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Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina ACÓRDÃO N. „ 312 2 4 AÇÃO PENAL N. 83-53.2014.6.24.0000 - DENÚNCIA - CRIME ELEITORAL - CORRUPÇÃO ELEITORAL Relator: Juiz Antônio do Rêgo Monteiro Rocha Revisor: Juiz Vílson Fontana Réus: Mauri José Zucco; Lucila Maria Ferrari Favareto; Cesar Luis Martinelli AÇÃO PENAL ORIGINÁRIA - CORRUPÇÃO ELEITORAL ATIVA - DENÚNCIA CONTRA PREFEITO, VICE-PREFEITO E SECRETÁRIA MUNICIPAL - RECEBIMENTO - INTERROGATÓRIO E DEFESA PRÉVIA - PRELIMINARES - OFENSA AO CONTRADITÓRIO E À AMPLA DEFESA - INQUÉRITO POLICIAL - NATUREZA INFORMATIVA - ALEGAÇÕES AFASTADAS - NULIDADE DE GRAVAÇÃO AMBIENTAL - ALEGAÇÃO APÓS RECEBIMENTO DA DENÚNCIA - PRECLUSÃO INSTANTÂNEA - ARTS. 147, §1°, C/C 149 E 223, TODOS DO CÓDIGO ELEITORAL - INOCORRÊNCIA - SUSPEIÇÃO DE TESTEMUNHAS - AUSÊNCIA DE INTERESSE PESSOAL - AFASTAMENTO - MÉRITO - ART. 299 DO CÓDIGO ELEITORAL - CONFIGURAÇÃO - PROVA AUSENTE - ABSOLVIÇÃO DE PREFEITO E VICE-PREFEITO - REQUISITOS PREENCHIDOS QUANTO À SECRETÁRIA MUNICIPAL - DECRETO CONDENATÓRIO. 1. Tendo o inquérito policial natureza informativa, eventuais irregularidades em seu curso não têm o condão de ofender o contraditório e a ampla defesa. 2. Afastada a nulidade de gravação ambiental no recebimento da denúncia, não se conhece da respectiva impugnação na fase instrutória (arts. 147, §1°, 149 e 223, todos do Código Eleitoral). 3. Inexiste suspeição em testemunha que não possui interesse pessoal no julgamento da causa. 4. Além do dolo especifico - obter ou dar voto, conseguir ou prometer abstenção - , é indispensável ao art. 299 doXópIráo ejeiforàl que o agente seja eleitor, sem o que improcede a d^i^aa^riffiinal./ 5. Provados os requisitos do art. 299 do Códigc^lejjroraMmpõe-se a condenação da denunciada. / J A i / // // / / / / /1 i ACORDAM os Juízes do Tribunal RegidnafEleitoral de Santa Catarina, à unanimidade, julgar parcialmente procedente a/ éçãq penal/ para absolver os réus Mauri José Zucco e Cesar Luis Martinelli/cqhri lundamento/no art. 386, inciso VII, do Código de Processo Penal, e absolver ar r f \Jmila MariaFerrari Favareto de duas acusações de prática de corrupção eleitpríjíl Mtí ralação /ao casal Dorvalino e Neusa e ao eleitor Denir Beé), e condená-la é pep\ (um) ano substituída por 02 (duas) restritivas de direito - />/(®n< vigentes à época do fato delituoso e prestação de serviço a/aDmi de 1(um) ano - e de 05 (cinco) dias-multa no valor diário |Ml/3! salário mínimo vigente ao tempo do fato (art. 49, § 1 o , do Sodigc do crime do art. 299 do Código Eleitoral em relação ao elijíor Ns termos do voto do Relator, que fica fazendo parte integranie da de Sala de Sessões do Tribunal Regional Eleitoral. de 01 fealárioá mínimos ílo período ^íta avos) do 'pela prática lazetto, nos

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  • Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina ACRDO N. 3 1 2 2 4

    AO PENAL N. 83-53.2014.6.24.0000 - DENNCIA - CRIME ELEITORAL -CORRUPO ELEITORAL

    Relator: Juiz Antnio do Rgo Monteiro Rocha Revisor: Juiz Vlson Fontana Rus: Mauri Jos Zucco; Lucila Maria Ferrari Favareto; Cesar Luis Martinelli

    AO PENAL ORIGINRIA - CORRUPO ELEITORAL ATIVA -DENNCIA CONTRA PREFEITO, VICE-PREFEITO E SECRETRIA MUNICIPAL - RECEBIMENTO - INTERROGATRIO E DEFESA PRVIA - PRELIMINARES - OFENSA AO CONTRADITRIO E AMPLA DEFESA - INQURITO POLICIAL - NATUREZA INFORMATIVA - ALEGAES AFASTADAS - NULIDADE DE GRAVAO AMBIENTAL - ALEGAO APS RECEBIMENTO DA DENNCIA - PRECLUSO INSTANTNEA - ARTS. 147, 1, C/C 149 E 223, TODOS DO CDIGO ELEITORAL - INOCORRNCIA -SUSPEIO DE TESTEMUNHAS - AUSNCIA DE INTERESSE PESSOAL - AFASTAMENTO - MRITO - ART. 299 DO CDIGO ELEITORAL - CONFIGURAO - PROVA AUSENTE -ABSOLVIO DE PREFEITO E VICE-PREFEITO - REQUISITOS PREENCHIDOS QUANTO SECRETRIA MUNICIPAL - DECRETO CONDENATRIO.

    1. Tendo o inqurito policial natureza informativa, eventuais irregularidades em seu curso no tm o condo de ofender o contraditrio e a ampla defesa.

    2. Afastada a nulidade de gravao ambiental no recebimento da denncia, no se conhece da respectiva impugnao na fase instrutria (arts. 147, 1, 149 e 223, todos do Cdigo Eleitoral).

    3. Inexiste suspeio em testemunha que no possui interesse pessoal no julgamento da causa. 4. Alm do dolo especifico - obter ou dar voto, conseguir ou

    prometer absteno - , indispensvel ao art. 299 doXpIro ejeiforl que o agente seja eleitor, sem o que improcede a d^i^aa^riffiinal./

    5. Provados os requisitos do art. 299 do Cdigc^lejjroraMmpe-se a condenao da denunciada. / J A i

    / / / / / / / / / /1 i A C O R D A M os Juzes do Tribunal RegidnafEleitoral de Santa

    Catarina, unanimidade, julgar parcialmente procedente a/ q penal/ para absolver os rus Mauri Jos Zucco e Cesar Luis Martinelli/cqhri lundamento/no art. 386, inciso VII, do Cdigo de Processo Penal, e absolver ar r f \Jmila MariaFerrari Favareto de duas acusaes de prtica de corrupo eleitprjl Mt ralao /ao casal Dorvalino e Neusa e ao eleitor Denir Be), e conden-la pep\ (um) ano substituda por 02 (duas) restritivas de direito - />/(n< vigentes poca do fato delituoso e prestao de servio a/aDmi de 1(um) ano - e de 05 (cinco) dias-multa no valor dirio |Ml /3! salrio mnimo vigente ao tempo do fato (art. 49, 1o, do Sodigc do crime do art. 299 do Cdigo Eleitoral em relao ao elijor Ns termos do voto do Relator, que fica fazendo parte integranie da de

    Sala de Sesses do Tribunal Regional Eleitoral.

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    RELATRIO

    Trata-se de ao penal ajuizada pela Procuradoria Regional Eleitoral contra Mauri Jos Zucco e Cesar Luis Martinelli, reeleitos prefeito e vice-prefeito pela Coligao PP-PT-PSC, respectivamente, de Coronel Freitas nas eleies 2012, e contra Lucila Maria Ferrari Favareto, Secretria Municipal de Sade daquele municpio na gesto anterior.

