................................243

    7.2 Adjetivos e substantivos nte deverbais ...................................................246

    7.2.1 Adjetivos ..........................................................................................246

    7.2.2 Nominalizaes ................................................................................248

    7.3 Que tipos de verbos/razes podem servir de base para a formao de partic-

    pios presentes no portugus ..................................................................250

  • xv

    7.3.1 Que tipos de verbos no pode servir de base para a derivao dos adje-

    tivos nte em portugus ...........................................................271

    7.4 Adjetivos e Nominalizaes nte ................................................................272

    7.4.1 Adjetivos nte ..................................................................................272

    7.4.2 As Nominalizaes nte ..................................................................278

    7.4.3 O item de Vocabulrio /nt/ .............................................................281

    7.5 O que resta? .................................................................................................283

    7.6 As cpulas ....................................................................................................287

    7.7 Concluses ...................................................................................................288

    8. Concluses .........................................................................................................291

    Referncias Bibliogrficas .......................................................................................293

  • xvi

  • 1. Introduo

    Esta tese sobre os particpios da lngua portuguesa: particpios passado e presen-

    te particpios em tempos verbais, na voz passiva, em adjetivos e substantivos (nomina-

    lizaes). Particpios parecem estar em muitos lugares.

    Por exemplo, qualquer gramtica reconhece que o particpio passado pode ocorrer

    em pelo menos trs contextos, ilustrados por (1)-(3) a seguir. Neles, como vemos pelas

    dicas morfolgicas e semnticas, o particpio tem uma natureza categorial (morfolgica)

    e semntica ambgua:

    (1) Tempos perfeitos compostos: O rapaz tinha perdido a chave.

    (2) Voz passiva: A chave foi perdida (pelo rapaz).

    (3) Adjetivo: A vela est apagada.

    Ou seja, o sufixo associado ao que tradicionalmente chamado de morfologia do partic-

    pio passado (os sufixos do ou da) surge no contexto dos seguintes tipos de informao

    gramatical e semntica:

    a) Tempos perfeitos compostos, como em (1), em que a situao de perder a chave con-

    cluiu-se (ou culminou, segundo terminologia de Parsons 1990) antes de uma referncia

    temporal no passado ou seja, a situao descrita pelo verbo ocorreu/culminou antes de

  • 2

    um intervalo de tempo ou evento que anterior ao momento/intervalo em que a frase

    dita. Diferentemente das outras duas sentenas, a forma participial aqui no concorda em

    gnero e nmero (concordncia tipicamente adjetiva) nem com o sujeito nem com o obje-

    to. A desinncia participial parece simplesmente ser parte da estrutura flexional do tempo

    verbal, que, por alguma razo, se dividiu em duas1.

    b) Voz passiva, como em (2), em que o argumento interno do verbo perder ocupa a posi-

    o de sujeito da sentena. Aqui, o verbo auxiliar concorda com esse argumento interno

    em nmero e pessoa e o particpio do verbo em gnero e nmero. A voz passiva normal-

    mente2 preserva as condies de verdade da sentena na voz ativa associada, o que sugere

    que, apesar de essa forma ter morfologia de adjetivo (concordncia em gnero e nmero

    com o sujeito), o particpio do verbo difere semanticamente dos adjetivos por no expres-

    sar nem estado nem propriedade do sujeito da sentena. Observe-se tambm que, na voz

    passiva, o verbo no particpio no expressa informao aspectual (perfeito, imperfectivo,

    perfectivo, prospectivo), uma vez que o prprio verbo auxiliar j expressa esta informa-

    o de vrias maneiras. Observem-se os exemplos a seguir com o verbo fazer: tem sido

    feito, tinha sido feito, foi feito, feito, est sendo feito, etc. Tomemos como exemplo o

    mais-que-perfeito composto em tinha sido feito; o aspecto perfeito j est expresso na

    morfologia do auxiliar, e no na morfologia do verbo principal; o mesmo vale para qual-

    quer outro valor aspectual.

    1 Isso fica mais claro quando comparamos esta forma com a forma sinttica do mais-que-perfeito, forma que, ao que parece, no faz mais parte do sistema de tempos verbais do portugus falado no Brasil. 2 Por exemplo, quando h quantificadores nos argumentos do verbo, as condies-de-verdade podem sofrer algumas mudanas. Em toda mulher ama um homem, h duas interpretaes: uma em que existe um nico homem amado por todas as mulheres e uma em que, para cada mulher, existe um homem amado por ela. Entretanto, na voz passiva, um homem amado por toda mulher, a nica interpretao aquela em que existe um nico homem amado por todas as mulheres.

  • 3

    c) Estado final ou resultante de um evento ou processo que culminou em um momento

    anterior ao momento em que a frase (3) dita. Aqui a morfologia compatvel com a in-

    terpretao (ou interpretaes) associada a essa forma. Como veremos no captulo 5, este

    particpio mascara duas leituras (estruturas): a de estado alvo e a de estado resultante,

    conforme definies estabelecidas por Parsons 1990 e desenvolvidas posteriormente por

    Kratzer 2000 e Embick em vrios artigos.

    O fato de a mesma morfologia ocorrer em contextos to distintos quanto os da voz

    passiva, por um lado, e o do aspecto perfeito, por outro que so irredutivelmente dife-

    rentes, pois, enquanto o primeiro lida com a estrutura argumental do verbo, o outro lida

    simplesmente com informao temporal/aspectual , sugere que talvez essa morfologia

    seja subespecificada.

    Esta tese defende a idia de que a morfologia dos particpios, tanto a associada ao

    particpio passado quanto a associada ao particpio presente, subespecificada ou seja,

    que nomes como particpio passado so, de fato, somente rtulos, com pouco ou nada a

    dizer a respeito do significado das formas que recebem esses nomes ou dos contextos em

    que essas formas ocorrem. Isso me parece ser um dado emprico indiscutvel, com o qual

    qualquer teoria gramatical tem que lidar. Mas que teoria lidaria melhor com isso?

    A Morfologia Distribuda uma teoria da gramtica que assume explicitamente

    que algumas das informaes mencionadas acima so encapsuladas em representaes

    mentais atmicas, puramente abstratas, que correspondem a entidades tericas chamadas

    de traos morfossintticos (ver captulo 2). Esses traos renem informao sinttica

  • 4

    (gramatical) e semntica (de significado), e se juntam em feixes que se combinam com

    outros feixes e com razes para gerar palavras e sentenas3. A teoria tambm assume que

    os feixes de traos morfossintticos podem ter uma contraparte fonolgica (um som) as-

    sociada a eles, e que esses sons (itens do Vocabulrio ou peas do Vocabulrio, nos ter-

    mos da teoria) s so de fato colocados (inseridos) na estrutura das sentenas e das pala-

    vras depois de elas terem sido construdas abstratamente. Assim, a estrutura abstrata

    construda que cria o contexto adequado para a colocao dos itens do Vocabulrio (dos

    sons) nos lugares devidos; e os itens do Vocabulrio, por seu turno, trazem informao

    necessria para sua insero nos pontos certos da estrutura.

    No que diz respeito s especificaes dos itens de Vocabulrio, uma das proprie-

    dades definidoras desta teoria gramatical a subespecificao dos mesmos, que pode ser

    formulada da seguinte maneira: os itens de Vocabulrio no necessariamente so especi-

    ficados com toda a informao contida nos ns terminais em que sero eventualmente

    inseridos. Nos exemplos (1)-(3), a forma sonora do sufixo participial (os itens de Voca-

    bulrio do sufixo do) a contraparte fonolgica de feixes de traos morfossintticos re-

    lacionados s interpretaes de aspecto perfeito, estado alvo, estado resultante, e voz

    passiva; e, uma vez que o som /do/ realiza tantos tipos de informao gramatical, dize-

    mos que ele subespecificado para esses contextos: ou seja, traz o mnimo de informao

    compatvel com eles.

    Portanto, a Morfologia Distribuda, assumindo existir subespecificao de formas

    morfofonolgicas, mais adequada para a anlise das formas estudadas nesta tese que

    outras teorias gramaticais que no assumem o mesmo.

    3 Nessa teoria particular, as operaes utilizadas para construir palavras no so diferentes das operaes usadas para construir sentenas (ver captulo 2).

