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Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro ACÓRDÃO N 2 56.105 AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO IUDICIAL ELEITORAL N 9 18-04.2011.6.19.0000 AUTOR : MINISTÉRIO PÚBLICO ELEITORAL INVESTIGADO : ANDREIA CRISTINA MARCELLO BUSATTO (ANDREIA DO CHARLINHO) INVESTIGADO : CARLO BUSATTO JÚNIOR (CHARLINHO) ADVOGADOS : Bruno Calfat e outros INVESTIGADO : JORGE LUIS DA SILVA ROCHA (JORGINHO CHARLINHO) ADVOGADOS : Bruno Calfat e outros INVESTIGADO : MARCELO DOS SANTOS GODINHO ADVOGADOS : Andre Luis Reis de Amorim e outro Ação de Investigação Judicial Eleitoral. Eleições 2010. Prática de abuso de poder político, poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação. Configuração. Procedência. Rejeição da preliminar de ilegitimidade passiva dos investigados não candidatos, posto que a norma insculpida no art. 22, XIV, da LC n9 64/90 dispõe que todos os que tenham praticado condutas abusivas com finalidade de promover candidatura, deverão ser punidos. Para tanto, necessário se faz que haja o litisconsórcio passivo. No mérito, configuradas as condutas abusivas. Quanto ao abuso do poder político, tem-se a prática comprovada de coação dos servidores contratados temporariamente ou em comissão, para participarem da campanha da primeira investigada. Além disso, da análise das circunstâncias, observa-se que foi conferido aporte financeiro em jornal para que mudasse de posição e passasse a promover a candidatura da primeira investigada. Quanto ao uso indevido dos meios de comunicação, ficou configurado que os dois últimos investigados, responsáveis pelos periódicos "Jornal Atual" e "Jornal Impacto" usaram-os para promoção indevida da primeira investigada, gerando desigualdade no pleito. Afasta-se a alegação defensiva de potencialidade lesiva, posto que requisito não mais previsto em lei (art. 22, XVI, da LC 64/90). Ademais, ainda que fosse imprescindível a sua aplicação, verificou-se, no caso, que houve gravidade bastante nas condutas para caracterizar o abuso, capaz, inclusive, de influenciar no pleito. Possibilidade de aplicação da penalidade de cassação de diploma e da sanção de inelegibilidade no prazo de oito anos, tendo e vista que uma vez praticada conduta definida como ilícito eleitor I, impõe-se verificar a respectiva sanção prevista em lei no mom nto • - ua ocorrência. Aplicação da LC n 9 135/10, tendo em vista o at•abusivo ter sido praticado na sua vigência. Procedência do pedido.

Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro ACÓRDÃO N2 56 · Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro ACORDAM os Membros do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro,

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  • Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro

    ACRDO N 2 56.105

    AO DE INVESTIGAO IUDICIAL ELEITORAL N 9 18-04.2011.6.19.0000

    AUTOR : MINISTRIO PBLICO ELEITORALINVESTIGADO : ANDREIA CRISTINA MARCELLO BUSATTO (ANDREIA DO CHARLINHO)INVESTIGADO : CARLO BUSATTO JNIOR (CHARLINHO)ADVOGADOS : Bruno Calfat e outrosINVESTIGADO : JORGE LUIS DA SILVA ROCHA (JORGINHO CHARLINHO)ADVOGADOS : Bruno Calfat e outrosINVESTIGADO : MARCELO DOS SANTOS GODINHOADVOGADOS : Andre Luis Reis de Amorim e outro

    Ao de Investigao Judicial Eleitoral. Eleies 2010. Prtica de abusode poder poltico, poder econmico e uso indevido dos meios decomunicao. Configurao. Procedncia.Rejeio da preliminar de ilegitimidade passiva dos investigados nocandidatos, posto que a norma insculpida no art. 22, XIV, da LC n964/90 dispe que todos os que tenham praticado condutas abusivascom finalidade de promover candidatura, devero ser punidos. Paratanto, necessrio se faz que haja o litisconsrcio passivo.No mrito, configuradas as condutas abusivas.Quanto ao abuso do poder poltico, tem-se a prtica comprovada decoao dos servidores contratados temporariamente ou em comisso,para participarem da campanha da primeira investigada. Alm disso, daanlise das circunstncias, observa-se que foi conferido aportefinanceiro em jornal para que mudasse de posio e passasse apromover a candidatura da primeira investigada.Quanto ao uso indevido dos meios de comunicao, ficou configuradoque os dois ltimos investigados, responsveis pelos peridicos "JornalAtual" e "Jornal Impacto" usaram-os para promoo indevida daprimeira investigada, gerando desigualdade no pleito.Afasta-se a alegao defensiva de potencialidade lesiva, posto querequisito no mais previsto em lei (art. 22, XVI, da LC 64/90). Ademais,ainda que fosse imprescindvel a sua aplicao, verificou-se, no caso,que houve gravidade bastante nas condutas para caracterizar o abuso,capaz, inclusive, de influenciar no pleito.Possibilidade de aplicao da penalidade de cassao de diploma e dasano de inelegibilidade no prazo de oito anos, tendo e vista queuma vez praticada conduta definida como ilcito eleitor I, impe-severificar a respectiva sano prevista em lei no mom nto - uaocorrncia. Aplicao da LC n9 135/10, tendo em vista o atabusivo tersido praticado na sua vigncia.Procedncia do pedido.

  • Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro

    ACORDAM os Membros do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro,por unanimidade, em rejeitar a preliminar e, no mrito, julgar procedente o pedidodeclarando-se a inelegibilidade por 8 (oito) anos dos quatro investigados, comfundamento no art. 22, XIV, da Lei Complementar 64/90, cassou-se o diploma da Sra.Andreia Cristina Marcello Busatto e determinou-se a expedio de ofcio AssembleiaLegislativa do Estado do Rio de Janeiro, nos termos do voto do relator.

    Sala de Sesses do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro.

    Rio de Janeiro, 14 de julho de 2011.

    JUIZ ANTUGUSTO GASPARelator

    Ao de Investigao Judicial Eleitoral ri g 18-04.2011.6.19.0000

  • RELATRIO

    Trata-se de Ao de Investigao Judicial Eleitoral por abuso de poder

    poltico, econmico e uso indevido dos meios de comunicao proposta pelo

    MINISTRIO PBLICO ELEITORAL em face de (1) ANDREIA CRISTINA MARCELLO

    BUSSATO (Andreia do Charlinho), candidata eleita ao cargo de Deputado Estadual

    pelo PDT; (2) CARLOS BUSSATO JUNIOR (Charlinho), Prefeito de Itagua; (3) JORGE

    LUIS DA SILVA ROCHA (Jorginho Charlinho), Vereador de Itagua; (4) MARCELO DOS

    SANTOS GODINHO, Diretor do Jornal Atual.

    Sustenta que durante o ano de 2010 os representados se utilizaram

    da estrutura da Prefeitura de ltagua para beneficiar a candidatura da P

    representada, por meio da utilizao de jornais em circulao na cidade e da

    gigantesca estrutura de cargos comissionados e contrataes sem concurso pela

    municipalidade, com vistas obteno de apoio poltico e de votos para a primeira

    investigada.

    Relata que os representados se valeram do apoio macio e abusivo

    dos peridicos "Jornal Atual", "Jornal Impacto" e "No Stilo" com grande circulao

    nos Municpios de ltagua, Seropdica e Mangaratiba, realizando publicao de

    propaganda eleitoral em benefcio da ento candidata Andreia do Charlinho, ora [email protected]

    investigada.

    Assevera que, at o incio de 2009, o 4-Q investigado, Marcelo

    Godinho, editor e dono do "Jornal Atual", fazia oposio ao governo do 2(2

    investigado, Charlinho, aduzindo, inclusive, "a inviabilidade econmica de sua

    atividade" jornalstica em razo da perseguio do Poder Pblico Municipal, que

    ameaava prejudicar seus anunciantes e pressionava as bancas a no venderem o

    peridico.

    Destaca que o referido peridico, aps ter sido escolhido, sem

    licitao, para realizar as publicaes oficiais do municpio de Seropdica, cujos

    governantes fariam parte do grupo poltico do 2 2 investigado, passou a fazer

    campanha em favor da 1 P- investigada.

    Ressalta que o aludido peridico era editado semanalmente,

    passando a ser editado quatro vezes por semana.

    Afirma que o "Jornal Impacto", de propriedade do 3 12 investigado,

    Jorginho Charlinho, criado como um panfleto para o grupo que apoiava o 29-

    investigado, Charlinho, foi registrado como firma individual na Junta Comercial,

  • constando como proprietria Elizabeth Neves de Oliveira, me da atual

    companheira do 3 2 investigado, Sheila Neves de Oliveira, que vem a ser a

    responsvel pela parte comercial do peridico, sendo certo que a distribuio do

    referido jornal se dava gratuitamente.

    Alega que o endereo de sua sede o mesmo daquele encontrado

    nos cadastros da Justia Eleitoral de Jorginho Charlinho e de sua companheira,

    ressaltando, ainda, que no local h to somente uma casa que permanece quase

    sempre fechada.

    Assevera que o "Jornal Impacto" no possui o devido registro junto

    ao Registro Civil de Pessoas Jurdicas e que, atualmente, no faz meno aos

    nomes de editores, grfica ou responsveis, pelo jornal ou pelas matrias, em sua

    publicaes.

    Destaca que o 3 2 investigado pertence a tradicional famlia de

    polticos da regio, tendo se aliado a Charlinho quando do segundo mandato deste

    como Prefeito em Mangaratiba, e que o peridico fora criado em 2004 visando a

    impulsionar sua candidatura.

    Narra que o "Jornal Impacto" foi condenado multa de R$50.000,00,

    no Recurso Eleitoral 2491/2004, que se encontra apensado presente AIJE, em

    razo de irregularidades cometidas na campanha de 2004, consubstanciadas no

    seu uso poltico e na realizao de propaganda extempornea em prol da

    campanha de Charlinho.

    Sustenta que tramita, junto ao Juzo da Comarca de Mangaratiba,

    Ao de Improbidade Administrativa para apurao do uso irregular dos meios de

    comunicao para promoo pessoal do Sr. Charlinho, ento Prefeito de

    Mangaratiba, imputando-lhe a destinao irregular de dinheiro pblico ao peridico,

    na qual restaria demonstrada que desde sua criao o aludido jornal fora usado

    como panfleto poltico.

