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Um outro olhar//school textbook

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2009... Academic Work. Amendment of a school textbook in order to adapt it better to their function.

Text of Um outro olhar//school textbook

  • Filo

    sofia

    11.

    Um outro olhar sobre o mundo

    Maria Antnia AbrunhosaMiguel Leito

  • 11.FILOSOFIA

    Um outro olhar sobre o mundo

    Maria Antnia AbrunhosaMiguel Leito

    E D I E S

    A S A

  • Titulo

    um outro olhar sobre o mundo

    Ensino Secundrio

    11. ano vol. I

    Autores

    Maria Antnia Abrunhosa

    Miguel Leito

    Design

    Ana Borges

    Maquetizao

    Ana Borges

    Capa

    Ana Borges

    Produo Grfica

    Impresso em papel reciclado liso 100g/m2 e

    Depsito Legal

    Faculdade de Belas Artes.Universidade de Lisboa

    Prof. Aurelindo Jaime Ceia

    DCII

    2.ano//1.semestre

    Ano.Edio.Tiragem.N exemplares

    2009.1.Edio.1.Tir.1 Ex.

  • captulo 1ARGUMENTAO E FILOSOFIA

  • O mau uso da retrica

    05A MANIPULAO06A SEDUO

    07discurso publicitrio 15discurso poltico

  • Argumentao e Filosofia

    5

    O MAU USO DA RETRICA

    A manipulao

    Quando na argumentao predominam, por exemplo, os elementos

    afectivos, as pessoas so movidas por impulsos irracionais, pelo que,

    por mais eficaz que seja, a persuaso no filosoficamente legtima.

    Falamos neste caso de manipulao(1) ou de mau uso da retrica.

    Sob o ponto de vista filosfico, a manipulao corresponde ao uso

    abusivo da retrica.Previamente munido de ideias que no apresenta

    a discusso, o orador concentra os seus esforos no desenvolvimento

    de tcnicas adequadas sua imposio.

    Fazendo dos seus pontos de vista autnticos dogmas ou verdades in-

    controversas, o orador actua como se a argumentao fosse mono-

    lgica, unilateral, assumindo, previamente, o papel de vencedor e

    atribuindo aos interlocutores o de vencidos. Por conseguinte, entre

    orador e auditrio no se estabelece uma relao entre iguais, mas

    uma relao de domnio. partida, o orador prope-se enganar inten-

    cional e voluntariamente o auditrio.

    A este respeito vamos distinguir o conceito de engano, distinguindo-o

    de outros que correntemente lhe andam associados.

    Erro, Mentira, EnganoEntre errar, mentir e enganar h algo em comum: em todos estes

    casos se fazem afirmaes falsas, isto , no correspondentes quilo

    a que se referem:

    Errar no mentir. Aquele que erra faz uma afirmao falsa, mas est

    convencido de que verdadeira. Pode errar por desconhecimento, por

    incapacidade ou por outro motivo qualquer, mas nunca por m-f.

    Diferentemente, aquele que mente(2) tem conscincia de que aquilo

    que afirma no corresponde ao que na realidade se passa. A mentira

    sempre forjada no interior de um sujeito mal intencionado.

    (1)Manipulao uso indevido da argumentao com o intuito de levar os interlocutores a aderir acrtica e involun-tariamente s propostas do orador.

    (2)Estamos perante uma pessoa men-tirosa quando nela se verificam as seguintes condies:

    1.Conhecer a verdade e saber que o que se est a dizer falso.

    2.Ter a inteno de enganar algum e querer dar a imagem de que uma pessoa credvel.

  • Argumentao e Filosofia

    6

    O engano pressupe a mentira, mas nem toda a mentira engana, di-

    zendo-se mesmo de determinadas pessoas apanhadas a mentir: Aquele

    j no engana ningum. No bastam as intenes do mentiroso para

    que ocorra o engano. Este pressupe que o interlocutor acredite no que

    lhe foi dito, isto , que se deixe enganar. S se fala de engano quando a

    mentira produz no ouvinte as consequncias desejadas: ludibriar, ma-

    nipular, conseguir adeso relativamente a coisa que falsa.

