Tres Pontos

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    28-Mar-2016

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ilustration magazine

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<ul><li><p>1 3</p><p>80</p><p>55</p><p>65</p><p>154</p><p>7</p><p>NOVEMBRO 2011</p><p>SANDRA DIECKMAN JESSE LEFTKOWITZ JAMIE MILLS</p><p>ANTES DO DIA SEGUINTE | O MUNDO DOS TEUS SONHOS | CRCULO DAS ARTES</p><p>TINTA E BRAILLE-PALAVRAS A DOIS SENTIDOS</p></li><li><p>Homens e mquinas juntam-se no mesmo palco para contar histrias sobre gente sentada em bancos de jardim. Movimentam o corpo e deixam cair letras. As palavras significam o que dizem e so o que podem ser na boca de cada um. Muitas esto em cdigo e s al-guns percebem. Mas todos as sentem, seja com os olhos ou com os dedos. Palavras que tambm podem ser msica, criada por um piano, transportada em vinil, anunciada em cartazes que vestem paredes da rua. Homens e mquinas dividem o mesmo palco e comu-nicam com o alter-ego. Representam a multiplicida-de do "eu". </p><p>O ser dissimula-se nas vrias formas de ser. Passo a passo as personagens abandonam o corpo e encontram reflexo no exterior. Homens e mquinas desaparecem do palco. A cortina desce quase at ao fim. S se vem sapatos. Botas de salto alto, tnis de sola rasa. Vest-gios de ns e dos outros. Prova das vidas que se unem num estrado de madeira de diferenas e semelhanas. Celebrado pela comunicao. A cortina desce at ao fim e apaga a imagem. Mas afinal esta pea apenas uma apresentao do que est prestes a acontecer.</p><p>t r s p o n t o s</p><p>TRS PONTOS #03 - NOVEMBRO 2011</p><p>EDITORIAL</p><p>ANTES DO DIA SEGUINTE</p><p>O MUNDO DOS TEUS SONHOS</p><p>TINTA E BRAILLEPALAVRAS A DOIS SENTIDOS</p><p>CRCULO DAS ARTESHELENE RIEFENSTAHL</p><p>SANDRA DIECKMAN</p><p>JESSE LEFTKOWITZ</p><p>JAMIE MILLS</p><p>NDICE</p><p>FICHA TCNICA</p><p>DIRECO</p><p>EDIO GRFICA</p><p>FOTOGRAFIA</p><p>PERIODICIDADE</p><p>EDIO</p><p>ISABEL CUNHA</p><p>ISABEL CUNHA</p><p>ISABEL CUNHA</p><p>TRIMESTRAL</p><p>INVERNO 2011</p><p>WWW.3PONTOS.COM</p><p>3</p><p>4</p><p>4</p><p>5</p><p>8</p><p>12</p><p>14</p><p>16</p></li><li><p>4Dois copos de vinho, uma garrafa meio cheia. Vidas cru-zadas sobre a mesa de um caf. Cigarros que se acendem entre histrias e desabafos. As pessoas falam sobre o tempo, admiram-se com exerccios de bana-lidade at terem de falar do que no querem. Fazem in-trodues cheias de vazio. Fingem recitar poemas mentais como forma de fugir ao contacto visual.</p><p>Passa uma hora e os dois esto ali. A garrafa acabou. O rapaz do caf aparece sobre a mesa. Ar abatido, mas educado. Atencioso, mas distante: Traga-me mais uma destas, por favor. O processo repete-se e as defesas vo ficando moles. Os olhos aproximam-se da verdade, os braos agitados tentam manter a distncia, mas mais no fazem do que aproximar o olhar alheio das profundezas da alma. As guardas vo baixando. Abre-se a mente a pensamentos perver-sos. Os princpios mais bsicos da moral so sub-vertidos pelo instinto. O organismo entra em revolu-o. Re mi-se, inclina-se, curva-se.</p><p> nesse momento que a cabea se separa do corpo. Procura agarrar a razo antes que ela se retire porta fora sem olhar para trs. Mas o esforo j veio tarde e a corrente forte demais para tentar voltar terra.</p><p>O sorriso que salta do outro lado da mesa acaba por desfazer os ltimos suspiros de sensatez e o ferro transforma-se em gua. No fim j no preciso arrombar a porta. As chaves so oferecidas, o tapete vermelho vendido. Do-se as boas-vindas sobre avi-sos de cautela: Agora v l, no me deixes ficar mal. Lanam-se receios mascarados pela preocu-pao: No leves nada que no possas devolver e, se quiseres voltar atrs, no esperes, no esperes pelo avanar do tempo.