    Afirma que Sheila Neves e Elizabeth Neves, companheira e sogra do

    3 2 investigado, Jorginho Charlinho, eram funcionrias comissionadas da Cmara

    Municipal, quando o irmo de Jorginho, de nome "Fabinho", era vereador. J na

    administrao do Sr. Charlinho, na Prefeitura de Itagua, passaram a ocupar cargos

    comissionados na municipalidade.

    Informa, ainda, que Srgio Roberto Gonalves, editor do Jornal

    Impacto e do "ABC Dirio", foi nomeado para cargo em comisso no primeiro dia

  • da administrao de Charlinho, e que continua a publicar matrias promocionais

    dos "Charlinhos".

    Salienta que em 2004 foi proposta ao de investigao judicial

    eleitoral apontando o uso poltico do "Jornal Impacto" na qual, em depoimento nos

    autos, o Sr. Srgio Roberto "deu a entender" que suas matrias seriam fruto de

    opinio jornalstica, e no propaganda institucional paga, sem qualquer vinculao

    com Charlinho. Pondera, contudo, que tal feito foi julgado improcedente por

    inexistncia de prova da vinculao do jornal ao candidato, por se tratar de jornal

    novo, mas que atualmente restaria evidenciada tal vinculao, visto que o

    peridico circula por 6 anos ininterruptos promovendo politicamente o 2Q

    investigado.

    Destaca que os advogados que defenderam o referido jornal

    obtiveram cargo comissionado na Procuradoria Jurdica de ltagua com a posse de

    Charlinho.

    Assevera que a famlia "Charlinho" utilizava-se, ainda, da revista "No

    Rito", criada recentemente e com distribuio gratuita, para promover a

    candidatura de Andreia do Charlinho, tendo com principal anunciante a empresa

    "Marvalle Corretora de Seguros", que ou foi de propriedade do 2 Q investigado e

    de Alexandre Valle, atualmente Secretrio Municipal de Indstria e Comrcio de

    ltagua.

    Relata que no Processo Administrativo n Q 041-57.2010.619.0105

    restou verificada a utilizao da mquina administrativa pelos investigados em prol

    da candidatura da P. investigada, Andreia do Charlinho, em razo do grande

    nmero de funcionrios no concursados e de empregos manipulados pelo 22

    investigado.

    Sustenta a utilizao da mquina administrativa em favor da primeira

    investigada, consubstanciada na existncia de militncia poltico-partidria dos

    funcionrios pblicos municipais, em razo do grande nmero de funcionrios no

    concursados.

    Ressalta que pessoas detentoras de cargos comissionados sem

    ocupao precisa, aps desligamento recente da prefeitura, foram flagrados

    trabalhando no comit de campanha da 1 investigada e que os servidores

    municipais encontravam-se vulnerveis aos apelos e presses do Prefeito,

    asseverando a coao exercida sobre os funcionrios, restando evidente o

    cometimento de abuso do poder poltico.

  • Corrobora sua assertiva com o Termo de Ajustamento de Conduta

    firmado em 2007 e revisto em 2009, em virtude das contrataes irregulares

    perpetradas pela administrao do ento Prefeito.

    Destaca, ainda, que a 1 Q investigada obteve mais de 76% do total de

    seus votos nos Municpios de ltagua, Seropdica e Mangaratiba, locais de

    circulao dos aludidos peridicos, o que comprovaria o abuso do uso dos meios de

    comunicao e do poder econmico.

    Outrossim, afirma que o abuso de poder poltico teria se revelado na

    coao dos servidores da prefeitura de Itagua para participarem da campanha em

    favor da primeira investigada, bem como na "capitulao econmica" do "Jornal

    Atual", que implicou em radical mudana de sua orientao ideolgica.

    Por essas razes, requer a cassao do registro das candidaturas ou

    eventualmente dos diplomas, com a declarao de inelegibilidade dos

    representados pelo prazo de oito anos, na forma prevista na Lei Complementar nQ

    135/2010.

    Instruem a inicial expedientes do Ministrio Pblico Eleitoral, para

    apurao de irregularidades perpetradas pelo Prefeito de Itagua (fls. 28-583);

    Processo Administrativo n Q 41-57.2010.619.0105, onde se apura notcia de

    irregularidade em face da primeira investigada (fls. 584-790); e Processo

    Administrativo n Q 42-42.2010.619.0105, onde se apura notcia de irregularidade em

    face da primeira investigada (fls. 791-976).

    Defesa de Andreia do Charlinho, 1 @ investigada e de Carlos Busatto,

    2 2 investigado, s fls. 1000/1020 aduzindo, preliminarmente, a ilegitimidade

    passiva do 2 Q investigado, vez que no foi candidato s eleies de 2010 e que a

    penalidade imposta pelo XIV do art. 22 da Lei Complementar 64/90 alcana apenas

    candidatos, no podendo o 2 Q investigado ter o seu diploma cassado.

    No mrito, alegam que no h proibio para a imprensa escrita

    assumir posio em relao aos pleitos eleitorais, sem que isso caracterize

    propaganda eleitoral ilcita. Narram que as matrias anexadas na inicial sequer

    expressaram apoio candidatura da 1 .9 investigada.

    Argumentam que por ser a V investigada ento candidata ao cargo

    de deputado estadual no pleito de 2010, primeira-dama e Secretria de Educao e

    Cultura de ltagua, os peridicos locais apenas informavam sua presena em

    determinados eventos ocorridos na cidade.

    Li

  • Informam que o "Jornal Atual" jamais celebrou contrato com o

    Municpio de Itagua, nem veiculou propaganda institucional da Prefeitura ou dos

    investigados, sendo certo que so diversos os anncios publicitrios trazidos no

    peridico, evidenciando-se, assim, a sua principal fonte de receita.

    Afirmam que, com relao ao "Jornal Impacto", os anncios

    publicitrios representam a sua receita, no havendo somente anncios da 'Porto

    Veculos", como alega o Parquet, e que h no peridico propaganda eleitoral de

    diversos polticos adversrios dos investigados.

    No que tange revista "No Stilo", asseveram que sua fonte de renda

    so os anncios publicitrios, e que a edio de maro de 2010 trouxe reportagem

    com a l investigada, j que ela era Secretria Municipal de Educao e Cultura, e

    mulher de destaque na regio, no havendo qualquer conotao de propaganda

    poltica.

    No que diz respeito s assertivas do autor de contratao irregular,

    alegam que j houve Termo de Ajustamento de Conduta celebrado com o

    Ministrio Pblico Estadual sobre o tema, decorrendo disso, inclusive, a realizao

    de concurso pblico no primeiro semestre de 2011.

    Ademais, afirmam que no houve contratao fora da rotina no ano

    de 2010, no havendo indcio de benefcio para a primeira investigada, e que a

    contratao temporria de servidores ocorreu devido a abertura de 12 novas

    escolas, com capacidade, cada uma, de cerca de 1000 alunos, bem como de 8

    creches e mais de 10 postos de sade.

    Aduzem a ausncia de coao de servidores, visto que as dispensas

    de servidores contratados temporariamente no precisam ser motivadas,

    rebatendo a afirmao do autor quanto irregularidade delas.

    Negam, ainda, a suposta ilicitude no trabalho de ex-funcionrios da

    Prefeitura na campanha da l investigada.

    Alegam que os peridicos tm tiragem de cerca de 6 mil exemplares,

    enquanto que, no Rio de Janeiro, h 11 milhes de eleitores, sendo necessrio

    alcanar quociente eleitoral de mais de 60 mil votos para eleio de Deputado

    Estadual, motivo pelo qual no h potencialidade lesiva no suposto abuso, vez que

    tais condutas seriam irrelevantes para a eleio da 1 investigada.

    Assim, concluem que os pedidos devem ser julgados improcedentes,

    por no haver caracterizao de qualquer tipo de abuso por parte dos investigados.

  • Por fim, ressaltam que os Srs. Aramis Brito Bezerra Junior, Vicente

    Cicarino e Benedito Marques so adversrios polticos notrios do 2 Q investigado,

    da porque seus depoimentos ao Parquet devem ser considerados imprestveis,

    ainda mais porque no terem sido submetidos ao crivo do contraditrio, j que sua

    oitiva ocorreu apenas na presena do Ministrio Pblico Eleitoral, em procedimento

    prprio.

    Defesa do 4 Q investigado, Marcelo Godinho, s fls.; 1022-1045, na

    qual aduz, preliminarmente, sua ilegitimidade passiva, posto que no concorria -

    nem nunca concorreu - a qualquer cargo eletivo, no lhe podendo ser aplicada a

    pena de inelegibilidade.

    No mrito, alega que no h na inicial qualquer imputao de

    conduta ilcita por ele praticada.

    Relata ser o diretor do "Jornal Atual", criado h mais de 10 anos,

    nico que mantm imparcialidade na sua linha editorial, da porque no ser

    distribudo gratuitamente, mas comprado pelos leitores que acreditam no tipo de

    jornalismo que faz.

    Sustenta que o Ministrio Pblico Eleitoral, em sua nsia acusatria,

    sem qualquer embasamento chegou a propor sano de inelegibilidade em face do

    "Jornal Atual", em feito que tramita na 502E.

    Afirma que o autor atua de forma inconsistente, na medida em que,

    apesar de elencar outros peridicos - "Jornal Impacto" e a revista "No Stilo" - que

    so distribudos gratuitamente, no chama para o polo passivo os respectivos

    diretores.

    Refuta a alegao de que houvera acordo financeiro com o Sr.

    Charlinho, para que adotasse postura parcial quanto s notcias veiculadas no

    peridico, com lastro no depoimento do Sr. Aramis Brito, considerando-o passional,

    vez que o depoente sentiu-se atingido com a linha editorial adotada pelo peridico,

    de imparcialidade.

    Informa, ainda, que a mudana de sua sede no se deu em virtude

    de acerto poltico, relatando que a antiga sede, alugada por R$890,00 por ms, foi

    trocada pela atual porque, na poca, pareceu-lhe a oportunidade de locar imvel 4

    vezes maior por apenas R$1.300,00, valor muito abaixo do comum na regio.