    A denncia foi formulada nestes termos (fls. I-IV):

    Os denunciados MAURI JOS ZUCCO e CESAR LUIZ MARTINELLI foram reeleitos, pela ordem, Prefeito e Vice-Prefeito de Coronel Freitas pela Coligao 'Pra Coronel Seguir Avanando' (PP/PT/PSC) no pleito transato, sendo a denunciada LUCILA MARIA FERRARI FAVARETO Secretria Municipal de Sade do referido Municpio na atual gesto e na anterior tambm, poca em que ocorreram os fatos criminosos a seguir narrados. Em comunho de desgnios, os denunciados antes nominados resolveram encetar um esquema para alavancarem a reeleio a Prefeito e Vice-Prefeito de MAURI ZUCCO e CESAR MARTINELLI, mediante a Secretaria Municipal de Sade, cuja titular era a denunciada LUCILA FAVARETO, sendo que para esse fim escolheram determinados eleitores que necessitavam realizar cirurgia, a qual seria antecipada em troca de votos dos referidos eleitores naquela candidatura majoritria. Durante a respectiva campanha eleitoral, os denunciados MAURI ZUCCO, CESAR MARTINELLI e LUCILA FAVARETO foram at a residncia do eleitor Denir Be, que necessitava fazer uma cirurgia no ombro, a quem propuseram a realizao dessa cirurgia em troca de votos nos ento candidatos reeleio a Prefeito e Vice-Prefeito, MAURI ZUCCO e CESAR MARTINELLI. Em meados de setembro de 2012 a denunciada LUCILA FAVARETO, acompanhada de CESAR MARTINELLI, ento Vice-Prefeito de Coronel Freitas e candidato reeleio para tal cargo eletivo, compareceram na residncia do eleitor Nathaniel Antonio Mazetto, que estava na fila para fazer umapifargia no joelho pelo Sistema nico de Sade - SUS, que no e s t ^ w i casa naquela ocasio, pelo que propuseram me e irm deytafngnel Mgetto respectivamente, Marirosa Zabot Mazetto e Andressa adiantamento dessa cirurgia, por meio de um mutiro/^u antecipado em relao lista geral do SUS, em troca o reeleio a Prefeito do denunciado MAURI ZUCCO/o aps Nathaniel Mazetto ter ido at a casa da denunpadjf L gravado uma conversa entre ambos nesse mespno jfen; referida cirurgia realizada em novembro de 2012.

    a Mazetto, o ia atendimento a candidatura

    testou confirmado ILA FAVARETO e (fl. 1p), sendo a

    Posteriormente, em 2.10.2012, a denunciada CILiv FAVARETO foi na residncia do eleitor Dorvalino de Oliveira, cfue" deceitava ore uma cirurgia para remoo de verrugas, o qual estava na companhia/de sua mulher, Neusa Bernardi, a quem props a realizao da di/a/cirurgia pelo SUS em troca de voto na chapa majoritria reeleio cortposfo pe/os denunciados MAURI ZUCCO e CESAR MARTINELLI, o que no/fi apeito fafelo apontado casal, que tiveram que fazer a cirurgia em questo na rede ^articular (fls. 1-4).

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    Antes do recebimento da denncia, os denunciados Mauri Jos Zucco, Cesar Luis Martinelli e Lucila Maria Ferrari Favareto apresentaram resposta nos termos do art. 4o da Lei 8.038/1990, diploma legal que disciplina a ao penal nos tribunais.

    Em 2 de setembro de 2014 esta Corte recebeu a denncia oferecida contra Mauri Jos Zucco, Cesar Luis Martinelli e Lucila Maria Ferrari Favareto por ter entendido que os fatos configuram, em tese, o crime do art. 299 do Cdigo Eleitoral, apontando os indcios de autoria com a individualizao da conduta e identificando os eleitores supostamente corrompidos.

    Aps o recebimento da denncia por este Tribunal Regional Eleitoral, os acusados foram citados, interrogados e apresentaram defesa prvia, quando arguiram preliminares de ofensa ao contraditrio e ampla defesa, nulidade da gravao ambiental e suspeio de trs testemunhas. Quanto ao mrito, postularam a improcedncia da exordial acusatria.

    Foram ouvidas as testemunhas relacionadas s fls. 482-484 (degravao dos depoimentos s fls. 490-520).

    Realizaram-se os interrogatrios dos rus (fls. 551-555) e inocorrendo pedido de diligncias, declarou-se encerrada a fase de instruo probatria (fl. 564), tendo as partes sido intimadas para apresentarem alegaes finais.

    Em alegaes finais, o Ministrio Pblico Eleitoral manifestou-se pela rejeio das preliminares de violao dos princpios do contraditrio e da ampla defesa pelo fato de Mauri Jos Zucco no ter sido ouvido no inqurito policial; de nulidade da gravao ambiental realizada por Nathaniel de uma conversa havida entre ele e a acusada Lucila; e de suspeio de trs testemunhas. Com relao ao mrito, o douto Procurador Regional Eleitoral aduziu que a instruo probatria deixou ^vidente a prtica do crime do art. 299 do Cdigo Eleitoral por parte dos t r s ^ c u ^ a rejeio das preliminares suscitadas pelos acusados e, no mrito; a ^ndiao/dos trs rus pela prtica do art. 299 do Cdigo Eleitoral, por trs yz^s, c^d/o art. Ifi do Cdigo Penal.

    Cesar Luis Martinelli, Lucila Maria Ferrar^ Zucco apresentaram conjuntamente as suas alegae condenao por crime de corrupo eleitoral s pode fcop ocorrer na forma dolosa, ou seja, quando verificada a m-fji caso dos autos. Pediram a improcedncia da acusatria

    Fav^feto e Mauli Jos njEns, afirmando que a

    quando a siaa prtica lo agente, o que no o

    julgamento. Os autos foram encaminhados ao Ju/z-evisor,; que pediu dia para

    E o relatrio.

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    V O T O

    O SENHOR ANTONIO DO RGO MONTEIRO ROCHA (Relator):

    1. Preliminarmente, deste Tribunal a competncia originria para conhecer e julgar este feito criminal, pois o codenunciado Mauri Jos Zucco ainda exerce o cargo de prefeito do Municpio de Coronel Freitas, possuindo privilgio de foro, a teor do inciso X do art. 29 da Constituio da Repblica.

    Nesse sentido, slido o entendimento na jurisprudncia de que "os tribunais regionais eleitorais so competentes para processar e julgar os prefeitos municipais nos ilcitos penais eleitorais" (TSE, HC n. 469, de 07.10.2003, Min. Luiz Carlos Madeira).

    Alm disso, o feito segue o rito da Lei 8.038/1990, que disciplina a ao penal originria de competncia dos tribunais.

    2. Em preliminar, a nulidade da gravao da conversa entre Nathanael e Lucila, que fundamenta a acusao foi rejeitada por este Tribunal no momento do recebimento da denncia, ao entendimento de que " lcita a gravao ambiental realizada por um dos interlocutores sem o conhecimento do outro, podendo ela ser utilizada como prova em processo judicial, conforme reafirmao da jurisprudncia desta Corte feita pelo Plenrio nos autos do RE n 583.937-QO-RG, Rei. Min. Cezar Peluso, DJe de 18/12/2009" (STF, Agravo Regimental no Agravo de Instrumento n. 742192, de 15.10.2013, Min. LUIZ FUX).

