üências de uma Sociologia Política Brasileira ?· grande proprietário no clã rural , não apenas…

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  • Dados - Revista de Cincias Sociais

    ISSN: 0011-5258

    dados@iesp.uerj.br

    Universidade do Estado do Rio de Janeiro

    Brasil

    Botelho, Andr

    Seqncias de uma Sociologia Poltica Brasileira

    Dados - Revista de Cincias Sociais, vol. 50, nm. 1, 2007, pp. 49-82

    Universidade do Estado do Rio de Janeiro

    Rio de Janeiro, Brasil

    Available in: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=21850103

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  • O que eu esperaria para o Brasil era uma atividadecomplementar desse belo labor dos nossos filsofos

    sociais. Era, aos estudiosos com gosto da investigao, umapelo mais freqente aos mtodos cientficos de pesquisas,

    uma preocupao mais sistemtica pelos problemasobjetivos.

    (Francisco Jos de Oliveira Vianna, 1991)

    De modo geral, a ligao entre o conhecimento cientficoe a filosofia que o sustenta no conta para o especialista

    que perdeu essa memria nos labirintos do treinamento.(Maria Sylvia de Carvalho Franco, 1970)

    O baralhamento entre pblico e privado enquanto ordens sociais eprincpios distintos de orientao das condutas como uma marcada cultura poltica, da sociedade e do Estado formados no Brasil desdea colonizao portuguesa constitui uma das construes intelectuaismais tenazes do seu pensamento social. E tambm uma das principaislinhas que, com continuidades e descontinuidades, o liga produodas cincias sociais posterior institucionalizao, particularmente na

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    Revista Dados 2007 Vol. 50 no 11 Reviso: 26.03.2007 2 Reviso: 04.05.2007 3 Reviso: 20.05.2007Cliente: Iuperj Produo: Textos & Formas

    *A realizao deste estudo contou com o apoio da Fundao Universitria Jos Bonif-cio.

    DADOS Revista de Cincias Sociais, Rio de Janeiro, Vol. 50, no 1, 2007, pp. 49 a 82.

    Seqncias de uma Sociologia Poltica Brasileira*

    Andr Botelho

  • vertente voltada para a investigao das bases sociais da vida polticanacional, suas razes rurais e influncias duradouras sobre o urbanoento emergente1. Populaes Meridionais do Brasil (1920) de OliveiraVianna paradigmtico a esse respeito, na medida em que se mostroucapaz de interpelar, no plano cognitivo, diferentes trabalhos posterio-res, no obstante muitos deles divergirem radicalmente do seu sentidopoltico original interpelao que pode ser identificada tanto no pla-no terico-metodolgico, quanto no substantivo. No primeiro, por-que, traduzindo crtica mais ampla ao status quo da Primeira Repblicasobre a desarticulao entre as instituies liberais transplantadas ea realidade singular brasileira, o ensaio de estria de Oliveira Viannaformaliza a tese segundo a qual na vida social se encontrariam os fun-damentos e a dinmica das instituies polticas. Da, ao lado da con-vico que expressa sobre a necessidade de um conhecimento objeti-vo e cientfico do social (Bastos, 1993; Bresciani, 2005), sua consisten-te, ainda que controversa, defesa da precedncia lgica da sociologiasobre a poltica ou do homo sociologicus sobre o homo politicus (WerneckVianna, 1993:373; Brando, 2001). E, substantivamente, porque suatese sobre a particularidade da relao entre pblico e privado, segun-do a qual a hipertrofia da ordem privada e seu predomnio histricosobre a ordem pblica constituiriam no apenas elementos centrais daformao rural da sociedade brasileira, como tambm representariamimpasses tenazes para sua modernizao, conheceu desdobramentosdistintos na produo intelectual posterior.

    justamente da recepo de idias de Oliveira Vianna na produo dascincias sociais institucionalizadas como cursos universitrios desde adcada de 1930, ou mais precisamente do seu papel na formao docontexto intelectual ou lxico de uma das suas vertentes, que tratao presente artigo2. Populaes Meridionais do Brasil tomado, nesse sen-tido, como ponto de partida da formao de uma agenda de pesquisasque, mais do que simplesmente relacionar poltica e sociedade, ambicio-na especificar as bases sociais e a dinmica social da poltica originadasna formao rural do Brasil, e que justamente por isso aqui nomeadade sociologia poltica3. No obstante recente discusso sobre o papelde Oliveira Vianna como precursor dessa vertente disciplinar (Silva,2002), uma vez que voltada para a questo da formao de uma ideo-logia autoritria de Estado, a sua possvel influncia propriamentecognitiva nas cincias sociais, embora h muito assinalada (Santos,1978), permanecia sem desdobramentos analticos mais consistentes4.Neste artigo, procurar-se- mostrar, em primeiro lugar, que Coronelis-