  • Narra que o "Jornal Atual" publica atos da prefeitura de Seropdica,

    mas que o autor no informou que o ento Prefeito foi substitudo pelo Sr.

    Martinazzo, que realizou licitao para contratao de servios de imprensa,

    logrando xito o referido peridico no certame.

    Salienta a incongruncia do autor, quando, perante o Juzo da [email protected],

    acionou o 4Q investigado por suposto favorecimento ao candidato derrotado Z Luis

    do Posto, nas eleies suplementares de Mangaratiba, candidato este adversrio

    ao grupo poltico dos "Charlinhos", e, agora, tenta imputar-lhe suposto

    favorecimento da 1-4 investigada, esposa do 2 Q investigado, Sr. Charlinho,

    pugnando pela improcedncia do pedido.

    Defesa do 3 Q investigado, Jorge Luiz da Silva Rocha (Jorginho

    Charlinho), s fls. 1065-1083, afastando as imputaes autorais, sob os mesmos

    argumentos utilizados pelo 4 Q investigado em sua pea defensiva.

    Manifestao do Ministrio Pblico Eleitoral s fls. 1088-1089,

    refutando as preliminares de ilegitimidade passiva ventiladas nas defesa, face ao

    entendimento pacfico em doutrina e jurisprudncia quanto possibilidade de

    qualquer pessoa figurar no polo passivo de Ao de Investigao Judicial Eleitoral,

    se houver contribudo para a prtica eleitoral abusiva.

    Audincia, fl. 1097, com colheita de prova oral das testemunhas

    Srs. Vicente Antonio Santiago Cicarino e Genessi Machado s fls. 1098/1100.

    Alegaes finais de Andreia do Charlinho, 1 g- investigada, Charlinho e

    Jorginho Charlinho, 2 Q e 32 investigados, s fls.1103-1118, sustentando a no

    comprovao da prtica de qualquer abuso ou ilicitude por parte dos investigados,

    requerendo a improcedncia do pedido, salientando que a prova oral produzida em

    audincia mostrou-se completamente viciada, vez que nenhuma das duas

    testemunhas foi capaz de esconder o comprometimento e evidente interesse no

    acolhimento desta ao.

    Alegaes finais de Marcelo Godinho, 4 2 investigado, s fls. 1119-

    1138, reiterando a arguio de ilegitimidade passiva, posto que no fora candidato

  • ao pleito de 2010, devendo ser excludo do polo passivo tambm porque o

    peridico pelo qual responsvel poderia assumir posio em favor de campanha

    eleitoral, apesar de no t-lo feito. Ademais, suscita o princpio da presuno da

    inocncia, nos termos do processo penal, sendo certo que as duas testemunhas

    ouvidas na audincia confirmaram que inmeros outros candidatos tiveram notcias

    publicadas no "Jornal Atual".

    Ademais, afirma que tais depoimentos no merecem credibilidade,

    pois apoiam a futura candidatura do Sr. Aramis Brito, o qual j vem fazendo

    pesquisas na Internet sobre sua eventual candidatura, destacando que no h

    comprovao da acusao de que houve acordo financeiro entre o ele e o Sr.

    Charlinho, revelando-se absurda a acusao de que o peridico sob sua

    responsabilidade presta servios para a prefeitura de Seropdica sem licitao.

    Alegaes finais apresentadas pelo Ministrio Pblico Eleitoral s fls.

    1139-1154, afastando a alegao de ilegitimidade passiva, reiterando no mais, as

    alegaes iniciais.

    o relatrio.

  • VOTO

    Ao de Investigao Judicial Eleitoral. Eleies 2010. Prtica deabuso de poder poltico, poder econmico e uso indevido dosmeios de comunicao. Configurao. Procedncia.

    Rejeio da preliminar de ilegitimidadepassiva dos investigados no candidatos, posto que a normainsculpida no art. 22, XIV, da LC n 2 64/90 dispe que todos osque tenham praticado condutas abusivas com finalidade depromover candidatura, devero ser punidos. Para tanto,necessrio se faz que haja o litisconsrcio passivo.

    No mrito, configuradas as condutasabusivas.

    Quanto ao abuso do poder poltico,tem-se a prtica comprovada de coao dos servidorescontratados temporariamente ou em comisso, paraparticiparem da campanha da primeira investigada. Almdisso, da anlise das circunstncias, observa-se que foiconferido aporte financeiro em jornal para que mudasse deposio e passasse a promover a candidatura da primeirainvestigada.

    Quanto ao uso indevido dos meios decomunicao, ficou configurado que os dois ltimosinvestigados, responsveis pelos peridicos "Jornal Atual" e"Jornal Impacto" usaram-os para promoo indevida daprimeira investigada, gerando desigualdade no pleito.

    Afasta-se a alegao defensiva depotencialidade lesiva, posto que requisito no mais previstoem lei (art. 22, XVI, da LC 64/90). Ademais, ainda que fosseimprescindvel a sua aplicao, verificou-se, no caso, quehouve gravidade bastante nas condutas para caracterizar oabuso, capaz, inclusive, de influenciar no pleito.

    Possibilidade de aplicao dapenalidade de cassao de diploma e da sano deinelegibilidade no prazo de oito anos, tendo em vista que umavez praticada conduta definida como ilcito eleitoral, impe-severificar a respectiva sano prevista em lei no momento desua ocorrncia. Aplicao da LC n 2 135/10, tendo em vista oato abusivo ter sido praticado na sua vigncia.

    7. Procedncia do pedido.

    Preliminarmente, aduzem os Srs. Carlos Busatto Junior, Jorge Luis da Silva

    Rocha e Marcelo dos Santos Godinho, respectivamente, segundo, terceiro e quarto

    investigados, sua ilegitimidade para compor o polo passivo da demanda, posto que no

    foram candidatos ao pleito de 2010.

  • A alegao no merece prosperar, na medida em que o art. 22, inciso

    XIV, da Lei Complementar 64/90 determina, in verbis:

    julgada procedente a representao, ainda que aps aproclamao dos eleitos, o Tribunal declarar a inelegibilidade dorepresentado e de quantos hajam contribudo para a prtica doato 1 "...] (Grifou-se).

    Nesse diapaso, conclui-se que, se a punio da inelegibilidade pode ser

    aplicada a todos os que hajam contribudo para a prtica do ato, logo, todos podemparticipar do polo passivo da demanda. Tem-se, in casu, a formao de litisconsrcio

    passivo facultativo. Por bvio, no poder haver a decretao de inelegibilidade

    daqueles que perpetraram a conduta abusiva, em benefcio de candidato, sem que

    sejam chamados a participar do feito, por meio da citao.

    Para sedimentar o entendimento, bem discorre Adriano Soares da Costa,

    ao enumerar que a ao de investigao judicial eleitoral pode ser proposta contra:

    7"...] (a) os candidatos beneficiados pelo abuso de podereconmico e poltico, ou pela utilizao indevida de transportese meios de comunicao [ ...I, e (b) qualquer pessoa, candidatoou no-candidato, que beneficie ilicitamente algum candidato, oumesmo aspirante a candidato (que depois venha a obter oregistro), pela prtica de atos proibidos por lei de modo ainfluenciar indevidamente na vontade do eleitor, menoscabandosua liberdade de voto." (In Instituies de Direito Eleitoral, 7Ped.Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008, p. 358) (Grifou-se).

    Assim, afasta-se a alegao preliminar de ilegitimidade passiva adcausam, levantadas pelos trs ltimos investigados.

    Passa-se, ento, anlise do mrito.

    O Parquet ajuizou ao de investigao judicial eleitoral em face de

    Andreia Busatto (Andreia do Charlinho), candidata eleita ao cargo de deputado

    estadual no pleito de 2010, como beneficiria da suposta conduta de abuso de poder

    poltico, econmico e do uso indevido dos meios de comunicao. Tal ao foi ajuizada

    AO

  • tambm em face do Sr. Carlos Busatto (Charlinho), Prefeito de Itagua, por usar a

    mquina pblica em favor da candidatura da primeira investigada, bem como dos Srs.

    Jorge Rocha (Jorginho do Charlinho) e Marcelo Godinho por panfletarem nos peridicos

    sob sua responsabilidade, respectivamente "Jornal Impacto" e "Jornal Atual", em favor

    da primeira investigada.

    V-se que o Parquet, em sua inicial, separou as condutas abusivassupostamente cometidas pelos investigados, motivo pelo qual, para melhor

    interpretao das alegaes das partes luz das provas produzidas, tambm sero

    analisadas neste momento em separado.

    DO ABUSO DO PODER POLTICO

    O Parquet pretende caracterizar o abuso de poder poltico sobre duascondutas praticadas pelo Sr. Carlos Busatto, segundo investigado, quais sejam: (i) a

    coao dos servidores municipais para participarem da campanha da primeira

    investigada; (ii) e a alavancagem econmica do "Jornal Atual", aps ameaas ao

    responsvel pelo peridico.

    Num primeiro momento, trata do uso da mquina pblica da prefeitura,

    pelo Sr. Carlos Busatto, em favor da candidatura da Sra. Andreia Busatto, atravs da

    coao de servidores pblicos para participarem da campanha eleitoral.

    H, nos autos, depoimento do Sr. Genessi Machado (fl. 1100), sob o crivo

    do contraditrio, em que afirma ter sido demitido do seu cargo, na prefeitura de

    Itagua, por no ter feito campanha em favor da primeira investigada. Afirma,

    peremptoriamente, que houve convite aos servidores municipais para participarem da

    campanha da primeira investigada.