    3. Preliminarmente, o argumento do acusado Mauri Jos Zucco de que houve ofensa ao contraditrio e ampla defesa por no ter sido ouvido no inqurito policial foi analisado por ocasio do recebimento da denncia, quando este Tribunal decidiu que o inqurito policial possui natureza inquisitiva, destinado formao de pea informativa e eventuais vcios no curso das investigaes no tpma aptido de anular a ao penal. / /

    4. Em preliminar, a suspeio das testemunhas arrojadas/p Lfr acusaro, resta preclusa, pois foram ouvidas sem qualquer irresignao/da d^fej ;a, conforme termo de audincia de fl. 481. Alm disso, a credibilidade ou no de gfeu? testemunhos matria probatria, no havendo impedimento jurdico s su/s pi

    5. Quanto ao mrito, a pea acusatria imputados d em continuidade delitiva, do crime de corrupo eleitora/, o; ju definio jurdica no Cdigo Eleitoral: / / /

    / / / Art. 299. Dar, oferecer, prometer, solicitar ou fbgeber, wia si ou hara outrem, dinheiro, ddiva ou qualquer outra vantagem, $ra ob )f ou dar voto e para conseguir ou prometer absteno, ainda que g/lrta n peja aceita: Pena - recluso at quatro anos e pagamento, ae cinco s juinze oias-multa

    As trs primeiras condutas (dar, oferdpr e prometer)/ configuram a corrupo eleitoral ativa, j que objetivam alcanar o vfcto do eleitor.

    fciados prtica, ossui b/seguinte

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    Quanto ao sujeito ativo do ilcito, esse crime pode ser praticado por qualquer pessoa, no exigindo que o agente seja candidato, conforme ensinamento doutrinrio abaixo:

    'O crime imputado ao acusado no de mo prpria. O tipo descrito no art. 299 do Cdigo Eleitoral no exige que a vantagem prometida ao eleitor parta de quem seja candidato. Bem por isso, se algum promete dinheiro, ddiva ou qualquer outra vantagem a outrem, para que destine voto a terceiro, incide nas penas do art. 299 do Cdigo Eleitorar (TRE-SP, RC 122.421, rei. Juiz Mrcio Martins Bonilha, Alberto Silva Franco et alii, Leis penais especiais..., 6.ed., vol.2, cit., p. 826)" [GOMES, Suzana de Camargo Gomes. Crimes Eleitorais. 3.ed. So Paulo: RT, 2008, p.243].

    Para a caracterizao do tipo, imprescindvel o dolo especfico, revelado pela oferta ou promessa de vantagem ao eleitor com o fim especial de obter-Ihe o voto.

    Outro aspecto do delito a sua natureza formal, isto , a consumao independe da efetiva leso ao bem jurdico tutelado: basta-lhe a potencialidade de dano real:

    [...] cabe destacar que a consumao do crime independe da ocorrncia do resultado, o que significa ser irrelevante a obteno efetiva do voto ou da obteno, como decorrncia da atividade tpica. Trata-se, na verdade, de crime formal [...] [GOMES, Suzana de Camargo Gomes. Crimes Eleitorais. 3.ed. So Paulo: RT, 2008, p.243.]

    indispensvel, contudo, que o ato seja concreto, individualizado e, sobretudo, condicionante da vontade poltica para objetivamente angariar voto determinada candidatura.

    Fixo essa compreenso com o seguinte precedente: ^

    Para a configurao do crime de corrupo eleitoral,ygflera^j^er necessria a ocorrncia de dolo especfico, qual seja, obter m dp" Jfoio, conseguir ou prometer absteno, necessrio que a condutsr se a direcionada k eleitores identificados ou identificveis e que o corrupto/el^ojp /passivo seja pessoa apta a votar [TSE, HC n. 69358, de 11.06./01Xylwr/ Jos Antnio Dias Toffoli]. / / / /

    Quanto ao sujeito passivo do crime, a doutraa ensina querem qualquer das vias [seja no crime de corrupo eleitoral ativa/quarrto np/de corrupo eleitoral passiva], 1sujeito passivo' ser o Estado e, secund^riapientej o eleitor de 'bona fide' ofendido pelo comportamento ilcito" [DOMINGUES/FILrIO, JcJs. Disposies Penais Eleitorais. 1.ed. Campo Grande: Contemplar, 2012. P/.252]. I]

    O crime de corrupo eleitoral, por spr/grime foHmal, no admite a forma tentada, sendo o resultado mero exaurirjienio da cofiduta criminosa [TSE, AAG 8905/MG, rei. Min. Arnaldo Versiani Leit^ySoares, j. em 27/11/2007.

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    Os acusados Mauri Jos Zucco, Cesar Luis Martinelli e Lucila Maria Ferrari Favareto teriam se utilizado, indevidamente, da administrao pblica para ofertar a eleitores, que aguardavam em fila de espera do Sistema nico de Sade (SUS), a antecipao de procedimentos cirrgicos em troca de votos.

    Convm delinear os trmites referentes s cirurgias eletivas realizadas pelo servios de sade pblica do Municpio de Coronel Freitas, conforme documentos de fis. 186/326:

    O projeto das cirurgias eletivas foi institudo pelo Ministrio da Sade por meio da Portaria n. 486/GM, de 31 de marco de 2005 - a qual Institui a Poltica Nacional de Procedimentos Cirrgicos Eletivos de Mdia Complexidade e d outras providncias. Entretanto, foi a portaria do mesmo Ministrio, editada no ano de 2011, sob o n. 2.318, que incluiu as cirurgias ortopdicas e estabeleceu a competncia para sua realizao no ano de 2011 at de dezembro de 2012. Posteriormente, ainda no ano de 2012, foi editada a Portaria 669 da Secretaria de Sade do Estado de Santa Catarina, definindo a estratgia de aumento do acesso aos Procedimentos Cirrgicos Eletivos no mbito do Sistema nico de Sade - SUS. As cirurgias eletivas so procedimentos que no precisam ser realizados em carter de urgncia, ou seja, podem ser agendadas. Para reduzir o tempo de espera por esses procedimentos, o Ministrio da Sade liberou, em julho do ano de 2012, R$ 650 milhes para que Estados e Municpios realizem mutires de cirurgias, com o objetivo de reduzir as filas de espera nos hospitais. Atualmente, o Sistema nico de Sade (SUS) disponibiliza mais de 700 procedimentos, as reas mais comuns gue se encaixam no perfil das eletivas so as cirurgias para resoluo de problemas ortopdicos, oftalmologia (especialmente casos de catarata), otorrinolaringologia (responsvel por tratar ouvidos, nariz e garganta), urologia (trata do aparelho urinrio) e a cirurgia va^laf?(espejjalmente as cirurgias de varizes! / // j ) 'Estas cinco grandes especialidades tm uma necessijzfde e reduo de tempo de espera pela cirurgia. Por isso, o Ministrio d^Sa transfere aos municpios e aos estados um recurso adicional, fora do /eto/qu/e jje j recee, para que eles realizem estas cirurgias', explica o Crd^nMor^eral de/Mdia e Alta Complexidade do Ministrio da Sade, Jos/Ed^nd Fdgolin Passos. 'O Ministrio da Sade, guando repassa o/reoupsojpafctua com/os gestores dos estados e municpios as possibilidades paa ouoo da fila. E gestor pode, ou na sua rotina de atendimento, aumentai' o/mro de cirurgias, ou com este recurso adicional contratar novos profissionais para aumentar o nmero de eguipes para realizarem as cirurgias ditas yetivas explica Fc/golin. Quanto ao mtodo de seleo d jpacientep > para a realizao destes procedimento, a Portaria 669/2012 / estabelece em seu artigo 2o que 'A organizao da fila de responsabUiddB de cad t/estor municipal (...)'. Ou seja, dentre os pacientes i cadasirtacls e habilitadas na fila de espera do SUS, o gestor municipal, ou o responsvel pelo setor/da sade, no caso, os Secretrios Municipais de Sade, selecionam as pessoas gue iro participar dos

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    mutires, elaborando uma lista em apartado na lista geral do SUS, obedecendo a critrios de preferencia legal, estado de sade, tempo de espera, etc" (fls. 186-326).