    A propsito de erro, no se pode falar de manipulao. A mentira

    uma tentativa de manipulo. Se ocorre manipulao, fala-se de engano.

    O engano ou manipulao intencional ocorre em muitas situaes na

    vida quotidiana, mas ocupa um lugar privilegiado na rea das tcni-

    cas demaggicas e agressivas de venda e de propaganda eleitoral. No

    primeiro caso, o discurso publicitrio visa influenciar as pessoas,

    induzindo-as ao consumo de produtos. A finalidade a caa ao

    dinheiro dos consumidores. No segundo, o discurso poltico induz

    as pessoas ao consumo de ideologias. A finalidade a caa ao voto

    dos eleitores (cf. grfico ao lado).

    A seduo

    A propsito do mau uso da retrica, ou seja, do recurso a estrat-

    gias que visam influenciar as pessoas com argumentos no racio-

    nais, vamos fazer uma breve referncia ao conceito de seduo,

    fenmeno psicolgico inerente adeso aos discursos publicitrio

    e polticos.Falar de seduo, nestes contextos, pode parecer um

    questionamento da racionalidade dos consumidores, mas a ver-

    dade que o marketing e a publicidade so peritos a construir

    discursos que nos envolvem e embalam, exercendo uma influncia

    sobre ns a que praticamente impossvel resistir.

    Grf.1Podemos observar como estes conceitos esto associados, porm diferem entre si, nomea-damente na sua inteno apriori.

    CONSEQUNCIAS

    NO OUVINTE

  • O discurso publicitrio Qualquer que seja o meio de comunicao veiculador, a publicidade

    serve-se sempre de uma linguagem de seduo(3), isto , formula uma

    promessa endereada ao encantamento e ao prazer dos espectadores.

    Enquanto potenciais consumidores, todos nos consideramos racio-

    nais, e suficientemente dotados de vontade para deliberar e de liber-

    dade para agir. Imaginamos possuir bom senso quanto baste para

    avaliar por ns o mrito daquilo que eventualmente pretendemos

    adquirir. Mas o marketing e a publicidade actuam como se assim no

    fosse. Fazem tbua rasa das convices que temos acerca da nossa racio-

    nalidade e arquitectam discursos que nos dirigem, apelando a domnios

    psicolgicos alheios razo: imaginrio, emoes e inconsciente.

    A seduo consiste, precisamente, neste desvio da deciso da esfera crtica

    da razo para as reas acrticas da afectividade. O resultado final o con-

    sumidor comportar-se de acordo com o previsto pelos peritos: a razo

    posta de lado e age-se apenas movido pelo desejo.

    No se trata propriamente de os anncios possurem capacidades

    hipnticas, mas de tcnicas eficazes no estabelecimento de uma relao

    imaginria e mgica entre o consumidor e o produto anunciado. que a

    aquisio de um produto faz-se no apenas por ele satisfazer necessidades

    bsicas, mas especialmente porque ele apresentado como uma mais-

    valia que vai de encontro aos desejos e valores de cada uma das pessoas.

    A actuao mgica da publicidade aposta na simbologia das coisas, cono-

    tando os produtos que anuncia com valores como: atraco irresistvel,

    perfeio do corpo, juventude, auto-realizao, virilidade, sucesso ime-

    diato, e outros. O segredo mgico da publicidade reside na transformao

    da eventual relao do consumidor com as coisas numa outra relao

    bem mais ampliada e mais forte: a relao entre o consumidor e o valor

    simblico dos objectos. Por isso, ela raramente insiste nas qualidades reais

    do produto, antes o sobrecarrega de virtudes imaginrias para seduzir as

    pessoas e as induzir ao consumo. E as pessoas compram o produto, no

    pelo que ele , mas pelos valores que lhe julgam associados.