    Cabe tambm transcrever excertos das aludidas declaraes de Genessi

    Machado perante o Ministrio Pblico Estadual (fls. 694-695):

  • "(...) que o declarante tem dezenove anos ininterruptos detrabalho na Prefeitura de Itagua; que trabalhou na Prefeitura naadministrao de distintos prefeitos; (...) que h cerca de duassemanas teve uma reunio com a candidata a deputadoestadual Andreia Bussatto no prdio ao lado do supermercadoPEGPAG (...) que no faria papel de cabo eleitoral, tendoinclusive comentado que estava em situao financeira difcil eno poderia dispor de tempo gratuitamente; que sabe dizer queexistem reunies polticas na casa de funcionrios, diretoras e osfuncionrios da educao so chamados boca a boca paracomparecer; (...) que muitos dos funcionrios da educao socontratados, sem estabilidade; que o declarante no respondeua nenhuma sindicncia administrativa e no de seuconhecimento que exista reclamaes sobre sua condutaprofissional; que na data de hoje (06/08/2010) chegou a EscolaMunicipal Coronel Alziro Santiago, no bairro Mazombinha, paraassumir seu posto de trabalho, s 6:50, horrio normal, e juntocom o declarante chegou outro vigia da prefeitura, de nomeFrancisco, com memorando para assumir o posto de trabalhonesta data; que j trabalhava como vigia da referida escola hsete anos; (...) fez contato com Valter Santiago, coordenador daGuarda Municipal; (...) que informou a citada diretora que odeclarante estaria demitido; (...) por motivo da campanha daAndreia (...)."(fls. 694-695)

    Fica claro, portanto, que a prova oral acostada aos autos, tanto em sede

    judicial, quanto ministerial (fls. 694/695), demonstra que houve, por parte do segundo

    investigado, coao de servidores para apoiarem a candidatura a deputado estadual

    da primeira investigada.

    Alm disso, quando do cumprimento de mandado de busca e apreenso

    expedido, em 23/07/2010, pelo Juzo da 109 Zona Eleitoral deste Estado, verificou-se

    que vrios funcionrios da Prefeitura de Itagua estavam trabalhando na campanha da

    primeira investigada (fls. 589-590 e 672).

    Destaca-se que a mdia foi analisada por este Relator e que dela

    constavam inmeros nomes dos servidores do Poder Executivo de Itagua, em quatro

    arquivos, sendo dois da Secretaria de Educao referentes ao meses de junho e julho

    de 2009 e outros dois das demais secretarias do Municpio de Itagua com meno dos

    mesmos meses.

  • Ressalta-se que o convite, feito pelo prefeito de Itagua - ou sob suas

    ordens - possui uma carga compulsria aos servidores, principalmente aos

    comissionados, de livre exonerao, e aos temporrios, de dispensa imotivada aps o

    perodo de contratao.

    Como bem leciona Adriano Soares da Costa,

    "Abuso de poder poltico o uso indevido de cargo ou funopblica, com a finalidade de obter votos para determinadocandidato. Sua gravidade consiste na utilizao do munuspblico para influenciar o eleitorado, com desvio de finalidade"(Op. Cit., p. 353) (Grifos do original).

    O desvio de finalidade fica demonstrado quando o segundo investigado

    utiliza-se da estrutura da Prefeitura de Itagua para promover a candidatura da

    primeira investigada.

    Ademais, deve-se salientar que a primeira investigada exercia, no ano

    eleitoral, o cargo de Secretria Municipal de Educao e Cultura, recebendo, por conta

    do exerccio do cargo, grande divulgao na cidade e na regio. No bastasse isso, o

    segundo investigado, atravs do uso indevido de sua competncia pblica, buscou

    finalidade alheia ao interesse pblico.

    Consta, ainda, nos autos, s fls. 704-708, Termo de Ajustamento de

    Conduta, firmado em 2007 e reiterado em 2009, entre o Ministrio Pblico e a

    Prefeitura de Itagua, devido a contratao exagerada e irregular de servidores em

    cargo comissionado. A finalidade, demonstrada pelo Parquet, foi eleitoreira, tanto em

    relao ao pleito de 2008 - reeleio do segundo investigado - quanto em relao ao

    pleito de 2010, agora em favor da primeira investigada, para o cargo de deputado

    estadual.

    Alega, o segundo investigado, em sua defesa, que as contrataes

    temporrias de servidores deveram-se abertura de novas escolas, creches e postos

    de sade. Entretanto, no justifica o porqu no lanou, to logo, concurso pblico

    para o preenchimento dessas vagas, respeitando as normas bsicas da Administrao

  • Pblica, como a isonomia - refletida na livre concorrncia e igualdade de condies de

    qualquer pessoa no certame pblico - e a eficincia.

    Pelo contrrio. Justifica em sua defesa que ser realizado concurso

    pblico no primeiro semestre de 2011. Por que no realizado to logo vislumbrada a

    carncia de servidores? Embora o tema receba o respaldo da descricionariedade

    administrativa (convenincia e oportunidade da Administrao Pblica), da anlise dos

    fatos, verifica-se a ocorrncia de desvio de finalidade a ensejar a anlise da prtica

    abusiva ou de omisso da Administrao Pblica. Por que esperar que o Ministrio

    Pblico proponha ajustamento de conduta, em 2007, reiterando-o em 2009, para ento

    verificar a irregularidade das contrataes temporrias? E mais, por que apenas em

    2011? De certo, no cabe o julgamento de tais questes na presente, mas elas saltam

    aos olhos, quando se analisa a inteno de promover a candidatura da primeira

    investigada, atravs do uso da Prefeitura de ltagua.

    Ao que sobressai do refletido nos autos, o segundo investigado buscou

    se afastar da conduta vedada prevista no art. 73, inciso V, da Lei 9504/97, pois que

    no contratou irregularmente no prazo delimitado no dispositivo (3 meses). Ao

    contrrio, a sua conduta denota maior gravidade, pois que, no decorrer dos anos, com

    o uso irregular da mquina pblica em favor da primeira investigada, gerou

    desigualdade de condies no pleito, tratando-se de um atuar com fins eminente

    simulao.

    A conduta abusiva de coao dos servidores municipais para

    participarem da campanha da Sra. Andreia Busatto, assim, restou comprovada.

    O Parquet tambm busca configurar o abuso de poder poltico sob o

    fundamento da prtica de alavancagem econmica do "Jornal Atual".

    Registre-se, que, de acordo com as provas trazidas nos autos, o "Jornal

    Atual", pelo seu editor Sr. Marcelo Godinho, sofreu ameaas por parte do segundo

    investigado, tendo a rixa que existia entre eles sido retratada em diversas matrias

    (fls. 320-321, 325 e 331-332). Como exemplo, pode-se citar notcia constante no site

  • da Associao Brasileira de Jornalismo Investigado, de 13/11/2008, que relata o

    seguinte:

    "Jornal do Interior do RJ tem distribuio reduzida aps criticarprefeito reeleito.O Jornal Atual, de Itagua, interior do Rio de Janeiro, teve suadistribuio significativamente reduzida desde 6 de novembro.Segundo o proprietrio, Marcelo Godinho, as aproximadamente15 bancas que negaram-se a distribuir o jornal so do mesmodono, conhecido por Rodolfo, e que um homem prximo aoprefeito Carlos Busatto (PMDB). (...)."(fl. 320)

    Em outra matria, do blog Notcia de Itagua, Charlinho diz que vai

    processar o Jornal Atual. Eis excerto do referido blog:

    "Charlinho vai processar Jornal Atual. Jornal Impacto, publicadoem 3/11/2008. Charlinho vai processar Jornal Atual por mentir populao. (...)."(fl. 325)

    Entretanto, aps divulgar publicamente a coao sofrida, o quarto

    investigado e editor do peridico cessou de publicar matrias negativas relativas ao

    governo da prefeitura de Itagua, como se constata, por exemplo, da notcia de fl. 39:

    "Charlinho: ' a vez de jorginho assumir a Cmara Municipal'.Em entrevista exclusiva ao ATUAL, prefeito de Itagua, antecipaapoio ao vereador e anuncia projetos." (Jornal Atual, Ano X,Edio 464, 09/07/2010) (fl. 39)

    Como demonstrado nos autos, o quarto investigado, em editorial

    datado de 7.11.2008 (fl. 332), rebate acusaes ao segundo investigado, feitas em

    entrevista ao "Jornal Impacto". O debate acirrado. As acusaes so graves, de

    ambos os lados. No h qualquer sinal de trgua, por nenhuma das partes.

    Contudo, e surpreendentemente, o "Jornal Atual", a partir de 2010 (fls.

    39-59), faz entrevistas exclusivas com os dois primeiros investigados, dando destaque

    eleio da Sra. Andreia Busatto ao cargo de deputada estadual. No s isso! No se

    v mais qualquer matria negativa sobre o governo municipal.

  • Alega o quarto investigado que a postura do peridico sempre foi

    imparcial: no h promoo de candidato, no h opinio do jornal em relao

    qualquer candidatura.

    O Parquet juntou aos autos (fls. 312-313) depoimento de ex-colunista

    que afirmara que houve mudana da linha editorial do jornal, com orientao direta,

    por parte do quarto investigado, de que no haveria mais notcias negativas em

    relao ao governo municipal, suspeitando, inclusive, de capitulao econmica.

    Importante destacar os seguintes excertos do aludido depoimento:

    "(...) que se desligou do Jornal Atual no incio de 2009, pois, napoca, o dono do jornal, de forma suspeita, afirmou que adotariauma linha jornalstica 'chapa branca, que no envolvessequestionamentos ou crticas figura do Prefeito Charlinho, deseus aliados ou da Prefeitura; que at aquele momento o jornal,que atuava com liberdade editorial e padro jornalstico, estavasofrendo grande presso do prefeito; (...) que acredita que o donodo jornal tenha capitulado as presses e possivelmente aceitadoproposta de recompensa financeira para tornar o jornalsubserviente aos interesses do prefeito Charlinho, pois s issoexplica a mudana de rumo do jornal; que quando MarceloGodinho chamou o declarante e lhe disse que a partir de entono poderia mais escrever em sua coluna sobre acertos e errosda administrao municipal e de seus membros, o declarante viuque teria ocorrido algum tipo de acerto; que Marcelo tambmlhe disse que deixaria de ser jornalista para ser empresrio; queo declarante ficou sabendo que o Jornal Atual, recentemente,obteve at um contrato para ser veculo oficial de propagandada Prefeitura de Seropdica, agora na gesto Martinazzo, o qualacabou de assumir aquela Prefeitura, era secretrio de'Charlinho' e foi Vice-Prefeito daquele, fazendo parte do mesmogrupo poltico; (...) podendo afirmar que eram forte as pressesda administrao do Prefeito Charlinho diante da antiga linha deindependncia editorial (...)". (grifo nosso) (fls. 312-313).