    Em decorrncia do nmero de pessoas pretendendo ser beneficiadas por essas cirurgias eletivas, havia roteiros de procedimentos a serem cumpridos pelos 'sorteados', conforme os depoimentos de fls. 508/510 e 517/519:

    Como feita essa lista de quem vai ser, receber esse benefcio da poltica pblica? Tudo depende do tipo de cirurgia, por exemplo, ortopedia existe o TFD que o tratamento fora do domiclio, ento o mdico encaminha, montado esse processo e ele vai entrar pra uma fila de espera, quando tem algum mdico que se habilita pra fazer pelo mutiro ento a gente vai chamando as pessoas, quem aceita em fazer o mutiro faz logo ou algumas pessoas preferem preferem esperar pra fazer com o mdico que esto se tratando no hospital regional ento eles aguardam da a fila nica que a do hospital regional que a fila do SUS. fora da prefeitura municipal? fora, da pela fila nica aqui do hospital regional que atende toda a regio. (Graciane Fonini, fls. 508-510)

    A prefeitura municipal executava. Sim. Esse era o chamado mutiro? De cirurgias? Sim. Ento, existiam dois, duas, duas formas distintas. Tinha o mutiro e existia a cirurgia pelo SUS, isso? Sim. isso. 'T'. E como, como, essas pessoas eram, como ocorriam as inscries das pessoas necessitadas que faziam as cirurgias. Ah, no caso das cirurgias de ortopedia, a gente montava, urpprocesso chamado TFD, que da os pacientes, eles, eles, a Secretapia ^^ayde autorizava e agendava consulta no Hospital Regional. Ento, el^s fipvamnuma/ista no, no Hospital Regional, 'n\ A, com o decorrer daff q\A surgiu essas cirurgias eletivas, a foi, foi chamado, alguns casos. Ess^esratya de chamada a gente sempre priorizou, 'n', os critrios do Minisfricy molio, 'n', ypra crianas, adolescentes e idosos. E a foi chamado os araotsMntes, os idosos e os casos mais urgentes, 'n, sempre priorizando os caso/mis urgen/es. A que foi chamado esses pacientes pro mutiro, py fofau da a /fila do Hospital Regional, a fila l nica, 'n'. L tem mu1ta;^ntW. L demoraf anos pra serem chamados. E da, com o surgimento desfe pfyftir , due foi, '\ chamado esses casos (Simone Zanella Strada, fls. 51/-5/^,. ? ,

    ' / /

    A partir desses elementos, mediante o j denomioado "mutiro de cirurgias", o Poder Pblico municipal promovia /cofn recuss financeiros transferidos pelo Ministrio da Sade, a realizao de proceinfentos nidicos./

    Para gerir a incluso dos ber^fioiados pplos mutires mdicos, a nominata de pacientes era elaborada sob a sjpervis da/Secretria de Sade Municipal, Lucila Maria Ferrari Favareto. ^

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    Sobre a composio da lista de pacientes, a agente administrativa Graciane Fonini prestou o seguinte depoimento:

    "as prioridades (...) eram dentro daquelas condies que o Ministrio Pblico relatou pra voc, quem mais participava dessa formao dessa lista? A secretaria de sade, a Simone Strada e na poca minha ex colega que agora ela saiu 'n\ tambm ela participava que era ela que cuidava do [...] [...] [...] a senhora me falou que a secretria de sade tinha acesso lista 'n'? Sim, como secretria (fIs. 508-510).

    Entre os documentos existentes, h uma lista de pacientes com diagnsticos mdicos e especialidades, sobre os quais est aposto carimbo identificativo da acusada Lucila Maria Ferrari Favareto, como secretria municipal de sade (fl. 12).

    Pelo que se denota da prova, os denunciados tinham efetivas condies de identificar os muncipes que aguardavam intervenes cirrgicas, o que lhes possibilitava, negociar a vantagem do atendimento antecipado mediante a contraprestao do voto.

    Na poca dos fatos, no ano de 2012, Mauri Jos Zucco e Cesar Luis Martinelli exerciam, respectivamente, os cargos de Prefeito e Vice-Prefeito do Municpio de Coronel Freitas e postulavam a reeleio, enquanto Lucila Maria Ferrari Favareto era a Secretria de Sade do mesmo municpio (fls. 96-101).

    Em decorrncia das eleies de 2012, Mauri Jos Zucco e Cesar Luis Martinelli foram reeleitos, respectivamente, prefeito e vice-prefeito de Coronel Freitas. Lucila Favareto, entretanto, no mais Secretria de Sade do municpio de Coronel Freitas.

    A primeira conduta ilcita denunciada pel^Proci^ad^ra Ftegional Eleitoral ora transcrita: 7 ~7~T7 7

    Durante a campanha eleitoral relativa ao plero municijafa/de 2012, prximo da data em que este ocorreu, os rus M A U R / Z U C C O ; G E S A R M A R T I N E L L I e L U C I L A F A V A R E T O foram at a residencip do eleitor Deryr Be, que necessitava fazer uma cirurgia no ombro, q/a e| propuseram a realizao dessa cirurgia em troca de votos na ento candifatup /^ajoritaria integr/da por M A U R I Z U C C O e C E S A R M A R T I N E L L I .

    Na fase investigativa o mencionado ^lei^or hoticiou /que durante a campanha eleitoral de 2012 "[...] recebeu a visita qe Lp la Favoreto, Ces4r Luiz Martinelli e Mauri Zucco; que os trs estavam juntos na visita e liucijl dis^e a(j> depoere que se ele e sua esposa votassem em Mauri e Cesar Luiz, eles poderiam^ajudar o depoent^a realizar a cirurgia noombro; [...]" (fl. 80). j j / /

    E, em juzo, devidamente com|^r|iissadb,/Denir/Be declarou sem qualquer firmeza (fls. 501-504), aps perguntas do! Ministrio Pblico e da defesa:

    U i

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    ...1 S que o vice e a mulher vieram na minha casa e no carro eu no sabia se era o prefeito ou o, ou era o prefeito, 'n', ma era, ele deixou o carro 'pro' lado de baixo da minha casa. 'Uhum'. S que prometeram 'pra' mim ajudar, que eu votava 'pra' eles 'pra', na cirurgia, 'n'. At hoje no fiz cirurgia nenhuma. [...] Era uma cirurgia 'pra' fora, 'n', da eles encaminharam, s que 'da' o adevo, o mdico deles falaram que, que era 'pra' eu pegar um remdio, tomar um remdio, umas vacina, mas 'da' eu fui no posto e era muito caro. No posto no tinha, a eu fui comprar, da era muito caro, 'n'. 'Da' eu fui pedir ajuda pra essa mulher. Elas disseram que no podiam ajudar. 'J'. O senhor 't' apontando pra dona Lucila? . Ela que trabalhava l. Eu fui pedir ajuda 'pra' ela, da... Na Secretaria de Sade? , e ela disse que no podia ajudar, 'da' me deu, eu fiquei com raiva, pequei o papel e joguei fora. 'Aham'. 'Da' nesse dia na sua casa, como que foi, direitinho? , o dia gue eles foram l eles prometeram gue se eu, se eu ajudava eles na poltica, eles ajudavam na cirurgia. . Depois, eu fui l 'pra' cidade, tambm e o vice me chamou l e disse 'ajuda ns na poltica que ns 'ajudemo' voc na, na cirurgia, 'n'. Esse 'ajudar na poltica', era pedido de voto? Isso? , acho gue 'pra' pedir 'pra' eu votar pra eles, mas eu no votei 'pra' eles. Eu, no carro, no me lembro se tinha o prefeito 'drento' do carro, ou era outra pessoa.