    (3)A publicidade talvez uma das linguagens de seduo mais activas e eficazes dos nossos dias. Rendemo-nos a ela mais vezes do que prova-velmente suspeitamos. Ela seduz os nossos sentidos e a nossa mente aca-riciando com as suas mensagens os nossos mais secretos desejos: no ecr da televiso, nas pginas das revis-tas, nos cartazes de rua que revemos a toda a hora, somos ns e os nossos devaneios que vemos espelhados.

    Guedes Pinto in Publicidade:

    um discurso de seduo

    Argumentao e Filosofia

    7

  • A relao entre o consumidor e o valor simblico do produto to

    intensa que as pessoas chegam a ser levadas ao consumo apenas pelo

    valor mgico que lhe atribuem. Deste modo, uma mulher compra

    uma carteira Channel, Louis Vitton ou Furla, no porque necessite dela para transportar os seus objectos pessoais, mas porque ela sinal de

    prestgio, elegncia e elevado estatuto social. Tambm o jovem no

    deseja umas calas simplesmente para se vestir, mas porque sendo

    Armani, Levis, ou Gucci tem a certeza de atrair as atenes e de ser includo no grupo das pessoas de bom gosto (ver fig.1).

    As marcas de renome como a Benetton, Ralph Lauren, Boss, Calvin Klein, Nike, ou Reebock, souberam impor-se como marcas de prestgio, como referncia para os que desejam pertencer a classes de estatuto socio-

    econmico superior. a marca que se pretende adquirir, independente-

    mente do produto a que a etiqueta possa estar afixada. A marca uma

    espcie de assinatura, reveladora da pessoa a quem pertence o produto.

    Da que o marketing aposte numa publicidade de prestgio, centrada

    na criao, promoo e reforo da marca. As pessoas implicadas na

    publicidade insistem muito mais na promoo da marca do que na do

    produto. O que interessa criar um vnculo da pessoa com a marca,

    gerando uma relao de fidelidade (ver fig.2).

    Mais ainda, o processo de seduo atinge tal refinamento que as pessoas

    seduzidas pelo anncio acabam por fru-lo como uma miragem, como um

    paraso hipntico, contentando-se com o prazer provocado pela viso do

    anncio, mesmo que no tenham acesso ao produto anunciado (ver fig.3).

    Veja-se a este propsito, a quantidade de revistas de moda, automveis,

    relgios, casa e decorao a que jovens e adultos acorrem sem que isso sig-

    nifique inteno ou necessidade de comprar os produtos em causa. Trata-se

    de um processo de evaso, arrebatador da pessoa para o mundo do sonho.

    Argumentao e Filosofia

    8

  • Fig.2Publicidade da Louis Vitton, onde o mgico e o imaginrio se sobrepem ao prprio produto.

    Fig.1Nesta publicidade da Hugo Boss, j so-lidificada como marca jovem e de prestgio, refora a sua mensagem recorrendo a uma figura reconhecida, o actor Jonathan Rhys Meyers (Henrique VIII, The Tudors).

    Fig.3Dentro de cada histria existe sem-pre uma bela viagem - frase que serve de mote para esta campanha arrebatadora da Louis Vitton em colaborao com a cineasta Sofia Coppola.

    Fig.4A Guess aposta na seduo, usando o corpo da mulher como objecto de idolotrao.

    Argumentao e Filosofia

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    2

    3

    4

  • O carcter subliminar da mensagemPor detrs do aspecto objectivo e visvel dos anncios esconde-se

    todo um conjunto de ideologias e valores que, de forma camuflada

    e escamoteada, se dirigem ao inconsciente das pessoas, fala-se, a esse

    respeito, de mensagem subliminar(4) (ver fig.4).

    Algumas das situaes em que ocorre a influncia subliminar so as seguintes:

    1.Emissor mascara ou camufla intencionalmente a mensagem.

    2.Receptor encontra-se em estado de grande tenso emocional.

    3.Receptor encontra-se em estado de saturao de informao.

    4.Mensagem no se dirige directamente pessoa, sendo cap-

    tada inadvertida e inconscientemente.