    No obstante tal depoimento no ter sido submetido ao crivo do

    contraditrio, as declaraes prestadas, em sede judicial, por Vicente Antonio Santiago

    Cicarino, corroboram as afirmaes acima, conforme se constata nos seguintes trechos

    (fls. 1098-1099):

  • "(...) que o Pastor Aramis foi proibido de escrever no Jornal Atual,passando a escrever folhetos, tal como o de fls. 308 e 311; quetem contato intenso com o Pastor Aramis; que ainda hoje odeclarante e o pastor distribuem o folheto de fls. 308 e 311 aoscidados; que o Pastor Aramis no filiado a qualquer partido enem nunca concorreu a qualquer cargo eletivo; que o pastordeixou o Jornal Atual pois o proprietrio dele disse-lhe que sefossem escritas matrias contra a administrao ele ali nopoderia continuar; (..) que o jornal atuava de formaindependente; que se recorda com uma das ltimas notciascontrrias ao grupo do segundo investigado; (..)." (fls. 1098-1099).

    Cabe tambm transcrever excertos das declaraes de Vicente Antonio

    Santiago Cicarino prestadas em mbito ministerial (fls. 315-319), as quais foram

    ratificadas integralmente pelo declarante em juzo (fls. 1098-1099):

    "(...) que em determinado momento, acreditando ter sido noincio do segundo mandato de 'Charlinho' que o jornal Atualmudou radicalmente de atitude e passou a no mais fazermatrias que de alguma forma mostrasse mazelas do Municpiono solucionadas pela Prefeitura; que o Jornal Atual passou a selogiar os 'Charlinhos'; que todos na cidade notaram a radicalmudana, at porque pouco antes o Jornal Atual vinha publicandocom destaque que estava sendo perseguido pelo Prefeito, o qual,segundo o prprio jornal, pressionava seus anunciantes e donosde bancas para inviabiliz-lo financeiramente; que o prprioMarcelo Godinho saa falando 'a torto e a direita' que o 'Charlinho'estava pressionando os anunciantes para esvaziar o jornal; que,ao que parece deve ter tido algum tipo de acerto para que oJornal Atual passasse apenas a prestigiar o prefeito e seusapadrinhados deixando de fazer matrias jornalsticas que nofosse bem vista pela Administrao (...); que nos ltimos meses oque mais se viu nos Jornais Impacto e Atual foram matrias depuro elogio candidata Andria Busatto, Andria do 'Charlinho,sempre lembrada como 'a candidata' e tendo suas realizaes frente da Secretaria de Educao retratadas como excepcionais;que os elogios eram muitos, exacerbados para o que deveria seruma matria de cunho jornalstico, e crticas nenhuma; quenenhum outro candidato teve cobertura de campanha nemprxima a que foi dada a Andria do Charlinho; (..)". (grifonosso) (fls. 315-319)

    Assim, tem-se a configurao do abuso de poder poltico pela coao aos

    servidores municipais, denotando a prtica de desvio de finalidade por parte do segundo

    7

  • investigado, uma vez que buscou alavancar a candidatura da primeira investigada

    usando da mquina pblica da prefeitura.

    Do mesmo modo, o abuso de poder poltico restou caracterizado, ainda,

    por ter o grupo dos "Charlinhos" colocado em xeque a postura ideolgica do "Jornal

    Atual" com o objetivo de promover a candidatura da primeira investigada. Ressalte-se

    que o abuso de poder poltico sobre o "Jornal Atual" tambm objeto do uso indevido

    dos meios de comunicao.

    DO USO INDEVIDO DOS MEIOS DE COMUNICAO.

    Roberto Moreira de Almeida, citando Delosmar Mendona Jnior, ensina o

    seguinte acerca do uso indevido dos meios de comunicao, previsto no artigo 22 da

    Lei Complementar 64/90:

    "Delosmar Mendona Jnior (Manual de direito eleitoral, p. 146),no mesmo diapaso, trata sobre o papel da mdia e suainterferncia lesiva, se usada abusivamente, no resultado dospleitos eleitorais: o abuso do poder de mdia, ou dos meios decomunicao, a utilizao de veculos da imprensa (rdio,jornal, TV) em benefcio de determinado candidato, concedendo-lhe espao privilegiado ou criticando abusivamente os demais. Hque se distinguir a crtica poltica razovel e at mesmo atomada de posio que se admite nos rgos da imprensaescrita, com a transformao do veculo em 'brao de campanha',atuando ostensivamente como militante de uma candidatura."(grifo nosso) (In ALMEIDA, Roberto Moreira de. Direito Eleitoral,2 @ ed. Rio de Janeiro: JusPodivm, 2009. p. 308)

    O Parquet, em sua inicial, buscou definir as condutas abusivas combastante acuidade. No que tange ao uso indevido dos meios de comunicao,

    demonstra, atravs de farto material probatrio, que os peridicos "Jornal Atual",

    "Jornal Impacto" e revista "No Stilo" foram usados para impulsionar a candidatura da

    primeira investigada.

    sabido que os rgos de imprensa escrita podem apoiar determinado

    candidato, inclusive atravs de editorial. Entretanto, no lhes permitido que

  • travistam suas opinies de matrias jornalsticas, levando o leitor ao erro de

    entendimento sobre a "notcia" divulgada a respeito de determinado candidato. Nesse

    sentido, excertos de julgados do c. TSE:

    1..1 1. O entendimento consagrado na jurisprudncia destaCorte de que 'os jornais e os demais veculos impressos decomunicao podem assumir posio em relao aos pleitoseleitorais, sem que tal, por si s, caracterize propaganda eleitoralilcita' [...J (Ac. de 10.12.2009 no RCED n2 758, rel. Min. MarceloRibeiro) (grifou-se).[ ....1. O princpio constitucional da informao deve serinterpretado em harmonia com os princpios da soberaniapopular e da garantia do sufrgio. [ ...r NE: "[ Contrrio alegao de afronta ao artigo 220 da Constituio Federal!...] oTribunal de origem UI reconheceu no se tratar de meradivulgao de notcia, mas de realizao de propaganda eleitoralextempornea e considera que a liberdade de expresso e demanifestao do pensamento e a liberdade de imprensa devemser exercidas dentro dos limites estabelecidos pelo ordenamento.[ ...1" (Ac. de 13.10.2009 no EARESPE n 2 27.087, rel. Min.Fernando Gonalves.) (Grifou-se).

    Em relao ao "Jornal Atual", cujo responsvel o quarto investigado, Sr.

    Marcelo Godinho, j foi registrada a mudana de postura editorial. Entretanto, deve-se

    consignar que o referido jornal no apoiou abertamente a candidatura da primeira

    investigada, como poderia ter feito, mas publicou inmeras matrias promovendo o

    nome da primeira investigada.

    Assim, no houve expressa tomada de posio pelo jornal ou seu

    responsvel, mas as matrias, nos meses anteriores ao pleito de 2010 (fls. 39-59),

    sempre apresentam os nomes dos "Charlinhos", seja em elogios ao prefeito e governo

    municipal, seja em aluso primeira investigada, candidata ao cargo de deputado

    estadual. De fato, no h espao para outros candidatos. V-se que o peridico buscou,

    inexoravelmente, alavancar a candidatura da primeira investigada, em latente

    confronto com as normas eleitorais.

  • Em relao ao "Jornal Impacto", de responsabilidade atribuda ao terceiro

    investigado, Jorginho Charlinho, claro est o seu papel de panfleto do grupo poltico dos

    investigados. J em 2004, o peridico foi condenado a pagar multa no valor de

    R$50.000,00, por propaganda irregular na campanha municipal poca (Recurso

    Eleitoral 2491, de Relatoria do ento Juiz Antonio Jayme Boente, julgado em

    16/12/2004, cujos autos encontram-se em apenso). Quem concorria aos cargos de

    prefeito e vereador? Os Srs. Carlos Busatto e Jorginho Charlinho, respectivamente.

    Desde ento o peridico vem sendo usado pelo grupo poltico dos

    investigados para alavancar as figuras polticas a eles ligadas. Agora em 2010, com o

    lanamento da candidatura da primeira investigada, o "Jornal Impacto" d-lhe

    destaque exorbitante. Alega o terceiro investigado que o destaque normal, tendo em

    vista que a Sra. Andreia Busatto, naquele ano, era secretria municipal, primeira dama

    e, depois, tornou-se candidata da regio.

    Entretanto, o que se v um arremedo de material jornalstico que

    oculta, se assim pode-se dizer, uma espcie de panfletagem para a primeira

    investigada, gerando desigualdade de condies entre os candidatos para o pleito de

    2010.

    Ademais, o Parquet apresenta cpia do registro, perante a Junta

    Comercial, da firma individual por trs do "Jornal Impacto" (fls. 340-347 e 51, esta do

    Recurso Eleitoral 2491, em apenso). Tem-se o registro no nome de Elizabeth Neves de

    Oliveira, me da esposa do terceiro investigado, Sra. Sheila Neves. Alm disso, o

    registro remete ao endereo "Rua Santo Incio, 85", mesmo endereo do terceiro

    investigado. O registro inicialmente era para confeco de fraldas descartveis e

    produtos afins (fls. 340-341). Foi posteriormente modificado (09.07.2003)

    Mais uma vez, no se busca impedir que a imprensa exera seu mister

    com liberdade. Pelo contrrio. Busca-se, sim, evitar que a liberdade de imprensa seja

    usada em confronto com a democracia, atravs de promoo indevida de candidatos e

    criao, consequente, de desigualdade no pleito. E sem democracia, por bvio, no

    haver liberdade para a imprensa.

  • Todas as cpias do peridico, juntadas aos autos, trazem "notcias" dos

    "Charlinhos". E muitas fotos! Nada de negativo ligado aos investigados. O destaque

    dado primeira investigada latente (fls. 39-59, 525-534 e 537-538). No h espao

    para nenhum outro candidato.

    No bastasse o uso dos "Jornal Atual" e "Jornal Impacto" - de tiragem de

    6.000 exemplares, cada - h, ainda, a revista "No Stilo", que traz, na edio de maro

    de 2010, a primeira investigada, em foto de capa. O destaque dado no s na

    matria de capa, mas em fotos de matrias diversas, no s da candidata, como

    tambm do segundo investigado. H, at, foto do segundo investigado abraado ao

    dono de uma churrascaria, na publicidade do estabelecimento.