    5.1. Em relao ao primeiro ilcito, alm de no ser referido no depoimento, no h prova de que o acusado Mauri Zucco esteve na residncia do mencionado eleitor, pois este se refere a uma pessoa que estaria dentro de um carro estacionado "pro lado de baixo" da sua casa, acrescentando que "no sabia se era o prefeito ou quem que era".

    No h prova a amparar a condenao dos acusados Mauri Zucco, Csar Martinelli e Lucila Maria Favareto. Alm da "raiva" que Denir Be disse ter sentido quando procurou o servio municipal para pegar remdio e no teve sua expectativa atendida, no restou provada a compra de voto, pois sequer sabia iizer se foi visitado de dia ou de noite. Trata-se de depoimento insegurrquey no jpnsniite a ocorrncia de corrupo eleitoral.

    Alm de tudo, sobressai a discrepncia existi policial e judicial de Denir: no depoimento prestado polci campanha eleitoral de 2012, recebeu a visita de Lucila Fjavreto e Mauri Zucco e que os trs estavam juntos na visita; que "s que o vice e a mulher vieram na minha casa e prefeito ou o, ou era o prefeito, 'n', ma era, ele de/x minha casa".

    os depoimentos e afirmoji que na

    esar Luizi/lartinelli dicial, Der/ir afirmou

    carroj $u no satia se era o 1'pro' lado pe baixo da cm

    Confirmando a improcedncia da de^ncr, Ferrari Favareto afirma "que no foi na casa do paciente nenhuma, no sabe onde mora, nunca visitou", eifquanto 1 Luis Martinelli afirmou que "esteve na casa de D^iiriBe vereador Edilvo Baggio e o Denir no estava em casa, esttivam faendo campanha

    acusada/ Lucila Maria )enir Bee, de maneira

    \e o denunciado Csar >A77 o ero candidato a

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  • Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina AO PENAL N. 83-53.2014.6.24.0000 - DENNCIA - CRIME ELEITORAL -CORRUPO ELEITORAL como fizeram em todos os bairros, em todas as casas, que ele no estava e conversaram com a filha dele".

    Afastando a hiptese condenatria, a testemunha Edilvo Baggio, em campanha a vereador, narra que esteve na residncia do eleitor Denir Be, acompanhado apenas de Cesar Luis Martinelli e que Denir Be no se encontrava, tendo sido recebidos pela filha deste e que nada foi tratado ou comentado acerca da cirurgia de Denir Be.

    Assim, quanto ao primeiro fato imputado aos acusados Mauri Zucco, Csar Martinelli e Lucila Favareto, no h prova para condenao, motivo pelo qual transcrevo entendimento do TSE:

    A condenao pelo crime de corrupo eleitoral deve amparar-se em prova robusta na qual se demonstre, de forma inequvoca, a prtica do fato criminoso pelo ru. (Grifei) No caso dos autos, no houve provas aptas a comprovar a autoria do crime previsto no art. 299 do Cdigo Eleitoral, pois os depoimentos prestados em juzo mostraram-se contraditrios. Agravo regimental no provido". [TSE. Agravo Regimental em Agravo Regimental em Recurso Especial Eleitoral n 569549, Acrdo de 17/03/2015, Relator Min. JOO OTVIO DE NORONHA]

    Quanto ao primeiro fato imputado pelo Ministrio Pblico Eleitoral, julgo improcede a denncia apresentada contra Mauri Jos Zucco, Cesar Luis Martinelli e Lucila Maria Ferrari Favareto.

    5.2. Outra notcia de corrupo eleitoral partiu dos eleitores Dorvalino de Oliveira e Neusa Bernardi (terceiro fato), conforme descrito pela Procuradoria Regional Eleitoral nestes termos:

    Em 2.10.2012, a denunciada LUCILA FAVARETO foi n/residncia do eleitor Dorvalino de Oliveira, que necessitava de uma cipurgia .para remoo de verrugas, o qual estava na companhia de sua mullW, ujgua Bfnarcfi, a quem props a realizao da dita cirurgia pelo SUS em wocsLde voto /na chapa majoritria reeleio composto pelos denunciacfos/MAuM ZUCCu e CESAR MARTINELLI, o que no foi aceito pelo apontado &aa//que fizeram a cirurgia em questo na rede particular. / / 1 / / /

    Em juzo, Neusa Bernardi prestou o seg(iMe/aepDimento ms. 498-500), aps indagaes do Ministrio Pblico e da Defesa: I / \ / /

    [...] ele fez um pedido no municpio pra fapnesa cirurgia? / Sim, sim. / / I I Ta e nesse [...] a senhora soube, estava presente duando a ona Lucila no dia dois de outubro teve na sua residncia/pra fazer lalgum encaminhamento dessa cirurgia, como que foi isso? /] T 7 Ela veio l na minha casa. / / / / / Veio? I / l I / Sim, e o prefeito tambm, mas no faeroo da cirtmia aque/a hora l. Ela chegou a pedir votos pra vocs? {/ T /

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  • Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina AO PENAL N. 83-53.2014.6.24.0000 - DENNCIA - CRIME ELEITORAL -CORRUPO ELEITORAL

    Sim! Ela fez o pedido de votos, e nesse dia ela no fez o pedido de votos pra fazer a cirurgia? No, s pediu voto sabe, s. [ -J Como que foi a visita, quern que foi l na sua casa? Foi l o prefeito e a Lucila. Foi o prefeito e a Lucila, a dona Lucila. L pedir voto, sim o voto. Eies 'tavam' com alguma lista de cirurgias? No, no. No, a senhora no viu nenhuma lista? No, no. Eles no fizeram nenhuma vinculao a esse tipo de procedimento antecipao cirrgico? No. S gue diz gue ia fazer e quando ia l dizia que no, por enquanto no, at que foi indo 'n', no fizeram aquela cirurgia. E nem prometeram pra senhora? At agora no. []

    A testemunha Neusa Bernardi, ao longo de seu depoimento, circunstanciou que no houve oferecimento de vantagem em troca de votos na visita dos acusados sua residncia, deixando claro que na ocasio da visita apenas houve pedido de votos.

    A respeito do que foi narrado na denncia, a defesa nega a oferta antijurdica, reportando-se aos interrogatrios de Lucila Maria Ferrari Favareto ["e/e veio ao Posto de Sade pedir a retirada de uma verruga; que a depoente tinha o convnio e disse pra ele que no momento que precisasse poderia fazer"] e Cesar Luis Martinelli ["no tinha conhecimento que Dorvalino estava precisando de cirurgia, veio saber depois do ocorrido'].

    A defesa alega a regularidade das inscries /^s^pacienteis para as cirurgias eletivas, com amparo em testemunhos do^rncicm^os da administrao Alceu Antonio Carvalho (assessor de imprensa), Antopio Mandos de Czgfro e Zelindo Matiasso (motoristas da Secretaria de Sade) - alen dac das agentes administrativas Graciane Fonini e Sirrone Zc

    feles antes jj lia Strada.

    examinados

    Independentemente dos argurm verso acusatria apresenta-se extremamente/ do CE.

    ite

    No h qualquer envolvimento/do$ afcusac Luiz Martinelli em relao ao suposto crimeipo/s/femboii prefeito e vice-prefeito, no perodo de campanha el| residncia de Neusa, esta afirmou que no hove oferg em troca de votos.