  • 5

    A adoo de uma teoria ou modelo cientfico nos permite ver os fenmenos de

    uma determinada maneira. E essa maneira de olhar para os fenmenos traz consigo suas

    prprias questes. Assumindo a arquitetura de gramtica da Morfologia Distribuda, creio

    que as perguntas fundamentais a serem respondidas no estudo das formas participiais so:

    a) Que feixes de traos morfossintticos esto envolvidos nos diferentes contextos

    em que a morfologia participial aparece? Quais combinaes especficas desses

    traos geram as diferentes interpretaes (semnticas) associadas a essa forma?

    Como esses significados so gerados por essas combinaes? Que efeitos essa es-

    trutura tem em sua relao com outros elementos do entorno (outras palavras,

    como a seleo de auxiliares, cpulas etc.)?

    b) Que itens do Vocabulrio realizam essas formas e que informaes contextuais

    devem ser associadas a estes itens para que os falantes os insiram nos lugares cor-

    respondentes na estrutura da sentena?

    Tratei parcialmente dessas questes em minha dissertao de mestrado, mas mui-

    tos problemas ficaram por ser resolvidos, principalmente no que se refere a (a) acima, que

    trata das variadas interpretaes s quais a morfologia participial est associada.

    Esta tese uma continuao e uma grande ampliao do estudo das formas parti-

    cipiais do portugus. Alm de buscar resolver as questes que ficaram pendentes na dis-

    sertao de mestrado, relativas ao particpio passado, interessei-me particularmente pelas

    formas do particpio presente, pois elas levantam questes importantssimas sobre a es-

  • 6

    trutura argumental dos verbos, assunto dos mais relevantes para a teoria lingstica mo-

    derna. Esclarecendo: enquanto as formas do particpio passado so normalmente passi-

    vas, as do particpio presente so normalmente ativas as primeiras modifi-

    cam/selecionam, como seu argumento, o que seria o complemento (o objeto direto) do

    verbo de que derivam, quando derivam de verbo; as segundas modificam/selecionam os

    sujeitos dos verbos que as compem. Por conta disso, esperado que a seleo de argu-

    mentos feita pelos verbos determine, em grande parte, que distribuio os verbos tero

    entre as formas do particpio passado e presente e somente uma boa teoria sobre como

    os verbos selecionam seus argumentos uma teoria sobre sua estrutura argumental po-

    de dar conta dessas questes.

    Esta tese, portanto, mais que uma continuao e uma grande ampliao do estu-

    do das formas participiais do portugus. Ela tambm prope e defende algumas idias

    sobre as estruturas argumentais dos verbos e sobre como os argumentos e a semntica das

    razes contribuem na interpretao das formas nominais (substantivos e adjetivos) dos

    particpios passado e presente.

    Para tanto, o texto a seguir dividido em duas partes. Na primeira parte (captulos

    2 e 3), fao: a) uma descrio da teoria da Morfologia Distribuda (captulo 2); b) uma

    anlise dos tempos compostos (com o verbo principal no particpio passado) e da voz

    passiva. Para a anlise destas formas, combinarei as propostas de Ippolito 1999 com as de

    Klein 1992. Resumindo a idia, seguindo Ippolito assumo que, como no italiano, existe

    um item de Vocabulrio default, /d/, que realiza os ncleos flexionais mais baixos na es-

    trutura flexional dos verbos. Esses ncleos normalmente correspondem aos ncleos que

    albergam traos de aspecto (relaes entre o tempo da situao ou eventualidade e o tem-

  • 7

    po tpico ver captulo 3 para mais detalhes) e o feixe de traos PASSIVA, que toma

    como complemento o ncleo de Voz impedindo que ele projete posio para argumento

    externo. A ocorrncia de auxiliares em certas formas verbais, segundo Ippolito, deter-

    minada por propriedades morfolgicas gerais das lnguas. Ou seja, segundo essa autora,

    auxiliares so fenmenos morfolgicos, que, dentro da arquitetura da Morfologia Distri-

    buda (ver captulo 2, esquema (1)), ocorrem aps as operaes sintticas, no caminho

    para a interface fonolgica.

    O contedo do captulo 3 descrito no pargrafo anterior contribui com algumas

    melhoras ao que j est desenvolvido em minha dissertao de mestrado; por exemplo,

    aqui comparo os sistemas de Reichenbach e Klein optando pelo segundo e adaptando-o

    s propostas de Ippolito. A novidade, que toma, de fato, quase toda a extenso do captu-

    lo, o tratamento das questes abaixo, que so problemas clssicos da descrio do sis-

    tema de tempos verbais do portugus:

    a) Por que no existe, no portugus (e s no portugus) uma forma temporal em que

    o auxiliar TER est no pretrito perfeito simples e o verbo principal est no parti-

    cpio passado (cf. *ele teve viajado)?

    b) Por que a forma com o auxiliar TER no presente do indicativo e o particpio pas-

    sado do verbo principal tem, no portugus, somente interpretao habitual ou ite-

    rativa (por exemplo, ele tem viajado)?

    Combinando a proposta de Klein 1992, que assume que os tempos verbais expressam re-

    laes entre trs intervalos temporais diferentes dos trs pontos temporais de Reichenba-

  • 8

    ch 1947, e as propostas de Ippolito, apresento respostas para as perguntas acima, que, at

    onde posso ver, no caem nos problemas que as abordagens de Giorgi & Pianesi 1998 e

    Schmitt 2001 para os mesmos problemas implicam. Ao final do captulo 3, como j men-

    cionei antes, fao uma anlise da voz passiva, combinando a proposta de Ippolito com a

    de Pylkknen 2002 para a estrutura do sintagma verbal.

    A segunda parte da tese lida com as formas nominais associadas aos particpios

    passado e presente. Uma vez que, a meu ver, a melhor anlise para essas formas pede por

    uma teoria de estrutura argumental (alm da discusso sobre aspecto, o qual normalmente

    est ligado realizao morfofonolgica das formas participiais), o captulo 4 basica-

    mente dedicado discusso de diversas teorias de estrutura argumental que esto sendo

    debatidas no universo da lingstica formal hoje. Ao final do captulo, apresento as pro-

    postas de Marantz 2006/2007, com as quais de fato me alinho, e proponho uma classifi-

    cao semntica, ainda tateante, para as razes associadas aos verbos do portugus, classi-

    ficao que estabelece as compatibilidades entre os tipos da classificao e as estruturas

    propostas por Marantz.

    O captulo 5 trata das formas adjetivas do particpio passado. Aps discutir boa

    parte da literatura existente hoje sobre o assunto, e definir conceitos importantes, como os

    de estado alvo e estado resultante (Parsons 1990, Kratzer 2000), fao minhas propostas

    para a estrutura das passivas adjetivas, que podem ser resumidas da seguinte maneira: a)

    as passivas de estado alvo so o resultado da concatenao direta de razes (costumeira-

    mente aquelas que chamo de razes de estado final ou alvo, na classificao proposta no

    captulo 4) com um ncleo aspectual estativo, interpretado na Estrutura Morfolgica co-

    mo ncleo flexional, que recebe o item de Vocabulrio /d/; e b) as passivas de estado re-

  • 9

    sultante so o resultado da adjetivao, por um contexto morfossinttico especfico (a

    presena da cpula, por exemplo), de um sintagma aspectual encabeado pelo trao [per-

    feito]. As passivas de estado resultante, no portugus, tambm carecem de ncleo de Voz,

    introdutor de argumento externo. Essa ausncia impede a adjuno de um sintagma pre-

    posicional encabeado por por, que normalmente introduz os agentes na voz passiva. O

    final do captulo 5 trata de adjetivos e nomes como descamisado, vertebrado, desmiola-

    do, etc. Ali desenvolvo a idia de que, a um sintagma preposicional dominando a raiz,

    que normalmente est associada a nomes de objetos, partes do corpo, etc., um ncleo as-

    pectual estativo se anexa, exatamente como no caso das passivas de estado alvo. Essas

    palavras teriam quase a mesma estrutura dos verbos location/locatum de Hale & Keyser

    1993, com a exceo de que, estrutura mais encaixada, no se anexa um vezinho, mas

    um ncleo aspectual estativo, no qual inserido o item /d/.

    O captulo 6 trata das nominalizaes em ada, que, nesta tese, assumirei serem

    formas participiais (Ippolito 1999). Ali estudo que tipos de verbos seriam compatveis

    com essas nominalizaes e que informao aspectual estaria presente na nominalizao.