</p><p>A segunda garrafa chega ao fim. Pede-se mais uma para o caminho. Para beber no txi at chegar ao hotel. J se faz tarde para voltar atrs sozinho. O melhor aceitar a companhia e ficar num quarto entre o nada e o adeus. Amanh o sol trata de abrir os olhos mesmo que eles queiram ficar fechados. A realidade faz questo de aparecer mesmo que a fantasia no a tenha convidado para um passeio a dois. Amanh a boca est seca, mas se o vinho for bom pode ser que a cabea no doa. Ficam apenas os copos manchados pelas gotas de uma recordao.</p><p>ANTES DO DIA SEGUINTE O MUNDO DOS TEUS OLHOS</p><p>O outro lado como uma concha cerrada. Um ba de tesouros cobertos com a alquimia dos sonhos, cofre que esconde quimeras, desejos guardados para res-gatar um dia. So os mundos paralelos que guarda-mos em esconderijos, na expectativa de que algum connosco os queira partilhar. So destinos onde queremos chegar. Viagens sem porto e sem fim, trilhos que a imaginao nos oferece, blsamo que revigora e restaura o poder de olhar alm.</p><p> o outro lado da rua, o outro lado da janela, onde gente invisvel tece vidas silenciosas por detrs das cortinas de organdi. uma nota de msica, acordes que nos atravessam, retirando-nos do torpor dos indiferentes. o refgio de um quadro, uma pintura de cores in-certas que atrai os incautos nas armadilhas da arte. So as palavras certeiras de Seplveda, a msica de Yann Tiersen. Uma imagem na tela de Pollack. Um rosto na foto de Doisneau.</p><p>E so as memrias que em ns habitam, gros disper-sos num painel que nos molda os dias.Pginas que fo-lheamos devagar, para guardar o sabor doce das recordaes. Sementes que crescem, regadas pela magia de uma viagem. Imagens e cheiros que nos transportam para lugares de onde no queremos regressar. Horizontes que s e abrem, como leques, e nos atiram para espaos infindos, panos de fundo que queremos fazer refns. Instantes que queremos paralisar no preciso tempo.</p><p>E tambm o outro lado da lua, o do alheio, dos cami-nhos incer tos que exploramos com a mesma voracidade com que um pintor se atira tela, um rasgo de amor. A vida num pice. Um segundo, um instante. Um sorriso, um riso. Um beijo. </p><p>So as estradas que descobrimos c dentro, labirintos por onde deambulamos, como vagabundos de para-deiros desconhecidos, espreita do horizonte. Ps-saros que nos levam a voar. s tu, asilo seguro onde pouso quando no caibo no mundo. So os lugares de fbulas e de exlio para on-de me levas quando o mundo me pesa na alma. a tua alegria, que me traz sempre esperana. a desme-sura dos teus olhos e as plancies que neles en-contro ao largo horizonte.</p><p>REFLEXO: CATARINAVAN DER KELLEN</p></li><li><p>5TINTA E BRAILLEPALAVRAS A DOIS SENTIDOS</p></li><li><p>6Quando l uma descrio, a imaginao de Ana Oliveira (ACAPO) constri um quadro mental com base naquilo que conhece. Elementos aos quais atribuiu uma imagem porque toca, cheira, ouve e prova. Existem coisas, porm, das quais s tem conceitos que lhe foram ensinados - como o cu, as cores ou o sol. So noes abstractas, sem referente, mas que no retiram prazer leitura.</p><p>Raquel Dutra, assistente editorial, l compulsivamen-te desde criana: Quando era pequena lia com uma lanterna debaixo dos cobertores. A intimidade com a palavra impressa marcou e definiu todo o percurso acadmico e profissional. Foi com os livros que teve a percepo de diferentes realidades, que desenvolveu criatividade e esprito crtico.</p><p>Tal como a leitura visual, a leitura braille transporta informao atravs de mecanismos que facilitam a meditao e assimilao pessoal daquilo que se l. Em ambos os casos, so as impresses sensveis reco-lhidas em experincias anteriores. Os contornos que Ana desenha mentalmente quando l sobre uma ma-, por exemplo, podem at ser muito semelhantes aos de Raquel. At a percepo do aroma ou do sa-bor da mesma ma pode ser idntica . O que aconte-ce que os sentidos, falta da viso, so trabalha-dos e polidos pelo hbito de uma forma diferente.