    Jefesa, contata-se que a o configu/ao do art. 299

    fos Mauri Js Zucco e Csar os candidatos aos cargos de

    litoral, possam ter visitado a imento ge qualquer vantagem

    No tocante acusada Lucila Marih Ferrai Favaret, a testemunha Neusa Bernardi apenas menciona, de forma bastante inconsistente eponfusa, que conversou

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  • Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina AO PENAL N. 83-53.2014.6.24.0000 - DENNCIA - CRIME ELEITORAL -CORRUPO ELEITORAL com aquela no Posto de Sade sobre a cirurgia de seu marido, mas no narrou os detalhes da indigitada conversa. Quando questionada pelo Ministrio Pblico "como que foi esse pedido", a testemunha apenas respondeu que a Lucila dizia: "Que aguarda-se que ia fazer, que no precisava pagar, isso e aquilo 'n".

    Portanto, a acusada Lucila foi procurada no Posto de Sade pelo casal Dorvalino e Neusa objetivando que a retirada de verrugas fosse agendada, quando receberam orientao para aguardar. E quando perguntada como foi o pedido de voto, Neusa no foi clara em sua resposta.

    Embora configurao do ilcito previsto no art. 299 do Cdigo Eleitoral no haja necessidade de pedido expresso, o MPE fez questionamento direto: "ela pediu expressamente pra senhora votar que ia fazer a cirurgia?", tendo a testemunha respondido: "sim, sim", mas sem esclarecer como teria ocorrido essa conversa.

    A suposta corrupo imputada acusada Lucila Maria em relao ao casal Dorvalino de Oliveira e Neusa Bernardi apresenta-se muito vaga, sem a consistncia necessria para um decreto condenatrio.

    No tocante a esse tpico acusatrio, no restou configurado o ilcito previsto no art. 299 do Cdigo Eleitoral, motivo pelo qual transcreve-se entendimento jurisprudencial aplicvel ao caso sub-examine:

    Em sendo frgil a prova produzida, sem aptido para gerar certeza acerca do ilcito e autorizar a consequente condenao, que precisa estar apoiada em elementos slidos quanto materialidade e autoria, impe-se a absolvio do recorrente da prtica ora imputada, a teor do que dispCo art. 386, inciso VI, do Cdigo de Processo Penal [TREMS. RECURSO jQRIMINAL^n. 25584, Acrdo n. 8106 de 25/11/2013, Relator Jui

    Quanto a este item, pois, julgo improced

    5.3. O suposto aliciamento da fa Mazetto outro fato denunciado pela Procuradori

    nuncia.

    "Em meados de setembro de 2012 MARTINELLI compareceram na res - que estava na fila para fazer u Sade, SUS o qual no e propuseram me e irm dest Andressa Cristina Mazetto, o mutiro que teria atendimento troca de voto na candidatura

    Resta documentalmente c includo na lista do mutiro de procedi tendo sido consignado ao lado do seu diagnstico: leso" (fl. 1 2 ) .

    IA VITTA]

    leitor Nathaniel Antonio leitoral: /

    FAVAR|/TO e o ru CESAR itor Nattjniel Antonio Mazetto

    p joelho pelo Sistema nico de a naqupla ocasio, pelo que

    ente, Mrirosa Zabot Mazetto e essa cpurgia, por meio de um

    relac/ lista geral do SUS, em eito do/ru MAURI ZUCCO".

    Nathaniel Antonio Mazetto foi s patrocinados pelo Municpio,

    "especialidade: joelho esquerdo;

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  • Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina AO PENAL N. 83-53,2014.6.24.0000 - DENNCIA - CRIME ELEITORAL -CORRUPO ELEITORAL

    Marirosa Zabot Mazetto, me de Nathaniel Antonio Mazetto, prestou a seguinte declarao polcia (fl. 41):

    [...] que durante a campanha eleitoral municipal de 2012, em Coronel Freitas, recebeu a visita em sua casa da Secretria de Sade Lucila Favaretto e do ento candidato a vice-prefeito Cesar Martinelli; [...] que Lucila e Csar, na ocasio, pediram votos para os candidatos do PT; que Lucila disse que se votasse no PT a antecipao da cirurgia seria mais fcil; [...] que na ocasio Lucila tinha em mos uma relao de nomes de pessoas que seriam beneficiadas com a antecipao das cirurgias; que presenciou essa conversa a filha da declarante, Andressa Mazetto; [...] que seu filho fez a cirurgia em novembro de 2012 [...].

    Andressa Cristina Mazetto, irm do referido eleitor, apresentou semelhante relato autoridade policial (fl. 43):

    [...] que durante a campanha eleitoral de 2012, no Municpio de Coronel Freitas, a Secretria de Sade Lucila Favaretto e o ento candidato a vice-prefeito Cesar Martinelli e sua esposa foram at a casa da declarante pedir votos nos candidatos do PT; que Lucila possua em mos uma relao de nomes de pessoas que seriam beneficiados num mutiro de cirurgias; que acha que essa lista a que consta na folha 12 do inqurito policial; ...1 que por ter passado Nathaniel na frente de outros pacientes que precisavam fazer cirurgia, Lucila pediu ajuda da declarante e de sua me para elegerem os candidatos Mauri Zucco e Cesar Martinelli; gue a declarante no tem a menor dvida que a antecipao da cirurgia foi em troca de votos; [...] que Nathaniel fez a cirurgia com o Dr. Raichmann em Coronel Freitas, em novembro de 2012, assim como outras pessoas que estavam na lista do mutiro [...] (fl. 43).

    H laudo de internao hospitalar registrando que^lb eleitor Nathaniel Antonio Mazetto foi atendido no ms de novembro de 2012 p^^istematerro com interveno do Dr. Joaquim Reichman (fl. 104). / / J

    Em juzo, Marirosa Zabot Mazetto, s fls. 49J49& rpemciou que/seu filho Nathaniel foi includo na lista das pessoas que seriam 'mmmaaa&f mediante j&olicitao de voto da denunciada Lucila. / y /

    Confirmando o noticiado anteriormenp, oyvaepoimento ne Andressa Cristina Mazetto (fls. 496-497) informa que o avisado/Csar e a/esposa deste estiveram em sua casa pedindo voto, enquanto que?a dpnmmciada Lucila, alm de pedir voto para os denunciados, condicionou a preferpoi^ /de Nathaniel, ao voto da informante e sua me. Esclareceu ainda que o aousaclo Cesar, quando esteve em sua casa, pediu voto. / / / / /

    O eleitor Nathaniel Antonio IV^^etto jl^mbm prestou o seguinte depoimento (fls. 490-492):

    [...] a senhora Lucila apareceu l e prefeitura que ia pagar, que, inclusi anos agora dia 22 de novembro. EnJ

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    ferecendp a cirurgia que seria a jrgia e ela vai fazer dois

    cirurgi^e como foi prometido por

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    eles e tal. Eu acredito que eles chegaram a mim, a vir l oferecer est cirurgia 'pra' mim, porgue ela foi l e viu que eu abri o inqurito no SUS, porque ela como Secretria da Sade com certeza tem acesso a isso. [...] No na verdade eu fiz esta denncia porque eu me senti lesado deles terem vindo l, oferecer um servio que devia ser oferecido por obrigao do municpio, que o que eles tm que estar fazendo l. Eles vieram e me ofereceram isso em troca de votos, porque era uma necessidade minha, que at hoje eu no tenho condies de pagar. Ainda bem que eles fizeram, pelo menos isso eles esto fazendo pelo municpio. Parabns pela parte deles, s que eu achei errado eles oferecerem isso como uma coisa obrigatria deles. [...] Voc foi na Prefeitura Municipal de Coronel Freitas 'pra' pedir a sua incluso em alguma lista? No! Em algum momento voc conversou com o Mauri a respeito desse assunto? No! Mauri chegou a te prometer alguma coisa? No! Eu nunca falei com o Mauri. E com o Csar? No! Tambm no? No. Nenhuma dessas pessoas prometeram alguma coisa 'pra' voc? No! (Grifei)

    Com efeito, conforme informado no seu testemunho, o eleitor Nathaniel Antonio Mazetto, aps a visita a seus familiares pelos acusados Lucila Maria Ferrari Favareto e Csar Luis Martinelli, foi procura da Secretria de Sade Municipal, oportunidade na qual gravou os dilogos ocorridos nesse encontro.