    Defenderei a idia de que o ncleo aspectual presente nessas nominalizaes alberga o

    trao [perfectivo]. Uma vez que o ncleo aspectual perfectivo dentro da nominalizao

    um ncleo flexional que no imediatamente c-comandado por C (ver captulo 3), ele

    recebe o item de Vocabulrio /d/, que o item default aqui.

    Um outro ponto muito importante da anlise proposta para essas formas diz res-

    peito ao sintagma preposicional em Y na expresso dar uma X-ada em Y. Seria Y um

    complemento da nominalizao ou do verbo interno a essa nominalizao? Para alguns

    autores (Scher 2004, 2005), sim: em Joo deu uma varrida na sala, o DP a sala visto

  • 10

    como complemento do verbo varrer de que deriva a nominalizao varrida. Neste captu-

    lo vou defender o oposto: esse sintagma nominal mais baixo (a sala, no exemplo) no

    um complemento do verbo interno nominalizao nem da nominalizao, mas uma es-

    pcie de alvo ou lugar a que a eventualidade denotada pela nominalizao em ada se

    direciona ou se realiza. Ou seja, dar uma varrida na sala direcionar a atividade de var-

    rer sala, realiz-la nela. Como se ver no captulo 6, essa nova maneira de ver as coisas

    explica a interpretao diminutivizada que alguns autores atribuem a essas nominaliza-

    es4. A idia que, j que no exemplo acima a sala no complemento de varrer, ela

    no pode ser interpretada como uma medida desta atividade, e, portanto, quando digo que

    dei uma varrida na sala, no digo que necessariamente cobri, com minha atividade, toda

    a extenso da sala (interpretao normalmente atribuda sentena eu varri a sala). Ora,

    se minha atividade no necessariamente cobriu toda a extenso da sala, ela no necessari-

    amente teve como efeito sala (toda) varrida, e, portanto, dar uma varrida na sala deve

    ser, normalmente, menos do que varrer a sala. Da a interpretao diminutivizada

    mencionada em Scher 2005 e Baslio 1999.

    Ao final do captulo 6, discuto tambm dois outros tipos de nominalizao em

    ada: a que denota coletivos (garotada) e a que denota algum item culinrio (limonada).

    Desenvolvendo algumas idias que j tinham sido esboadas em minha dissertao de

    mestrado, apresento uma explicao melhor para a interpretao destas formas: de fato,

    elas apresentam a mesma estrutura; o que as vai diferenciar a maneira como a raiz ne-

    gociar seu significado com o ncleo aspectual estativo que a domina e o ncleo nomina-

    4 Scher 2004, 2005 e Baslio 1999 (apud Scher 2005) assumem que a atividade/eventualidade denotada por tais nominalizaes interpretada como mais curta que o necessrio ou realizada com descuido. Scher 2005 vai mais longe e prope que h um ncleo de aspecto diminutivo dentro da nominalizao, que da-ria conta desta interpretao.

  • 11

    lizador mais alto, aquele que, de fato, marca a borda de domnio cclico (Marantz 2001) e

    de significado e pronncia especiais de razes.

    O captulo 7 lida com as formas do particpio presente. Ali, alm de fazer uma

    discusso sobre os tipos de verbos que normalmente servem de base para essas formas,

    proponho quatro estruturas bsicas que daro conta dos vrios tipos de particpio presente

    adjetivais e nominais do portugus. Ao final do captulo, trato dos casos em que o parti-

    cpio presente formado por uma raiz que no ocorre em nenhum outro contexto, e, por-

    tanto, essas ocorrncias do particpio presente no derivam de razes associadas a alguma

    outra categoria da lngua. Ao que parece, boa parte dessas razes ocorria em verbos do

    latim que hoje no existem no lxico do portugus; entretanto, a forma participial perma-

    neceu, com significado especial em relao ao significado original do verbo latino de que

    derivava.

    A tese se conclui com o captulo 8, que retoma as duas questes fundamentais

    formuladas nesta introduo, mostrando que elas foram respondidas ao longo do texto.

  • 12

  • Parte I:

    O Particpio Passado e os Verbos: Tempo, Aspecto e

    Voz Passiva

  • 2. A Morfologia Distribuda

    ___________________________________________

    2.1 Introduo

    A Morfologia Distribuda aparece de modo mais articulado num extenso e difcil

    artigo de Morris Halle e Alec Marantz, chamado Distributed Morphology and the Pieces

    of Inflection, publicado como captulo 3 do livro The View from Building Twenty, de

    1993. A publicao trouxe trabalhos de grande importncia para o desenvolvimento da

    gramtica gerativa nos ltimos anos; entre eles, por exemplo, o texto seminal de Noam

    Chomsky, A Minimalist Program for Linguistic Theory (do qual uma verso revista saiu

    como captulo 3 dO Programa Minimalista) e o trabalho de Keneth Hale e Samuel J.

    Keyser, On Argument Structure, em que se fala de uma sintaxe interna aos itens lexicais.

    A Morfologia Distribuda essencialmente uma teoria construcionista (e no-

    lexicalista), compartilhando algumas caractersticas com linhas que surgiram ao longo

    dos anos noventa (por exemplo, a Gramtica das Construes, Goldberg 1995) e nos l-

    timos anos (por exemplo, Borer 2005, Hale & Keyser 2002, Ramchand 2003 etc.) mas

    se distanciando delas em aspectos importantes. Fundamentalmente, trs propriedades a

    diferenciam de suas concorrentes: a Insero Tardia, a Subespecificao e a chamada Es-

    trutura Sinttica Hierarquizada All the way down. Abaixo apresento brevemente cada

    propriedade (Halle & Marantz 1994).

  • 16

    A Insero Tardia caracteriza uma concepo separacionista5 de derivao sint-

    tica. Se nas teorias lexicalistas os itens entram na computao j formados, com sua

    estrutura interna fechada (s operaes sintticas) e com contedo fonolgico, na Morfo-

    logia Distribuda as categorias sintticas so puramente abstratas, sem traos fonolgicos.

    S aps todas as operaes sintticas (e morfolgicas) realizadas, expresses fonolgicas,

    chamadas de itens de Vocabulrio, so inseridas nos ns terminais gerados pela sintaxe.

    Subespecificao significa que as expresses fonolgicas no precisam ser ple-

    namente especificadas para serem inseridas nos ns terminais da derivao sinttica. Isso

    quer dizer duas coisas: a) que os itens de Vocabulrio no so somente seqncias de

    sons sem nenhuma especificao eles, ao contrrio, trazem consigo informao sufici-

    ente (sobre traos sintticos, morfolgicos e semnticos) para sua insero nos ns resul-

    tantes das operaes sintticas e morfolgicas; b) que num n sinttico/morfolgico pode

    haver mais informao do que aquela que contm o item de Vocabulrio a ser inserido ali

    ou seja, os itens podem ser subespecificados.

    Dizer que a gramtica tem uma Estrutura Sinttica Hierarquizada All the Way

    Down significa dizer que os ns terminais nos quais os itens de Vocabulrio sero inseri-

    dos se organizam em estruturas hierrquicas determinadas por princpios e operaes da

    sintaxe. Antes de serem enviados para o componente fonolgico, podem sofrer algumas

    modificaes como resultado de operaes realizadas no componente morfolgico; entre-

    tanto, essas operaes tm um poder bastante restrito de transformar constituintes. Esse

    poder limitado por condies de localidade da sintaxe. Veremos mais tarde que as mo-

    5 O que quer dizer que, na Morfologia Distribuda, os mecanismos responsveis por produzir expresses sinttica e semanticamente complexas so separados dos mecanismos que produzem expresses fonolgi-cas. Ou, em outras palavras (Halle & Marantz 1994), a realizao fonolgica de uma sentena separada dos princpios que determinam as estruturas bsicas dos traos semnticos, sintticos e morfolgicos na sentena.

  • 17

    dificaes que o componente morfolgico pode realizar sobre os ns sintticos so pou-

    cas e aplicadas em ambientes bem estabelecidos. Uma vez que essas operaes so locais

    e respeitam princpios sintticos, a estrutura hierrquica na qual acabam sendo inseridos

    os Itens de Vocabulrio se afasta muito pouco das estruturas geradas na sintaxe. A parte

    All the Way Down quer dizer que, quando se fala de estrutura hierarquizada determinada

    pela sintaxe, no se excluem as palavras ou seja, palavras tambm so estruturas

    hierrquicas geradas na sintaxe.