    A estrutura da mensagem o sloganO discurso publicitrio concebido para ser endereado ao logos e ao pathos, ou seja, para fazerem apelo inteligncia e emoo, mas com enorme benefcio para a segunda alternativa. Diramos que a publici-

    dade usa o logos e abusa do pathos. Da que os anncios utilizem muito mais a linguagem icnica do que a verbal.

    As palavras so em pequeno nmero, geralmente organizadas sob a

    forma de um slogan. O slogan uma expresso ou frase curta, muitas

    vezes com rima e ritmada. Soa bem, percepciona-se bem e facil-

    mente memorizvel aps escassas repeties. Imprime-se vivamente

    no sujeito, ganhando fora de prova que dispensa qualquer argumen-

    tao. Tem valor galvanizante e, quando interiorizado pelo grande

    pblico, funciona como uma verdade do senso comum (ver fig.5).

    As palavras so inscritas num cenrio em que as cores, as formas e a

    msica se organizam de modo a dizerem mais do que o mais extenso

    dos discursos, fazendo jus conhecida expresso: uma imagem vale

    mais do que mil palavras. As imagens so de rpida apreenso, de

    fcil compreenso e de leitura agradvel. Com um simples relance de

    olhos ou um simples alerta de ouvidos se vislumbram quadros que

    so um convite e uma promessa.

    A imagem organizada de modo a veicular valores que despoletam as

    (4)Mensagem Subliminar - informa-o propagada por estmulos no per-cepcionados pelo consciente, mas que o inconsciente capta e armazena.

    10

    Argumentao e Filosofia

  • Fig.6Esta campanha da Nespresso, pro-tagonizada pelo actor George Clooney, serve-se da figura deste e de um curto slogan em forma de pergunta, que rapida-mente memorizamos e associamos marca.

    Fig.5Polmica fotografia de Steven Klein para a Dolce&Gabbana, obtendo muitas crticas e objeces, afirmando-se que esta campanha incitava os actos de violncia/violao contra a mulher, assistindo-se subjugao do seu papel face ao domnio dos vrios homens presentes no cenrio.

    Argumentao e Filosofia

    11

    5

    6

  • necessidades latentes dos consumidores. A organizao icnica pro-

    porciona ao receptor individual, pleno de desejos e de sonhos, a

    possibilidade de ter acesso a um cenrio maravilhoso propiciador da

    satisfao dos seus mais recnditos anseios.

    Os crimes da publicidadeNo prprio campo da publicidade, h pessoas a debruarem-se sobre

    este fenmeno, denunciando os aspectos negativos que se escondem

    por detrs da sua magia sedutora. Oliver Toscani, idelogo da publici-

    dade da Benetton, considera a publicidade uma espcie de crime contra a humanidade, pelo que se deveria abrir um processo tipo Julgamento de

    Nuremberga para a julgar e condenar. Os crimes cometidos so:

    Crime da inutilidade social - As grandes empresas, como as de automveis,

    no lanam campanhas contra os perigos do excesso de velocidade ou da

    conduo sob efeitos do lcool. Poderiam, alm disso, ter uma interven-

    o social e educativa em reas problemticas como a toxicodependncia,

    a sida e o racismo, e no o fazem porque lhes falta ousadia e sentido moral.

    Crime da mentira - No vende produtos, nem ideias, mas modelos fal-

    sificados de felicidade, seduzindo as pessoas para estilos de vida que

    exigem a renovao constante de objectos. Promete juventude, viri-

    lidade, sucesso e sade na condio da compra de produtos que s

    muito remotamente realizaro tais objectivos.

    Crime contra a inteligncia - Explora o inconsciente e a emoo do con-sumidor, ignorando a sua inteligncia. Prope ninharias entusiastas

    cada vez mais batidas num universo em crise social e espiritual, como

    se fossem capazes de instaurar de vez o paraso na terra. Por isso,

    j muitas pessoas se assumem como crticos e fogem dos anncios

    como de algo cuja insistncia j incomoda.

    Crime de persuaso oculta - Convencem-nos subliminarmente da possibili-dade de aceder aos encantos de mundos impossveis, quando a realidade

    precisamente o oposto: desemprego, escassez econmica, enfermidades

    fsicas e morais. A publicidade funciona, assim, como uma armadilha.