    Para ilustrar o raciocnio at aqui narrado, cabe citar, como exemplos,

    algumas matrias jornalsticas em que o nome da primeira investigada realado,

    demonstrando toda a atividade desenvolvida pelo grupo dos "Charlinhos" para,

    utilizando-se de meios de comunicao de grande veiculao na regio, reforar a

    candidatura da primeira investigada, em detrimento dos demais candidatos:

    "Andria Busatto marca a Histria da Educao de Itagual"."Com os olhos no futuro".(Revista no Stilo, Ano II, N 9 9,maro/10) (fls. 718 e 729-734)

    "Picaani, Andreia do Charlinho e Fernando jordo juntos emcaminhada. Para completar a segunda etapa da caminhada dacandidata Andria do Charlinho pelo comrcio de Itagua,Andria contou com a presena do candidato a senador JorgePicciani, Candidato a Deputado Federal Fernando Jordo alm deCharlinho e Vereadores de Itagua que sempre fazem questo deacompanhar Andria em suas caminhadas." (jornal Impacto, AnoVII, Edio 292, de 17/09 a 23/09/2010) (fl. 530)

    "Andria do Charlinho e Fernando jordo so recebidos comcarinho em passeata." (jornal Impacto, Ano VII, Edio 291, de10/09 a 16/09/2010) (fl. 511)

    "jorginho Charlinho Homenageia Andria Busatto e Fernandojordo." (jornal Impacto, de 09/07 a 15/07/2010) (fl. 76)

  • "/tagua tem educao de excelncia! Parabns para educaode Itagual (...) o resultado o alcanado por Itagua consequncia de aes srias, focadas em Leitura, Interpretaoe Produo, que vm sendo implementadas h 5 anos pela Ex-Secretria de Educao e Cultura, Profo Andria CristinaMarcelo Busatto (..)." Gomai Impacto, 09/07 a 15/07/2010) 0-1.85)

    "A Andria Busatto e o Fernando Jordo vem cumprir esse papel.Tenho certeza de que o povo vai entender. Charlinho, sobre aseleies deste ano.()' hora do forginho assumir a Cmara'." Gomai Atual,09/07/2010) (fl. 41)

    Cumpre, ainda, ressaltar que a Revista "No Stilo" uma publicao

    recente, com sua primeira edio em julho de 2009, com custo de R$1,99 e tiragem de

    8.000 exemplares. O alcance , sem dvida, indiscutvel. Todavia, o Parquet entendeu

    por no acionar os responsveis por essa publicao, impossibilitando, assim, a sua

    responsabilizao pela prticas abusivas. Como j discorrido linhas acima, a incluso

    dos agentes, na presente, no obrigatria, pois que se trata de litisconsrcio

    facultativo. Ademais, as matrias da aludida revista no so to contundentes a

    caracterizar ilcito eleitoral, ao contrrio das condutas dos Jornais "Atual" e "Impacto".

    Assim, caracterizado est o uso indevido dos meios de comunicao

    escrita pelos investigados: (i) Sra. Andreia Busatto, beneficiria de todas as "matrias",

    concorrente, pela primeira vez, ao cargo de deputado estadual; (ii) Sr. Carlos Busatto,

    por usar sua prpria imagem e nome, associando-o ao da esposa, para promov-la na

    regio; (iii) Sr. Jorge Rocha, responsvel pelo "Jornal Impacto", por us-lo como panfleto

    do grupo poltico dos "Charlinhos"; (iv) Sr. Marcelo Godinho, por usar o "Jornal Atual", de

    sua responsabilidade, para promoo da candidatura da primeira investigada.

    DO ABUSO DO PODER ECONMICO.

    O Parquet, ainda, afere aos investigados a prtica de abuso do poder

    econmico, devido a distribuio gratuita do "Jornal Impacto" e de parcela da revista

    "No Stilo". Alegam os investigados, resumidamente, que a receita dos peridicos

  • advm dos anncios publicitrios em seu corpo. De fato, deve-se registrar que h

    diversos anncios, de diversos empresrios locais.

    Mas, deve-se, nesse momento, averiguar o que o abuso do poder

    econmico, para fins eleitorais. Nos dizeres de Jos Jairo Gomes:

    "(...) a expresso abuso de poder econmico deve sercompreendida como a concretizao de aes que denotem mauuso de recursos patrimoniais detidos, controlados oudisponibilizados ao agente. Essas aes no so razoveis nemnormais vista do contexto em que ocorrem, revelando aexistncia de exorbitncia, desdobramento ou excesso noemprego de recursos. necessrio que a conduta abusiva tenha em vista processoeleitoral futuro ou em curso. (...)." (In Direito Eleitoral. 6 @ed. SoPaulo: Atlas, 2011. p. 211-212).

    Ora, disso se conclui que no necessrio que haja, de fato, o gasto do

    investigado, ou a vantagem para o eleitor, mensurvel em dinheiro. Tem-se que o

    abuso do poder econmico pode ser configurado - e de fato, na presente o - como o

    uso de recursos financeiros - seja em dinheiro, seja em bens mensurveis em pecnia -

    para a promoo de determinado candidato.

    Conclui-se, pois, que todas as condutas analisadas at ento - com

    exceo da contratao de servidores -, sendo analisadas em conjunto demonstram a

    prtica de atividades, s expensas de terceiros, com razovel utilizao de dinheiro em

    prol da candidatura da primeira investigada.

    A economicidade verificada na medida em que h aporte financeiro em

    benefcio da candidatura impugnada. Com o uso dos peridicos para panfletagem

    escamoteada, tem-se latente a desigualdade de condies entre os candidatos, no

    certame. A primeira investigada utiliza a imprensa escrita como palanque, em total e

    reprovvel afronta s normas eleitorais. Ou seja, o uso da imprensa, tal como

    verificado, adequa-se ao abuso de poder poltico, ao uso indevido dos meios de

    comunicao e abuso de poder econmico.

  • Cumpre, ainda, reproduzir excerto de Jos Jairo Gomes, quando trata do

    conceito de abuso de poder, seja ele poltico ou econmico:

    "Trata-se de conceito fluido, indeterminado, que, na realidadefenomnica, pode assumir contornos diversos. Tais variaesconcretas decorrem de sua indeterminao a priori. Logo, emgeral, somente as peculiaridades divisadas no caso concreto que permitiro ao intrprete afirmar se esta ou aquela situaoreal configura ou no abuso. O conceito elstico, flexvel,podendo ser preenchido por fatos ou situaes to variadosquanto os seguintes: uso nocivo e distorcido de meios decomunicao social; propaganda eleitoral irregular; [...J" (Op.Cit., pp. 442-443).

    DA POTENCIALIDADE LESIVA E DA GRAVIDADE DAS CONDUTAS.

    No cabe alegao de que no h potencialidade lesiva nas condutas

    abusivas, para influenciar o pleito, como pretendem os investigados. Com efeito, bem

    andou o legislador, ao acrescentar o inciso XVI ao art. 22 da Lei Complementar ng

    64/90, in verbis "para a configurao do ato abusivo, no ser considerada a

    potencialidade de o fato alterar o resultado da eleio, mas apenas a gravidade das

    circunstncias que o caracterizam."

    Houve, como se v, a consagrao do que j entendia a Corte Superior

    Eleitoral, que afastava a potencialidade lesiva das condutas abusivas, no importando,

    para a sua configurao, o resultado do pleito:

    [ ...] Ao de impugnao de mandato eletivo. Abuso de podereconmico. Caixa dois. Configurao. Potencialidade parainfluenciar no resultado do pleito. [...J 4. O nexo de causalidadequanto influncia das condutas no pleito eleitoral to-somenteindicirio; no necessrio demonstrar que os atos praticadosforam determinantes do resultado da competio; basta ressairdos autos a probabilidade de que os fatos se revestiram dedesproporcionalidade de meios. [...J" (Ac. de 19.12.2007 noREspe n 1? 28.387, rel. Min. Carlos Ayres Britto.) (Grifou-se).

    Destarte, torna-se necessria a prova da relevncia jurdica do ilcito

    praticado pelo candidato, uma vez que restaram comprovadas as prticas abusivas,

  • graves ao ponto de levar realizao da sua finalidade, ou seja, se o meio apto, til,

    idneo ou apropriado para atingir ou promover o fim pretendido, em outras palavras,

    se a conduta perpetrada pelos agentes se mostrou hbil a promover indevidamente a

    candidatura da primeira investigada, agindo ao arrepio da legislao eleitoral.

    No h que se falar, ento, em potencialidade de a conduta abusiva

    influenciar no resultado do pleito. Com efeito, analisa-se, com a nova lei, a gravidade

    das condutas praticadas, para, ento, configur-las como abusivas. Tal anlise, por

    bvio, foi levada em considerao, linhas atrs, para a caracterizao das condutas

    imputadas aos investigados.

    Por amor ao debate, entretanto, analisa-se a suposta existncia da

    potencialidade lesiva nas condutas abusivas perpetradas pelos investigados.

    Alegam os investigados que as tiragens dos peridicos no so capazes

    para influenciar no resultado do pleito, tendo em vista que no Estado do Rio de Janeiro

    seriam mais de 11 milhes de eleitores, sendo necessrio o quociente eleitoral de 60

    mil votos para eleio de deputado estadual.

    A primeira investigada foi eleita com 62.599 votos. Nas cidades

    abrangidas pelos peridicos - Itagua, Mangaratiba e Seropdica - ela recebeu 28.162,

    6.215 e 12.705 votos, respectivamente. Tem-se uma simples questo matemtica! O

    total de votos nessas cidades - 47.082 - representa mais de 75% dos votos obtidos por

    ela. Houve, de fato, influncia no resultado do pleito, decorrente das prticas abusivas

    perpetradas pelos investigados.

    Assim, se fosse incidente o critrio da potencialidade lesiva, no haveria

    como afast-lo, no caso sob julgamento.