    A gramtica na Morfologia Distribuda, ento, tem a seguinte estrutura:

  • 18

    (1)

    Lista 1

    Traos morfossintticos [Det] [Raiz] [pl] etc.

    Operaes sintticas

    (Juntar, Mover) Operaes Morfolgicas (Juntar, Fundir, Fissionar etc.) Forma Lgica

    Insero das formas fonolgicas (Itens de Vocabulrio) 6 Interface Conceitual Itens de Vocabulrio (significado) /gat-/: [Raiz] [+cont] [+anim] /-s/: [Num] [pl] Lista 2

    Enciclopdia Lista 3 (conhecimento extralingstico) Gato: animal de quatro patas, que mia. Mesa: mvel onde se faz a refeio.

    No esquema, a Lista 1 (Lxico Estrito, Marantz 1997) fornece containeres de ra-

    zes (Marantz 1999) e feixes de traos morfossintticos7 com os quais o sistema computa-

    6 A existncia desta seta baseia-se numa verso da teoria em que as razes so inseridas tardiamente, como os itens de Vocabulrio. Veremos adiante que isso no consenso. 7 Os traos morfossintticos no contm informao semntica que no seja relevante para a computao sinttica.

  • 19

    cional opera, concatenando8, movendo e copiando. A computao comea com uma nu-

    merao, uma pr-seleo dos feixes e marcao de posio para razes (dentre os ele-

    mentos da lista 1) que sero usados na derivao sinttica9. Durante a derivao, a infor-

    mao contida nos ns resultantes das operaes sintticas mandada (em ciclos ou fa-

    ses, na verso da teoria proposta por Marantz 2001) para a Forma Lgica (LF) e para o

    componente Morfolgico do sistema computacional (MS Estrutura Morfolgica). No

    componente morfolgico, outro conjunto de operaes se aplica sobre os ns sintticos,

    criando novos ns, movendo alguns, copiando ou apagando traos etc. Os ns que resul-

    tam das operaes morfolgicas sofrem a insero dos itens de Vocabulrio, elementos

    da Lista 2 (Vocabulrio, Marantz 1997), que lhes daro contedo fonolgico. Isso quer

    dizer que a insero dos itens lexicais tardia, ocorrendo somente aps as operaes sin-

    tticas e morfolgicas em cada fase. Para que um item de Vocabulrio seja inserido num

    determinado n, preciso que ele contenha, seno todos os traos, pelo menos um sub-

    conjunto dos traos morfossintticos que este n possui o item de Vocabulrio, portan-

    to, pode ser subespecificado, uma vez que no precisa possuir todos os traos presentes

    em um n para ser inserido nele. A presena de um trao, no item, que no esteja presente

    no n, impede que o item entre na competio pela insero naquele n. O item, entre os

    competidores, que contenha o nmero de traos mais prximo do nmero de traos pre-

    sentes no n terminal da sintaxe vence a competio e inserido. Aps a insero dos

    itens de Vocabulrio, as expresses so enviadas para a interface conceitual, e a informa-

    o contida na terceira lista, a Enciclopdia, acionada. na Enciclopdia que as razes

    8 Tradicionalmente, considera-se que as operaes realizadas pelo sistema computacional so concatenar (merge), mover (move) e copiar (copy). As noes de internal merge e external merge (Chomsky 2001) mudam um pouco essa viso, eliminando a necessidade de cpias nos pontos de partida dos movimentos. 9 Para alguns, como Harley e Marantz, as razes entram a, na numerao no so marcaes de pontos (place-holders) de insero para elas. Ver seo 2.7.1 deste captulo.

  • 20

    recebem significados particulares, tendo em conta o ambiente sinttico em que elas apa-

    recem10.

    Veremos na prxima seo que na Morfologia Distribuda no existe um compo-

    nente do sistema computacional onde as unidades operadas pela sintaxe so criadas o

    Lxico, no qual as palavras (com contedo fonolgico) so montadas para servirem

    computao de sintagmas e sentenas. A teoria no considera a palavra como unidade

    operacional em nenhum nvel. O que existe so trs listas acionadas no curso da deriva-

    o; e cada uma das listas fornece um tipo de informao lingstica: lista 1, informao

    gramatical (formal) e um contedo semntico mnimo, que vai ser lido na LF; lista 2, in-

    formao fonolgica; e lista 3, informao semntica.

    No texto a seguir apresentarei os conceitos envolvidos nesta breve introduo e

    detalharei o funcionamento das derivaes na Morfologia Distribuda, com exemplos. Na

    breve seo 2.2 abaixo, apresentarei algumas razes para a escolha deste modelo nesta

    tese, incluindo as razes que guiam a crtica, encontrada em Marantz 1997, posio le-

    xicalista. Na seo 2.3 discutirei, com mais cuidado, as trs listas presentes no esquema

    (1), que so acionadas durante a computao das expresses; na seo 2.4 apresentarei,

    ao longo de suas subsees, alguns conceitos-chave da teoria: morfema, item de Vocabu-

    lrio, spell-out e insero; na seo 2.5, discutirei brevemente as operaes morfolgicas

    realizadas aps as operaes sintticas: quais so e como so, com exemplos; na seo

    2.6 falarei rapidamente das regras de reajuste fonolgico, operaes que acontecem aps

    a insero dos itens de Vocabulrio; a seo 2.7 apresenta verses mais recentes da teori-

    a, propostas de Marantz e Harley. A seo 2.8 apresenta as consideraes finais. A orga-

    10 Atualmente, alguns autores, como Heidi Harley, tm tentado eliminar a enciclopdia da arquitetura da gramtica. Ver seo 2.4.3 para uma discusso sobre este ponto.

  • 21

    nizao deste captulo e boa parte do seu texto se baseiam fortemente no captulo 2 de

    minha dissertao de mestrado (Medeiros 2004) e no captulo 3 de Pfau 2000.

    2.2 Por que a Morfologia Distribuda?

    Trs razes justificam minha opo pela Morfologia Distribuda ao invs de mo-

    delos lexicalistas como o Minimalismo Chomsky 1995 ou a teoria GB.

    A primeira um argumento contra a prpria Hiptese Lexicalista. Desde os anos

    7011, as afirmaes de que a sintaxe nem manipula nem tem acesso forma interna das

    palavras12 e de que a palavra o local de variados tipos de idiossincrasia esto na base

    do pensamento lingstico dominante. Entretanto, essa posio apresenta uma grande e

    fundamental dificuldade: como definir teoricamente a noo de palavra? Marantz 1997

    contesta essas afirmaes dizendo que os domnios de aplicao de regras fonolgicas

    lexicais, de significados especiais (idiossincrticos) e de correspondncias aparentemen-

    te especiais entre estrutura e significado, que deveriam, assumindo a Hiptese Lexicalis-

    ta, coincidir na palavra, no coincidem nela13 de fato, nem sequer tm correlao exa-

    ta um com o outro, o que nos leva a perguntar se essa noo no seria artificial e inade-

    quada para fundamentar uma teoria da gramtica.

    A segunda razo que o modelo no lexicalista da Morfologia Distribuda tem a

    vantagem de no precisar de operaes lexicais especiais (do tipo assemble features, co-

    11 Chomsky 1972 12 Anderson 1998. 13 Fonolgica e morfologicamente, as palavras muito freqentemente no coincidem com os itens lexi-cais, e a estrutura sinttica no idntica estrutura prosdica em nenhum nvel, inclusive no da palavra. Significados especiais, idiossincrticos, muito freqentemente esto associados a unidades maiores do que a palavra (expresses idiomticas como chutar o balde, por exemplo), e palavras complexas tm seus significados comportadamente derivados dos morfemas que as compem. Ver Marantz 1997.

  • 22

    mo em Chomsky 1997, por exemplo) diferentes das operaes sintticas de concatenar e

    mover (Chomsky 1995); nem de princpios que relacionem estrutura morfolgica e estru-

    tura sinttica, como o princpio do espelho (discutido em Baker 1985); nem de regras de

    link, necessrias para definir como os argumentos dos verbos so projetados na sintaxe

    (ver, por exemplo, Levin & Rappaport 1988 e Levin 1999 para um conjunto de propostas

    que necessita de tais regras). No seria, portanto, a Morfologia Distribuda uma teoria

    mais econmica que os modelos que fazem uso desses aparatos14?