    Argumentao e Filosofia

    12

  • Crime de adorao de dolos - O culto do sucesso pessoal conduz identificao e imitao dos modelos apresentados. As pessoas so

    levadas desse modo a desejar os produtos que as tornem parecidas

    com os seus heris, sempre belos, virtuosos e bem sucedidos que

    aparecem na publicidade, e especialmente na televiso.

    Crime de excluso e racismo - A publicidade cria um mundo utpico em

    que os actores que o povoam so divindades e astros esculturais, be-

    los, jovens, esbeltos, loiros, excluindo os personagens da vida real em

    que h acidentados, pobres, gordos, entediados, doentes, idosos, re-

    voltados, violentos e estropiados.

    Crime contra a paz civil - Por tanto nos oferecer a felicidade, acaba por engendrar iluses irrealizveis. Da o aparecimento de legies de frus-

    trados, deprimidos, delinquentes e infelizes por no poderem comprar

    o bilhete que d acesso ao Olimpo anunciado.

    Crime contra a linguagem - Para alm das ambiguidades de que vivem

    muitos slogans, a publicidade recorre a palavras ocas, insignificativas,

    que nada dizem para qualificar os produtos que anunciam. Os slo-

    gans so de uma maneira geral pobres, desconexos, repetitivos, imbe-

    cilizantes.

    Crime contra a criatividade - A maior parte dos slogans vivem de meia

    dzia de palavras comuns que so como que uma receita que funciona

    na maioria das vezes. Palavras como experincia, para si, melhor, quali-dade, verdadeiro, mais e muito mais prestam-se a combinaes aleatrias aplicveis ao anncio de qualquer produto.

    Crime de desperdcio de somas colossais - Gastam-se montantes astronmi-

    cos em milhares de quilmetros quadrados de cartazes afixados em

    todo o lado, centenas de milhar de pginas de jornais e revistas im-

    pressas, milhes de horas de mensagens televisivas e radiofnicas. So-

    mos ns, os consumidores, quem financia esse desperdcio porque o

    investimento publicitrio fica includo no preo da mercadoria. Assim,

    a publicidade o primeiro imposto directo.

    Oliver Toscani, A publicidade um cadver que nos sorri (adaptado)

    13

    Argumentao e Filosofia

  • Fig.7/8Nas campanhas publicitrias da Benetton so focalizados, constan-temente, aspectos de impacto social, reflectindo preocupaes da socie-dade contempornea, insurgindo-se temas como: valores sociais/morais; condies econmicas; conflitos raci-ais; pandemias; justia; direitos huma-nos; guerras; questes ambientais...

    Argumentao e Filosofia

    14

  • O discurso poltico

    A poltica desencadeia um conjunto de situaes que conduzem ao

    enraizamento da retrica na vida, na medida em que reflectem as ex-

    pectativas gerias em relao a um mundo que se deseja melhor para

    todos. No centro da vida poltica h um grupo de pessoas que detm

    o poder e que lutam para o conservar. H tambm outro conjunto de

    pessoas que, no tendo esse poder, luta para o conquistar. A chave

    da manuteno ou da tomada do poder reside na capacidade que os

    polticos tm de mostrar que esto em consonncia com a maioria,

    pressentindo as suas aspiraes e propondo-se realizar um programa

    de aco que v de encontro aos seus interesses e objectivos.

    Assim, os polticos apresentam-se generalidade das pessoas como os

    nicos agentes aptos a organizar reformas sociais, de modo a que os

    anseios de todos se possam concretizar (ver fig.7, pg.12).Esta necessi-

    dade de ir de encontro ao grande pblico leva os politicos a desenvolver

    a arte de bem persuadir para bem mobilizar, a lanar mo da retrica,

    conferindo-lhe, por vezes, um uso estratgico que a desqualifica(5) .