    Diante do exposto, conclui-se que a famlia dos "Charlinhos", em especial

    o segundo investigado, Carlos Busatto, utilizou-se do poder que possui no comando da

    Prefeitura de Itagua para promover a candidatura de Andria do Charlinho, primeira

    investigada, seja por meio da utilizao de servidores municipais na campanha de

  • Andria a deputado estadual, seja por meio do apoio dos peridicos locais (Jornal Atual,

    dirigido pelo quarto investigado, Marcelo Godinho; e Jornal Impacto, comandado de fato

    pelo terceiro investigado, Jorginho Charlinho), tendo inclusive fornecido aporte financeiro

    ao Jornal Atual, para que este mudasse sua orientao ideolgica e passasse a apoiar o

    grupo do primeiro, segundo e terceiro investigados.

    DA APLICAO DA SANO DE INELEGIBILIDADE, NOS TERMOS DA LEI COMPLEMENTAR

    135/2010.

    Uma vez constatada a ocorrncia de abuso de poder poltico, abuso de

    poder econmico e uso indevido dos meios de comunicao, h de se verificar a

    majorao da sano prevista na novel redao do inciso XIV do art. 22 da Lei

    Complementar 64/90, alterado pela Lei Complementar 135/2010, para que se conclua

    sobre a aplicao ou no das sanes e a sua adequao ao princpio constitucional da

    anualidade da legislao eleitoral.

    Com tal intento, podem ser apresentadas, de incio, duas ponderaes.

    A primeira refere-se ao fato de, luz da existncia de carga declaratria

    na deciso que julgou procedente o pedido - alm, claro, da carga desconstitutiva

    que cassa o registro ou o diploma e que consequncia -, conclui-se que a declarao

    da existncia do ilcito retroage data de sua ocorrncia (efeito ex tunc dos

    provimentos declaratrios) e, portanto, naquele momento, j era considerado

    inelegvel.

    Trata-se, na verdade, do reconhecimento de um fato ensejador de

    inelegibilidade. Ad argumentandum tantum, no se pode olvidar a carga constitutiva

    negativa do referido provimento ao cassar o registro ou o diploma e que

    consequncia da declarao de inelegibilidade pelo reconhecimento de ilcito praticado

    durante o processo eleitoral. H de se ressaltar que dito efeito desconstitutivo gera

    efeitos ex nunc. Se, por exemplo, j diplomado, os atos praticados pelo investigado no

    exerccio do mandato sero vlidos at a efetiva cassao.

  • Sob esse raciocnio, dvidas no h de que o fato ilcito e a consequente

    inelegibilidade ocorreram durante o processo eleitoral, motivo pelo qual h de se

    aplicar a antiga redao do inciso XIV do art. 22 da Lei Complementar 64/90, bem

    como o inciso XV do mesmo dispositivo legal, permitindo-se a propositura de Ao de

    Impugnao de Mandato Eletivo. Veja-se que, se h cassao de registro ou de

    diploma, estaremos diante da declarao de existncia de inelegibilidade para a

    eleio que se realiza (inelegibilidade simples), no havendo sano futura, ou seja,

    atingindo pleitos futuros (inelegibilidade potenciada).

    Ora, alegar-se que cassar registro ou diploma nada tem de ver com

    inelegibilidade algo absurdo no aspecto tcnico-jurdico. Mais uma vez, assiste razo

    ao nobre professor Adriano Soares da Costa, no sentido de indicar uma legislao

    eleitoral cujas normas estejam em consonncia sistmica. Sucede que, no fervor de

    regular casusmos, o Estado-Legislador, mais uma vez, impe ao Estado-Juiz demarcar

    a correta aplicao dos institutos jurdicos.

    J a segunda ponderao funda-se na possibilidade de aplicao das

    sanes trazidas pela novel legislao. Ora, o Supremo Tribunal Federal, quando do

    julgamento do Recurso Extraordinrio 633.703, entendeu, por maioria de votos, que as

    alteraes introduzidas pela Lei Complementar 135/2010, nas alneas do inciso I do art.

    1 9-, no se aplicariam s eleies gerais daquele ano, sob pena de afronta ao princpio

    da anterioridade eleitoral, previsto no art. 16 da Constituio da Repblica. Assim, no

    momento da anlise dos registros de candidaturas para o pleito de 2010, caberia aos

    Tribunais verificar a ocorrncia de uma das causas de inelegibilidade previstas na

    legislao anterior.

    O Ministro Gilmar Mendes, a quem coube a lavratura do voto condutor do

    acrdo, fundamenta sua deciso em um conceito alargado de processo eleitoral, o

    qual se inicia com a filiao partidria, um ano antes do pleito, findando-se com a

    diplomao dos eleitos. No seu entender, restringir tal perodo realizao das

    convenes partidrias implicaria na violao aos princpios da igualdade de chances

    entre os candidatos e na garantia constitucional das minorias, uma vez que "a

    competio eleitoral se inicia exatamente um ano antes da data das eleies e, nesse

  • interregno, o art. 16 da Constituio exige que qualquer modificao nas regras do

    jogo no ter eficcia imediata para o pleito em curso." (Extrado do Informativo STF

    620, de 21 a 25/03/2011)

    Tal entendimento no impede, todavia, a aplicao das alteraes

    introduzidas no inciso XIV do artigo 22 da Lei Complementar 64/90 quando da prtica

    de abuso de poder poltico, econmico ou de uso indevido dos meios de comunicao.

    Isso porque deve-se distinguir as causas de inelegibilidade, quanto

    origem, em originrias ou inatas e em inelegibilidade-sano ou cominadas. A

    inelegibilidade prevista no referido inciso XIV, como explicitado no prprio texto legal,

    caracteriza-se como inelegibilidade-sano ou cominada, pois decorrente da prtica de

    ato vedado pela legislao eleitoral.

    Assim, uma vez praticada uma conduta definida como ilcito eleitoral,

    impe-se verificar a respectiva sano prevista em lei no momento de sua ocorrncia.

    No caso em anlise, tendo o ato abusivo sido praticado na vigncia da Lei

    Complementar 135/2010, devem incidir as sanes nela descritas.

    importante destacar que esse raciocnio no est em contradio com

    o entendimento do Supremo Tribunal Federal, em razo da aplicao da sano de

    inelegibilidade no atingir o processo eleitoral em si, podendo at mesmo ser aplicada

    quando de seu trmino, ou seja, aps a diplomao dos eleitos. Logo, no h que se

    falar em mudana nas regras do jogo poltico e, por consequncia, em violao aos

    princpios da igualdade e da anterioridade eleitoral. Ao contrrio, uma vez praticada a

    conduta ilcita, qualquer dos beneficirios ser sancionado com as penas de

    inelegibilidade e, se for o caso, da cassao do diploma, assegurando, dessa forma, a

    plena igualdade entre candidatos no pleito.

    Nesse prumo, a sano de inelegibilidade deve ser aplicada a fatos

    ocorridos aps a publicao da lei inovadora, fato ocorrido em 7 de junho de 2010 - to

    s um ms antes do perodo para o registro de candidaturas - da porque a Corte

    Constitucional posicionou-se, tambm, no sentido da impossibilidade de sua incidncia

  • a fatos anteriores a sua vigncia, verificados e trazidos baila no momento do pedido

    de registro de candidatura.

    Nesse sentido, a lio, a contrario senso, de Jos Jairo Gomes:

    "Conquanto a norma que trate de inelegibilidade sano tenhaeficcia imediata, sua natureza punitiva impede que alcancefatos passados, agravando sano j aplicada em julgamentoanterior" (Direito Eleitoral. 6 P- ed. So Paulo: Atlas, 2011, p.151).

    E, ainda, os ensinamentos de Thales Tcito Cerqueira e Camila

    Albuquerque Cerqueira, ao tratar das alteraes realizadas nos prazos de

    inelegibilidade:

    "Assim, a nova lei, a nosso sentir, somente pode ser aplicadapara os processos que se iniciarem a partir de 7 de junho de2010 e surtindo efeito para as "prximas eleies" (2012 emdiante), por fora do art. 16 da CF/88." (Reformas EleitoraisComentadas. So Paulo: Saraiva, 2010, p. 846)

    Tal posio, antes mesmo do pronunciamento do Supremo Tribunal

    Federal, j havia sido aplicada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Maranho

    em acrdo proferido nos autos do Registro de Candidatura 3337-63/2010, assim

    ementado:

    "ELEIES 2010. IMPUGNAO AO REGISTRO DE CANDIDATURAAJUIZADA PELO MINISTRIO PUBLICO ELEITORAL COM BASE NALC N. 135/2010. INAPLICABILIDADE DA LEI AO CASOCONCRETO. IMPOSSIBILIDADE DE RETROATIVIDADE DA LEIPUNITIVA MAIS SEVERA. IMPROCEDNCIA DA IMPUGNAO.REQUERIMENTO DE REGISTRO DE CANDIDATURA. COLIGAOREQUERENTE COLIGAO "O MARANHO NO PODE PARAR"(PRB, PP, PT, PTB, PMBD, PSC, PR, DEM, PV). CARGO DEDEPUTADO FEDERAL. ATENDIMENTO DAS FORMALIDADESLEGAIS (ART. 11 DA LEI N. 9.504/97 E ART. 26 DA RESOLUON-Q 23.221/10- TSE). DEFERIMENTO DO REGISTRO.1. A inelegibilidade decorrente de ato ilcito configura sano,entendida como 'toda consequncia que se agrega,intencionalmente, a uma norma, visando ao seu cumprimento'(in: Filosofia Do Direito, 14a ed. So Paulo, Saraiva, 1991, p.260).

  • Nas hipteses de inelegibilidade-sano, aplica-se o princpioda anterioridade da lei punitiva, sendo proibido a retroatividadede lei mais severa sob pena de violar-se os incisos XXXIX e XL,art. 5 da Constituio Federal e o princpio da segurana,considerado 'premissa de toda civilizao' (Gustav Radbruch).

    A inaplicabilidade da LC n. 135/2010 a fatos anteriores a suavigncia no configura reconhecimento a direito adquirido ascondies de elegibilidade. A pratica de ilcitos eleitorais navigncia da nova lei enseja a sano de inelegibilidade com basenos novos critrios, e jamais com base nos critrios revogados.

    Assim, embora a LC n. 135 tenha aplicabilidade em tese, spode disciplinar fatos futuros, ocorridos aps a sua vigncia.

    Impugnao julgada improcedente. Registro de candidaturadeferido." (TRE-MA, Acrdo 12.662, Relator juiz MagnoLinhares, sesso de 26.07.2010, publicado em sesso)" (Grifou-se).