    A terceira razo que a Morfologia Distribuda permite um excelente tratamento

    para formas (subespecificadas em termos de traos morfossintticos) como a terminao

    do do particpio passado no portugus, que aparece em diversos contextos sintticos:

    tempos verbais compostos, voz passiva, adjetivos, substantivos etc. Assumindo (como

    faremos neste texto) que existe um item /d/ que realiza, por ser subespecificado, ncleos

    flexionais diversos (podendo perder a competio por insero quando h itens mais es-

    pecificados que ele), explicamos de maneira elegante sua apario em contextos to vari-

    ados quanto os mencionados acima. Alm disso, esse item pode ter vrios alomorfes, cuja

    insero ser definida tambm pela informao contextual. Por exemplo, certas razes

    no aceitam o item default /d/ para a realizao dos ncleos de aspecto ou de voz passiva

    (ou de ambos); elas selecionam /t/ ou /s/ nestas situaes. 14 Alguns diriam: mas a MD substitui o lxico por TRS listas, e prope inmeras operaes morfolgicas para consertar os desajustes entre as sadas da sintaxe e as formas encontradas na lngua, alm do fato de que as informaes morfossintticas so duplicadas, aparecendo nos ns terminais da sintaxe e nos itens que vo ser inseridos neles! Em primeiro lugar, quanto s trs listas, elas nada mais so do que listas de informaes que, em sua grande maioria, os itens lexicais de teorias lexicalistas j possuem. A nica dife-rena aqui que as informaes so separadas e acessadas em momentos diferentes da derivao. Quanto s operaes morfolgicas, boa parte delas, como a cpia de traos e os movimentos de ncleo (excluindo o Morphological Merger), j existe, em sua essncia, nas teorias lexicalistas. As novidades talvez sejam fu-so e fisso, que, no melhor dos cenrios, so solues menos freqentes (na verdade, a postulao dessas operaes segue necessidades empricas, de que outras teorias morfolgicas no do conta). Em geral, as-sume-se que, no caso default, h continuidade entre a sada da sintaxe e a da morfologia. A crtica que me parece a mais forte a de que h duplicao de informao nos ns sintticos e nos itens de Vocabulrio. Quanto a isso, no tenho nada a dizer, ainda que no me parea uma real desvantagem.

  • 23

    2.3 As trs Listas

    As teorias lexicalistas da gramtica contam com dois lugares onde se do dois

    tipos de computao. Num lugar chamado Lxico, palavras e morfemas so criados, por

    meio de processos distintos daqueles empregados em outro ambiente computacional, a

    sintaxe, onde as palavras e morfemas criados no Lxico so combinados e deslocados

    (sofrem as operaes concatenar e mover) para a formao de estruturas maiores (sin-

    tagmas, sentenas). No Lxico, pela reunio de traos (assemble features), tanto fonol-

    gicos quanto gramaticais, montam-se as unidades de nvel zero da sintaxe. Por exemplo,

    pela concatenao da raiz GAT com os traos masculino e plural monta-se a unidade de

    nvel zero gatos, que entra na sintaxe com o rtulo N0 (pertence classe nome). Um pou-

    co de fonologia e algumas conexes entre estrutura e sentido so derivadas no Lxico (a

    palavra gatos sai do Lxico com contedo fonolgico e um sentido particular); outro tan-

    to de fonologia e algumas outras relaes entre estrutura e sentido so derivadas na ou

    aps a sintaxe. O esquema abaixo15 representa a idia.

    15 Marantz 1997.

  • 24

    Na Morfologia Distribuda, no existe Lxico como o apresentado no esquema

    (2). O que existe so trs listas que se propem a substitu-lo. Nas palavras de Marantz:

    Qualquer teoria deve incluir uma ou mais listas de elementos atmicos que o sistema computacional possa combinar em unidades maiores. A Morfologia Distribuda explode o Lxico e introduz um conjunto de listas no-computacionais, distribudas, como substi-tutos ao Lxico. (Marantz 1997: 2; traduo minha.)16

    E o que contm essas listas?

    1) A Lista 1, tambm chamada de lxico estrito, fornece as unidades atmicas com

    as quais a sintaxe opera. Das trs listas, talvez seja a que mais diretamente substi-

    tui o Lxico dos modelos lexicalistas. As unidades fornecidas pela Lista 1 so os

    feixes de traos morfossintticos (ou gramaticais) e previses de pontos para in-

    sero de razes (Marantz 1999). Traos morfossintticos podem ser, por exem-

    plo, traos de gnero, nmero, pessoa, introdutores de evento como o feixe vezi-

    16 Any theory must include one or more lists of atomic elements that the computational system of grammar might combine into larger units. Distributed Morphology explodes the Lexicon and includes a number of distributed, non-computational lists as Lexicon-replacements.

    (2) Lxico Combinao Lexical Sintaxe Som Significado Som Significado

  • 25

    nho etc. O conjunto dos traos morfossintticos presentes nos feixes que entram

    na derivao determinado pela Gramtica Universal (cada lngua toma para si

    somente um subconjunto dos traos disponibilizados pela GU) e, talvez, por prin-

    cpios prprios s lnguas. As maneiras como os traos se agrupam em feixes pa-

    recem ser particularidades das lnguas.

    2) A Lista 2 o Vocabulrio, que fornece as formas fonolgicas para os ns termi-

    nais da sintaxe/morfologia ou seja, para os feixes de traos gramaticais e para os

    contineres das razes. O Vocabulrio contm conexes entre conjuntos de traos

    gramaticais e fonolgicos, de modo que essas relaes determinam como se ligam

    os ns terminais da sintaxe/morfologia a suas realizaes fonolgicas.

    3) A lista 3 a Enciclopdia. Ela lista os significados especiais de razes particulares

    dentro de domnios sintticos especficos. Contextos pragmticos no so levados

    em conta nesta lista

    A Morfologia Distribuda, portanto, uma teoria que dispensa um Lxico onde as

    unidades da sintaxe so montadas previamente. Ao contrrio, aquilo que entendemos por

    palavra, tanto na gramtica tradicional quanto na verso lexicalista da gramtica gerativa

    (unidade de nvel zero), criada por uma sucesso de processos em vrios componentes

    distintos: na sintaxe (concatenar e mover morfemas abstratos); na morfologia (concate-

    nar, mover, apagar, acrescentar, fissionar); e na fonologia (insero de Vocabulrio e rea-

    justes fonolgicos). Da o nome Morfologia Distribuda. Por exemplo, uma raiz concate-

    nada a um feixe com o nominalizador n (little n ou enezinho, Marantz 1999) e os traos

    de gnero e nmero, c-comandados por um determinante, forma um nome; um ncleo

  • 26

    tempo/pessoa/nmero concatenado a um ncleo verbalizador (vezinho) juntado a um sin-

    tagma raiz gera um verbo.

    2.4 Morfemas, Itens de Vocabulrio e Enciclopdia

    2.4.1 Morfemas

    Na Morfologia Distribuda, um morfema um n terminal sinttico/morfolgico

    constitudo por um feixe de traos morfossintticos. Exemplos de morfemas so o vezi-

    nho, feixe que contm trao de categoria (verbal) e, possivelmente, alguma informao

    aspectual (estado ou evento) ou o determinante, Det, que pode conter traos como o de

    definitude, plural, masculino ou definido, os trs ltimos possivelmente copiados de ou-

    tros morfemas ou do sintagma nominal irmo do determinante (a concordncia). Como j

    dissemos os feixes de traos so grupos de traos que andam juntos, organizados de ma-

    neiras especficas pelas lnguas.

    Enquanto que a insero dos itens de Vocabulrio relativos aos morfemas abstra-

    tos da lista 1 guiada pelo princpio do subconjunto, e, portanto, determinstica (Harley

    & Noyer 1999), a insero dos itens lexicais relacionados s razes tem uma restrio

    muito menos severa, sendo somente necessrio que elas satisfaam certas condies de

    licenciamento definidas pelo entorno sinttico, notadamente o morfema que as c-

    comanda imediatamente. Para ilustrar essa idia, vejamos trs exemplos de expresses

    sintaticamente bem semelhantes.

  • 27

    (3) a. O cachorro mordeu o menino

    b. O rato comeu o queijo.

    c. O motorista cedeu a vaga.