    Apesar da boa qualidade do udio captado, h trechos de difcil percepo, em que Lucila Maria Ferrari Favareto a b a i x a t o m de sua voz, sussurrando palavras a seu interlocutor. Nathaniel Antonjo Mzetto fpJjotksobre o contedo gravado, notadamente dos seus segredos, em djk^fc^nficjeffcial:

    Testemunha: Ela falou, falou que tinha uma^giid^a, alguma cisa assim, inclusive ela ligou 'pra' uma assistente dela^ch^qu^^ra, e ela confirmou gue o meu nome estava nesta lista, e 'da' noAim/day^avao da 'pp' ouvir meio baixinho que ela diz, pede o voto 'n'.

    Desse modo, mesmo reconhecendo cefta dificuldade n compreenso do udio - inclusive submetidas a tratamento t^ico/(fls. 32-35)/-, a autoridade policial, em seu relatrio, identificou este teor ps. jrl2-12BJ:

    Por volta dos 8'40, a investigad^ comea a/cpchichar pra dizer que foi ela quem escolheu os nomes de qijem/estava qai lista do n/utiro e, em seguida, comentar: 'o votinho t garantido pra ns'. Este trecho consta entre os 8|53^e|8'55 d compreenso devido sobreposio de voze fones de ouvido do tipo condig. Em razo;

    )/arquivo de udio, e de difcil , sendo melhor ouvido atravs de dessa dificudade, a frase no foi

    transcrita pelo Policial Federal rf sponfevel pela degradao.

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    E, no mesmo sentido, foi a concluso da Procuradoria Regional Eleitoral:

    Destaca-se, ainda, a gravao efetuada pelo eleitor Nathaniel Mazetto de uma conversa que teve com a r LUCILA FAVARETO, na qual esta deixa claro que, ao ser indagada sobre a espera na lista do SUS, que esta diz respeito "a outra espera! pelo SUS, mas mutiro de cirurgio que o municpio vai fazer. Fui e gue escolhi o nome das pessoas", arrematando logo em seguida ao asseverar que "Eu gue escolhi o nome das pessoas. Eu fui l e falei com a tua me, t, pra vocs... (parte incompreensvel - volume muito baixo) (fl. 27) [CD de fl. 16; respectivas transcries de fls. 23-28).

    Efetivamente, ao ouvir com redobrada ateno o udio, aos 8min56s, capta-se o significado da dico de Lucila Maria Ferrari Favareto, coincidente com os apontamentos da autoridade policial e da Procuradoria Regional Eleitoral.

    Esse velado apelo eleitoral, alis, condizente com o depoimento de Lucila Maria Ferrari Favareto, a qual d a entender ser a responsvel pela seleo dos pacientes prioritrios, concedendo, por voluntariedade, uma especial vantagem a Nathaniel Antonio Mazetto ao afirmar; "vou contemplar esse guri aqui"... "fui eu que escolhi o nome das pessoas".

    O pedido de voto efetuado por Lucila Maria Ferrari Favareto ["o votinho t garantido pra ns"] o arremate, reclamando uma contrapartida do eleitor, pretendendo dizer que estava beneficiando o eleitor.

    O conjunto probatrio revela a materialidade e a autoria do ilcito por parte da acusada Lucila Maria Ferrari Favareto, com manifesta proposta de cirurgia de Nathaniel Antonio Mazetto em troca de voto.

    O aliciamento eleitoral restou configurado na propra Maria Ferrari Favareto, com as credenciais de Secretria Municipal

    E, mesmo se fosse indispensvel a interfrr agentes pblicos para adiantar a cirurgia - agendada de mo essa circunstncia no obstaria a configurao criminal:

    ousada Lucila ade^

    candic lar - aindi

    atos / assim

    que, conforme pontua a jurisprudncia, tipicamente formal e unilateral; no se reclama ui vontades de corruptor e corrompido convirjam. Igalm< forma de consequncia material, uma efetiva des. intento do corruptor; por isso, ainda que a 'vitima' mnima forma tentada a aderir proposta, na (TRESC. Acrdo n. 30.252, de 11.11.2014, Juiz hflio doMille Pereira - grifei).

    cnttyie je corrup/ao eleitoral aoto/de corrupo em que

    'e njao seu requisito alguma do/destinatria da merc ao

    ao s sinta pressionada ou de disso impede/a consumao"

    Como o elenco probatrio atfesta^ a corrij Lucila Maria Ferrari, transcrevo entendim^nt^/jurispru^ aplicvel ao caso presente:

    }o eleitoral praticada por ncial alo TSE que entendo

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    Presume-se o que normalmente ocorre, sendo excepcional a solidariedade no campo econmico, a filantropia", motivo pelo qual "verificado um dos ncleos do artigo 41-A da Lei n. 9.504/97 - doar, oferecer, prometer ou entregar ao eleitor bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza - no perodo crtico compreendido do registro da candidatura at o dia da eleio, inclusive, presume-se o objetivo de obter voto, sendo desnecessria a prova visando a demonstrar tal resultado. [Ac. TSE, REspE n. 25146, de 07.03.2006, Relator designado Min. Marco Aurlio]

    Quanto visita do acusado Csar Martinelli casa da famlia de Nathaniel Antonio Mazetto, as testemunhas afirmaram que ele no tratou sobre cirurgia e tampouco ofereceu qualquer benefcio em troca de votos. Vejamos as afirmativas nesse sentido:

    Marirosa Zabot Mazetto, me de Nathaniel, compromissada legalmente, declarou em Juzo (fls. 493-495), ao responder s perguntas do Ministrio Pblico e da defesa, que atravs de conversa com 'a denunciada Lucila', soube que se filho 'seria incluso na lista se ela votasse nos candidatos denunciados'.

    Narrou ainda que acha que Csar no condicionou a cirurgia ao seu voto (fls. 496/497).

    Andressa Cristina Mazetto, irm de Nathaniel, afirmou que o candidato Csar no falou sobre a indigitada cirurgia, "No, ele s pediu voto tambm. Pediu voto 'pra' eles, mas no foi, quem ofereceu a cirurgia em troca do voto, foi a dona Lucila" (fls. 496-497).

    Nathaniel Antonio Mazetto, ao depor sobre a alegao de 'cirurgia em troca de votos", afirmou que nunca conversou com os candidatos denunciados (fls. 490-492).