    Cabe, ainda, destacar as consideraes tecidas pelo doutrinador Adriano

    Soares da Costa acerca do citado acrdo regional:

    (...) A deciso do TRE/MA simples, sem muita pretenso, masvai ao nervo da questo: h duas espcies de inelegibilidade, ainata e a cominada. A inelegibilidade cominado, efeito de fatoilcito que , tem natureza de sano. Como sano, no poderetroagir. E adverte - como o fizemos aqui no blogue - que aprpria LC 135/2010 chama a inelegibilidade cominada pelonome: sano!(Extrado do site adrianosoares69.qooalepages.com em25/04/2011).

    Sendo assim, no obstante diante de um ilcito de natureza cvel, pode-

    se aplicar s hipteses em que a lei comina a sano de inelegibilidade, o mesmo

    raciocnio quanto anterioridade da lei penal, de modo que incidir a sano prevista

    na lei no momento da prtica da conduta ilcita.

    Esse argumento foi inclusive objeto de anlise no voto condutor do

    mencionado acrdo proferido pelo Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Maranho,

    consoante se extrai dos seguintes excertos, impondo-se uma interpretao a contrario

    sensu para se chegar concluso acerca da aplicao da nova lei:

    "Sendo assim, entendo ser aplicvel espcie as normas dosincisos XXXIX e XL do art. 59 da Constituio Federal que exige aanterioridade da lei punitiva aos fatos ilcitos ensejadores da

  • pena/idade e probe a retroatividade da lei punitiva, a no serpara beneficiar o ru. (...)Na anlise da ocorrncia do fenmeno da retroatividade das leis,o importante a data da ocorrncia dos fatos consideradosilcitos, e no o enfrentamento de suas conseqncias. No casopresente os fatos ensejadores da condenao do impugnadoocorreram antes da vigncia da LC n2.135/2010, sendo obastante para se inferir que a tese sustentada pelo impugnanteimplica na efetiva retroatividade de lei mais severa. (...)A inaplicabilidade da LC n 2. 135 a fatos pretritos no reconhecimento de direito adquirido elegibilidade.Evidentemente se o candidato reiterar sua conduta na vigncia danova lei, a sano da inelegibilidade dever ser aplicada combase nos novos critrios, e jamais com base nos critriosrevogados. (Grifou-se).

    Dessa forma, tendo a conduta ilcita em exame sido praticada aps a

    vigncia da Lei Complementar 135/2010, impe-se a aplicao da sano de

    inelegibilidade pelo perodo de oito anos, contados da data da eleio em que se

    verificou.

    Pelos mesmos fundamentos, plenamente cabvel a fixao da penalidade

    de cassao do diploma.

    Ainda que assim no fosse e no obstante o entendimento que vinha

    sendo adotado pelo Tribunal Superior Eleitoral antes da edio da Lei Complementar

    135/2010, no se afigura razovel que o julgamento da ao de investigao judicial

    eleitoral aps as eleies no permita a cassao do registro. Ora, plenamente

    possvel que este seja desconstitudo e, de forma reflexa, atinja o diploma concedido,

    entendimento que melhor se coaduna com os princpios constitucionais que se

    pretende resguardar com a lei das inelegibilidades, descritos no artigo 14, 9 Q , da

    Constituio da Repblica, bem como pela presuno de que a nova lei deve ter

    incidncia geral e imediata, cabendo ao Estado-Juiz aplic-la de acordo com a

    finalidade social para qual foi constituda, nos termos do art. 5 Q da LICC (DL nQ

    4657/42).

    V-se que ambos os fundamentos se sustentam. Em sntese a primeira

    argumentao tem base eminentemente tcnica, enquanto a segunda funda-se na

    31

  • necessidade de aplicao imediata da lei nova para os fatos presentes e futuros - tal

    como a teoria objetiva concebida por Roubier, em sua tese de direito intertemporal -

    buscando-se, assim, o alcance dos anseios sociais atravs de sua incidncia.

    Portanto, resta demonstrada a aplicabilidade, ao caso em questo, do

    inciso XIV do art. 22 da Lei Complementar 64/90 em sua redao atual.

    Por fim, cumpre destacar, nos termos do entendimento do Supremo

    Tribunal Federal, que tal deciso tem eficcia imediata, conforme se extrai do seguinte

    julgado:

    "MANDADO DE SEGURANA. SUPLENTE DE DEPUTADO FEDERAL.IMPETRAO CONTRA OMISSO DA PRESIDNCIA DA CMARADOS DEPUTADOS. CUMPRIMENTO DE DECISO DA JUSTIAELEITORAL. SEGURANA CONCEDIDA. Rejeitadas, porunanimidade, as preliminares de prejudicialidade, deilegitimidade passiva, de inpcia da inicial por falta de indicaodo litisconsorte passivo e de decadncia. Eficcia imediata dasdecises da justia eleitoral, salvo excees previstas em lei.Comunicada a deciso Presidncia da Cmara dos Deputados,cabe a esta dar posse imediata ao suplente do parlamentar queteve seu diploma cassado. Segurana concedida." (STF, MS25.548/DF, Relatar Ministro Joaquim Barbosa, DJU 9.3.2007)

    Por tudo encimado, vota-se pela procedncia do pedido, declarando-se a

    inelegibilidade, por 8 anos, dos quatro investigados, nos termos do art. 22, XIV, da Lei

    Complementar 64/90, e cassa-se o diploma da Sra. Andreia Busatto, candidata eleita ao

    cargo de deputado estadual.

    Oficie-se Assembleia Legislativa deste Estado, comunicando o teor desta

    deciso, para que declare a vacncia do cargo e d posse ao respectivo suplente.

  • PODER JUDICIRIOTRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DO RIO DE JANEIROSeo de Degravao, Digitao e Preparo de Notas - SI()

    EXTRATO DE ATA

    AO DE INVESTIGAO JUDICIAL ELEITORAL N 9 18-04.2011.6.19.0000 - CLASSE AI J E

    RELATOR: J UIZ ANTONIO AUGUSTO GASPAR

    AUTOR : MINIST RIO P BLICO ELEITORALINVESTIGADO : ANDREIA CRISTINA MARCELLO BUSATTO (ANDREIA DO

    CHARLINHO), CANDIDATA ELEITA AO CARGO DE DEPUTADOESTADUAL PELO PDT

    INVESTIGADO : CARLO BUSATTO J NIOR ( CHARLINHO), PREFEITO DO MUNIC PIODE ITAGUA

    ADVOGADO : MARCELO FONTES CESAR DE OLIVEIRAADVOGADO : BRUNO CALFATADVOGADO : ADILSON VIEIRA MACABU FILHOADVOGADO : DANIELA DE ASSIS RIBEIRO FIGUEIREDOINVESTIGADO : JORGE LUIS DA SILVA ROCHA (J ORGINHO CHARLINHO),

    VEREADOR DO MUNIC PIO DE ITAGUA ADVOGADO : MARCELO FONTES CESAR DE OLIVEIRAADVOGADO : BRUNO CALFATADVOGADO : ADILSON VIEIRA MACABU FILHOINVESTIGADO : MARCELO DOS SANTOS GODINHO, DIRETOR DO J ORNAL ATUALADVOGADO : ANDRE LUIS REIS DE AMORIMADVOGADO : CESAR DE SOUTO PALMA

    DECISO: POR UNANIMIDADE, REJ EITOU -SE A PRELIMINAR E, NO M RITO,J ULGOU-SE PROCEDENTE O PEDIDO DECLARANDO -SE A INELEGIBILIDADE POR 8 (OITO)ANOS DOS QUATRO INVESTIGADOS, COM FUNDAMENTO NO ART. 22, XIV, DA LEICOMPLEMENTAR 64/90, CASSOU -SE O DIPLOMA DA SRA. ANDREIA CRISTINA MARCELLOBUSATTO E DETERMINOU -SE A EXPEDIO DE OF CIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DOESTADO DO RIO DE JANEIRO, NOS TERMOS DO VOTO DO RELATOR.

    (A PROCURADORA REGIONAL ELEITORAL MNICA CAMPOS DE R USOU DA PALAVRA.)

    (OS ADVOGADOS BRUNO CALFAT E ANDR LUIS REIS DE AMORIM USARAM DA PALAVRA.)

    PRESID NCIA DO DES. LUIZ ZVEITER. PRESENTES OS D ESEMBARGADORES S RGIO LCIODE OLIVEIRA E CRUZ E SERGIO SCHWAITZER, OS JU IZES ANTONIO AUGUSTO DE TOLEDO GASPAR, LuizROBERTO AYOUB E ANA TEREZA BASILIO E O REPRESENTANTE DA PROCURADORIA REGIONAL ELEITORAL.

    SESSO DO DIA 14 DE JULHO DE 2011.

    SENOTA, 14/7/11- AllE 18-04.2011.6.19.0000 \kr`

  • CERTIDO DE ENVIO AO DIRIO DE JUSTIA ELETRNICO

    CERTIFICO que, nesta data, a concluso do Acrdo do processo em refernciafoi enviada ao Dirio da Justia Eletrnico do TRE/RJ para publicao.

    Rio de Janeir 5 de julho de 2011.

    a de Souza Ribeiro

    Chefe a Seo de AcrdosAme a d Souza Ribeiro

    Cheia da Seo de Acrdo.

    CERTIDO DE PUBLICAO

    CERTIFICO que a concluso do Acrdo do processo em referncia foi publicada

    no Dirio da Justia Eletrnico do TRE/RJ ri Q 098, em 18 de julho de 2011, pgs. 06.

    Rio de Janeiro, 18 de julho de 2011.

    a ouza Ribeiro

    Chef da Seo de AcrdosAmlia d Souza Ribeiro

    Chata da Seo de Acrdos

    de Souza Ribeiro

    TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DO RIO DE JANEIROSJD - COSES

    SEO DE ACRDOS

    Ref.: AO DE INVESTIGAO JUDICIAL ELEITORAL N Q 18-04.2011.6.19.0000

    REMESSA

    Nesta data, remeto os presentes autos CORIP.

    Rio de Janeiro, de julho de 2011.

    Chefe a Seo de Acrdos

    AeKe dd Souza Ribeiro:teste da Seo de Acrdo,

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