    Em todos eles, temos: 1) /o/, item de Vocabulrio inserido no n determinante do especi-

    ficador das sentenas; 2) /u/, item de Vocabulrio inserido no n de flexo verbal (prova-

    velmente um feixe contendo os traos de passado e terceira pessoa do singular); e 3) /o/

    novamente (ou /a/, no ltimo exemplo), item de Vocabulrio inserido no n determinante

    do complemento verbal das sentenas. Observe-se que estes ns/morfemas trazem traos

    como [definido] ou [3 pessoa] que, juntamente com outros traos, definem que expres-

    ses fonolgicas devem ser inseridas neles. Por outro lado, as razes que so inseridas nos

    containeres de razes precisam somente ser compatveis com o ambiente sinttico em que

    esses containeres se encontram. Da que os sujeitos das sentenas (3) possam ser cachor-

    ros, ratos ou motoristas (cujas razes so licenciadas pela presena do morfema nomina-

    lizador n) e os verbos possam ser comer, morder ou ceder (cujas razes so licenciadas

    pela presena dos verbalizadores v e de um complemento).

    2.4.2 Itens de Vocabulrio e sua Insero

    Os itens de Vocabulrio so seqncias de sons (sinais fonolgicos) que servem

    expresso de morfemas17. Para tanto, necessrio que sejam mais do que meras seqn-

    cias de sons: devem trazer, como j foi dito, informao sinttica, semntica e morfolgi-

    17 Com morfemas (Halle 1997) estamos nos referindo aos ns terminais, sintticos ou morfolgicos, sem som.

  • 28

    ca suficiente para exprimir esses ns sintticos ou, em outros termos, informao sobre

    onde devem ser inseridos. O conjunto de todos os itens de Vocabulrio de uma lngua

    constitui seu Vocabulrio (a Lista 2). Os itens de Vocabulrio podem ser representados

    pelo seguinte esquema18:

    Ou seja, os traos fonolgicos fornecem o som do item de Vocabulrio e os traos se-

    mnticos, sintticos e morfolgicos fornecem o contexto de insero deste item. Vejamos

    alguns exemplos:

    (5)

    [nP n [P ____ ]]19 /gat/ (do nome gato);

    [+plural] /-s/.

    Vimos na subseo anterior que a insero de itens de Vocabulrio nos ns terminais

    constitudos por feixes de traos morfossintticos20 determinstica e orientada pelo

    Princpio do Subconjunto:

    18 Halle & Marantz 1994. 19 Marantz 1999. 20 No nos ns terminais onde so inseridas as razes.

    (4)

    Traos sintticos

    Traos semnticos Traos fonolgicos

    Traos morfolgicos

  • 29

    (6) Princpio do Subconjunto:

    O expoente fonolgico de um item de Vocabulrio inserido em um morfema na se-qncia terminal se o item parear todos ou um subconjunto dos traos gramaticais especi-ficados no morfema terminal. A insero no acontece se o item de vocabulrio contm traos que no esto presentes no morfema. Onde vrios itens de Vocabulrio encontram as condies para a insero, o item que parear o maior nmero de traos especificados no morfema terminal deve ser escolhido. (Halle 1997: 429; traduo minha.)21

    O Princpio do Subconjunto estabelece uma regra de disputa: todos os itens de Vocabul-

    rio podem competir pela insero em um dado morfema; entretanto, somente o item com

    o maior nmero de traos pareveis com os do n sinttico em questo vencer a compe-

    tio e ser inserido naquele morfema. Observe-se que a insero desses itens no se d

    por escolha: guiada por um princpio cego que compara informao morfossinttica de

    itens de Vocabulrio e de ns sintticos.

    Um bom exemplo de como itens subespecificados so inseridos em ns sintti-

    cos/morfolgicos o dos itens de concordncia de pessoa dos verbos regulares no pret-

    rito imperfeito do portugus. Nas trs conjugaes, temos o seguinte paradigma de con-

    cordncias entre verbos e sujeitos: -a (1 pessoa do singular), -as (2 pessoa do singular),

    -a (3 pessoa do singular), -amos (1 pessoa do plural), -eis (2 pessoa do plural), -am (3

    pessoa do plural). Do paradigma, vemos que o mesmo item de Vocabulrio /a/ realiza as

    concordncias de 1 e 3 pessoas do singular. Assumindo o Princpio do Subconjunto,

    21 The phonological exponent of a Vocabulary item is inserted into a morpheme in the terminal string if the item matches all or a subset of the grammatical features specified in the terminal morpheme. Insertion does not take place if the Vocabulary item contains features not present in the morpheme. Where several Vo-cabulary items meet the conditions for insertion, the item matching the greatest number of features speci-fied in the terminal morpheme must be chosen.

  • 30

    este item no deve ter traos de pessoa, uma vez que, se ele tivesse o trao de 1 pessoa,

    no poderia ser inserido no n de 3, e se tivesse o trao de 3 pessoa, no poderia ser in-

    serido no n de 1. Portanto, possivelmente, a nica informao contida neste item (afora

    o fato de ser um elemento de concordncia inserido no contexto de pretrito imperfeito)

    de nmero: singular. Com esta nica especificao, este item tambm poderia ser inseri-

    do no n de 2 pessoa do singular, uma vez que no possui traos que entrem em conflito

    com a especificao do morfema. Entretanto, o princpio do subconjunto estabelece que

    ele deve competir com outros itens, candidatos insero e existe um outro item mais

    especificado (o /as/, que deve conter os traos [singular] e [2 pessoa]); assim sendo, este

    item vence a competio e inserido no morfema correspondente.

    Com relao s razes, vimos nos exemplos (3) que elas podem ser escolhidas de

    maneira mais ou menos independente. Sendo irmos de ns nominalizadores (no contex-

    to dos determinantes), nas trs sentenas em (3), os containeres de razes da estrutura so

    preenchidos por cachorro, rato e motorista; mas tambm poderiam ser preenchidos por

    martelo, pensamento, mar etc. Fica claro que esses itens no esto competindo pela in-

    sero nos ns correspondentes eles podem ser livremente inseridos, somente sujeitos a

    condies de licenciamento (Harley & Noyer 1998)22 ou alguma compatibilidade semn-

    tica (Borer 2005).

    Os licenciadores, na viso de Harley & Noyer 1998, costumam ser feixes de tra-

    os abstratos em certas relaes estruturais com esses locais onde as razes se inserem;

    essas relaes estruturais, de um modo geral, determinam a noo tradicional de classe

    ou categoria. Nomes, por exemplo, so compostos por razes com morfema nominali-

    22 Na viso desses autores, as razes trariam algumas informaes que guiariam a insero, algo semelhante informao trazida pelos itens de Vocabulrio convencionais. Essas informaes seriam as responsveis pelo licenciamento da raiz em determinado ambiente.

  • 31

    zador na posio de c-comando imediato. A escolha que o falante far da raiz no defi-

    nida de antemo pelo ambiente sinttico e ser guiada por outros princpios e necessida-

    des.

    2.4.3 Enciclopdia

    A Enciclopdia relaciona razes com significados i. e., relaciona informao lin-

    gstica com extralingstica. Isso quer dizer que a Enciclopdia lista significados idios-

    sincrticos de expresses. na relao com a Enciclopdia que se diferenciam os itens de

    Vocabulrio que preenchem os morfemas da estrutura morfossinttica dos itens de Voca-

    bulrio que se inserem nos containeres de razes presentes na estrutura sinttica. Os pri-

    meiros, por expressarem um vocabulrio estrutural, no costumam ter significados idios-

    sincrticos eles simplesmente realizam fonologicamente os traos morfossintticos que

    os morfemas/ns em que eles sero inseridos j trazem. Ao contrrio, os itens inseridos

    nos pontos para razes sempre tm significados idiossincrticos, listados na Enciclopdia.

    Do esquema (1), vemos que o significado de uma expresso interpretado da de-

    rivao inteira da expresso, incluindo a informao extralingstica contida na Enciclo-

    pdia. A LF no passa de um nvel de representao de relaes e significados estrutu-

    rais, como o escopo dos quantificadores, ou o contedo dos morfemas funcionais. O es-

    quema (1) representa isso mostrando que o contedo dos ns sintticos enviado para a

    Forma Lgica ao mesmo tempo em que mandado para o componente morfolgico. Na

    LF a informao estrutural contida nos ns sintticos interpretada. O significado das

  • 32

    expresses construdo na interface conceitual, aps a insero dos itens de Vocabulrio;

    ali que se relacionam som e sentido, acessando a lista 3.