    Estas condies configuram a nvel poltico a existncia de assimetrias

    entre polticos e eleitores, as quais contrariam as regras do dilogo

    argumentativo. Fazem-se, deste modo, autnticos atentados tica,

    cujas responsabilidades no podem ser imputadas retrica enquanto

    tcnica persuasiva, mas s qualidades humanas daqueles que a usam

    em favor dos seus interesses.

    O confronto de opinies faz parte integrante do processo argu-

    mentativo, mas os sujeitos que participam na discusso podem

    assumir duas atitudes que se prendem com o mau e o bom uso da

    argumentao. Fala-se de disputa no primeiro caso, de controvrsia,

    no segundo(6). Deste modo, a retrica sai-se mal quando os polti-

    cos, em vez de fazerem do discurso um meio de elucidao, de es-

    clarecimento e de encontro entre as pessoas, fazem dele uma arena

    de combate em que intencionalmente confundem controvrsia ou

    debate com disputa ou polmica.

    (5)A desqualificao da retrica acontece quan-do os oradores ou polticos:1.No olham a meios para fazer acreditar na sua mensagem.2.Ridicularizam e discordam infundada-mente de opinies que receiam ser tanto ou mais credveis que as suas.3.Insistem na optimizao dos seus pontos de vis-ta, silenciando a todo o custo propostas vlidas dos seus adversrios ou interlocutores.

    A desqualificao ainda reforada quando o auditrio ou eleitores:1.Avaliam a qualidade das propostas apenas em funo da cor partidria daqueles que as subscrevem.2.Manifestam ignorncia e impreparao tcnica quanto participao em debates pblicos.3.Se deixam aprisionar pela comodidade fcil de atitudes de passividade e de laxismo.

    (6)Disputa - o objectivo vencer, derrotando o adversrio. Para isso recorre-se a vrios estrata-gemas, nomeadamente ao uso de falcias, que convenam o auditrio do aniquilamento das opinies e dos argumentos do adversrio.

    Controvrsia - o objectivo no vencer, mas con-vencer. O convencimento do auditrio advm do uso legtimo de argumentos racionais, que se limitam a evidenciar a credibilidade, justeza e eficcia da posio defendida. A controvrsia respeita, em tudo, os ditames ticos que presidem retrica branca.

    15

    Argumentao e Filosofia

  • O papel dos media no discurso polticoOs media assumem um papel fundamental no que respeita formao

    da opinio pblica e da conscincia poltica dos cidados. inegvel

    que os media so o veculo mais eficaz no transporte das mensagens emanadas dos polticos at ao grande pblico. Os polticos reconhe-

    cem-no e desenvolvem esforos no sentido de conseguir o mximo

    de tempo de antena na rdio e na televiso e de granjear umas tantas

    colunas de jornais e revistas influentes para serem preenchidas com

    o seu discurso. Mas os media no se limitam a deixar passar o que os polticos querem dizer. Eles no se limitam a serem transmissores

    passivos, incuos, sem qualquer responsabilidade naquilo que dos as-

    suntos polticos chega ao cidado comum. Eles possuem um papel inter-

    ventivo, tornando o discurso jornalstico num discurso poltico, talvez mais

    credvel junto do grande pblico do que as palavras dos polticos (ver fig. 8).

    Os jornalistas tornaram-se, assim, os grandes agentes formadores da con-

    scincia dos eleitores, e os meios de comunicao social ganharam o es-

    tatuto de um quarto poder, um poder com mais fora que o dos polticos,

    que lhe ficam submetidos, na medida em que podem ser feitos ou

    desfeitos por eles. Deste modo, qualquer comentrio, artigo de opinio

    ou editorial pe a n o que pensam os jornalistas acerca dos polticos e

    que pode ser favorvel ou desfavorvel imagem pblica dos mesmos.