</p><p>REVOLUO NA LEITURA</p><p>O braille um mtodo de escrita que se compe de pontos em alto-relevo para leitura tctil. Ler em braille um processo lento que provoca algum desconforto fsico. Quem tem o tacto menos apurado, ou quem est a comear a aprendizagem do braille, fica mesmo com os dedos dormentes e acaba por no conseguir distinguir os pontos ao fim de pouco tempo. Da que Ana opte frequentemente pelo suporte digital. Ou seja, ouve os livros atravs de uma voz sintetizada. Os editores de texto, os leitores de ecr e os sinte-tizadores de voz vieram revolucionar o acesso educao e cultura.</p><p>Ao trabalhar com o computador, Ana utiliza um teclado comum, que, segundo normas internacionais, possui um alto-relevo nas letras F e J, para orientao do utilizador. Alm do computador, tambm pode trans-ferir os ficheiros para o telemvel com um software de voz especfico.</p><p>Em cada livro est guardado um mundo de com-binaes imagticas diferentes de leitor para leitor. A leitura depende do momento em que se l e daquilo que define cada ser humano. impossvel saber como as palavras, em todo o caso ambguas, so interpre-tadas por cada um. Certo que todos interpretamos luz daquilo que somos. E o que est entre o leitor e o livro no deixa de ser apenas um pormenor.</p><p>O dedos de um cego so os olhos de um normovisual.Raquel Dutra</p></li><li><p>ESPAOS EM BRAILLE</p><p>A ACAPO dispe de duas bibliotecas braille e sono-ras. O suporte mais procurado pelos associados o udio, mas no h um gnero literrio que seja mais requisitado. Segundo Ana Oliveira, as pessoas tm gostos muito diversos. Tanto pedem romances co-mo livros sobre espiritismo. Salienta, no entanto, que o best-seller de Dan Brown, O Cdigo Da Vinci, foi um grande sucesso entre os leitores invisuais.</p><p>Em Lisboa, a Biblioteca Nacional reserva uma rea de leitura especial para os deficientes visuais. A Media-teca da Caixa Geral de Depsitos digitaliza documen-tos, a pedido dos utentes, e transforma-os para o suporte pretendido. No Porto, o Centro Professor Al-buquerque e Castro a entidade responsvel pela produo da maioria das obras que existem em brai-lle. Tambm algumas bibliotecas municipais reser-vam espaos especficos para cegos.</p><p>www.acapo.ptwww.lerparaver.com</p><p>7</p><p>O livro uma fantasia que ganha corpo. Uma fantasia que no se esgo-ta com a leitura, mas antes se mul-tiplica. Inaugura em cada leitor emoes adormecidas ou suspen-sas pelas circunstncias.</p><p>A Trs pontos foi procura de manei-ras diferentes de sentir a palavra com os olhos e com a ponta dos dedos.</p><p>lviao Stto</p></li><li><p>8</p></li><li><p>9circulo das artesh e l e n e r i e f e n s ta h l</p></li><li><p>10</p><p>Helene Bertha Amalie Riefenstahl comea por estudar pintura, Como actriz, Leni Riefenstahl abraa todos os projectos com a mas cedo deslumbra o Mundo com a elegncia e ligeireza que irreverncia e a ventura que a caracterizam. Quer sempre ir mostra nos palcos de bailado. Alemes, austracos e suos mais longe e irradia uma beleza nica que fascina muitos dos rendem-se graciosidade das piruetas, at ao trgico dia em que homens com quem trabalha. difcil ficar indiferente mulher e uma leso no joelho a afasta da dana. Neste momento, abrem- profissional. se as portas do cinema.</p><p>Em A Montanha Sagrada (1926), de Arnold Fanck, a jovem aventura-se num mundo pouco povoado por mulheres. Depois desta interpretao, vem a sede da produo e da realizao foi um bater de asas.</p><p>LUZ NO ECR</p><p>Em 1931, estreia-se como realizadora em A Luz Azul, um filme de fico. Riefenstahl no conhece fron-teiras e tenta travar contacto com Hitler. Tal como at ento, a cineasta cumpre mais um dos seus objec-tivos. Uma meta que a leva longe demais. O seu talento foi a sua tragdia, confessa Ray Mller, realizador do documentrio A Maravilhosa, Horrvel Vida de Leni Riefenstahl.</p><p>A pedido de Adolf Hitler dirige o documentrio A Vitria da F, em 1935. No mesmo ano realiza O Triunfo da Vontade e Dias de Liberdade. Um ano depois vem Olympia dolos do Estdio.