    2.5 A Estrutura Morfolgica

    O papel principal na gerao das estruturas morfossintticas abstratas desempe-

    nhado pela sintaxe e suas operaes de combinar (concatenar) e deslocar (mover): conca-

    tenar morfemas a outros durante a derivao, fazer movimentos de sintagmas para posi-

    es mais altas etc. Entretanto, alguns ns so mal-comportados: s vezes, um nico item

    de Vocabulrio que contm informao de mais de um morfema inserido em determi-

    nada posio, como se fosse a expresso fonolgica de um nico morfema; s vezes dois

    itens de Vocabulrio realizam um nico morfema. Como explicar que pode no ser de

    um-para-um a correspondncia entre unidades terminais da sintaxe e unidades do voca-

    bulrio?

    A Morfologia Distribuda assume que existe outro nvel de representao, ps-

    sinttico, onde um conjunto de operaes ocorre para dar conta desses pequenos desacor-

    dos. a estrutura morfolgica (MS), onde os ns terminais da sintaxe so concatenados,

    fundidos, fissionados, empobrecidos; onde se criam novos ns, como os de concordncia

    entre sujeito e verbo etc. importante esclarecer que nenhum trao semntico ou sintti-

    co pode ser adicionado rvore na estrutura morfolgica: toda a informao relevante

    para a computao sinttica/semntica deve j ter sido inserida nos ns terminais antes da

    MS. Abaixo, apresentamos uma relao das operaes morfolgicas aplicadas sobre os

    ns sintticos, com exemplos.

  • 33

    2.5.1 As operaes morfolgicas

    Como o movimento de ncleo para ncleo, a concatenao morfolgica (morpho-

    logical merger, Marantz 1984, Harley & Noyer 1999) forma uma palavra nova a partir de

    ncleos de sintagmas independentes; mas esses ncleos independentes se mantm como

    morfemas separados dentro da palavra nova derivada. Exemplo desse tipo de operao

    so as concatenaes dos ncleos nominais com os de nmero dentro do sintagma deter-

    minante (Marvin 2002). Observe-se que, nesses casos, os ncleos se mantm indepen-

    dentes, com o ncleo de nmero (plural) se mantendo separado dentro da palavra deriva-

    da, realizado, no portugus, pelo item de Vocabulrio /s/. A figura abaixo mostra como

    se aplica esta regra:

    (7)a. XP b. XP 3 3

    X YP X YP 3 3 |

    Y ZP Y X ZP

    Vejamos agora como se d a combinao do complexo que envolve o nominalizador e

    a raiz com o ncleo de nmero em (8) a seguir:

    (8) As casas

  • 34

    A estrutura morfolgica da expresso em (8) dada pela rvore (9)23 abaixo.

    (9) DP 3 D #P as rp

    # nP 3 ti ni #

    2 CAS- n /s/

    Na estrutura sinttica (9), a raiz se anexa ao ncleo nominalizador formando um

    complexo que ser posteriormente movido e concatenado ao ncleo que alberga traos de

    nmero (o ncleo #). Essa concatenao o morphological merger. O vestgio usado no

    exemplo (9) serve ao propsito de mostrar o ponto de partida do movimento, sem qual-

    quer efeito na interpretao da estrutura. De fato, o morphological merger, por ser uma

    operao morfolgica, no tem qualquer efeito na semntica do sintagma nominal.

    O esquema (9) acima expressa a estrutura morfolgica do sintagma determinante

    as casas, com os itens de Vocabulrio correspondente e a raiz j inseridos. Observe-se

    que o item de plural, /s/, inserido sob o ncleo representado por #, e se mantm, na re-

    presentao, separado do nome concatenado.

    Alm da concatenao morfolgica, uma outra operao que ocorre em alguns

    ambientes sintticos a que insere ns morfolgicos na estrutura antes da insero dos

    itens de Vocabulrio. Halle & Marantz 1994 propem, por exemplo, que a concordncia

    seja um fenmeno puramente morfolgico, e, portanto, o n de concordncia (que copia

    23 As rvores aqui apresentadas tm um carter por demais representacional que ser corrigido mais adian-te, quando apresentarmos a idia de fase, no captulo 3.

  • 35

    traos de nmero, gnero e pessoa de um sintagma determinante sintaticamente prxi-

    mo), encontrado em verbos e adjetivos no portugus, um n inserido aps todas as ope-

    raes sintticas concludas24. Abaixo ilustro a operao de insero de n de concordn-

    cia em adjetivos:

    (10) Estrutura Sinttica de adjetivos:

    a 3 a

    (11) Estrutura Morfolgica de adjetivos:

    a 3

    a 2 a AGR

    (12) Estrutura Morfolgica do adjetivo psicolgicos:

    a 3 PSICOLOG a 2 a AGR /ik/ /os/

    Oltra-Massuet 1999 prope mais um exemplo de insero de n morfolgico: o

    n temtico, para as vogais temticas do catalo. A autora defende a idia de que vogais

    24 Segundo esses autores, uma vez que a concordncia no tem nenhuma relevncia sinttica, ela deve ser inserida aps as operaes sintticas, na MS.

  • 36

    temticas no tm qualquer efeito na sintaxe. Um n temtico, nessa lngua, inserido na

    estrutura morfolgica sob qualquer ncleo funcional que chegue MS: v, a, n, Asp, T

    etc. A implementao fonolgica do n temtico determinada pela raiz selecionada.

    Outra operao morfolgica importante a fuso. Esta operao toma dois ns

    terminais irmos que esto sob o n de uma mesma categoria e os funde em um nico n.

    Depois que a fuso acontece, s um item de Vocabulrio pode ser inserido no n resul-

    tante, e esse item, para ser inserido, precisa ter um subconjunto dos traos morfossintti-

    cos dos ns fundidos. A expresso eles cantavam um bom exemplo disso. O item de

    Vocabulrio /v/, em canta-v-am, realiza os ns de tempo e modo, fundidos num nico

    n25. O item traz consigo, como informao sinttica para a insero, o conjunto dos tra-

    os presentes no n formado pela fuso: passado e indicativo.

    Mais duas operaes morfolgicas merecem meno aqui. Uma delas o empo-

    brecimento. Essa operao costuma envolver a excluso de traos morfossintticos de

    alguns morfemas em certos contextos. Quando alguns traos so apagados, a insero de

    um determinado item de Vocabulrio que pede esses traos para ser inserido no ocorre,

    e um item menos especificado pode ser inserido no lugar dele. Halle e Marantz 1994 ex-

    plicam este caso de insero da seguinte maneira. Suponhamos que exista um n X com

    os traos F1, F2 e F3, e dois itens de Vocabulrio, A e B, competem pela insero nesse

    n. A contm os traos F1 e F2; B contm o trao F1 somente. O item A vence a compe-

    tio e inserido no n, pois mais especificado. Entretanto, suponhamos que, num con-

    texto em que X precede Y, o trao F2 de X apagado por uma regra de empobrecimento.

    25 Para Giorgi e Pianesi 1998, o ncleo T de presente . Se adotarmos esta viso, somos levados a con-cluir que o item de Vocabulrio /o/ inserido no n de concordncia, e s realiza este n. Ver Giorgi e Pia-nesi 1998, captulo 3, para mais detalhes.

  • 37

    Uma vez que o n no apresenta mais o trao F2, o item A no mais pode ser inserido, e

    o item B ento preenche o n X26.

    Harris 1999 d um exemplo concreto de aplicao de uma regra de empobreci-

    mento. O autor divide (por critrios morfolgicos) as palavras do espanhol em dois gran-

    des conjuntos. Um deles rene as formas finitas dos verbos; o outro consiste de todo o

    resto: verbos no infinitivo, gerndios, particpios, nomes, adjetivos, advrbios etc. As pa-

    lavras encontradas neste segundo conjunto podem ser separadas em classes parecidas

    com as classes de declinao do latim, caracterizadas por suas vogais temticas. Por e-

    xemplo, os membros da classe com mais elementos (chamada de classe I), recebem a vo-

    gal temtica -o: remo, remero, ocano, ocenico etc. As outras possibilidades de vogal

    temtica so o -a, associado classe II, e os -e e , associados classe III. A classe III

    contm nomes, adjetivos e pronomes clticos masculinos e femininos, alm dos advr-

    bios; para Harris, as razes que pertencem a essa classe possuem um trao [III], que as

    impede de pertencer s outras duas classes. A classe II a classe default para as palavras

    femininas, com exceo de alguns casos como mano ou das palavras femininas atribudas

    classe III. A classe I rene todo o resto: as razes ou radicais sem especificao de clas-

    se, com gnero (default) masculino. Com base nesses dados, Harris prope uma regra de

    redundncia importante para a nossa discusso:

    (13) Regra de redundncia para classes:

    fem II

    26 Os autores chamam esse fenmeno de retreat to the general case, pois o item A, mais especificado, per-de para o item B, menos especificado, mais geral.