    Pensemos tambm numa entrevista. Quem decide quem convidado a

    aparecer e quem no ? Que tempo se d a essa entrevista? Quem faz as

    perguntas? Em que termos so feitas? E com que inteno? Uma simples

    notcia tem poder construtivo ou destrutivo e est nas mos do jornalista es-

    crev-la ou silenci-la. E ao ser escrita, a notcia relata acontecimentos que nem

    sempre ocorrem tal como so apresentados. A viso das pessoas e dos acon-

    tecimentos sempre filtrada pela grelha subjectiva e por vezes tendenciosa da

    pessoa que fabrica a notcia. Quer se trate de crnicas, artigos de opinio, en-

    trevistas, comentrios, editoriais ou simples notcias, a opinio do jornalista

    est sempre por trs, insinuando, seleccionando, omitindo, evidenciando,

    sublinhando, de modo a favorecer ou desfavorecer a figura dos polticos.

    O discurso poltico assemelha-se ao discurso publicitrio, quer na sua

    concepo, quer quanto aos efeitos pretendidos. Em ambos os ca-

    Fig.9Campanha do PS para as Legislativas de 2009, aps quatro anos de governo marcados por polmicas e contestaes civis.

    Fig.10Capa do jornal Expresso.

    Argumentao e Filosofia

    16

  • No so os que procuram a verdade que so pe-rigosos, mas os que acham que a encontraram.

    W. Ritschard

    sos se visa conquistar a adeso do grande pblico, pelo que se

    recorre s tcnicas especializadas da retrica. H, porm, algumas

    diferenas, nomeadamente a apresentao sob a forma verbalizada

    que predomina no discurso poltico.

    Tal como o publicitrio, o discurso poltico promete proporcionar prazer

    aos eleitores, aliciando-os com um conjunto de intenes cuja concretiza-

    o permitir s pessoas viver com mais conforto numa sociedade mais

    saudvel, mais justa, mais segura, mais equilibrada e mais solidria.

    Os polticos sabem exactamente aquilo de que o eleitorado carece, aquilo

    que gosta e os valores que deseja implementados na comunidade. Por isso

    insiste na explorao destes aspectos de modo a que o discurso que

    constri reflicta a vontade de satisfazer aquelas necessidades. Proce-

    dendo assim, a personalidade poltica procura garantir a sua boa imagem

    que ser elevada ao mito de heri. Pai, protector ou salvador, o poltico

    ser o condutor eficiente de todos para um futuro promissor (ver fig.9).

    Fig.11A extraordinria campanha polti-ca do mais recente prmio Nobel da Paz, Barack Obama, 44 presidente dos EUA, transmitiu sempre uma mensagem de mu-dana, progresso e esperana, indo de encontro aos desejos e expectativas da maioria da populao.

    Argumentao e Filosofia

    17

  • Quando se fala de manipulao faz-se sempre uma associao ao uso

    ilegtimo da retrica por parte do manipulador, o qual teve a inteno

    prvia de enganar algum acerca de uma coisa. Esquecemo-nos que,

    quando ocorre um acto de manipulao no existe apenas o manipu-

    lador, mas tambm o manipulado a quem cabe a responsabilidade de

    se ter deixado iludir, seduzir ou enganar.

    Como sabemos, a argumentao exige uma relao simtrica entre os par-

    ticipantes, cabendo ao auditrio um papel activo e no passivo. Qualquer

    membro do auditrio deve suspeitar do que lhe dito, pedir esclarecimen-

    tos, refutar os argumentos do orador, s dando a sua concordncia quando

    livre e racionalmente estiver convencido que os argumentos lha merecem.

    Da a importncia de dominar as tcnicas retricas para se estar habili-

    tado a desmontar o carcter falacioso e desonesto que muitos oradores

    manifestam em vrias situaes argumentativas. Desarmar a astcia do

    adversrio, desmontar-lhe os sofismas e pr a n todas as suas incor-

    reces constitui, j, uma boa forma de utilizar a argumentao.

    Fig.12Ccero denncia Catiline (Cesare Maccari) - fresco que representa o Senado Romano reunido na cria, tendo sido uma das mais relevantes insti-tuies durante a Repblica Romana. Local onde o uso das tcnicas de retrica era uma constante.

    Argumentao e Filosofia

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  • Ana Borges | DCII | FBAUL09

  • E D I E S

    A S A

    Filoso

    fia