</p><p>O Triunfo da Vontade e Olympia dolos do Estdio so os filmes que eternizam Leni Riefenstahl: duas pel-culas ovacionadas por multides em xtase, mas que </p><p>Num voo constante, com uma preciso nica, Leni Riefenstahl voou de flor em flor. Da pintura dana, da sti-ma arte fotografia, aventurou-se nas guas do mar e descobriu um mundo novo. Mas da qualidade tcnica que representa, deixa tambm uma imagem ligada propaganda nazi. Controvrsia que at hoje perdura, dois anos passados da sua morte.</p><p>lhe ram o ostracismo depois da II Guerra Mundial. vale Ainda hoje, sempre que so exibidos na Alemanha, tm de ser acompanhados por uma sesso de esclare-cimentos, devido inevitabilidade de dissoci-los da eficcia que garantiram propaganda nazi.</p><p>Ainda assim, Leni garante que os filmes foram realizados sem qualquer interveno do Ministrio da Propaganda e que, simplesmente, colocou a sua ge-nialidade ao servio do Fhrer. Naquela altura ainda nada se sabia sobre campos de concentrao. Os alemes andavam deriva e Hitler conseguiu fasci-nar uma nao e um povo. Assim como fascinou Leni Riefenstahl.</p><p>O PREO DO TALENTO</p><p>At ao dia da sua morte, Riefenstahl recusa todas as acusaes que lhe fizeram. Assume-se como uma artista ao servio da sua arte, porque sempre que se empenha num projecto d o melhor de si. Era incapaz de fazer coisas mal feitas.</p><p>Movida pelo rigor e pela inovao tcnica, Riefenstahl abre os caminhos para as modernas coberturas desportivas da actualidade. Durante a realizao de Olympia, por exemplo, cria fossos para captar novos ngulos dos atletas usando o cu como pano de fundo coloca cmaras nos mastros das bandeiras e joga com a luz e com o movimento para provocar contras-tes. Estilo original que destaca as suas obras entre tantas outras existentes.</p><p>Mas, apesar do talento, no fim da II Guerra chega a ser interrogada e presa num campo de concentrao francs. Supera as crticas e as acusaes nas barras dos tribunais. Nada provado, mas todos os que a apoiaram voltam-lhe costas. Tiefland (1954) o ltimo filme que realiza antes de se dedicar foto-grafia. Leni depura a conscincia e expia a culpabi-lidade de ter realizado filmes colocados disposio da propaganda nazi. Em 1987, publica A Memoir, uma autobiografia onde, uma vez mais, procura afastar-se do regime fascista.</p><p>Refugia-se no mundo da fotografia. Presa a esta nova objectiva, agarra cada momento e fixa a intensidade de cada instante. Longe das luzes e das vozes que a aplaudiram e criticaram, Leni e parte para o con-tinente africano.</p><p>O SEU TALENTO FOI </p><p>A SUA TRAGDIA</p></li><li><p>11</p><p>AMADA PELOS NAZIS</p><p>A irreverente mulher das sete artes quis conhecer Hitler. Fascinada, como todo o povo alemo, escreveu-lhe uma carta. Era impossvel f icar indiferente bele-za e persistncia de uma mulher to intensa. Encon-traram-se, passearam juntos beira-mar. Hitler che-gou a confessar a admirao que sentia por Riefens-tahl. Voltaram a encontrar-se.</p><p>Leni comeou a frequentar o crculo dos homens for-tes do III Reich. Goebbels chegou a implorar pelo amor da cineasta. A vida de Leni Riefenstahl no pde nunca mais ser dissociada da elite nazi. </p><p>www.leni-riefenstahl.de</p><p>LTIMA TRANSIO</p><p>O passar dos anos no lhe esmorece a tenacidade. Aos 72 anos, depois de conviver, no Sudo, com as tribos Nuba e Kau, decide fazer um curso de mergulho. Nesta fase, ganha uma nova meta: captar Impresses Subaquticas. Mais de dois mil mergulhos, o ltimo dos quais aos 97 anos, captam a luz e a cor das pro-fundezas do Oceano ndico, onde a fotgrafa en-contra momentos de tranqui l idade. O documentrio lanado a 22 de Agosto de 2002. </p><p>A vida de Leni Riefenstahl acabara de cumprir o cr-culo das artes.</p></li><li><p>12</p><p>SANDRA DIECKMAN</p><p>Sandra Dieckman na...</p></li></ul>