  • 38

    Isso quer dizer que uma raiz ou radical, na presena do trao [feminino], passa a

    ser do tipo classe II, e, assim, recebe a vogal temtica a. Razes ou radicais, portanto,

    sem especificao de classe (classe I), na presena de um trao feminino, passam a ser do

    tipo classe II. Por exemplo: a raiz PAS, juntada com o trao [feminino], passa a ser do

    tipo classe II (ganha o trao [II]), e o item de vocabulrio a inserido, gerando pasa;

    caso contrrio, recebe o item de vocabulrio default, e temos ento paso.

    Entretanto, como explicar pares como presidente/presidenta, jefe/jefa etc., onde a

    raiz possui especificao de classe? Sabemos que razes como as de presidente ou jefe

    pertencem classe III (possuem trao [III]); e quando estes itens so ncleos de palavras

    masculinas, a insero da vogal temtica e segue normalmente, dada a especificao de

    classe da raiz (presidente, jefe). No caso de palavras femininas, entretanto, preciso que

    haja algum tipo de apagamento da especificao de trao que a raiz j possui, para que,

    depois, ela passe a ser do tipo classe II e receba a vogal temtica -a. Nos casos de presi-

    denta ou jefa, o trao [III], quando enfeixado com o trao [feminino] (daqui para diante,

    [f]), apagado pela regra de empobrecimento (14) abaixo:

    (14) [III, f]/ president-, jef-, est- etc.

    A regra (14) empobrece o feixe [III, f], transformando-o em [f]. A presena do trao [f]

    provoca a atribuio do trao [II], pela regra de redundncia (13), e a vogal temtica a

    inserida, gerando presidenta e jefa. Ou seja, na presena de [f], [III] apagado, abrindo

    espao para a insero da vogal temtica default de palavras femininas, o -a.

  • 39

    A ltima operao de que quero falar nessa seo a de fisso, que divide um n

    em dois nos casos em que um nico n pode corresponder a dois itens de Vocabulrio

    distintos. Normalmente, s um item de Vocabulrio pode ser inserido em um n; mas,

    onde ocorre a fisso, a insero de itens de Vocabulrio no pra com um nico item in-

    serido. Outros itens so acrescentados como irmos do n fissionado at que todos os i-

    tens de Vocabulrio que podem ser inseridos o sejam.

    2.6 Regras de reajuste fonolgico

    O empobrecimento uma regra que manipula traos morfossintticos no contexto

    de outros traos. Existem tambm regras que mudam a forma fonolgica de itens de Vo-

    cabulrio j inseridos. Estas so denominadas de reajuste fonolgico.

    Em muitos casos, a informao contida em um item de Vocabulrio no sufici-

    ente para garantir que a sada fonolgica correta seja gerada. bastante comum, por e-

    xemplo, encontrarmos afixaes acompanhadas de mudanas internas aos radicais (caso

    de destroy/destruction, onde, havendo a afixao do nominalizador ion, ocorre, em pa-

    ralelo, uma mudana no radical da expresso). Isso quer dizer que a parte restante das

    informaes relativas forma fonolgica que os ns sintticos devem ter (o que no est

    contido no item de Vocabulrio inserido) fornecida por um conjunto de regras de rea-

    juste fonolgico (por exemplo, algo como: no contexto de nominalizao, mudar a rima

    da raiz DESTROY e gerar destruct-27).

    27 Alguns exemplos em portugus poderiam ser: corrigir, correto, corretor; perder, perco; lua, lunar; afli-gir, aflito; produzir, produo, produto; compreender, compreenso; converter, converso, converso; in-vadir, invaso, etc.

  • 40

    Um outro exemplo de regra de reajuste o que afeta os radicais de algumas ex-

    presses do alemo no plural28. Em Vater (pai) ou Mann (homem), por exemplo, regras

    de reajuste so aplicadas e a vogal sofre mudana: a formao umlaut do alemo. O afixo

    vazio de plural de Vater dispara uma regra de reajuste que produz Vter; a regra tambm

    pode ser disparada pela presena de um sufixo /r/, como em Mann/Mnner.

    2.7 Revendo a Arquitetura da Gramtica

    A teoria gramatical apresentada neste captulo sofreu algumas mudanas nos l-

    timos anos. Para fechar este captulo, gostaria de discutir algumas modificaes propos-

    tas por Marantz (em vrios hand-outs) e Harley (comentadas pela autora em seu curso no

    Instituto da Abralin de 2007) que, de alguma maneira, reorganizam a arquitetura da gra-

    mtica. A subseo a seguir trata de novos posicionamentos desses autores quanto rela-

    o entre a sintaxe e as razes da lngua o que so as razes e onde elas so inseridas; a

    seo 2.7.2 apresenta brevemente a idia de derivao por fase, conforme Marantz 2001,

    Arad 2003 e Marvin 2002. Como, ao longo desta tese, assumirei o modelo de derivao

    por fases elaborado originalmente em Marantz 2001, me posiciono, evidentemente, a fa-

    vor da verso da teoria defendida por Marantz, apresentada em 2.7.1 a seguir. Razes

    para assumir uma derivao por fases nos moldes aqui discutidos podem ser encontradas

    em hand-outs recentes de Marantz, em Arad 2003 e na tese de doutorado de Tatjana Mar-

    vin (Marvin 2002).

    28 Pfau 2000.

  • 41

    2.7.1 A organizao da gramtica

    Para Marantz, as razes so, em certos aspectos, como signos saussureanos (espe-

    cficos, particulares, de cada lngua), pois nelas som e significado so indissociveis. Nas

    palavras do autor:

    [Razes] so como signos saussureanos uma vez que so identificadas por sua forma fo-nolgica e por seu(s) significado(s), os quais esto inexoravelmente ligados. Diferente-mente dos signos saussureanos, as razes podem ter significados mltiplos, contextual-mente determinados; por exemplo, a raiz -ceive em conceive, deceive, receive, perceive, etc. Entretanto, elas no podem ter mltiplas formas fonolgicas subjacentes (=alomorfes supletivos). Essa diferena conseqncia do fato de que os traos fonol-gicos so parte do sistema da lngua, enquanto que os significados das razes caem nos sistemas conceituais, extra-lingsticos, da mente (Marantz 2002: 7; traduo minha)29.

    Marantz assume que o conjunto de razes de uma lngua forma uma lista de itens que,

    assim como os traos morfossintticos do inventrio universal disponibilizado pela GU,

    uma vez selecionados para uma derivao qualquer, tornam-se ns terminais sintticos

    que, como outros morfemas, so concatenados e movidos pela sintaxe. O esquema abaixo

    ilustra a maneira como a gramtica se organiza nessa viso. Observe-se que h mudanas

    em relao ao esquema apresentado em (1); que so: (a) razes entram diretamente na

    sintaxe e so concatenados com outros morfemas e (b) no h meno, no diagrama,

    29 [Roots] are like Saussurian signs in that they are identified by their phonological form and by their mean-ing(s), which are inexorably linked. Unlike Saussurian signs, roots may have multiple, contextually deter-mined meanings; cf. the root -ceive in conceive, deceive, receive, perceive, etc. However, they may not have multiple underlying phonological forms (=suppletive allomorphs). This difference follows from the fact that phonological features are part of the language system while root meanings fall under the extra-linguistic conceptual systems of mind.

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    terceira lista, a Enciclopdia, ainda que o autor de fato a assuma como componente da

    gramtica.

    (15)

    Conjuntos universal de traos Morfemas = ns terminais

    (traos sinttico-semnticos)

    Razes (particulares de cada lngua) concatenar e mover

    ?

    spell-out

    Operaes morfolgicas

    Insero LF

    PF

    Em (15) duas coisas importantes devem ser notadas. A primeira que as matrizes

    fonolgicas das razes no so inseridas tardiamente em con