    Portanto, em relao cirurgia no joelho de i^itlianiel Antonio Mazetto, conclui-se que os candidatos Mauri Jos Zucco e Ce^/laiis Martinelli no podem ser condenados face ausncia de provas. / / /

    Est suficientemente comprovada a corrupoo eleitraj^raticadaypela r Lucila Maria Ferrari Favareto, conforme seguinte entend^entmlupi^rudencial/

    Comprovada a promessa de vantagerc/a eleitor em troca de/voto, resta caracterizado o crime previsto no api/299 ri/QE. A pena-base deve ser fixada no seu patamar mnimo/guando M o houver /circunstncias judiciais desfavorveis ao ru/[TRE/SC, ^Cr ime n. d&J, rei. Pedro Manoel Abreu, j. em 5/12/2005]/ / / j j /

    6. Comprovado o ilcito e a / a i ^ i a da Mcusada Queila Maria Ferrari Favareto, passo a apreciar a penalidade correspondente. /

    Afasta-se a possibilidade da/apflcao d^princpL insignificncia porque ele somente deve ser aplicado nos crimeLcxintra o ps)lrimnio( quando o valor do bem jurdico tutelado nfimo. Como o bem ora tutelado o livre/exerccio do voto, a lisura

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  • Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina AO PENAL N. 83-53.2014.6.24.0000 - DENNCIA - CRIME ELEITORAL -CORRUPO ELEITORAL do processo de obteno do voto, o referido princpio no pode ser utilizado para excluir a tipicidade da conduta. Alm disso, a jurisprudncia exige um grau de reprobabilidade reduzido do comportamento do autor, o que no o caso dos autos. O crime previsto no art 299 do CE atinge um bem jurdico de grande valor e a conduta veementemente reprovada pelo ordenamento jurdico [TSE, AGr. Inst. n. 10672/SC, rel.a Min.a Carmen Lcia, j. 28-10-2010].

    O princpio da insignificncia ou doutrina da bagatela, esbarra em dois obstculos:

    1) Apropria-se a certos delitos contra o patrimnio, nos quais a insignificncia do resultado prepondera ao, em termos de poltica repressiva;

    2) A lisura do sufrgio, principalmente em colgios eleitorais de menor expresso, sofre efeitos considerveis a partir de ofertas ilcitas em expresso de valor, porque, a mide, a induo moral decorrente da prpria oferta, ou doao, e no o seu contedo, que embute na conscincia do eleitor mal-avisado, ou ainda despreparado, o efeito maligno do aliciamento [Tito Costa, Crimes Eleitorais e Processo Penal Eleitoral, So Paulo, Editora Juarez Oliveira, 2002].

    O art. 299 do Cdigo Eleitoral prescreve, in abstrato, para o crime de corrupo as penas de "recluso at quatro anos e pagamento de 5 a 15 dias-multa".

    Integrando a quantificao penal, o teor do art. 284 do Cdigo Eleitoral estabelece que "sempre que este Cdigo no indicar o grau mnimo, entende-se que ser ele de quinze dias para a pena de deteno e de um ano para a pena de recluso".

    Na fixao da pena-base, conforme o art. 59 do Cdijgo Penal, no se tm, em desfavor da r, circunstncias determinantes de acrscirn^^pena mnima.

    Com efeito, a censurabilidade da conduta (cu\p^6jmde) caracterstica espcie; no h informao de antecedentes decises cpndeiytp^se tampouco elementos desabonatrios da conduta social e da per^alidpe da acusada; os motivos e circunstncias do crime so nsitos ao tipo Qrinmnal,/Nao se revelam, nessa conjuntura, fatores modificativos da pena. / / / y /

    Assim, nessa fase, arbitra-se as pen^ emJty\ (um) ano deyrecluso e 05 (cinco) dias-multa, no quantum unitrio de 1/3Q/ (^n^frinra^avos) do /salrio mnimo vigente poca dos fatos (art. 49, 1o, do Cdkj Penal)/ / /

    Para a segunda fase da dosiir^etm, no se evidendam agravantes ou atenuantes que possam alterar o montante penal. j J

    Na terceira e ltima fase, n&o/npaussk de aumento da pena face reiterao criminal. f / II /

    / 18

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    Por fim, nos termos do art. 44, 2o, do Cdigo Penal, substituo a pena de recluso por 02 (duas) restritivas de direito, quais sejam: 5 (cinco) salrios mnimos vigentes poca dos fatos e prestao de servios comunidade pelo perodo de 1 (um) ano.

    7. Pelo exposto, julgo parcialmente procedente a ao penal para absolver os rus Mauri Jos Zucco e Cesar Luis Martinelli com fundamento no art. 386, inciso VII, do Cdigo de Processo Penal, e condenar a r Lucila Maria Ferrari Favareto pena de recluso de 01 (um) ano substituda por 02(duas) restritivas de direito - 5 (cinco) salrios mnimos vigentes ao tempo do fato delituoso e prestao de servio comunidade pelo perodo de 1(um) ano - e de 05 (cinco) dias-multa no valor dirio de 1/30 (um trinta avos) do salrio mnimo vigente ao tempo do fato (art. 49, 1o, do Cdigo Penal), pela prtica do crime do art, 299 do Cdigo Eleitoral em relao ao eleitor Nathaniel Mazetto.

    Com a publicao do acrdo no DJESC, expea-se cpia da deciso para a Corregedoria Re^oxwT^m^oxa^ anotando-se no cadastro de eleitores (Lei Complementar n. 6 4 / 1 9 9 0 ^ . ^ % " , 4).

    Aps o trnsito i r W j ^ ^ o feito ao Juiz Eleitoral para dar cumprimento a deciso, c j^apicr io ofo nome da r no rol de culpados.

    / / / E o vp\oJ V j /

    / / / J / / // / /

    / / / j j / / / 4 I I /

    / / / /

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  • Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina

    EXTRATO DE ATA

    AO PENAL N 83-53.2014.6.24.0000 - AO PENAL - INQURITO - CRIME ELEITORAL -CORRUPO ELEITORAL - ART. 299 DO CE C/C ART. 71 DO CP - PEDIDO DE CONDENAO CRIMINAL RELATOR: JUIZ ANTONIO DO RGO MONTEIRO ROCHA REVISOR: JUIZ VLSON FONTANA

    AUTOR(S): MINISTRIO PBLICO ELEITORAL RU(S): MAURI JOS ZUCCO; CESAR LUIS MARTINELLI; LUCILA MARIA FERRARI FAVARETO ADVOGADO(S): NELI LINO SAIBO; NELI LINO SAIBO JNIOR; PATRCIA SAIBO; MARCOS FERNANDO ZANELLA; MRCIO LUIZ FOGAA VICARI

    PRESIDENTE DA SESSO: JUIZ CESAR AUGUSTO MIMOSO RUIZ ABREU PROCURADOR REGIONAL ELEITORAL: ROGER FABRE

    Deciso: unanimidade, afastar as preliminares e, no mrito, julgar parcialmente procedente a denncia, para absolver os rus Mauri Jos Zucco e Cesar Luis Martinelli e condenar a r Lucila Maria Ferrari Favareto pela prtica do crime de corrupo eleitoral do art. 299 do Cdigo Eleitoral, aplicando-lhe a pena de um ano de recluso - substituda pelas penas restritivas de direito de prestao pecuniria no valor de cinco salrios mnimos e de prestao de servio comunidade pelo perodo da pena privativa de liberdade - e de cinco dias-multa no valor dirio de 1/30 do salrio mnimo vigente poca dos fatos, nos termos do voto do Relator. O Tribunal determinou, ainda, a anotao da condenao no cadastro de eleitores. Apresentou sustentao oral o Advogado Mrcio Luiz Fogaa Vicari. Participaram do julgamento os Juzes Cesar Augusto Mimoso Ruiz Abreu, Antonio do Rgo Monteiro Rocha, Vilson Fontana, Brbara Lebarbenchon Moura Thomaselli, Alcides Vettorazzi, Hlio David Vieira Figueira dos Santos e Ana Cristina Ferro Blasi.

    PROCESSO JULGADO NA SESSO DE 04.04.2016. ACRDO N. 31224 ASSINADO NA SESSO DE 06.04.2016.

    R E M E S S A

    Aos dias do ms de de 2016 fao a remessa destes autos para a Coordenadoria de Registro e Informaes Processuais - CRIP. Eu,

    , Coordenador de Apoio ao Pleno, lavrei o presente termo.