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    Revista Dados 2007 Vol. 50 no 11 Reviso: 26.03.2007 2 Reviso: 04.05.2007 3 Reviso: 20.05.2007Cliente: Iuperj Produo: Textos & Formas

  • mo, Enxada e Voto, de 1949, de Victor Nunes Leal; Poltica, AscensoSocial e Liderana num Povoado Baiano, de 1962, e O Mandonismo Lo-cal na Vida Poltica Brasileira e Outros Ensaios, de 1976, de Maria IsauraPereira de Queiroz (este ltimo reunindo trabalhos produzidos desdea dcada de 1950); e Homens Livres na Ordem Escravocrata, de 1964, deMaria Sylvia de Carvalho Franco, so paradigmticos a esse respeito;e, em segundo lugar, que, consideradas em conjunto, de uma perspecti-va analtica, estas pesquisas forjam no dilogo empreendido com o en-saio de Oliveira Vianna uma vertente da sociologia poltica brasileira.

    Para efeitos analticos, destaca-se uma das teses principais de Popula-es Meridionais do Brasil nem sempre considerada em primeiro plano,ainda que diferentes aspectos correlatos a ela j tenham sido tratados5.Refere-se configurao particular que a formao da sociedade teriaengendrado dominao poltica no Brasil. Esta seria marcada no di-retamente pelo conflito de classes enraizado na organizao social daproduo, mas antes, e na ausncia dessa forma especfica de solidarie-dade social entre ns, pelo conflito entre pblico e privado6. Em ou-tras palavras, para Oliveira Vianna, a chave para a compreenso socio-lgica da dominao poltica estaria no conflito entre pblico e priva-do enquanto ordens sociais distintas, concorrentes, regidas por princ-pios prprios de orientao das condutas apenas indiretamente associ-ados s relaes econmicas e cujo baralhamento histrico teria con-corrido ainda para conferir um carter direto, pessoalizado e violentos relaes polticas. O fundamento dessa configurao particular dadominao poltica no Brasil, reiterado ao longo da formao da socie-dade, estaria em uma ambigidade histrica que nos singularizaria: osmesmos processos que tornavam as relaes de solidariedade entre aaristocracia senhorial e a plebe rural frgeis, frouxas, instveis, des-necessrias no plano econmico (e secundariamente militar ou religio-so) concorreriam para fortalec-las para efeitos polticos.

    A origem dessa ambigidade da solidariedade social brasileira, ca-bendo ressaltar que, no ensaio, Oliveira Vianna emprega a noo oraem um sentido normativo (capacidade de livre associao), ora em umsentido mais descritivo (formas de identificao e interao intersubje-tivas), estaria nas formas sociais assumidas pela propriedade fundi-ria no Brasil desde a colonizao portuguesa. Sua desmedida amplitu-de, disperso pelo territrio e feio autonmica teriam moldado o la-tifndio como centro de gravitao da sociedade colonial, cuja foracentrpeta teria concorrido, de um lado, para a simplificao da estru-

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  • tura social global da sociedade, dificultando a dinamizao do comr-cio, da indstria, dos ncleos urbanos e seus atores sociais caractersti-cos (especialmente uma classe mdia autnoma e independente, basesocial crucial para o vigor associativo das sociedades anglo-saxnicastomadas como contraponto formao social brasileira); e, de outro,para definir, ao lado da escravido, da amenidade dos climas tropicaise da abundncia de terras privadamente controladas, mas no direta-mente incorporadas produo agrrio-exportadora assegurada pelamo-de-obra cativa, as mesmas qualidades das relaes de solidarie-dade social internamente aos domnios rurais.

    Esses mesmos processos teriam engendrado a organizao dos dife-rentes grupos sociais rurais formalmente livres sob a liderana dogrande proprietrio no cl rural, no apenas unidade da sociedadeque se vinha formando desde a colnia, mas, por isso mesmo, a foramotriz de toda a nossa histria poltica e causa primeira da sua din-mica e evoluo (Vianna, 1973:139). Sem ter quem lhes contestasseefetivamente o poder, os cls rurais abriam espaos no incipiente do-mnio pblico da sociedade brasileira para formular e promover pro-gramas que expressassem seus interesses particulares. Mecanismo de-signado de anarquia branca e que expressa a capacidade de apropri-ao privada das instituies pblicas que acaba por distorcer e lhe re-definir o sentido, demonstrado no ensaio em relao justia, ao recru-tamento militar e s corporaes municipais. Nessas condies, a fra-gilidade e a parcialidade a que as instituies pblicas estavam sujei-tas favoreciam a que os diferentes grupos sociais subalternos se refugi-assem sob o poder tutelar dos cls rurais. E, justamente por isso, ar-gumenta Oliveira Vianna, aquilo que

    [...] nem o meio fsico, nem o meio econmico podem criar de